(Comentários) Série de TV “José do Egito” (Brasil)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Lançada em 30 de janeiro de 2013, a minissérie “José do Egito”, veiculada pela Rede Record, trata-se de uma adaptação de uma das mais famosas narrativas bíblicas presente no livro dos Gênesis (Antigo Testamento). Eu já tinha comentado ano passado acerca da produção, que na época ainda chamava-se “José: De Escravo a Governador”.

Quando anunciei estar assistindo a “José do Egito” aparentemente foi uma surpresa para algumas pessoas, teve quem, inclusive, se preocupasse em tecer propagandas negativas sobre, mas além de ser uma produção brasileira ela está sendo transmitida em um canal aberto, ou seja, se ela fizesse parte da grade de um canal ao estilo de Arte 1 só estaria disponível para uma pequena parcela privilegiada da população. Porém é em um dos grandes canais formadores de opinião do Brasil e, independente do horário em que está sendo transmitida, é esta série quem está levando imagens – idealizadas, todavia – da antiguidade egípcia para milhares de famílias.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

Considero de grande imaturidade acadêmica ignorar qualquer material, independente dos absurdos que está sendo veiculado, já que a sua análise nos mostra o que está sendo transmitido ao grande público e de que forma isto influi na construção da antiguidade por parte do senso comum. O próprio “José do Egito” nos dá espaço para podemos levantar debates acerca dos discursos Orientalistas presentes na série, desde a roupa dos personagens até sua aparência física e atitudes.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

Nas semanas em que a série começou a ser veiculada li três críticas acerca. A primeira estava associada com a falta de precisão histórica em relação a alguns dos artefatos, especialmente o figurino e no que diz respeito a este último de fato existem grandes erros, com direito a peças que nem sequer existiam na época sugerida e as vestes dos próprios egípcios que na minha visão como arqueóloga é de doer os olhos, mas nada que me faça escrachar a série, que está seguindo erros semelhantes de outros materiais, inclusive os tão aclamados documentários que raramente alguém de digna a criticar. Eu sinceramente gostaria muito que as séries, documentários, livros e filmes fossem perfeitos, mas não são, por isto se consigo assistir “A Múmia” (1932, 1999 e 2001), “O Egípcio” (1954) e “Cleópatra” (1963) porque não posso assistir a uma produção paulatinamente brasileira?

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

A segunda critica é em respeito ao conteúdo religioso que de fato está presente, mas é o natural, afinal, tratasse de uma adaptação de uma narrativa bíblica. Eu não esperaria menos de, por exemplo, uma adaptação do Bhagavad Gītā.

A terceira critica, e que concordo plenamente, é o roteiro. As falas normalmente são extremamente melosas – especialmente as da rainha Tany (Bianca Rinaldi) que beiram a cafonice – e em alguns momentos nada convincentes, é até um desperdício utilizar algumas atrizes e atores tão bons e um recurso visual lindo com um roteiro tão ruim.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

Outro problema, mas desta vez não cheguei a ler nenhum protesto acerca, é em relação aos estereótipos. No capítulo 05 (27/02/2013), episódio em que o personagem principal, o José (Ricky Tavares), foi jogado na caverna por seus irmãos mais velhos e seguidamente vendido como escravo pelos mesmos, miseravelmente retrata um estilo já batido para os mercadores, pertencentes aos ismaelitas, que de acordo com as tradições islâmica e judia são antepassados dos Árabes. Além de retratar roupas que não existiam na época, demonstra uma perspectiva Orientalista, baseando a imagem destes personagens naquele velho estereótipo da aparência e personalidade ditada e reproduzida pelo Ocidente para os árabes, com direito ao lenço enrolado na cabeça, feição e atitudes rudes e a tendência a animalizar a vida alheia [1], como no caso desta série onde o mercador além de negociar humanos, constantemente os humilha com agressões psicológicas e físicas.

Mais um ponto infeliz e ainda com preceitos Orientalistas são as representações das prostitutas ou as “mulheres fáceis”. Elas são mostradas usando roupas que lembram as otomanas as quais algumas foram representadas em pinturas de dançarinas em haréns, com direito a um véu cobrindo o rosto, ao estilo das idealizadas odaliscas. Para variar, também no capitulo 5, durante a cena em que estão trabalhando elas puxam alguns passos que lembram a atual Dança do Ventre, algo que a meu ver pegou muito mal, principalmente porque as dançarinas hoje lutam muito para mostrar que o que elas fazem é uma arte e não uma ferramenta de sedução ou prostituição.

A Dança do Ventre também está “presente” (entre aspas porque deu para reconhecer alguns passos que foram baseados nesta arte) na dança das egípcias. Vale deixar claro que este tipo de bailado não surgiu no Período Faraônico. Isto é mito.

Outra coisa que incomoda muito é a misoginia presente na trama e que se mostra mais fortemente no 26ª capítulo, quando Namar (Camila Rodrigues) é acusada de adultério mesmo sendo viúva e não tendo recebido o terceiro filho de Judá (Vitor Hugo) como esposo, ou quando Zilpa (Andréa Avancini) culpa somente Bila (Carla Cabral), mas não Ruben (Guilherme Winter), pelo adultério. Também quando os filhos de Jacó desmoralizam as mulheres que tenham tido mais de um parceiro sexual. Estes são somente alguns exemplos e será uma pena se a Azenate (Maytê Piragibe) aceitar renegar a sua fé nos deuses egípcios só para atender o gosto religioso de José (Ângelo Paes Leme).

Contexto histórico da série e alguns pontos para a observação:

Arqueologicamente não existem indícios no Egito [2] que comprovem a existência de José. Ele somente faz parte da cultura material advindas dos devotos da Bíblia, o que o caracteriza como um mito. Porém, nos primórdios da Arqueologia no país e até meados do século XX não era incomum a busca por artefatos que comprovassem a existência de José, porém equívocos foram identificados, o que tem dado pouca seriedade aos estudos. Dentre eles jaz a antiga sugestão de que as pirâmides do platô de Giza se tratavam dos celeiros de estocagem de alimentos para os sete anos de seca alertados por José (GRIMAl, 2012), previstos através da interpretação dos sonhos do faraó. O que atualmente sabemos que não corresponde com a realidade.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

Porém para a série foi escolhido um contexto histórico interessante para encaixar o mito de José. Embora no Velho Testamento o faraó não seja nomeado, foi escolhido o faraó Aphopi, que reinou durante a 15ª Dinastia (Segundo Período Intermediário).

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

O que torna o encaixe interessante é que Aphopi viveu durante a época de divisão do país, quando o Egito era governado por dois poderes, estando o povo nativo ao Sul, em Tebas, e os invasores hicsos, o qual Aphopi fazia parte, ao norte, em Aváris. Historicamente esta cidade foi o centro de culto ao deus da desordem Seth e para variar as divindades advindas de populações estrangeiras que se assentavam no Egito eram assimiladas ao deus do caos e chamadas de “Enviadas de Seth”. Dentre algumas destas divindades estavam Baal e Astarte (DAVID, 2011).

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

Tirando o contexto histórico escolhido para integrar a trama o restante é fictício, me vejo na posição de escrever isto porque na página do Arqueologia Egípcia no Facebook ao postar a imagem do funcionário Mitri (que viveu entre a 5ª e 6ª Dinastia) fui questionada se se tratava do escriba de Potifar. Eu nunca imaginei, mas a série está dando uma péssima aula de História Antiga. Porém algumas coisas são relevantes para serem discutidas. Seguem alguns pontos para observações:

– Escravidão: Esta força de trabalho, tal qual a conhecemos, só surge no Egito durante a Era Greco-Romana. Para os períodos anteriores não é correto utilizar desta definição já que toda a população egípcia tinha um débito de trabalho para com o Faraó em que era uma obrigação de todo e qualquer individuo atender estas expectativas e se elas não fossem atendidas existiam castigos corporais. Este era o sistema social do Egito, o que poderia causar estranhamento entre os mercenários estrangeiros.

– Prisão egípcia: Particularmente não consigo lembrar-me de nenhum artigo que tenha mencionado um espaço ou edifício que tenham servido como prisões permanentes, mas algumas pessoas tidas como “não quistas” eram exiladas. Em minha dissertação (2013) comento rapidamente acerca do uso dos oásis como abrigos para pessoas consideradas subversivas.

– Roupas: Na série alguns cortes para roupas utilizadas pelo o lado egípcio da trama não existiram no faraônico. Então o espectador deve manter cuidado em relação a isto.

– Maquiagem: O mesmo vale para a maquiagem da série, especialmente as das mulheres, que foram baseadas na de Elizabeth Taylor no filme “Cleópatra” (1963).

– Perucas: Embora até agora nos capítulos somente as mulheres apareçam usando perucas, os homens também as usavam.

– Casas: Não sabemos bem como eram os interiores das casas, mas em alguns casos elas provavelmente eram coloridas com desenhos, alguns dos quais com motivos da natureza e com colunas. Para a residência dos mais abastados poderiam existir um lago artificial.

– Ruas: É um dos poucos pontos que mais gosto na série. Algumas ruelas lembram muito as reconstituições arqueológicas de Deir el-Medina.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

José do Egito. Rede Record. Imagem Divulgação. 2013.

[2] Só posso comentar acerca da Arqueologia Egípcia, talvez os interessados possam procurar mais acerca na Arqueologia Bíblica.

 

Facebook oficial: https://www.facebook.com/JoseDoEgitoOficial
Site Oficial: http://entretenimento.r7.com/jose-do-egito

 

Referências:

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

GRIMAL, Nicolas. História do Egito Antigo (Tradução Elza Marques Lisboa de Freitas. Revisão Técnica Manoel Barros de Motta). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

[1] HAYDOCK, Nickolas. RISDEN, Edward (Org.). Hollywood in the Holy Land: Essays on Film Depictions of the Crusades and Christian-Muslim Clashes. North Carolina: McFarland & Company. 2009.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]

5 comentários sobre “(Comentários) Série de TV “José do Egito” (Brasil)

  1. Ótimo artigo, adorei. É triste ver uma emissora gastar tanto dinheiro em cenografia e artistas, mas não gastar um “tostão” com algum historiador. As roupas são de matar, faz recuar-me ao filme Cleópatra. Uma dúvida, as perucas não estão lisas de mais, sempre tenho em mente aquela peruca mais frisada e com acessórios.
    Mas adorei, muito bom!!
    Abraços

    • Oi André,
      Sobre as perucas creio que eles ficaram em um terreno mais confortável. Existiam vários modelos, desde as “tripartidas”, as núbias (no entanto estas muito comuns na Era Anarna), algumas cheinhas (lembrando cabelos cacheados, outros bem crespos) e até as lisas (porém mais volumosas).
      Mas uma coisa interessante para se observar são os adornos de pedras ou ouro das perucas. Alguns foram copiados de fato de artefatos.
      Abraços.

  2. Trata-se de uma obra “fictícia” na qual está inserido um personagem bíblico, fictício ou não. Estranha-me as críticas a uma obra genuinamente brasileira, da qual gostei muito, enquanto as hollywoodianas são poupadas, exceto a Cleópatra que a senhora menciona acima. Seria bacana a participação de um historiador, seria, sim, mas a arte não requer cabrestos e não tem compromisso com a sua verdade, nem com a de ninguém.

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