Ser mãe no Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ser mãe durante o Egito Antigo concebia à mulher, a posição de ser a responsável pela perpetuação da sua família e consequentemente a imortalidade da mesma através das gerações. A importância da concepção de uma criança é vista nos principais mitos, especialmente o de Ísis e Osíris, onde a deusa se empenha em engravidar do marido já falecido, para dar uma continuidade à família.

Existiam ainda significados especiais na maternidade e que usualmente era levado para o hábito funerário. Por exemplo, a crença ditava que a criança adquiria os ossos do seu pai e os tecidos moles da mãe, incluindo parte do coração dela (STROUHAL, 2007). Era pensando nisso que um dos trechos do Livro dos Mortos trazia versos voltados diretamente para a figura maternal, tal como o que veremos a seguir:

Meu coração, minha mãe; meu coração, minha mãe!

Meu coração por meio do qual nasci!

Nada surja para opor-se a mim no meu julgamento;

Não haja oposição a mim na presença dos príncipes soberanos;

Não haja separação entre ti e mim na presença do que guarda a balança! (BUDGE,2002, p 215 apud CÉSAR, 2008).

O ato de ser mãe era tratado também como algo sagrado. Muitos dos aspectos desta condição eram retratados em relevos religiosos e até mesmo utilizados em amuletos, a exemplo do ato de amamentar, usualmente visto em imagens funerárias, onde Hathor, como protetora do falecido, o alimenta pelo seio quando ela está em sua forma de vaca, ou Ísis, cuja imagem que a representa dando de mamar a Hórus era utilizada como amuleto de proteção.

Rainha Aqaluqa representada como Ísis amamentando. Imagem disponível em < http://wysinger.homestead.com/nubians5.html >. Acesso em 11 de maio de 2014

Durante o desenvolvimento do feto, os pais poderiam se apegar à deusa hipopótamo Tauret, para ela proteger a vida da mãe e da criança e providenciar um bom nascimento, já que os riscos advindos do parto era um dos principais fatores de mortalidade entre as mulheres (STROUHAL, 2007). Já Hathor, dentre tantas propriedades, era constantemente associada à maternidade – é tanto que nas décadas finais do Novo Império foi sincretizada à Isís, divindade com qualidades semelhantes -. Ela provavelmente foi uma das deusas mais respeitadas neste sentido, tanto em um aspecto político, como religioso. Contudo, era Bastet, a deusa gata, quem zelava pelo o amor familiar, especialmente o maternal. Sua dedicação para com os filhos era tamanha que alguns pesquisadores tendem a associar sua fúria como Sekmet como uma forma de proteger as suas crias contra o mal.

Mulher colhendo figos enquanto cuida de uma criança de colo. Tumba de Montemhet. Luxor. 25ª Dinastia. Fonte da imagem: STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p. 22.

Mas não eram somente deusas que presavam pelo bem estar das crianças e da mãe, Bés, um deus anão, sempre estaria na espreita para afastar espíritos malignos, especialmente durante o sono.

Deus Bes.

Deus Bés.

Tal como hoje, ser mãe não era tarefa fácil. A grande responsabilidade da maternidade chegou até mesmo a ser utilizada nas “Lições de Ani”, em uma tentativa de fazer com que o leitor reflita acerca de suas atitudes:

Quando o momento chegou e tu nasceste, ela aceitou a carga de por o peito em tua boca durante três anos (STROUHAL, 2007, p 23).

E para as mães menos experientes existiam regulamentos escritos denominados “Ensalmos para mães e filhos” que, embora possuam ideias equivocadas e supersticiosas, era uma tentativa de diminuir os anseios das mães, tal qual um manual moderno para conviver com a maternidade, com a diferença que os ensalmos eram repletos de rezas (STROUHAL, 2007). Eis um exemplo do que poderia ser lido:

Sai! Visitante das trevas, que te arrastas com o nariz e rosto atrás da cabeça, sem saber por que estais aqui!

Viestes beijar esta criança? Proíbo-te!

Viestes mimar esta criança? Proíbo-te!

Viestes afastá-la de mim? Proíbo-te! (STROUHAL, 2007, p 24).

Embora o poder centralizado usualmente fosse herdado por homens, tradicionalmente na Egiptologia se argumenta que quem era responsável pela legitimidade real eram as mulheres (DESPLANCQUES, 2011), embora existam debates adversos a esta teoria (COELHO; BALTHAZAR, 2012). Caso tal discurso seja verídico, essa postura provavelmente tinha alguma ligação com o mito de Ísis e Osíris, onde foi a deusa quem articulou a subida ao trono de seu filho, quando ele foi impedido pelo tio assassino.  Em verdade os filhos, mesmo adultos, usualmente eram associados ao nome da mãe (COELHO; BALTHAZAR, 2012).

 

Referências:

CÉSAR, Marina Buffa. Livro dos Mortos, uma discussão acerca do Capítulo 30. Nearco (Rio de Janeiro), v. 1, p. 66-80, 2008.

COELHO, Liliane Cristina; BALTHAZAR, Gregory da Silva. As múltiplas sensibilidades do feminino na literatura egípcia do Reino Novo (c. 1550-1070 a.c.). In: CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG ltda, 2012.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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