O Antigo Egito e os primórdios do cinema

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este texto é uma tradução minha do artigo The sands of time: ancient Egypt and early film (As areias do tempo: o Antigo Egito e os primórdios do cinema) de Bryony Dixon, curador do cinema mudo no British Film Institute. Ele é interessante, dentre tantos motivos, por abordar alguns dos principais aspectos orientalistas que influenciaram na criação e manutenção dos gêneros que utilizavam como ambiente o Antigo Egito tanto na literatura como – e principalmente – no cinema. Vale a pena dar uma conferida, especialmente para entender de onde surgiu alguns dos nossos pensamentos mais cimentados desta antiga civilização:

As areias do tempo: o Antigo Egito e os primórdios do cinema
Bryony Dixon, curador do cinema mudo, British Film Institute

From Cairo to the Pyramids [Do Cairo às Pirâmides] ( Pathé, 1905).

From Cairo to the Pyramids [Do Cairo às Pirâmides] ( Pathé, 1905).

A nova exibição Ancient lives, new discoveries do British Museum usa a mais recente tecnologia de imagem para nos ajudar a entender as realidades da vida e da morte no Egito Antigo. Todos nós já vimos imagens geradas em computador de múmias trazidas à vida no cinema e na TV, por exemplo na franquia de filmes A Múmia que produziu 6 filmes* entre 1998 e 2012. Mas se voltarmos atrás para o século 19 e início do 20, o visitante do museu teria tido semelhante preparação. Quando o cinema surgiu na década de 1890, o público que veio ver a última novidade já tinha familiaridade com imagens do Antigo Egito depois de um século de Egiptomania — a conquista do Egito por Napoleão em 1798, as escavações de alto perfil, dissecação pública de múmias e a divulgação da decifração dos hieróglifos da pedra da Roseta na década de 1820 por Champollion.

Ilustrações das pirâmides e tumbas preencheu a imprensa ilustrada e múmias e outros artefatos expostos em museus significavam que a iconografia do Antigo Egito era instantaneamente reconhecível, justamente como é atualmente. Elementos como palmeiras, esfinges, hieroglifos, flores de lótus, o Olho de Hórus, leques de penas, camelos e rolos de papiros foram infinitamente reciclados para a decoração de interiores, de palcos e sets de filmes. A imagem é muito adaptável e muito redutível. Um simples pano de fundo de areia, uma pirâmide e uma palmeira e você está lá! Na década de 1890, o Antigo Egito era uma fonte de fascínio em todo o mundo ocidental, mas particularmente nos Estados Unidos, que adotou isto para representar uma continuidade entre a antiga civilização e o estado emergente com uma superpotência: Egito era preferível à iconografia da Antiga Grécia e Roma, uma vez que nitidamente contornou o legado das posteriores civilizações da Europa; os EUA desejaram qualquer coisa nova e desconhecida e assim o Antigo Egito um pouco ironicamente começa a ser associado com a modernidade. A Western Electric Company construiu uma fachada de templo egípcio, completo com incandescentes luzes elétricas na Chicago World’s Fair (Feira Mundial de Chicago) de 1893, completo com troca de telefone operado por empregadas domésticas egípcias seminuas e um grupo de homens do mesmo período implantando linhas telefônicas. Os antigos egípcios teriam sido abençoados (ou amaldiçoados) com o poder da jornada pelo tempo por cetenas de anos. Na Inglaterra, a conexão entre Antigo Egito e antigos filmes está bem encapsulada no fato de que o primeiro edifício na Inglaterra a ser influenciado pelo estilo egípcio — o legendário Egyptian Hall (“Salão Egípcio”) em Piccadilly (finalizado em 1812, demolido em 1905) — foi o espaço de apresentações públicas da maioria dos antigos filmes.

The Haunted Curiosity Shop [A loja de curiosidades assombrada ] (R.W. Paul, 1901)

The Haunted Curiosity Shop [A loja de curiosidades assombrada ] (R.W. Paul, 1901)

The Haunted Curiosity Shop [A loja de curiosidades assombrada ] (R.W. Paul, 1901)

Não somente como um esquema decorativo, o Antigo Egito é repleto de histórias com grande potencial para a literatura e a tela: Histórias bíblicas sobre faraós e o Êxodo, mas particularmente o poder de rainhas, tal como a figura de Cleópatra incorporando o exótico, o erótico e um certo nível de nudez permitida. Outras narrativas teve um elemento de horror: talentosos arquitetos (tal como Imhotep) que acabam emparedados dentro de tumbas, reis excessivamente poderosos, escravos, a obsessão com a morte e o além-vida (reservado para poderosos), mumificação e reencarnação. Um tema recorrente é o da mágica e transformação — múmias retornam à vida e se transformam em outras coisas, escaravelhos e joias de princesas egípcias são amaldiçoadas e mudam as pessoas ou controlam as pessoas ao longo do tempo. A propriedade única do cinema é a habilidade de mostrar essas transformações e visualizar histórias de civilizações passadas como se elas estivessem realmente acontecendo.

O Antigo Egito foi descoberto através dos seus remanescentes arqueológicos, é por isto que as histórias que temos são muito focadas na arquitetura e particularmente na arquitetura da morte, que se presta bem a adaptações para o cinema. A habilidade dos filmes de reavivar cenas perdidas no tempo, tanto no passado e futuro, pode repovoar um ambiente que está geralmente falando de dessecações. O Antigo Egito é a maior civilização que o homem do século 19 poderia voltar em termos históricos — o ponto onde a história conhece o mito. O romance sombrio destas frias areias do tempo — em que a pegada de um homem deixa uma impressão que é instantaneamente destruída pelo vento — emprestou umas gravitas às histórias que poderiam ser exploradas pela cultura popular, incluindo cinema ecoando os próprios faraós, que sem a história linear de sua civilização, apenas uma sucessão continua de histórias repetidas, cada rei tentando destruir o passado do seu antecessor imediato. Apenas com um esforço supremo de um excessivamente poderoso governante com milhares de escravos poderiam causar alguma impressão permanente na paisagem a ser construída.

Estátua de Ramsés II, o “Jovem Memnon”. A cabeça inspirou o poeta Percy Bysshe Shelley a escrever Ozymandias: … Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos! Nada resta: ao redor à decadência Destas ruínas colossais, sem limites e vazias As areias solitárias e planas estendem-se à distância.

Esta grandeza e melancolia sobre o Egito que nós encontramos no Ozymandias de Shelley empresta um gravitas para filmes locados no Egito, como ele desempenha a longo prazo nossa preocupação com nossas origens, o ressurgir e a queda das civilizações e o medo de que tudo o que nos são caros um dia será poeira. Esta qualidade épica é provavelmente apenas igualada por histórias ambientadas num futuro distante, no espaço.

A razão para que Antigo Egito seja infinitamente reciclado através do cinema, a partir desses antigos exemplos, é que ele desempenha a favor dos pontos fortes do cinema em si; a condução próxima da paisagem real vista em viagens e relatórios noticiando e o maior truque de mágica do cinema, tornando reconhecíveis as histórias familiares através da iconografia instantaneamente e a visualização do passado romantizado.

Texto original:
The sands of time: ancient Egypt and early film. Disponível em < http://blog.britishmuseum.org/2014/06/23/the-sands-of-time-ancient-egypt-and-early-film/ >. Acesso em 25 de junho de 2014.

*Acredito que o autor cometeu um engano, acho que neste período especifico foram somente 3 filmes.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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