Câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon ou uma forma de chamar a atenção dos turistas para o Egito?

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

O Discovery News, site vinculado ao Discovery Channel, fez uma lista das descobertas arqueológicas mais esperadas de 2016. Dentre as pesquisas pontuadas está a espera para saber se existem câmaras secretas na KV-62, ou seja, na tumba de Tutankhamon, localizada no Vale dos Reis.

Tutankhamon na KV-62. Foto: Factum Arte.

Parece até tópico de alguma produção cinematográfica de mistério, mas a existência de câmaras secretas — que explico de antemão que não tem nada a ver com armadilhas, portas automáticas, etc — em tumbas de nobres e da realeza egípcia não é nenhuma novidade. Bons exemplos podem ser encontrados nas sepulturas de Amenhotep II (KV-35), Tutmés IV (KV-43), Amenhotep III (WV-22) e Horemheb (KV-57), que guardam saletas outrora secretas onde foram escondidos corpos de membros da família real cuja tumba original foi saqueada.

— Leia mais em “Dossiê: Bastidores da procura por câmaras escondidas na tumba de Tutankhamon”.

Porém o caso da tumba de Tutankhamon seria diferente. Se a proposta estiver correta ele não teria sido sepultado em uma câmara lateral secreta, mas no início de uma tumba. Algo difícil de acreditar, mas em termos de Arqueologia muita coisa pode surpreender. Foi pensando assim que o Ministro das Antiguidades, Mamdouh al-Damaty, convidou o autor da teoria, o egiptólogo inglês Nicolas Reeves, a testar sua hipótese na própria KV-62, a qual o inglês crê que em verdade pertenceria à rainha Nefertiti.

Assim, foram realizadas em setembro de 2015 avaliações não invasivas (sem perfurações, raspagens, etc) na sepultura e durante a análise dos dados coletados foi anunciado que tinha uma chance de 70% de existir câmaras secretas na tumba. Porém, como os resultados coletados não eram conclusivos, o Ministério das Antiguidades anunciou que uma equipe japonesa também analisaria o local.

Dois meses depois, na manhã do dia 28 de novembro de 2015, foi anunciado o resultado da varredura com o radar dos japoneses: o exame preliminar dos dados forneceu evidências de que existem espaços ocos atrás de duas das paredes da câmara funerária. “Obviamente é uma entrada para alguma coisa”, disse o pesquisador Hirokatsu Watanabe, responsável pela equipe asiática. Na ocasião ele manipulava o radar em frente ao Ministro das Antiguidades, do Ministro do Turismo Hesham Zazou, oficiais, alguns repórteres e do próprio Nicolas Reeves. “É muito óbvio que isso é alguma coisa. É muito profundo”[1].

Entrada da KV-62 na época da sua descoberta. Foto: Harry Burton.

Após esta revelação, Mamdouh al-Damaty deu algumas declarações para a imprensa. “Temos algo aqui” [2], assegurou o ministro ao jornal ABC Cultura, indicando que existe uma certeza de 90% de que tem um espaço vazio atrás da parede norte e oeste da câmara funerária da KV-62. Contudo, sobre a sugestão de que seja o sepultamento de Nefertiti ele discorda e salienta que “sendo ou não Nefertiti, o descobrimento de uma câmara reescreveria a história da tumba de Tutankhamon”[2].

Howard Carter e o seu patrocinador, Lord Carnarvon.

“De uma perspectiva turística, este achado está rivalizando com a original redescoberta do túmulo por Howard Carter”, disse Hesham Zazou para a National Geographic [1]. Desde a revolução de 2011 o turismo do Egito, um dos maiores suportes econômicos do país, sofreu declínio. Os pesquisadores e o Ministro do Turismo acreditam que esta pesquisa poderá reviver o fascínio das pessoas pela terra dos faraós.

Isso levanta a dúvida de que se este não é um caso clássico de fazer uso da febre do público não acadêmico por Tutankhamon em prol da economia do país. A desconfiança em relação a ética nesta pesquisa é forte, especialmente quando é rememorado que ao longo dos anos documentaristas e revistas lucraram com as numerosas propostas de “causas de morte” do faraó.

— Saiba mais assistindo “#TutEOValeDosReis: Como o faraó Tutankhamon morreu?”.

A dúvida aqui não é em relação a veracidade dos dados coletados, mas das intenções dos pesquisadores envolvidos. Primeiro do Reeves em associar forçosamente a tumba com Nefertiti e segundo do Ministério das Antiguidades ao noticiar cada um dos passos imediatamente para a imprensa, correndo o risco de encher o público acadêmico e não acadêmico com esperanças que podem ser equivocadas; O que está atrás das paredes pode ir desde um anexo com artefatos fúnebres, uma câmara funerária intacta, uma simples câmara vazia ou mesmo uma fenda, tão comum no Vale dos Reis.

Planta da KV-62. Imagem: Theban Mapping Project.

Mesmo quando foram realizados os exames de DNA e a tomografia do corpo do rei existiu um tempo longo entre a coleta de dados, a analise, a conclusão e a conseguinte disponibilização dos resultados. Em verdade em todas as pesquisas realizadas no Egito, seus resultados só são liberados para o público após um considerável período, para que equívocos não sejam criados. Entretanto, neste caso das possíveis câmaras ocultas está evidente que o Ministério das Antiguidades resolveu ir por outro caminho.

Zahi Hawass:

Zahi Hawas, antigo Ministro das Antiguidades, é um dos que olham para esta pesquisa e o posicionamento do britânico Nicolas Reeves, com desconfiança. Para ele, Reeves está vendendo uma ilusão para o Egito e que foi muito conveniente escolher justamente o nome de Nefertiti para associar com estas supostas câmaras. Abaixo suas palavras para o jornal ABC Cultura:

“Este mesmo radar foi usado por Reeves em 2006, e Reeves publicou que encontrou uma tumba no Vale dos Reis e a chamou de KV-63. Eu escavei nessa zona e resultou que somente se tratava de uma fenda na montanha, não uma câmara. O especialista do radar japonês (Watanabe) trabalha para ele, por isso dirá o que Reeves disser. Não creio que haja nenhuma tumba, talvez um quarto fechado e vazio, ou poderia ser somente um buraco, mas não há forma de prová-lo, porque destruiria a tumba. Reeves tem vendido ar ao Egito, porque não há forma de comprovar se o que existe por detrás da parede é um buraco ou de fato uma câmara. Simplesmente, tem sido muito inteligente decidir que é Nefertiti” [3].

A tumba de Tutankhamon foi encontrada em 1922 pelo arqueólogo britânico Howard Carter e dela foram catalogados mais de 5.000 artefatos, a maioria em ótimo estado de conservação, apesar de possuir mais de três milênios.

Fontes:

Top Archaeological Finds Expected in 2016. Disponível em < http://news.discovery.com/history/archaeology/top-archaeological-finds-expected-in-2016-160113.htm >. Acesso em 16 de janeiro de 2016.

[1] Will a New Bout of King Tut Fever Bring Visitors Back to Egypt?. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/2015/10/151002-tutankhamun-valley-of-the-kings-nefertiti-hidden-burial-rooms-archaeology-howard-carter-nicholas-reeves/ >. Acesso em 28 de novembro de 2015.

[2] Mamdouh El Damaty: «Sea o no Nefertiti, se reescribirá la historia de la tumba de Tutankamón». Disponível em < http://www.abc.es/cultura/arte/abci-mamdouh-damaty-o-no-nefertiti-reescribira-historia-tumba-tutankamon-201512261310_noticia.html >. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

[3] Zahi Hawass: «No creo que haya otra tumba junto a la de Tutankamón, tal vez solo una habitación». Disponível em < http://www.abc.es/cultura/abci-zahi-hawass-no-creo-haya-otra-tumba-junto-tutankamon-solo-habitacion-201512101403_noticia.html >. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

Egipto, seguro al 90% de que existe una habitación secreta en la tumba de Tutankamón. Disponível em < http://www.abc.es/cultura/arte/abci-egipto-seguro-90-por-ciento-existe-habitacion-secreta-tumba-tutankamon-201511281331_noticia.html>. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

AGORA NA ARQUEOLOGIA EGÍPCIA: Segundo radar sugere existência de câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon. Disponível em <  https://www.facebook.com/marciajamille.arqueologiaegipcia/photos/pb.150542331413.-2207520000.1453155127./10153860842801414/?type=3&theater>. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

Hallan indicios serios de cámaras ocultas en la tumba de Tutankhamón. Disponível em <  http://www.nationalgeographic.com.es/articulo/historia/actualidad/10937/hallan_indicios_serios_camaras_ocultas_tumba_tutankhamon.html>. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

Egyptian expert disputes new theory that Queen Nefertiti is in Tutankhamun’s tomb. Disponível em <  http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/egypt/12067553/Egyptian-expert-disputes-new-theory-that-Queen-Nefertiti-is-in-Tutankhamuns-tomb.html >. Acesso em 18 de janeiro de 2016.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]