A “Lei da Frontalidade”: entendendo as pinturas egípcias

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Quando se pensa na antiguidade egípcia é comum lembrar de imagens tais quais as pirâmides, múmias e claro, das pinturas parietais. Para quem não está acostumado, as pinturas egípcias poderão despertar um certo estranhamento e até desconforto, porém, está reservado a elas igualmente muita admiração.

Embora popularizada na atualidade graças a cultura popular — principalmente devido a Egiptomania —, é um grande fato que a arte egípcia é composta, em sua maioria esmagadora, de artistas anônimos (BRANCAGLION Jr., 2001). Não conhecemos muitos nomes responsáveis pelas belas peças que hoje encontram-se em museus ao redor do mundo e os poucos que temos ciência não foram por assinar suas obras (o que não era uma prática), mas porque seus nomes foram descobertos acidentalmente em seus ateliês, durante escavações arqueológicas.

As pinturas parietais — tema desse post — possuíram um importante papel para essa civilização que se desenvolveu às margens do Nilo. Elas foram utilizadas como uma forma de comunicação e até uma maneira de auxiliar ou garantir que os falecidos alcançassem seus desejos ou sonhos no além-vida.

Exemplo de ilustração egípcia. Imagem disponível em EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009. p. 94.

Embora pareça bastante complexa, a pintura egípcia costumava seguir alguns padrões como, por exemplo, a cor de pele poder variar de acordo com o gênero da pessoa (homens com um tom avermelhado, quase cobre e mulheres com um tom amarelado) e os indivíduos de classes mais altas ou considerados como o mais importante na cena representados maiores (HAGEN et al, 1999; GOMBRICH, 2008).

Outro padrão tem a ver com a tradição de registrar uma pessoa ou divindade de lado, em uma postura bastante rígida. Na arqueologia egípcia não existe um termo especifico para este tipo de retrato, mas nos estudos de arte convencionou-se a chamar esse tipo de representação como “Lei da Frontalidade”. Nela os personagens são mostrados com a cabeça, os braços e pernas de perfil (1), mas, com os olhos, os ombros e tronco de frente (2), criando assim uma combinação de a visão frontal e a lateral (CASSON, 1983; HAGEN et al, 1999).

Imagem disponível em CASSON, Lionel. O Antigo Egito. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.

Os motivos para esse tipo de reprodução são desconhecidos. Alguns já sugeriram que poderia ser uma ausência de perícia dos antigos artistas, outros que seria uma tentativa de passar uma mensagem de onipotência e existe os que a defendem como possuidora de um arranjo excepcional (CASSON, 1983; BRANCAGLION Jr., 2001; GOMBRICH, 2008). Me utilizo aqui das palavras de Gombrich:

Vale a pena pegar um lápis e tentar reproduzir um desses desenhos egípcios “primitivos”. Nossas tentativas vão sempre parecer inábeis, assimétricas e deformadas. Pelo menos, as minhas parecem. Pois o sentido egípcio de ordem em todos os detalhes é tão poderoso que qualquer variação, por mínima que seja, parece desorganizar inteiramente o conjunto (GOMBRICH, 2008, p. 64).

Como eram feitas:

O trabalho era efetuado por um grupo de desenhistas (sesh[1], em egípcio antigo) ou os “desenhistas escultores” (sesh kedut) e cada um ficava responsável em efetuar uma determinada tarefa (STROUHAL, 2007):

Ilustração: Lloyd K. Townsend.

(1) A parede era nivelada e usualmente coberta por uma camada de estuque, que era polida (STROUHAL, 2007);

(2) Então um quadriculado era pintado, para dar apoio ao futuro desenho. Essa técnica permitia que o desenhista se guiasse e pudesse transmitir a ilustração, que provavelmente já estava feita em uma superfície menor (um pedaço de pedra ou uma madeira coberta de estuque), para a parede (HAGEN et al, 1999; STROUHAL, 2007; GOMBRICH, 2008);

(3) Alguns remanescentes arqueológicos nos sugerem que um rabisco era feito primeiro e depois era corrigido por um desenhista mais experiente (STROUHAL, 2007);

(4) As cores eram obtidas de minerais tais como ocre ou sulfato de arsênico (para o amarelo-claro), malaquita e cal (para verde), carvão (para preto), óxido de ferro ou hematita (para vermelho), silicato de cobre ou sais de cobalto (para azul); esses materiais eram misturados com clara de ovo ou cera de abelha para criar uma consistência pastosa (CASSON, 1983; STROUHAL, 2007).

Parede da tumba do faraó Horemheb. Foto: Kodansha Ltd. Imagem disponível em STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p. 164.

Como em qualquer sociedade, naturalmente o Egito Antigo possuía as suas exceções. Nem todas as mulheres eram representadas mais claras que os homens, assim como nem todas as imagens eram representadas de perfil. Ademais, os estilos de pinturas variaram com o tempo. Em dados períodos será possível encontrar representações mais naturalistas, em outros com um caráter mais relaxado, sem a rigidez que o cânone artístico comumente empregava. É necessário que os estudantes estejam cientes da variedade da arte egípcia e seus autores, apesar do que a tradição artística pode sugerir, a exemplo da própria “Lei da Frontalidade”.

Musicistas e dançarinas trabalhando em uma festa. Autor da foto: desconhecido.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Em uma delas são retratados personagens realizando a atividade descrita aqui: a pintura em parede.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Referências bibliográficas:

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

CASSON, Lionel. O Antigo Egito. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.

GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 2008.

HAGEN, Rainer; MARIE, Rose. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.


[1] Sesh também significa “escriba”.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]