A Múmia (2017): poder antigo e a sexualização de um monstro (Comentários com SPOILER)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este é o primeiro filme da Dark Universe, da Universal Studios, que nada mais é que uma franquia de filmes inspirados nos Monstros Clássicos da própria Universal e que incluem “A Múmia”, Drácula, Lobisomem e etc. “A Múmia”, por exemplo, teve o seu primeiro filme em 1932, e que foi a base para os demais onde estão inclusos os grandes sucessos “A Múmia” (1999) e “O Retorno da Múmia” (2001). Ambos estrelando Brendan Fraser.

Todos os “A Múmia” se aproveitaram da ideia de um arqueólogo ou egiptólogo que em busca de conhecimentos acaba despertando um mal antigo. Porém, aqui não existe tempo para acadêmicos: a nossa nova múmia não é desperta por meio de encantamentos lidos por um profissional, mas por um soldado, o Nick Morton (Tom Cruise), que faz bico como contrabandista e que de modo pouco sutil retira o ataúde — ou melhor: a prisão — de uma princesa egípcia maligna, a Ahmanet (Sofia Boutella), de um poço de mercúrio.

A história do nosso novo monstro é simples: Ahmanet era a herdeira do trono do Egito, mas com o nascimento de um menino vê seu futuro como faraó arruinado. Então, ela toma como única solução fazer um pacto com o deus Set (Seth) pedindo por poder e assassina a sua própria família, inclusive o recém-nascido. No entanto, para que o pacto seja válido, ela ainda precisa entregar um homem em sacrifício, que deve ser morto com a Adaga de Set[1], para que ele receba o poder do deus. É aí que tudo dá errado: Na fase final do ritual a princesa é impedida por guardas, o rapaz escolhido para o sacrifício executado e ela sepultada viva.

Ahmanet. Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

A personagem da Ahmanet despertou a curiosidade de uma parcela do público, que ficou ansiosa em saber se ela de fato existiu. A resposta é curta e simples: não. Entretanto, o seu nome parece ser inspirado no da deusa Amonet, a contraparte feminina do deus Amon.

 

Os equívocos:

E como era de se esperar, uma série de equívocos foram realizados, como a afirmação de que o mercúrio era utilizado pelos antigos egípcios para afastar os “maus espíritos” — isso é irreal [2]— ou que o deus Set é a divindade da morte; em verdade era do caos e do deserto. E ao contrário dos demais filmes que fizeram algum esforço para se inspirar em artefatos egípcios, aqui inspiração é a mínima possível. A Egiptomania ganha destaque e a Egiptologia é pouco levada a sério.

A Arqueologia também não tem muito espaço: o filme é aberto com uma imagem que está cada vez mais comum, que é a de radicais destruindo artefatos arqueológicos. Neste sentido a arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallace) era quem supostamente deveria catalogar estes objetos e salvar o que pudesse para manter ao menos algum registro histórico. Contudo, ela só tem olhos para o sarcófago de Ahmanet — o que perpetua a ideia de que o profissional arqueólogo está sempre em busca de coisas particulares que são, em poucas palavras, “a pesquisa da sua vida” — e ainda o transporta da forma mais questionável possível, com o uso de cabos e um helicóptero.

As roupas, penteados e maquiagem têm um apelo estético levemente voltado para a antiguidade egípcia. Nós entendemos que o Egito Antigo está ali, mas ele foi modificado para hora parecer visualmente mais agradável ao espectador (como é o caso da maquiagem da princesa que apesar de linda seu design só tenta se associar a antiguidade egípcia), hora para parecer grotesco (como as cabeças com um toucado nemes[3] que estão no topo da prisão de Ahmanet).

Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

Foto de bastidor: Divulgação.

Os acertos:

Apesar de terem errado ao classificar Set como deus da morte, acertaram ao associar o poder de Ahmanet com pragas, a exemplo do bando de aves que atacam o avião ou os ratos em Londres da alucinação do Nick.

Personagens Jenny e Nick. Foto: Divulgação.

Figura feminina egípcia com marcas que provavelmente são tatuagens. Museu do Louvre.

Já quando Ahmanet recebe o poder de Set tatuagens passam a cobrir o seu corpo. Em entrevista um dos membros da equipe de gravação afirmou que isso era para dar um ar mais bizarro para a personagem, mas, tatuagens muito parecidas eram utilizadas por mulheres na antiguidade egípcia. Existem registros arqueológicos que retratam corpos femininos com pontinhos espalhados pelo corpo, figuras geométricas, imagens de deuses ou formas amuléticas. Tatuagens no Egito Antigo é um tema um pouco nebuloso, mas, caso queira saber mais sobre este assunto assista ao vídeo “Tatuagens no Egito Antigo” clicando aqui.

Outro ponto são os cruzados possuírem um artefato egípcio. O Egito era um ponto estratégico para o domínio do Levante, então é plausível que esses soldados carregassem consigo algo do país.

E por fim existem casos de mulheres ter o poder supremo do Egito, no vídeo Mulheres Faraós comento brevemente sobre elas. Se a personagem Ahmanet não fosse inclinada para o mal ela provavelmente teria tornando-se regente do irmão e se tivesse uma boa rede política assumiria como faraó tendo o seu irmão como herdeiro. Foi esse o caso da Hatshepsut, a diferença é que o seu herdeiro foi o seu enteado, Tutmés III.

 

Referências aos demais filmes:

A Múmia é uma franquia com quase 100 anos com um filme inspirando ou alimentando os outros. Neste de 2017 as maiores inspirações vieram dos de 1999 e 2001. Desta forma, fiquem de olho nas cenas de luta, porque ao menos duas delas foram inspiradas nas desses dois títulos. Prestem também atenção no som emitido pelas múmias, são os mesmos das que aparecem nesses dois filmes. O rosto do monstro na tempestade de areia foi novamente utilizado e os famosos escaravelhos carnívoros foram substituídos por aranhas-camelos venenosas. Mas, a melhor referência, sem dúvida, foi o aparecimento do Livro de Ouro de Amon-rá.

O Livro de Ouro de Amon-Rá no filme de 1999. Captura.

Ser sepultada viva é um ingrediente presente em todos os outros filmes. A única diferença, como já foi citado, foi ela não ser despertada por meio de encantamentos.

Ser sepultado vivo faz parte de todas as tramas do monstro “A Múmia” da Universal.

A tempestade de areia: uma das referências a outros dois títulos da franquia.

Um monstro mulher foi o grande trunfo, mas sua sexualização o desvinculou do restante da franquia. Enquanto tínhamos um Imhotep ou um Kheris com o objetivo de despertar a amada, Ahmanet vê em seu “escolhido” a chave para o poder com um discurso sexual nas entrelinhas. Mas, isso não para aí: enquanto que o Imhotep de 1999 e 2001 suga a vida das suas vítimas pelo ar a Ahmanet se utiliza do beijo. Isso nos remonta ao texto de Craig Barker, Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies — que foi traduzido aqui no A.E. — onde ele faz a seguinte pontuação:

Um número de estudiosos, especialmente Jasmine Day, têm investigado o papel das múmias na ficção do século XIX e um aspecto interessante é o número de escritoras femininas desses contos.

Uma das, se não a mais antiga, história de múmia é The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) de Jane Webb (Loudon), que mostra o avivamento de Quéops no ano 2126. Outras escritoras apresentaram um interessante subtexto e perspectiva.

Os túmulos de múmias egípcias da realeza haviam sido violados e explorados por saqueadores, e uma analogia com o estupro é clara dentre as antigas ficções de maldição de múmias escritas por mulheres. Em contraste, escritores masculinos, como o Gautier, apresentavam muitas visões mais romantizadas ou eróticas dos mortos.

E de fato. “A Múmia” passou pelas mãos de quatro roteiristas, todos homens: Jon Spaihts, Christopher McQuarrie, David Koepp e Dylan Kussman.

Ahmanet e o seu “escolhido”.

O futuro da Dark Universe e de “A Múmia”:

O futuro para a franquia parece incerto, ao menos para alguns veículos de imprensa que apontam o “fracasso” e o prejuízo financeiro gerado pela bilheteria baixa. O objetivo do A.E. é falar principalmente da Arqueologia, Egiptologia e o uso do Egito Antigo em obras de ficção e não de questões que envolvam roteiro, efeitos especiais, etc. Entretanto, observando com um olhar mais crítico, não é difícil notar as grandes falhas de “A Múmia” em parte do seu roteiro e construção de alguns dos seus personagens. Especialmente como fã da franquia este é um filme divertido, mas com problemas que podem comprometer suas futuras continuações… Se existirem.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

 


Notas:

[1] A Adaga de Set é um artefato plenamente fictício inventado unicamente para o enredo do filme.

[2] Para quem tem curiosidade: existe um pequeno verbete sobre o raro uso de mercúrio no Egito no livro “Ancient Egyptian Materials and Technology” editado por Paul T. Nicholson e Ian Shaw (Cambridge University Press).

[3] Nemes: toucado listrado representado na cabeça de faraós.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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