A controvérsia diante do anúncio da descoberta de “espaços vazios” na Grande Pirâmide

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

No último dia 02/11 a Nature publicou uma matéria anunciando que físicos descobriram um espaço vazio dentro da Grande Pirâmide de Gizé, a última das 7 Maravilhas do Mundo Antigo de pé. De acordo com a matéria, esse espaço foi encontrado através da detecção de múons (MARCHANT, 2017).

Imagem 01: Pirâmide de Khufu. Foto: Nina Aldin Thune via Wikimedia Commons.

A Grande Pirâmide foi o túmulo do faraó Khufu (Queóps), que reinou durante a IV Dinastia (há cerca de 4500 anos) e foi feita com pedra calcária e granito. Em seu interior foram encontradas câmaras, que foram descobertas, na contemporaneidade, no século 19. Elas compreendem a “Câmara da Rainha” e a “Câmara do Rei” que fica abaixo de uma série de saletas chamadas de “câmaras de descarga” ou “câmaras de alívio”, feitas justamente para aliviar o peso da construção (Imagem 02).

Imagem 02: Planta lateral da Grande Pirâmide (Khufu). Foto: DODSON, Aidan. As Pirâmides do Antigo Império (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007. pág. 78.

Não se sabe exatamente como esta estrutura de 138 ou 139 metros foi construída, mas indícios arqueológicos, inclusive um papiro encontrado em 2013 e exposto no Museu Egípcio do Cairo, dão algumas dicas.

— Saiba mais: Foi descoberta documentação que comenta construção da Grande Pirâmide

A pesquisa que encontrou esse espaço vazio foi realizada pelo Scan Pyramids Mission, um grupo de cooperação Internacional que entrou em ação no Egito no final de 2015.

— Saiba mais: Conheça a “Scan Pyramids Mission”

Em outra ocasião foi comentada aqui no AE que anomalias já tinham sido identificadas na Grande Pirâmide. Mas, que talvez não fosse uma nova câmara, como muitos gostariam, podendo ser uma rampa ou uma grande rachadura, na pior das hipóteses [1]. Por esse motivo o Ministério das Antiguidades do Egito deu a permissão para continuidade dos estudos:

A primeira fase do projeto já passou, onde os pesquisadores fizeram a calibragem dos equipamentos e identificaram algumas anomalias térmicas. Porém, não é possível interpretar corretamente o que são tais anomalias que tanto podem se tratar de uma possível câmara, talvez uma rachadura e ou até mesmo nada. É exatamente por este motivo que a equipe está empregando a união de diferentes ferramentas, pois, uma poderá complementar o “defeito” da outra, ou seja, unidas poderão disponibilizar dados mais consistentes (e consequentemente mais fáceis de interpretar) do que se fosse utilizado somente um equipamento.

Lembrando que já são conhecidas câmaras nas pirâmides, mas a ideia deste projeto é conhecer detalhes estruturais do edifício e se existem salas isoladas.

Conheça a “Scan Pyramids Mission”

 

No caso desse “grande vazio” identificado ser mesmo uma câmara dificilmente ela estaria abarrotada de artefatos arqueológicos. Entretanto, essa talvez seja uma oportunidade de saber mais sobre a construção das pirâmides do Platô de Gizé.

 

Como esta pesquisa foi realizada

Múons são partículas subatômicas semelhantes ao elétron, porém com uma massa maior. A identificação deles no ambiente que envolve uma estrutura arqueológica permite localizar espaços vazios. Isto porque as partículas de múons são parcialmente absorvidas pelas pedras, ou seja, seriam identificadas uma grande concentração de múons em um espaço como o de uma rachadura ou uma sala escondida desconhecida.

E foi esse tipo de concentração notada sobre o “Grande Corredor” (Também chamada de “Grande Galeria”), próximo a um condutor de ar (Imagem 03). A sugestão dada no artigo da Nature é que este espaço possui cerca de 30 metros de comprimento e que teria sido identificado por três análises diferentes.

Imagem 03: “Scan Pyramids Mission”

Controvérsia nos meios de comunicação

Após o artigo da Nature a mídia, em vários países, veiculou erroneamente que este achado se trata de uma “câmara oculta”. Entretanto, o Ministério das Antiguidades demostrou seu descontentamento com o artigo através de um comunicado de imprensa. A queixa é que os pesquisadores tinham dado o anúncio precipitadamente sem consultar o comitê científico do órgão: a preocupação tem relação com a forma desleixada do anuncio ser dado, já que espaços ocos na Grande Pirâmide há anos não é uma novidade (FORSSMANN, 2017).

De acordo com o arqueólogo Zahi Hawass, por exemplo, a Grande Pirâmide por si só é cheia de vazios. E a arqueóloga Kate Spencer, da Universidade de Cambridge, salientou que esse vazio identificado pela a equipe do Scan Pyramids Mission poderia ser uma rampa interna para mover os blocos na época da construção. Essas rampas já são conhecidas na Grande Pirâmide e elas tanto poderiam ser vazias ou ligeiramente preenchidas (FORSSMANN, 2017). Por isso, é precipitado lançar um anúncio sobre o que certamente já existiria como se fosse uma grande novidade e pior ainda já pressupor que são câmaras.

A pesquisa é real, os dados são reais, mas a mídia está criando uma situação desnecessária desenvolvendo a ilusão de que esta é a descoberta do século, única e revolucionária. Na mesma medida a pseudociência tem encarado isso como uma prova de que “câmaras ocultas” juntamente com “mistérios místicos” serão reveladas (KILLGROVE, 2017). Contudo, é uma ideia que sugere a existência de um “mistério” onde provavelmente não existe.

Em uma época de pós-verdade, em que cada usuário da internet cria suas próprias teorias sem se preocupar com as pesquisas feitas durante anos, muitos são os egiptólogos que salientaram sobre a existência de espaços vazios na Grande Pirâmide. Porém, escrever “espaços vazios” é menos instigante para o público do que “câmaras ocultas”.

Desta forma, o grande mérito dessa pesquisa não é a descoberta em si, mas o avanço das ferramentas que proporcionam estudos mais avançados em sítios arqueológicos (KILLGROVE, 2017).

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção das pirâmides.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes:

MARCHANT, Jo. Cosmic-ray particles reveal secret chamber in Egypt’s Great Pyramid. In: Nature. Disponível em < https://www.nature.com/news/cosmic-ray-particles-reveal-secret-chamber-in-egypt-s-great-pyramid-1.22939#/graphic >. Publicado em: 02 de Novembro de 2017. Acesso em 2 de novembro de 2017.

FORSSMANN, Alec. Controversia ante el hallazgo de “un gran vacío” en la Gran Pirámide de Gizeh. In: National Geographic España. Disponível em < http://www.nationalgeographic.com.es/historia/actualidad/controversia-ante-hallazgo-un-gran-vacio-gran-piramide-gizeh_12060 >. Publicado em: 03 de Novembro de 2017. Acesso em 3 de novembro de 2017.

KILLGROVE, Kristina. What Archaeologists Want You To Know About The Great Pyramid Void. In: Forbes. Disponível em < https://www.forbes.com/sites/kristinakillgrove/2017/11/04/what-archaeologists-want-you-to-know-about-the-great-pyramid-void/#3bc1e68baf9e >. Publicado em: 04 de Novembro de 2017. Acesso em 5 de novembro de 2017.


[1] Possibilidade não muito provável, dado ao tamanho, mas não impossível.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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