Os egípcios antigos acreditavam em demônios?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O medo de grandes forças ocultas acompanha a humanidade desde os primórdios. Nem precisamos olhar com atenção para trás para observar representações do mal como criaturas que abitam o plano espiritual. Cada cultura ao redor do globo criou uma personificação dos seus temores e paranoias e com os antigos egípcios não poderia ser diferente.

Recentemente anunciei em meu Twitter que estou me empenhando na pesquisa das representações de seres malignos no Egito Antigo. Porém, ao contrário do que muitos devem imaginar, eles não são demônios, ao menos não no sentido católico. A palavra “demônio” vem do latim “daemon“, que por sua vez vem do grego “daímôn“, cujo significado, no que diz respeito a definição de Platão, seria “ser intermediário”. Porém, ao longo dos séculos a sua essência mudou, a exemplo da tradição cristã, que transforma os demônios na contraparte dos anjos.

Assim sendo, a adoção do termo “demônio” para entidades do mal no Egito Antigo, ao menos no sentido grego, não seria errada. Entretanto, o Brasil, apesar de ser um país laico, tem raízes bastante católicas. Desta forma, para evitar desvirtuar do que de fato eles eram, é mais válido chamar tais entidades de “espíritos malignos” (e benignos), do que de “demônios”.

Como eles eram?

Não sabemos muito sobre aparência e nomes de espíritos malignos egípcios. Mas sabemos, por exemplo, que existia um chamado “Sehaqeq” que é este menininho da imagem. Ele causava fortes dores de cabeça em suas vítimas.

Em uma fórmula mágica entoada para afastar doenças de crianças, temos a dica das características de outro destes seres: “Sai visitante das trevas, que te arrastas com o nariz e o rosto atrás da cabeça, sem saber por que estais aqui” (STROUHAL, 2007, p 24).

Contudo, apesar de não termos muitas informações sobre estas entidades, podemos identificá-las em antigos textos egípcios: tanto entidades malignas, como enfermidades, usualmente eram mencionadas em textos grafados em vermelho.

Formas de afastá-los:

Bom, os egípcios adotaram uma série de medidas para tentar afastar estes espíritos malignos. Infelizmente não conhecemos todas, afinal, muito dos significados da materialidade egípcia está no campo da especulação. Mas, uma delas, aparentemente era uma máscara do deus Bés.

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Bés era uma divindade egípcia representada por um homem com nanismo fazendo uma careta. Sua função era proteger as crianças e mulheres (especialmente durante o parto), afastar os maus sonhos e os maus espíritos.

Conhecemos a existência de amuletos representando Bés, assim como máscaras com o seu rosto, como foi o caso de uma encontrada em uma estátua feminina. Esta estátua foi descoberta no pátio do Ramesseum (Luxor), durante o século 19. Na mesma época uma máscara propriamente dita — a qual alguns acreditam representar esta divindade ou sua esposa, Beset — foi descoberta em Kahun (imagem).

A finalidade destas máscaras é uma grande incógnita. Alguns acadêmicos acreditam que elas poderiam ser vestidas durante rituais mágicos para a invocação de espíritos protetores. Estes protetores resguardariam as mulheres e as crianças afastando delas os espíritos malignos.

Também existiram fórmulas mágicas e poções que entoadas acreditava-se que poderia proteger, por exemplo, uma criança:

“Fiz uma poção que a protege, uma poção com a erva venenosa de afat e alho, que é ruim para ti, com mel, que é doce para o vivo, mas amargo para o morto, com restos e entranhas de peixes e bestas e com espinhos de perca.” (STROUHAL, 2007, p 24)

E Apophis? Ele era um espírito maligno?

Esta é uma pergunta bastante frequente sempre que comento algo sobre as entidades malignas, afinal, Apophis é uma grande serpente que todas as noites tentava devorar o deus sol, Rá. De acordo com alguns dos principais pesquisadores do assunto, Apophis, que é a variação grega do nome egípcio Apep, não seria uma entidade maligna e muito menos uma divindade. A posição dele na mitologia egípcia ainda é meio confusa… Em verdade ainda temos muito o que aprender sobre o mundo religioso egípcio.

Gostou deste tema? Então saiba mais sobre ele assistindo a este vídeo:

Fontes:

CASTEL, Elisa. Gran Diccionario de Mitología Egipcia. Madrid: Aldebarán, 2001.
Demons (benevolent and malevolent); Rita Lucarelli; UCLA Encyclopedia of Egyptology
STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]