Cheia do Rio Nilo é celebrada pelo Museu Egípcio do Cairo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Para celebrar o Dia da Cheia do Nilo, o Museu Egípcio do Cairo está organizando passeios guiados gratuitos para todos os visitantes durante o seu horário noturno de funcionamento.

nile-river-luxor-1080x1920

Pôr do Sol às margens do Nilo, em Luxor.

Elham Salah, coordenador do Setor de Museus do Ministério das Antiguidades, revelou que os passeios serão em árabe e inglês e ocorrerão entre 18 e 24 de agosto. As peças mostradas serão aquelas relacionadas com o Rio Nilo, tais como o Nilometro e embarcações.

Dashur Boat

Um dos barcos de Dashur exposto no Museu Egípcio do Cairo

E ainda tem a peça arqueológica do mês: para agosto foi escolhida um óstraco que representa o deus Hapi, divindade que controlava as cheias do Nilo.

A peça do mês de agosto do Museu Egípcio. Foto: Ministério das Antiguidades.

O sinal das cheias e o Ano Novo egípcio:

Nas épocas das cheias do Nilo algumas festividades eram celebradas durante dias para comemorar o evento, dentre elas o Festival Wag e a Festa da Bebedeira. Não se sabe a data fixa da primeira cheia (até porque poderia oscilar), mas o Ministério das Antiguidades do Egito lançou uma nota em que a situa após o dia 15 de agosto no nosso atual calendário.

— Saiba mais: Festival da Bebedeira no Egito Antigo + Vídeo

Durante a antiguidade egípcia o tempo era contado de diferentes maneiras, uma delas era através das estações: Aket, Peret e Shemu. A Aket abria o ano através das cheias e era um momento de grande celebração no país.

Um dos eventos naturais que anunciavam o início desta estação, além das cheias, era o surgimento da estrela Sirius no céu (na América do Sul ela só surge no final do ano).

— Saiba mais: A Estrela Sirius no Egito Antigo

Atualmente as inundações anuais não são muito visíveis graças as represas que foram construídas ao longo do Rio Nilo no século passado. Entretanto, durante a antiguidade as águas cobriam parte das terras férteis. Exatamente por isso que algumas residências eram construídas sob uma elevação artificial ou algumas cidades eram rodeadas por muralhas de contenção ou protegidas por represas.

Representação de uma casa do Período Faraônico. Foto: STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

 

Fonte da matéria:

Egyptian Museum celebrates flooding of the Nile. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/275272.aspx >. Acesso em 13 de agosto de 2017.

A Estrela Sirius no Egito Antigo

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Muitas comunidades do passado utilizavam o céu noturno como parâmetro para uma série de coisas tais como prever cheias, a contagem do tempo e localização geográfica. Entre os antigos egípcios isso não foi diferente.

Montagem: sciencefreek.

O céu noturno era entendido como o corpo da deusa Nut, que tentava se ligar com a terra, o deus Geb, mas que era impedida pelo ar, o deus Shu. O corpo de Nut era composto por estrelas as quais, em alguns textos religiosos, são tidas como “embarcações iluminadas” navegando pelo o corpo da deusa (LESKO, 2002).

— Saiba mais: Detalhe da criação do cosmo no sarcófago de Butehamon

Foi a familiaridade com o céu noturno e a natureza em terra que fez os antigos egípcios perceberem um padrão: assim que uma determinada estrela extremamente brilhante surgia no céu tinha início as cheias do rio Nilo. Essa estrela é chamada atualmente de Sirius, mas durante a antiguidade egípcia foi denominada como Sopdet (Sothis, em grego), deusa responsável por anunciar as inundações do Nilo, protetora da agricultura, do tempo e da fertilidade. Além de, por vezes, associada com a deusa Ísis.

Deusa Sopdet (não confundir com Seshat). Imagem: Creative Commons.

Com as cheias tinha início a estação Aket [1], que abria o ano egípcio. Ou seja, era o surgimento de Sopdet um dos eventos que anunciava o Ano Novo.

Fonte:

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

ROSSI, Corinna. Science and Technology: Pharaonic. LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.


[1] O ano egípcio era dividido em três estações: Aket, Peret e Shemu.

Festival da Bebedeira no Egito Antigo + Vídeo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Imagine que dias após a comemoração de virada do ano você está se preparando com a sua família para mais dias de festa com dança, música, comida e em muita bebida. Não é um cenário difícil de idealizar, especialmente se você for um folião. Contudo, o que eu pedi para vocês vislumbrarem é um acontecimento comum do período faraônico, o “Festival da Bebedeira”, e não o Carnaval.

Apesar da coincidência, ambas estas festas têm pouquíssimas coisas em comum, uma delas certamente é o motivo da comemoração. O Carnaval, que apesar de ser um evento popular no Brasil, não é uma festa genuinamente brasileira, acredita-se que remonta a Antiguidade, sendo advindo da Mesopotâmia e comemorado até mesmo na Grécia e em Roma [1]. Será?

No caso da Mesopotâmia a principal característica desta festividade era a subversão de papéis sociais, já na Grécia e Roma seria a entrega aos prazeres da carne, tais como a embriagues e as orgias.

Homens totalmente embriagados sendo carregados para fora de uma festa. Beni Hasan. Autor: Desconhecido.

Com o passar dos anos e o poder cada vez mais crescente da Igreja católica estes tipos de festividades começaram a ser vistas como praticas pagãs. Assim, a partir do século VIII, com a criação da Quaresma, tais festas passaram a ser realizadas nos dias anteriores a este período religioso. Ou seja, as pessoas poderiam cometer excessos e se submeter a subcultura e depois teriam a oportunidade de pedir perdão a Deus.

Mulher vomitando após beber em excesso. Autor: Desconhecido.

Porém a “Festa da Bebedeira” tinha uma proposta integralmente religiosa. Ela rememorava o mito de Hathor-Tefnut ou Hathor-Sekhmet, filha do deus Rá, deus Sol criador, que a pedido do pai foi ao Egito dar uma lição na humanidade (JUNKER 1911 apud POO, 2010): Rá estava extremamente descontente com as ações torpes dos humanos e solicitou que a sua filha resolvesse a situação. Porém, ela usou da violência e realizou um verdadeiro massacre. Este não era o objetivo de Rá, que para apaziguar a sua filha verteu vinho no Nilo para confundi-la — ela pensaria que ali seria sangue humano ou o tom avermelhado da água após as inundações —. O plano deu certo, ao saciar sua sede no grande Rio a deusa ficou extremamente embriagada, deixando os humanos em paz (POO, 2010).

Apesar dos nomes Hathor-Tefnut ou Hathor-Sekhmet serem utilizados para definir a tal deusa, convencionou-se a chamá-la de Hathor ou Sekhmet. Apesar destas duas terem propriedades bem diferentes, elas foram sincretizadas em vários momentos (POO, 2010).

A Festa da Bebedeira era comemorada logo após o início do ano egípcio — que na antiguidade ocorria no segundo semestre do nosso calendário — porque, de acordo com o mito, a chegada de Hathor-Sekhmet ao Egito correspondia com a Estação Aket, ou seja, a subida das águas do Nilo, como um texto religioso afirma:

“É o pai de [Hathor], Rá, quem criou isto para ela quando ela voltou da Núbia, de modo que inundações são dadas para o Egito” (POO, 2010).

Esta comemoração era realizada no dia seguinte ao fim do Festival Wag, que por sua vez era celebrado no início das enchentes em Thot (primeiro mês da Estação Aket) (SCHOTT 1950 apud POO, 2010) e que objetivava a celebração da ressurreição da vida trazida pela inundação.

A embriaguez estava aberta para todos e a bebida era distribuída pelo Estado. Em um dia comum a intoxicação por álcool não era vista como algo tão desprezível (embora existam alguns textos moralistas acerca), mas neste evento em questão era totalmente aceitável. Logo as ruas e templos abertos ficavam cheios de pessoas embriagadas não só em homenagem à deusa, mas em agradecimento a chegada das cheias do Nilo (POO, 2010).

— Saiba mais: A cerveja no Egito Antigo: desde a intoxicação ao seu uso religioso

Em soma, muitos líquidos eram sagrados durante o faraônico, dentre eles o vinho e a cerveja, por isso que durante este festival também ocorriam as libações (POO, 2010). Sabemos que durante a oferta da cerveja o seguinte trecho de uma música poderia ser cantado:

“Tome a cerveja para apaziguar seu coração. Para o seu Ka conforme seu desejo, como eu faço música antes de você” (POO, 2010).

Ao final do festival, todos retornavam para casa para curar a ressaca e planejar o início do ano, mas a saga pela sobrevivência não tinha terminado. Outras festas religiosas pedindo por um bom plantio ou pelo fortalecimento da vida ainda viria, mas nenhuma era comparável a intoxicação do Festival da Bebedeira.

Abaixo está um vídeo onde comento sobre o festival:

Inscreva-se para receber notificações de novos vídeos: clique aqui.

Youtube | Facebook | Instagram | Twitter

Fonte:

[1] PINTO, Tales Dos Santos. “História do carnaval e suas origens”; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval.htm>. Acesso em 04 de fevereiro de 2016.

POO, Mu-chou. “Liquids in Temple Ritual”. In: DIELEMAN, Jacco; WENDRICH, Willeke; FROOD, Elizabeth; BAINES, John. UCLA Encyclopedia of Egyptology. Los Angeles: UC Los Angeles, 2010.

TALLET, Pierre. A culinária no Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Júlia Braga, Joana Bergman). Barcelona: Folio, 2006.


  • As imagens neste post não são ilustrações do Festival da Bebedeira, mas de outras festas. São meramente ilustrativas.