Os gatos no Egito antigo

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Que os egípcios antigos possuíam uma ligação especial com os animais não é novidade. Com os deuses com forma antropozoomórfica — ou seja, uma mistura de feições humanas com as de outros animais — essa sociedade deu destaque social e divino para várias espécies. Uma delas são os felídeos, a exemplo dos gatos.

Gatos são retratados em desenhos e estátuas no Egito desde o Período Pré-dinástico, época anterior ao governo dos faraós. Notável foi o apreço das pessoas por esses animais que uma importante divindade ganhou a sua forma. O seu nome era Bastet, protetora da música, alegria e maternidade. Ela era a filha do deus Rá e de acordo com uma das versões do seu mito ela o auxiliava na sua luta diária contra a serpente Apep (em grego “Apophis”) (CASTEL, 2001; SILIOTTI, 2006; BAINES; MALEK, 2008; DAVID, 2011).

The British Museum-Ancient Egyptian Cat

Deusa Bastet

Deusa Bastet

Essa deusa tinha até mesmo uma importante cidade votiva a ela denominada de Per-Bastet, em tradução livre “Casa de Bastet”. Nos períodos finais do faraônico essa cidade ficou conhecida como Bubasteion (Bubastis). Localizada nas proximidades das atuais Aváris e Tânis, é lá onde se encontra a maior necrópole de gatos do país, que abriga até hoje as múmias em vários felinos que foram lá depositados por seus donos ou por devotos da deusa para que esses intercedessem pelo humano, funcionando quase como um ex-voto (ZIVIE et al 2004; BAINES; MALEK, 2008).

Múmia de gato (British Museum). Foto: Mario Sanchez.

Mummified Cats

Vaso de cosmético com forma de gato. Foto: Met Museum.

Uma curiosidade sobre essas múmias é que enquanto algumas eram embrulhadas com invólucros simples, outras ganhavam até ataúdes em forma de gato (BRANCAGLION Jr., 2001). Centenas foram destruídas por exploradores no século 19 e 20, mas, vários espécimes ainda estão disponíveis para análise e até mesmo para a visitação em museus a redor do mundo, a exemplo do Museu Nacional do Rio de Janeiro (Brasil).

Para saber mais: O meu livro, Uma Viagem pelo Nilo, tem um capítulo, “Necrópole para animais”, onde dedico uma parte para falar sobre as múmias de animais e sobre a cidade de Bubastis.

Referências:

CASTEL, Elisa. Gran Diccionario de Mitología Egipcia. Madrid: Aldebarán, 2001.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

IKRAM, Salima. “Divine Creatures”. In: IKRAM, Salima. Divine Creatures. Cairo: The American University in Cairo, 2005.

SILIOTTI, Alberto. Grandes Civilizações do Passado: Egito (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2006.

ZIVIE, Alain; CALLOU, Cécile; SAMZUN, Anaïck. A lion found in the Egyptian tomb of Maïa. Nature, Vol. 427, 15 January, 2004.

Festival da Bebedeira no Egito Antigo + Vídeo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Imagine que dias após a comemoração de virada do ano você está se preparando com a sua família para mais dias de festas com dança, música, comida e muita bebida. Não é um cenário difícil de idealizar, especialmente se você for um folião. Contudo, o que eu pedi para vocês vislumbrar foi um acontecimento comum do período faraônico, o “Festival da Bebedeira”, e não o Carnaval.

Apesar da coincidência, ambas estas festas têm pouquíssimas coisas em comum, uma delas certamente é o motivo da comemoração. O Carnaval, que apesar de ser um evento popular no Brasil, não é uma festa genuinamente brasileira, acredita-se que remonta a Antiguidade, sendo advindo da Mesopotâmia e comemorado até mesmo na Grécia e em Roma [1]. Será?

No caso da Mesopotâmia a principal característica desta festividade era a subversão de papéis sociais, já na Grécia e Roma seria a entrega aos prazeres da carne, tais como a embriagues e as orgias.

Homens totalmente embriagados sendo carregados para fora de uma festa. Beni Hasan. Autor: Desconhecido.

Com o passar dos anos e o poder cada vez mais crescente da Igreja católica estes tipos de festividades começaram a ser vistas como praticas pagãs. Assim, a partir do século VIII, com a criação da Quaresma, tais festas passaram a ser realizadas nos dias anteriores a este período religioso. Ou seja, as pessoas poderiam cometer excessos e se submeter a subcultura e depois teriam a oportunidade de pedir perdão a Deus.

Mulher vomitando após beber em excesso. Autor: Desconhecido.

Porém a “Festa da Bebedeira” tinha uma proposta integralmente religiosa. Ela rememorava o mito de Hathor-Tefnut ou Hathor-Sekhmet, filha do deus Rá, deus Sol criador, que a pedido do pai foi ao Egito dar uma lição na humanidade (JUNKER 1911 apud POO, 2010): Rá estava extremamente descontente com as ações torpes dos humanos e solicitou que a sua filha resolvesse a situação. Porém, ela usou da violência e realizou um verdadeiro massacre. Este não era o objetivo de Rá, que para apaziguar a sua filha verteu vinho no Nilo para confundi-la — ela pensaria que ali seria sangue humano ou o tom avermelhado da água após as inundações —. O plano deu certo, ao saciar sua sede no grande Rio a deusa ficou extremamente embriagada, deixando os humanos em paz (POO, 2010).

Apesar dos nomes Hathor-Tefnut ou Hathor-Sekhmet serem utilizados para definir a tal deusa, convencionou-se a chamá-la de Hathor ou Sekhmet. Apesar destas duas terem propriedades bem diferentes, elas foram sincretizadas em vários momentos (POO, 2010).

A Festa da Bebedeira era comemorada logo após o início do ano egípcio — que na antiguidade ocorria no segundo semestre do nosso calendário — porque, de acordo com o mito, a chegada de Hathor-Sekhmet ao Egito correspondia com a Estação Aket, ou seja, a subida das águas do Nilo, como um texto religioso afirma:

“É o pai de [Hathor], Rá, quem criou isto para ela quando ela voltou da Núbia, de modo que inundações são dadas para o Egito” (POO, 2010).

Esta comemoração era realizada no dia seguinte ao fim do Festival Wag, que por sua vez era celebrado no início das enchentes em Thot (primeiro mês da Estação Aket) (SCHOTT 1950 apud POO, 2010) e que objetivava a celebração da ressurreição da vida trazida pela inundação.

A embriaguez estava aberta para todos e a bebida era distribuída pelo Estado. Em um dia comum a intoxicação por álcool não era vista como algo tão desprezível (embora existam alguns textos moralistas acerca), mas neste evento em questão era totalmente aceitável. Logo as ruas e templos abertos ficavam cheios de pessoas embriagadas não só em homenagem à deusa, mas em agradecimento a chegada das cheias do Nilo (POO, 2010).

— Saiba mais: A cerveja no Egito Antigo: desde a intoxicação ao seu uso religioso

Em soma, muitos líquidos eram sagrados durante o faraônico, dentre eles o vinho e a cerveja, por isso que durante este festival também ocorriam as libações (POO, 2010). Sabemos que durante a oferta da cerveja o seguinte trecho de uma música poderia ser cantado:

“Tome a cerveja para apaziguar seu coração. Para o seu Ka conforme seu desejo, como eu faço música antes de você” (POO, 2010).

Ao final do festival, todos retornavam para casa para curar a ressaca e planejar o início do ano, mas a saga pela sobrevivência não tinha terminado. Outras festas religiosas pedindo por um bom plantio ou pelo fortalecimento da vida ainda viria, mas nenhuma era comparável a intoxicação do Festival da Bebedeira.

Abaixo está um vídeo onde comento sobre o festival:

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Fonte:

[1] PINTO, Tales Dos Santos. “História do carnaval e suas origens”; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval.htm>. Acesso em 04 de fevereiro de 2016.

POO, Mu-chou. “Liquids in Temple Ritual”. In: DIELEMAN, Jacco; WENDRICH, Willeke; FROOD, Elizabeth; BAINES, John. UCLA Encyclopedia of Egyptology. Los Angeles: UC Los Angeles, 2010.

TALLET, Pierre. A culinária no Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Júlia Braga, Joana Bergman). Barcelona: Folio, 2006.


  • As imagens neste post não são ilustrações do Festival da Bebedeira, mas de outras festas. São meramente ilustrativas.