A descoberta de duas múmias que impressionou os cientistas

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A mumificação egípcia é uma técnica que foi inventada em algum momento entre a transição do Pré-dinástico (época anterior a unificação do Egito) e se aperfeiçoou ao longo do Período Faraônico. Antes disso o que existia na região eram esporádicas múmias naturais, ou seja, um tipo de múmia que não contou com a intervenção humana, existente graças ao ambiente propicio. Saiba mais sobre o assunto através do vídeo abaixo:

E é graças à mumificação que conhecemos alguns detalhes interessantes da vida e da cultura egípcia tais como alimentação, saúde e modificações corporais a exemplo de perfurações nas orelhas e tatuagens. Sim, durante a Antiguidade egípcia existiam tatuagens e este foi um assunto já abordado no nosso canal, no vídeo “Tatuagens no Egito Antigo”.

Como comento no vídeo em questão, algumas múmias com tatuagens foram encontradas no Egito, mas elas são espécimes raros. Contudo, para a nossa boa sorte ocorreu mais uma descoberta recente que envolve não só uma, mas duas múmias tatuadas, ambas datadas do Pré-dinástico e mumificadas naturalmente. Tatuagens, até então eram encontrados em múmias mais novas. Isso muda muitas coisas sobre como os arqueólogos entendiam a cultura em termos de modificação corporal das pessoas que viveram naquela época.

A descoberta dessas múmias em si, que estão no Museu Britânico, Londres, ocorreu há cerca de 100 anos em Gebelein, mas, descobrir que elas possuem tatuagens é um acontecimento recente. Isso ocorreu quando uma equipe de cientistas usou scanners de infravermelho nos corpos e fez o achado. Os resultados de suas pesquisas foram publicados na revista de arqueologia Journal of Archaeological Science.

“Estamos aprendendo aspectos que não sabíamos sobre a vida dessas pessoas (cujas múmias) sobreviveram bastante bem, parece incrível, mas mostra que as tatuagens na África apareceram mil anos antes do que pensávamos”, disse Daniel Antoine, um dos principais autores do trabalho e curador de Antropologia Física no Museu Britânico à BBC.

A outra grande surpresa não foi somente a idade, mas o fato de uma das múmias ser de um homem. Até então somente corpos mumificados de mulheres foram encontrados, o que se levou a pensar que se tratava de uma prática exclusivamente feminina.

Em um dos braços do homem, apelidado de “Gebelein Man A” (“Homem Gebelein A”), foram encontradas figuras sobrepostas de dois animais. Um parece ser um touro selvagem (Bos primigenius) e o outro um carneiro-da-barbária (Ammotragus lervia). Sobre ele uma descoberta anterior – e mais chocante – tinha sido feita: ele morreu quando tinha entre 18 e 21 anos de idade com uma facada nas costas.

Foto: Museu Britânico

Já a mulher, apelidada de “Gebelein Woman” (Mulher Gebelein), possui quatro marcas paralelas no ombro esquerdo que lembram a letra “S”. Ela tem uma outra tatuagem, mas não está claro o que pode se tratar, se seria um bastão curvo que possivelmente simboliza o poder ou um bastão cerimonial utilizado em danças rituais. De qualquer forma, ambos os símbolos tatuados na mulher já foram vistos em cerâmicas do mesmo período:

Foto: Museu Britânico

Cerâmica Pré-dinástica. Foto: Museu Britânico

Como eram feitas as tatuagens:

Como explico no vídeo “Tatuagens no Egito Antigo”, as tatuagens eram feitas através da injeção subcutânea de um pigmento escuro, indo do preto para azulado, feito de fuligem e óleo. Elas seriam feitas com um instrumento perfurante como pontas de bronze ou espinha de peixe. Coincidentemente, pesquisadores também descobriram um antigo kit de ferramentas que data do Pré-dinástico em Gebelein. Ele foi encontrado na sepultura de uma mulher que possuía entre 40 e 50 anos de idade quando tinha morrido.

O kit inclui uma paleta em forma de pássaro provavelmente usada para moer minérios, acompanhada de pedras arredondadas. Agulhas de ossos também estavam inclusas.

 

Fontes:

El sorprendente hallazgo en dos momias egipcias de hace 5.000 años que revoluciona lo que los científicos sabían sobre el Antiguo Egipto. Disponível em < https://www.msn.com/es-xl/noticias/mundo/el-sorprendente-hallazgo-en-dos-momias-egipcias-de-hace-5000-a%C3%B1os-que-revoluciona-lo-que-los-cient%C3%ADficos-sab%C3%ADan-sobre-el-antiguo-egipto/ar-BBJKWlS?q=14 >. Acesso em 03 de março de 2018.

Oldest Tattooed Woman Is an Egyptian Mummy. Disponível em < https://www.livescience.com/61916-oldest-tattoos-egyptian-mummies.html >. Acesso em 03 de março de 2018.

 

Cabeça de múmia egípcia é analisada na Universidade de Melbourne

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A tecnologia e a Arqueologia caminham lado a lado desde sempre. Esta disciplina aplicou em vários momentos ferramentas como balões, máquinas fotográficas, bússolas, computadores, GPS, Raio-x, etc. Recentemente pesquisadores e alunos da Universidade de Melbourne utilizaram esta vantagem para analisar um único artefato: uma cabeça humana mumificada que está sob sua posse.

Múmias que foram criadas por mãos humanas — a exemplo das próprias egípcias — são consideradas artefatos (saiba mais assistindo ao vídeo Descobrindo o Passado: o que são múmias e 8 curiosidades sobre múmias egípcias) e como tal necessitam ser estudadas tanto do ponto de vista biológico, como cultural.

O projeto da Universidade de Melbourne possui um caráter multidisciplinar, onde agrega a faculdade de Medicina, Odontologia e Ciências da Saúde, que por sua vez combina pesquisas médicas, Ciências Forenses, tomografia computadorizada, CT Scan, Impressora 3D, Egiptologia e Arte. O time produziu a reconstrução facial do crânio, cuja idade e sexo foram identificados através da análise da sua morfologia craniana: esta pessoa foi uma mulher que faleceu entre seus 18 a 25 anos de vida.

Egiptóloga forense Dra. Foto: Paul Burston.

“A ideia do projeto é pegar essa relíquia e em um sentido trazê-la de volta para a vida com o uso de todas as novas tecnologias”, disse a Dra. Varsha Pilbrow, bioarqueóloga que ensina anatomia no Departamento de Anatomia e Neurociência. “Dessa forma, ela pode tornar-se muito mais do que um objeto fascinante para ser colocado em exposição. Através dela, os alunos serão capazes de aprender como diagnosticar a patologia marcada na nossa anatomia e aprender como os grupos populacionais inteiros podem ser afetados pelo ambiente em que vivem.”

Vídeo (em inglês) falando sobre a pesquisa.

Como a cabeça mumificada da jovem moça foi adquirida pela Universidade é um mistério. A possibilidade é de que tenha sido através de um professor chamado Frederic Wood Jones (1879-1954), que chegou a escavar no Egito. Sem informações acerca da sua aquisição e nem o registro do contexto arqueológico, logo não se sabe qual foi o nome desta mulher durante a antiguidade, o que levou aos pesquisadores da atualidade a nomearem de “Meritamon”, que na nossa língua significa “Amada de Amon”.

A origem do projeto foi a preocupação do curador do museu, o Dr. Ryan Jefferies, de que a cabeça estivesse se deteriorado internamente sem que ninguém fosse capaz de perceber. Como remover as ataduras — processo chamado de autópsia e que nos dias de hoje não é um método aconselhado, exceto em situações muito especificas como: descobrir a coloração de determinados tecidos, olhar tatuagens ou olhar materiais orgânicos tais como tampões — não era uma opção, então foi optado pelo o uso da tomografia computadorizada que consequentemente abriu a oportunidade para uma pesquisa colaborativa.

A análise da tomografia apontou que Meritamon possui abscessos dentários e indicações de anemia, perceptíveis através de manchas específicas nos ossos. A sugestão é de que essa anemia tenha sido resultante de doenças tais como a malária ou esquistossomose. Apesar da ausência do restante do corpo — que poderia fornecer mais dados —, acredita-se que a severa anemia foi a responsável por sua morte ou ao menos um dos fatores principais.

Por hora não será realizado nenhum exame de DNA da múmia por ser um tipo de análise muito cara e que está acima do orçamento do projeto. No entanto, a pesquisa contará como o estudo dos átomos de carbono e nitrogênio que poderá lançar uma luz acerca do que ela comeu durante a sua vida e até sobre o local em que viveu.

Paralelamente, um molde em 3D do crânio foi feito para então realizar uma reconstituição facial, que foi realizada pela escultora Jennifer Mann. Na Arqueologia, as reconstituições faciais têm sido utilizadas para enxergar fenótipos e humanizar as pessoas há muito falecidas. Esse método pode incorrer ao erro — já que não dará detalhes sobre cor da pele, olhos, cabelos, formato do nariz e orelhas —, mas, ainda assim, tende a ser efetivo. No caso de Meritamon ela foi representada com uma cor que eles definiram como dark olive hue, que, pelo o que eu entendi, aqui no Brasil é chamada de “pele oliva”, o que realmente lembra a de muitas iconografias faraônicas.

E ainda uma datação por Carbono-14 será utilizada para dar uma ideia de em qual período ela viveu. Em palavras simples, esse tipo de datação é obtida através da medição da quantidade de C14 disponível em um material orgânico.

Fonte:

Brought to life, 2000 years later. Disponível em < https://pursuit.unimelb.edu.au/articles/brought-to-life-2000-years-later  >. Acesso em 21 de agosto de 2016.

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.