Faraó Merenptah: O 13º filho de Ramsés II

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Ramsés II morreu aos 90 anos, após um reinado de 67, sobrevivendo a doze dos seus filhos mais velhos. Embora sua esposa favorita fosse Nefertari, nenhum dos filhos dela viveram para ter a oportunidade de assumir o trono. Desta forma foi o 13º herdeiro, Merenptah (ou Merneptah) (Novo Império; XIX Dinastia), dos cerca de noventa filhos do faraó, quem recebeu o direito de reinar quando tinha entre cinquenta e sessenta anos de idade. Sua mãe era a rainha Ísis-Nofret (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007).

 

Faraó Merenptah. Imagem disponível em < http://www.absolutegipto.com/merenptah-el-rey-anciano/ >. Acesso em 03 de junho de 2013.

 

O reinado de Ramsés II é conhecido pelas incursões militares nos primeiros anos do seu governo e a uma aparente paz nos anos tardios, porém, após assumir o trono, Merenptah precisou enfrenta uma ameaça a autoridade egípcia no Canaã e sul da Síria, a qual abafou com o auxilio do exército. Com a sua vitória celebrou o feito em vários relevos nos muros de Karnak (O’CONNOR et al, 2007).

No seu 5º ano de reinado, os líbios (que já tinham tentado tomar o país no reinado de Seti I) e os Povos do Mar (que posteriormente dominariam parte das sociedades do Mediterrâneo) ultrapassaram a fronteira egípcia ocidental, planejando manter assentamento, levando consigo familiares e posses. Eles foram encontrados no Delta (o local especifico não se sabe – ver mapa) pelo exercito do faraó e durante seis horas os estrangeiros sofreram um massacre cujo número de vítimas fatais contou-se cerca de 6 000, de acordo com as fontes egípcias, que levantavam os dados através das mãos cortadas dos circuncisos ou pelos pênis coletados dos incircuncisos (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007; BAINES; MALEK, 2008).

 

Provável local de confronto do faraó Merenptah contra os líbios e os Povos do Mar. Mapa: Márcia Jamille Costa. 2013.

 

De acordo este mesmo relato o líder líbio, Merire, conseguiu escapar. As fontes descrevem o que teria ocorrido:

O miserável chefe dos líbios tinha o coração paralisado pelo medo, parou, ajoelhou-se e deixou o arco, a alijava e suas sandálias para trás (O’CONNOR et al, 2007).

Aproveitando desta batalhavam no norte, os servos núbios ao sul, que permaneceram acalmados nas últimas décadas por Ramsés II, se rebelaram contra o faraó (O’CONNOR et al, 2007). Os povos núbios da antiguidade eram descritos como exímios soldados, especialmente graças aos kermanos. Foi esta tradição bélica e as frequentes rebeliões contra os seus mestres egípcios que levaria estes povos sulistas a tomar o poder das duas terras posteriormente, durante o chamado Terceiro Período Intermediário.

 

Esfinge do faraó Merenptah no Penn Museum. Imagem disponível em < http://edtrayes.com/2011/03/lower-egyptian-gallery-penn-museum-philadelphia-pennsylvania-usa/dsc_9883-original-exposure-slphinx-lion-with-human-head-palace-of-merenptah-memphis-egypt-penn-museum-philadelphia-pennsylvania-usa/ >. Acesso em 03 de junho de 2013.

 

Aparentemente Merenptah teve sucesso em sufocar todos os motins que precisou enfrentar em sua gestão, mas embora viesse a ser conhecido como o faraó que liquidou os invasores do norte ele fez questão de deixar registrado um ato de caridade, ao realizar uma doação de cereal aos hititas durante um período de fome (BAINES; MALEK, 2008).

Um dos seus palácios encontrava-se em Mit Rahina, na colina Kom el-Qala, o qual atualmente só existem ruínas. Ele foi escavado por Clarence Stanley Fisher (1876 – 1941) e a missão de arqueologia do University Museum, da Filadélfia (BAINES; MALEK, 2008).

 

Sucessão:

Merenptah reinou por dez anos e foi substituído por Amenemés, que possivelmente não era seu herdeiro direto, mas um dos filhos ainda vivos de Ramsés II ou descendente dos mesmos. De todo modo uma das características do governo de Amenemés foram as constantes lutas familiares e após quatro anos de administração ele foi substituído por Seti-Merenptah, coroado como Seti (II), cujo trono foi herdado por sua esposa Tauseret, que foi coroada faraó (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007; BAINES; MALEK, 2008).

 

Sepultamento:

Originalmente Merenptah teria sido sepultado em Tebas, na KV-8, mas a sua múmia foi encontrada pelo arqueólogo francês Vitor Loret (1859-1946) em 1898 no esconderijo real locado na tumba do faraó Amenhotep II, no Vale dos Reis (DAVID; DAVID, 1992). Um dos seus sarcófagos foi reutilizado por Psusene I e só foi identificado porque dentre os seus cartuchos apagados somente um na tampa ainda possuía o nome do antigo dono (O’CONNOR et al, 2007).

 

Fragmentos do sarcófago de granito vermelho do faraó Merenptah. Foto disponível em O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. Pág. 138.

 

A “Estela de Merenptah”:

Em seu templo mortuário foi encontrada uma estela comemorativa enaltecendo as vitórias do faraó em batalhas contra países estrangeiros. Presunçosamente ela é chamada de “Estela de Israel” devido a imagem de dois hieróglifos que representam um homem e uma mulher caminhando e foi deduzido que se trataria de uma comunidade nômade. Permanecendo no caráter subjetivista, foi sugerido que poderia se tratar do povo de Israel, porém a teoria permanece uma especulação.

 

Estela de Merenptah. Retirado de Merneptah Stele. Disponível em < http://www.flickr.com/photos/frankrytell/2155909119/ > Acesso em 24 de Abril de 2011.

 

Originalmente esta estela pertencia ao faraó Amenhotep III (Amenofis III), da XVIII dinastia.

 

Referências:

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Fólio, 2008.

DAVID, Rosalie; DAVID, Antony. A Biographical Dictionary of Ancient Egypt. London: Steaby, 1992.

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

Êxodo hebreu no Egito: aconteceu ou não?

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

O mito do êxodo hebreu no Egito é provavelmente um dos temas mais complicados a ser abordado pela a Arqueologia, isto porque fala justamente de crença religiosa de muitas pessoas da atualidade, e este assunto deixa os ânimos extremamente sensíveis. Infelizmente, apesar de abortar crenças modernas, ele tem sido tratado de forma tão pouco rigorosa que acaba sendo alvo de documentários e matérias esdrúxulas que criam um cenário bizarro.

Conheço a história do êxodo hebreu desde que me entendo por gente, meus pais sempre tiveram em casa matérias sobre Arqueologia. O meu pai, em especial, era aficionado em ver documentários e a maioria na época se não falasse das expedições de Jacques-Yves Cousteau falavam das chamadas cidades santas, logo, não demorou muito para que eu acabasse pegando a mania de ver filmes clássicos bíblicos (provavelmente se eu não me interessasse por Arqueologia Egípcia iria acabar parando na Arqueologia Bíblica ou do Oriente Próximo). Foi nesta época que conheci sobre um dos capítulos do Velho Testamento que fala dos principais acontecimentos da vida de um filho de escravos (afastando-se agora do mito, aos arqueólogos e egiptólogos, é importante citar que a definição de “escravidão” para a força trabalho na sociedade faraônica é um termo que precisa ser reavaliado) hebreus que, após ser lançado no rio Nilo, é adotado pela a filha do faraó. O nome da criança seria então Moisés.

Este nome no mundo ocidental praticamente não carece de apresentações, mas o que se conhece sobre a história de Moisés só pode ser vista na Bíblia (livro sagrado do cristianismo) que traz o Antigo Testamento (Tanakh).

O que torna a narrativa do êxodo hebreu tão polêmica é que, apesar de toda a manifestação em volta desta história, em termos de cultura material ou outros escritos que não sejam bíblicos não existe nada que fale da ocorrência de um êxodo da magnitude demonstrada no Velho Testamento que tenha ocorrido no Egito, ou mesmo que se tenha existido uma comunidade israelita na época em que apontam a ocorrência do êxodo. Embora a afirmação de que os egípcios jamais narravam suas derrotas seja válida em termos teóricos, na prática, a Arqueologia trabalha não só com documentos escritos, mas também com a cultura material (artefatos). De acordo com a Bíblia, desde os filhos de Israel (pai de José) até Moisés, gerações de hebreus floresceram até que um dado momento seu número superavam aos dos egípcios na região. As pessoas sempre estão usando e abusando de cultura material, e não seria tão difícil encontrar vestígios de uma sociedade com pontos tão diferenciados das dos egípcios em seu próprio território. Usemos a cidade de Akhetaton como exemplo: ela teve somente dezessete anos de atividades e após breve período foi abandonada e desmontada para se esconder a religião rival da do deus Amon em Tebas. No século XIX seus restos (estruturas de casas, restos de estátuas para uso privado, restos de imagens parietais, cemitérios, etc) foram encontrados e passíveis de serem estudados.

Entre Arqueólogos e Egiptólogos quase existe um consenso de que não existiu o êxodo bíblico no Egito, e nem sequer bairros israelitas, no entanto, a “Estela de Merenptah” (ou como presunçosamente é chamada de “Estela de Israel”), que fala sobre as vitórias deste faraó contra os inimigos do Egito, faz uma listagem dos países derrotados por Merenptah, faraó da XIX Dinastia. Nesta declaração, dentre muitos hieróglifos está um conjunto que pode estar falando de Israel. Por este hieróglifo estar acompanhado pela a imagem de um homem e uma mulher (e não dos símbolos que indicam um país), acredita-se que estaria falando de um povo nômade ou uma tribo, mas não existe certeza quando ao seu significado. Esta estela foi encontrada no templo mortuário de Merenptah e originalmente pertencia a Amenhotep III da XVIII Dinastia. Hoje ela pode ser visitada no Museu Egípcio, no Cairo.

Estela de Merenptah. Retirado de Merneptah Stele. Disponível em < http://www.flickr.com/photos/frankrytell/2155909119/ > Acesso em 24 de Abril de 2011.

Com a existência da “Estela de Merenptah” foi sugerido que o faraó do êxodo seria Ramsés II, já que ele, quando subiu ao trono, ordenou a construção da cidade de Pi-Ramsés no Delta do Nilo. Quando Ramsés chegou ao fim da vida o seu primogênito Amunherwenewmef já estava morto. Merenptah, seu sucessor, era seu décimo terceiro filho. Como Ramsés ordenou a criação de uma nova capital no Delta (de certa forma próximo ao Mar Vermelho, o caminho de escape dos hebreus na fuga do Egito) e seu primogênito morreu muito antes do faraó especulou-se que este seria o governante egípcio que teria enfrentado Moisés e o seu sucessor teria lutado e derrotado os israelitas marcando então sua vitória na estela. Mas pelos motivos já citados anteriormente no texto não há nada que comprove a vivência hebreia no Egito.

 

O que é o Êxodo

A palavra “êxodo” significa “saída” e no caso desta parte da Bíblia a ideia central é a liberdade do povo e a aliança então estabelecida entre o deus dos hebreus e os homens que, por sua vez, recebem diretamente da divindade as leis que transformaria a relação entre as pessoas.

A bíblia narra que após a morte de José (que foi vendido por seus próprios irmãos como escravo para os egípcios) e de toda sua geração, os filhos de seus filhos se multiplicaram e tornaram-se numerosos e poderosos nas terras do Egito. Por já ter passado anos da morte de José (que tinha sido amado pelo o faraó e sua família já que previu uma seca de sete anos que, se não fosse seu aviso prévio, teria matado a população de fome), o novo faraó não conhecia sua história e vendo que os filhos de Israel eram muitos e com o medo de que em caso de guerra eles se aliassem com os inimigos do Egito, foram transformados em escravos e obrigados a construir as cidades-armazéns de Pitom e Ramsés. A bíblia ainda fala que o faraó ordena, em um dado momento, que todos os meninos que nascessem de uma hebreia fossem jogados no Nilo, mas as meninas poderiam viver. Porém, uma das hebreias conseguiu esconder o filho por três meses, e vendo que não era mais capaz de manter oculta a criança lacrou um cesto com betume. Feito isto colocou dentro o bebê, e o deixou boiar no Nilo. Descendo o rio, o cesto acabou sendo encontrado pela a filha do faraó e sua comitiva que a preparava para o banho. A princesa adotou o menino e deu para ele o nome de Moisés.

Quando crescido e após ter visto o seu povo escravizado, Moisés se compadeceu e matou um egípcio que maltratava um hebreu. Sabendo do ocorrido o faraó ordena a morte de Moisés, mas este foge e após receber um chamado divino retorna ao Egito para tentar libertar os hebreus – que já eram mais numerosos que os próprios egípcios da região – da escravidão.

Ao se encontrar com o faraó, Moisés e seu irmão Aarão tentam convencê-lo a libertar os escravos, mas estes eram numerosos e praticamente a força de trabalho do país, assim, o faraó não os deixa ir e ainda os castiga retirando a palha pronta para que fizessem os tijolos e os sobrecarrega de trabalho para que não pensassem em seu deus.

Em uma tentativa de mostrar os prodígios do deus dos hebreus e assim convencer o faraó, Moisés e Aarão foram tentar mais um diálogo com o regente egípcio, mas desta vez transformou sua vara (que carregava desde o início de sua jornada) em uma cobra, o faraó não se impressionou e ordenou que os seus sacerdotes fizessem a mesma coisa, os mesmos o fizeram e também com sucesso. Na manhã seguinte Moisés e Aarão procuram o faraó às margens do Nilo e não conseguindo mais uma vez convencê-lo transforma a água do rio, reservatórios, canais e vasilhames em sangue. Os sacerdotes egípcios realizaram o mesmo truque e assim o faraó não se convence.

As pragas do Egito retratadas por Joseph Turner em 1800. Disponível em < http://www.grahamphillips.net/news/plagues.htm> Acesso em 22 de Abril de 2011.

Outras tentativas são feitas, mas o faraó não cede, e assim o deus dos hebreus vai lançando pragas no Egito, estando na ordem: transformar água em sangue, rãs, piolhos, moscas, peste nos animais, chagas, chuva de pedras e raios, gafanhotos, eclipse e morte dos primogênitos.

Morte do primogênito do faraó por Rifa’a el-Tahtawy. Disponível em < http://www.ancienthistory.about.com/od/epidemics/tp/10plaguesegypt.htm>Acesso em 22 de Abril de 2011.

A última praga levou a vida do primogênito do faraó, que então resolve deixar os hebreus partirem. Mas o regente volta atrás em sua decisão e persegue os seus então ex-escravos até chegar ao Mar Vermelho, onde Moisés abre um caminho entre as águas deixando o exército do faraó para atrás.

Após vagar por três meses eles chegaram ao Sinai e levantaram acampamento onde se deu início a aliança em que Moisés recebe os 10 Mandamentos, armazenados então na Arca da Aliança. Entender o Êxodo é entender alguns dos princípios da fé judaica e cristã e a comiseração de deus com o homem, além de que este é um dos capítulos mais importantes do Velho Testamento.

Êxodo na cultura atualmente

◘ O cinema fez muito uso de temas como as das 10 Pragas do Egito, Os 10 Mandamentos e A Arca da Aliança, esta última bate lado a lado, em termos de popularidade, com o Santo Graal, ambos transformados em ícones do mundo da “Arqueologia Pop” idealizada por George Lucas e Steven Spielberg nos filmes do Indiana Jones.

◘ A banda Metallica gravou e lançou entre 1983 e 1984 a música “Creeping Death” que fala sobre o clamor do deus hebreu pedindo para que o faraó liberte seu povo da escravidão e a última praga.

◘ Em 1998 a DreamWorks lançou o filme em desenho animado O Príncipe do Egito, um dos primeiros a tratarem Ramsés II como o faraó do Êxodo.

◘ No filme “Todo Poderoso”, de 2003, o ator Jim Carrey faz uma analogia a abertura do Mar Vermelho com uma tigela de leite.

◘ No show “Hermanoteu na terra de Godah”, de “Os Melhores do Mundo” ocorre uma sátira ao Êxodo.