20 May 2012

Êxodo hebreu no Egito: aconteceu ou não?

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 24 - abril - 2011

 

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

O mito do êxodo hebreu no Egito é provavelmente um dos temas mais complicados a ser abordado pela a Arqueologia, isto porque fala justamente de crença religiosa de muitas pessoas da atualidade, e este assunto deixa os ânimos extremamente sensíveis. Infelizmente, apesar de abortar crenças modernas, ele tem sido tratado de forma tão pouco rigorosa que acaba sendo alvo de documentários e matérias esdrúxulas que criam um cenário bizarro.

Conheço a história do êxodo hebreu desde que me entendo por gente, meus pais sempre tiveram em casa matérias sobre Arqueologia. O meu pai, em especial, era aficionado em ver documentários e a maioria na época se não falasse das expedições de Jacques-Yves Cousteau falavam das chamadas cidades santas, logo, não demorou muito para que eu acabasse pegando a mania de ver filmes clássicos bíblicos (provavelmente se eu não me interessasse por Arqueologia Egípcia iria acabar parando na Arqueologia Bíblica ou do Oriente Próximo). Foi nesta época que conheci sobre um dos capítulos do Velho Testamento que fala dos principais acontecimentos da vida de um filho de escravos (afastando-se agora do mito, aos arqueólogos e egiptólogos, é importante citar que a definição de “escravidão” para a força trabalho na sociedade faraônica é um termo que precisa ser reavaliado) hebreus que, após ser lançado no rio Nilo, é adotado pela a filha do faraó. O nome da criança seria então Moisés.

Este nome no mundo ocidental praticamente não carece de apresentações, mas o que se conhece sobre a história de Moisés só pode ser vista na Bíblia (livro sagrado do cristianismo) que traz o Antigo Testamento (Tanakh).

O que torna a narrativa do êxodo hebreu tão polêmica é que, apesar de toda a manifestação em volta desta história, em termos de cultura material ou outros escritos que não sejam bíblicos não existe nada que fale da ocorrência de um êxodo da magnitude demonstrada no Velho Testamento que tenha ocorrido no Egito, ou mesmo que se tenha existido uma comunidade israelita na época em que apontam a ocorrência do êxodo. Embora a afirmação de que os egípcios jamais narravam suas derrotas seja válida em termos teóricos, na prática, a Arqueologia trabalha não só com documentos escritos, mas também com a cultura material (artefatos). De acordo com a Bíblia, desde os filhos de Israel (pai de José) até Moisés, gerações de hebreus floresceram até que um dado momento seu número superavam aos dos egípcios na região. As pessoas sempre estão usando e abusando de cultura material, e não seria tão difícil encontrar vestígios de uma sociedade com pontos tão diferenciados das dos egípcios em seu próprio território. Usemos a cidade de Akhetaton como exemplo: ela teve somente dezessete anos de atividades e após breve período foi abandonada e desmontada para se esconder a religião rival da do deus Amon em Tebas. No século XIX seus restos (estruturas de casas, restos de estátuas para uso privado, restos de imagens parietais, cemitérios, etc) foram encontrados e passíveis de serem estudados.

Entre Arqueólogos e Egiptólogos quase existe um consenso de que não existiu o êxodo bíblico no Egito, e nem sequer bairros israelitas, no entanto, a “Estela de Merenptah” (ou como presunçosamente é chamada de “Estela de Israel”), que fala sobre as vitórias deste faraó contra os inimigos do Egito, faz uma listagem dos países derrotados por Merenptah, faraó da XIX Dinastia. Nesta declaração, dentre muitos hieróglifos está um conjunto que pode estar falando de Israel. Por este hieróglifo estar acompanhado pela a imagem de um homem e uma mulher (e não dos símbolos que indicam um país), acredita-se que estaria falando de um povo nômade ou uma tribo, mas não existe certeza quando ao seu significado. Esta estela foi encontrada no templo mortuário de Merenptah e originalmente pertencia a Amenhotep III da XVIII Dinastia. Hoje ela pode ser visitada no Museu Egípcio, no Cairo.

 

Estela de Merenptah. Retirado de Merneptah Stele. Disponível em < http://www.flickr.com/photos/frankrytell/2155909119/ > Acesso em 24 de Abril de 2011.

 

Com a existência da “Estela de Merenptah” foi sugerido que o faraó do êxodo seria Ramsés II, já que ele, quando subiu ao trono, ordenou a construção da cidade de Pi-Ramsés no Delta do Nilo. Quando Ramsés chegou ao fim da vida o seu primogênito Amunherwenewmef já estava morto. Merenptah, seu sucessor, era seu décimo terceiro filho. Como Ramsés ordenou a criação de uma nova capital no Delta (de certa forma próximo ao Mar Vermelho, o caminho de escape dos hebreus na fuga do Egito) e seu primogênito morreu muito antes do faraó especulou-se que este seria o governante egípcio que teria enfrentado Moisés e o seu sucessor teria lutado e derrotado os israelitas marcando então sua vitória na estela. Mas pelos motivos já citados anteriormente no texto não há nada que comprove a vivência hebreia no Egito.

 

 

O que é o Êxodo

A palavra “êxodo” significa “saída” e no caso desta parte da Bíblia a ideia central é a liberdade do povo e a aliança então estabelecida entre o deus dos hebreus e os homens que, por sua vez, recebem diretamente da divindade as leis que transformaria a relação entre as pessoas.

A bíblia narra que após a morte de José (que foi vendido por seus próprios irmãos como escravo para os egípcios) e de toda sua geração, os filhos de seus filhos se multiplicaram e tornaram-se numerosos e poderosos nas terras do Egito. Por já ter passado anos da morte de José (que tinha sido amado pelo o faraó e sua família já que previu uma seca de sete anos que, se não fosse seu aviso prévio, teria matado a população de fome), o novo faraó não conhecia sua história e vendo que os filhos de Israel eram muitos e com o medo de que em caso de guerra eles se aliassem com os inimigos do Egito, foram transformados em escravos e obrigados a construir as cidades-armazéns de Pitom e Ramsés. A bíblia ainda fala que o faraó ordena, em um dado momento, que todos os meninos que nascessem de uma hebreia fossem jogados no Nilo, mas as meninas poderiam viver. Porém, uma das hebreias conseguiu esconder o filho por três meses, e vendo que não era mais capaz de manter oculta a criança lacrou um cesto com betume. Feito isto colocou dentro o bebê, e o deixou boiar no Nilo. Descendo o rio, o cesto acabou sendo encontrado pela a filha do faraó e sua comitiva que a preparava para o banho. A princesa adotou o menino e deu para ele o nome de Moisés.

Quando crescido e após ter visto o seu povo escravizado, Moisés se compadeceu e matou um egípcio que maltratava um hebreu. Sabendo do ocorrido o faraó ordena a morte de Moisés, mas este foge e após receber um chamado divino retorna ao Egito para tentar libertar os hebreus - que já eram mais numerosos que os próprios egípcios da região – da escravidão.

Ao se encontrar com o faraó, Moisés e seu irmão Aarão tentam convencê-lo a libertar os escravos, mas estes eram numerosos e praticamente a força de trabalho do país, assim, o faraó não os deixa ir e ainda os castiga retirando a palha pronta para que fizessem os tijolos e os sobrecarrega de trabalho para que não pensassem em seu deus.

Em uma tentativa de mostrar os prodígios do deus dos hebreus e assim convencer o faraó, Moisés e Aarão foram tentar mais um diálogo com o regente egípcio, mas desta vez transformou sua vara (que carregava desde o início de sua jornada) em uma cobra, o faraó não se impressionou e ordenou que os seus sacerdotes fizessem a mesma coisa, os mesmos o fizeram e também com sucesso. Na manhã seguinte Moisés e Aarão procuram o faraó às margens do Nilo e não conseguindo mais uma vez convencê-lo transforma a água do rio, reservatórios, canais e vasilhames em sangue. Os sacerdotes egípcios realizaram o mesmo truque e assim o faraó não se convence.

 

As pragas do Egito retratadas por Joseph Turner em 1800. Disponível em < http://www.grahamphillips.net/news/plagues.htm> Acesso em 22 de Abril de 2011.

 

Outras tentativas são feitas, mas o faraó não sede, e assim o deus dos hebreus vai lançando pragas no Egito, estando na ordem: transformar água em sangue, rãs, piolhos, moscas, peste nos animais, chagas, chuva de pedras e raios, gafanhotos, eclipse e morte dos primogênitos.

 

Morte do primogênito do faraó por Rifa'a el-Tahtawy. Disponível em < http://www.ancienthistory.about.com/od/epidemics/tp/10plaguesegypt.htm>Acesso em 22 de Abril de 2011.

 

A última praga levou a vida do primogênito do faraó, que então resolve deixar os hebreus partirem. Mas o regente volta atrás em sua decisão e persegue os seus então ex-escravos até chegar ao Mar Vermelho, onde Moisés abre um caminho entre as águas deixando o exército do faraó para atrás.

Após vagar por três meses eles chegaram ao Sinai e levantaram acampamento onde se deu início a aliança em que Moisés recebe os 10 Mandamentos, armazenados então na Arca da Aliança. Entender o Êxodo é entender alguns dos princípios da fé judaica e cristã e a comiseração de deus com o homem, além de que este é um dos capítulos mais importantes do Velho Testamento.

 

Êxodo na cultura atualmente

◘ O cinema fez muito uso de temas como as das 10 Pragas do Egito, Os 10 Mandamentos e A Arca da Aliança, esta última bate lado a lado, em termos de popularidade, com o Santo Graal, ambos transformados em ícones do mundo da “Arqueologia Pop” idealizada por George Lucas e Steven Spielberg nos filmes do Indiana Jones.

◘ A banda Metallica gravou e lançou entre 1983 e 1984 a música “Creeping Death” que fala sobre o clamor do deus hebreu pedindo para que o faraó liberte seu povo da escravidão e a última praga.

◘ Em 1998 a DreamWorks lançou o filme em desenho animado O Príncipe do Egito, um dos primeiros a tratarem Ramsés II como o faraó do Êxodo.

◘ No filme “Todo Poderoso”, de 2003, o ator Jim Carrey faz uma analogia a abertura do Mar Vermelho com uma tigela de leite.

◘ No show “Hermanoteu na terra de Godah”, de “Os Melhores do Mundo” ocorre uma sátira ao Êxodo.

 

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Sobre o autor:

Márcia Jamille Costa

Arqueóloga formada pela UFS e atualmente mestranda em Arqueologia também na UFS. É administradora do Arqueologia Egípcia. Está se especializando em Arqueologia Marítima Egípcia. É fascinada pela história e literatura japonesa (Era Heian), hinduísmo, budismo e mitologia asteca. [Leia seu perfil] | [Postagens do seu blog no A.E.] | [Siga o seu Twitter]

12 Comentários para “Êxodo hebreu no Egito: aconteceu ou não?”

  1. Gisele disse:

    Olá Márcia,

    Primeiramente gostaria de parabenizá-la pelo site, é excelente e suas matérias também. Acho a sua profissão maravilhosa e tenho uma certa admiração por história, principalmente, do Antigo Egito. Acredito que as histórias que constam na Bíblia Sagrada são apenas exemplos figurativos para que as pessoas entendessem…e não histórias reais levadas ao pé da letra, não é mesmo? Até a Cabala mesmo refere-se ao faraó do êxodo como sendo uma “prisão” e não como um homem que viveu e morreu. As pragas do Egito já aconteciam antes mesmo de Moisés rogá-las. E a passagem da abertura do mar também requer o uso de grande imaginação. Foram usados grandes simbolismos, mas as pessoas teimam em dizer que foi tudo verdade. rs
    beijos

  2. Celeste disse:

    Estou atualmente fazendo um projeto de monografia de teologia a qual pretendo abordar o assunto da influencia do Antigo Egito na teologia crista. Preciso de ajuda de uma pessoa que tenha dominio sobre o assunto. me manda um e-mail, fico no aguardo.

    E parabéns pela postagem.

    • Oi Celeste,
      Interessante seu tema, não conheço muito sobre a mitologia cristã, por isto creio que não sou lá a pessoa mais indicada para tentar ajudar. Você poderia procurar alguns dos trabalhos de Flinders Petrie que trabalhou alguns anos com o tema da Arqueologia Bíblica e Egípcia. Tem o “monoteísmo” de Akhenaton que alguns acham que influenciou a criação do judaísmo (embora eu discorde). Talvez o Bob Brier tenha escrito alguma coisa sobre, já que ele gosta de temas relacionados. Muitos egiptólogos europeus da virada do século procuraram relações entre passagens da Bíblia e o Egito, por isto tentaram fazer ligações entre a “Santíssima Trindade” e Osíris, Ísis e Hórus, outros tentaram provar que A Virgem Maria foi baseada, em verdade, na deusa Ísis, já que Hórus teria sido “concebido sem pecado” . Outra coisa interessante de citar é que antes da invasão napoleônica o que se sabia sobre a antiguidade egípcia era vista, principalmente, na Bíblia, já que o Egito encontrava-se a séculos, fora de contato da Europa.
      Abraço,
      Márcia

  3. Juliano da Mata disse:

    Excelente Márcia.
    Eu pesquiso bastante a relação histórica com base na Mitologia, e eu me surpreendo com as semelhanças com a mitologia, como a “Epopeia de Gilgamesh”, um relato sumério e extra bíblico que narra a historia do Dilúvio e o Código Hamurabi influenciou ou não os escribas hebreus? Eu queria saber se Você tem alguma informação se o Pergaminho de Ipuwer tem base histórica do relato das Pragas narrado pelo o autor são datados da época do suposto êxodo. A ignorância neste pais leva uma multidão de gente a seguir este mito ao pé dá letra. Os hebreus antes do cativeiro babilônico cultuavam vários deuses, eu comecei a entender que o Zoroastro influenciou bastante judaísmo como uma religião monoteísta, quando eles foram libertos pelo o Rei Ciro, o Grande.
    Márcia eu assistir um programa de um canal protestante e o apresentador é um Dr. em Arqueologia, e eu não entendo como ele quer insistir que a arqueologia tem a capacidade em provar que a bíblia é verdadeira, a bíblia é voltada ao etnocentrismo de um povo e isso ocorre praticamente em todas as culturas. Quem foi que influenciou a bíblia foi à epopeia de gilgamesh ou a bíblia influenciou a epopeia? Pelo o que me parece a bíblia foi feita depois da epopeia com um processo passado oralmente entre os escribas. O arqueólogo FINKELSTEIN israelense sofreu muitas criticas por discordar da narrativa bíblica – A Jerusalém do Rei David, acrescentou Finkelstein, “não era nada além de uma pobre vila na época”.
    Eu posso até tá errado por que errar é humano, os escribas também são humano.
    Como diria Hegel “A religião é o ópio do povo”.
    Você uma das poucas que fala a respeito disso na internet por isso te dou meus parabéns.
    se eu tiver errado me corrija

    • Olá Juliano, obrigada por sua mensagem.
      O “Papiro de Ipuwer” não é aceito de forma unanime já que foi interpretado de formas diferentes, para alguns ele possui, inclusive, um ar profético (alguma catástrofe que viria a acontecer em uma determinada cidade egípcia), e não como o relato de algo que teria tido acontecido. Outros acreditam que alguns trechos dele foram utilizados para ilustrar o livro do Êxodo.
      Aproveitando seu apontamento sobre os escribas: é interessante inclusive buscar sobre as mãos que escreveram o livro (qual sua origem, suas crenças, suas fontes), isto pode elucidar sobre algumas questões.
      Abraços e obrigada por seu relato.
      Márcia

  4. vilma disse:

    Olá márcia?Estou fazendo doutorado em direito e adoro Arqueologia .Queria associar Akenaton/Amarna e o direito civil, pricipalmente com o tema ¨Personalidade Civil ¨.vc pode me ajudar?beijo,Vilma

  5. everaldo disse:

    olá marcia que bom encontrar um arqueologo na rede. Pegando um gancho aqui eu gostaria de perguntar se vc conhece o legado sumério e sua cultura. Vc conhece o trabalho do erudito hebreu zecharia sitchin, autor de CRONICAS DA TERRA? Se sim por favor me de sua opnião pessoal sobre o tema que Sithin aborda nas suas interpretações dos textos cuneiformes dessa sofisticada civilização. Um abrç…….

  6. Hudson disse:

    Eu realmente virei fan desse site… Ótimo trabalho dos escritores… Para mim que sou acadêmico de História da UFT e ainda estou fazendo TCC sobre egiptologia (o primeiro e único de toda instituição a pesquisar isso) estou amando todo o site… Parabéns pelo trabalho!!

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