“Memórias de amor, crime e morte”: conheça o filme “A Múmia” de 1932

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Quando muitos escutam a palavra “A Múmia” provavelmente lembram das aventuras cinematográficas hollywoodianas dos personagens fictícios Rick O’Connell (Brendan Fraser) e Evelyn Carnahan (Rachel Weisz), para destruir o vilão Imhotep (Arnold Vosloo), uma múmia egípcia ressuscitada cujo único objetivo é fazer o mal. Entretanto, o que os menos aficionados por esta franquia sabem é que O’Coonell não foi o primeiro a enfrentar um semimorto chamado Imhotep no cinema, ele é só o fruto de uma série de filmes da Universal Studios que traz o monstro “A Múmia”, cujo o último representante no momento é a princesa Ahmanet, de “A Múmia” de 2017.

— Saiba mais: A franquia de filmes “A Múmia” da Universal Studios

Imhotep (Boris Karloff) e Ankhesenamon (Zita Johann). Universal Studios.

O primeiro filme da franquia foi lançado em 1932, estrelando Boris Karloff, como Imhotep e depois dele, até o momento, se somam nove filmes. São os seguintes:

☥ “A Mão da Múmia” (1940);

☥ “A Tumba da Múmia” (1942);

☥ “O Fantasma da Múmia” (1944);

☥ “A Praga da Múmia” (1944);

☥ “Abbott e Costello caçando múmias no Egito” (1955);

☥ “A Múmia” (1999);

☥ “O Retorno da Múmia” (2001);

☥ “A Múmia: tumba do Imperador Dragão” (2008)

☥ “A Múmia” (2017)

O “A Múmia” de 32 tem um enredo bem simples: o corpo mumificado de um homem chamado Imhotep e uma misteriosa caixa são descobertos por uma missão britânica de arqueologia. Após uma rápida análise os pesquisadores descobrem que este homem foi sepultado vivo e sem direito as fórmulas mágicas necessárias para a sua viagem pelo além. Já a caixa possui um breve texto com a promessa de mau agouro para quem ousar abri-la.

— Foi gravado para o canal do Arqueologia Egípcia um vídeo supercompleto e cheio de curiosidades sobre esta obra:

Um estagiário curioso ignora a maldição e a abre encontrando em seu interior o Pergaminho de Thot cujas inscrições o rapaz traduz. O texto em questão é um poderoso feitiço que acaba ressuscitando Imhotep, que, por sua vez, foge do local levando consigo o pergaminho.

Anos mais tarde Imhotep reaparece, mas agora se chamando Ardath Bey. Ele tem em sua posse a localização da tumba de uma princesa chamada Ankhesenamon e a passa para um jovem arqueólogo que a encontra em pouco tempo.

Entretanto, o plano de Imhotep é ter acesso a múmia recém encontrada da Ankhesenamon para trazê-la de volta a vida, uma vez que ela foi seu antigo amor. A princesa foi o motivo do cruel fim de Imhotep, já que foi por tentar ressuscitá-la ainda na época do Egito Antigo — fazendo uso do Pergaminho de Thot — que ele recebeu a punição máxima, que era ser sepultado vivo, sem formulas sagradas para protegê-lo e sem oferendas mortuárias.

A execução deste plano seria tranquila se não fosse um problema: a princesa Ankhesenamon reencarnou e agora é uma jovem chamada Helen Grosvenor (Zita Johann). Passando a saber disso Imhotep fará de tudo para recuperar a sua amada.

Ankhesenamon (Zita Johann). Universal Studios.

Este “A Múmia” tornou-se o parâmetro para os demais filmes da temática na Universal Studios (e mesmo de outras produtoras). Se não fosse ele provavelmente nossa visão de maldições egípcias seria um pouco diferente e a presença de fantasias e enfeites retratando múmias na época do Halloween certamente não seria corriqueira.

Helen Grosvenor (Zita Johann). Universal Studios.

Quando assistimos a esta obra e comparamos com o que estava sendo lançado na época é de se admirar com o nível de criatividade. Quantos roteiristas hoje pensariam em ressuscitar uma múmia, seja lá de qual cultura, e fazê-la caminhar pelas ruas modernas? Não é à toa que esta fórmula foi usada e reusada tantas vezes pela Universal sem nenhuma preocupação.

Clique aqui para ler um spoiler

Outro ponto interessante é o desenrolar do filme: preste a sofrer um sacrifício para ser mumificada e libertar a alma de Ankhesenamon a Helen está totalmente indefesa. Em uma história clássica comum ela seria salva pelo mocinho do filme, mas o enredo vai para um outro lado. Ela, em prece a deusa Ísis, pede para que a divindade lhe ensine os antigos encantamentos que esqueceu, graças a reencarnação e é assim que ela consegue dar fim a Imhotep dando um desfecho a trama.

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Existem pontos do filme que são orientalistas, como alguns dos comentários da personagem Helen em relação ao Egito moderno: ela o trata quase como uma doença. O que é perfeito, aos seus olhos, é a antiguidade do país. Parece uma visão romântica do passado, mas também faz parte do discurso imperialista da época que, inclusive, era usado para justificar porque só os europeus podiam praticar a arqueologia no Egito e cuidar dos seus artefatos. Uma visão que assombra a Egiptologia e a Arqueologia Egípcia até os dias atuais.

Imhotep (Boris Karloff) e Helen Grosvenor (Zita Johann). Universal Studios.

Curiosidades:

☥ O nome “Imhotep” é uma homenagem ao arquiteto que construiu a primeira pirâmide egípcia: a “Pirâmide de Djoser”;

☥ O filme teve grande inspiração na descoberta da tumba do faraó Tutankhamon, ocorrida em 1922. É tanto que o nome da princesa, Ankhesenamon, é o nome da esposa desse rei;

☥ “Ardath Bey” é um anagrama que significa “morte por Rá”;

☥ Algumas cenas mostrando outras reencarnações da princesa Ankhesenamon foram gravadas, mas jamais foram utilizadas e se perderam com o tempo;

☥ Em “A Mão da Múmia” algumas cenas de “A Múmia” foram reaproveitadas;

☥ Na série mexicana “Chaves”, no episódio “Filme de Terror”, Chaves e Chiquinha assistem a essa obra;

☥ Na série “Bones” ele é exaustivamente citado no capítulo quinto da quita temporada, “A Night at the Bones Museum”,traduzido no Brasil como “O menino do coração que sangra”.

☥ A personagem Cleo de Nile de “Monster High” foi inspirada no monstro “A Múmia”.

Fotos de bastidores:

Fontes das curiosidades de bastidores:

The Mummy (1932) | UMDB. Disponível em < http://www.imdb.com/title/tt0023245/ >. Acesso em 08 de agosto de 2017.

Mummy Dearest: A Horror Tradition Unearthed (1999; Universal Studios).

(Resenha – filme) As Múmias do Faraó (2010)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Este texto não contém spoiller.

Lançado em meados de 2010, “As Múmias do Faraó” (Les Aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec, no original) é um filme francês inspirado nas HQs “As Múmias Loucas”, “Adèle e o Monstro” e “O sábio louco” do quadrinista Jacques Tardi. A trama é baseada na tentativa da Adèle Blanc-Sec (Louise Bourgoin) de curar a sua irmã, que sofreu um acidente que a deixou em uma espécie de coma. Para tal, a protagonista rouba uma múmia de um médico egípcio na esperança de ressuscitá-lo, para que ele utilize o seu avançado conhecimento para salvar a moça. Contudo, para que isso ocorra, Adèle precisa da ajuda do professor Marie-Joseph Espérandieu (Jacky Nercessian), um estudioso que descobriu como devolver a vida a pessoas e animais mortos há milênios. O problema é que em um dos treinos da sua técnica ele ressuscita um pterodáctilo (Sim! Um dinossauro!), que agora voa livre pelos os céus da França, levando o pânico à população.

O filme pode não agradar a muitos fãs da Antiguidade egípcia, até porque, apesar do título, o foco da trama está na bagunça proporcionada pelo despertar do dinossauro e nas tentativas da Adèlede de ter acesso a Espérandieu. A múmia roubada é um pequeno fio em toda a trama e o título brasileiro foi pensando totalmente fora do contexto [1]. Exatamente por isso que o título original, cuja a tradução é “As aventuras extraordinárias de Adèle Blanc-Sec”, teria feito muito mais sentido. Inclusive, o homem que aparece na capa brasileira não tem relação alguma com o restante da história, sendo praticamente um mero figurante.

“As Múmias do faraó”, a exemplo de outras produções cinematográficas, apela para a ideia de que o Egito Antigo é um lugar com poderes mágicos ocultos e ciência avançada (em um dado momento, por exemplo, é sugerido que nos tempos dos faraós eram realizados estudos de energias moleculares, o que é um equívoco).

Somado a isso, com a desculpa do entretenimento alguns absurdos, do ponto de vista da Arqueologia, são apresentados. O primeiro é a “máquina de mumificar”, um aparelho presente no início do filme e que, embora divertido, nunca existiu. Todo o processo de mumificação era realizado manualmente. O outro é o de que uma tumba teria uma entrada e uma saída, o que é totalmente errado; uma sepultura possuía somente uma porta que deveria ser lacrada. Em um vídeo para o canal do Arqueologia Egípcia listei e comentei mais algumas incoerências presentes no filme. Assista abaixo:

Uma sacada interessante do filme – e a qual não tenho muita certeza se foi proposital – é que a Adèle, em um momento de fuga, encontra um remo dentro de um sarcófago. Isso realmente poderia ocorrer, já que em espaços funerários egípcios não era incomum por artefatos de cunho aquático, tais como embarcações, desenhos de barcos e mesmo remos. Outra curiosidade, mas que não tem a ver com a Arqueologia, e sim com a história dos HQs na França: em um dado momento do filme alguns rapazes estão vendendo jornais e um deles é o “Excélsior”, que, na vida real, publicava história em quadrinhos. Claramente uma homenagem.

Considerações finais:

“As Múmias do Faraó” foi um filme que demorei para gostar. O assisti em 2010 ou 2011 e não foi do meu agrado. Precisei assisti-lo novamente em 2016 (para realizar esta resenha e gravar o vídeo para o Cine Arqueológico) para ele finalmente se mostrar um bom divertimento, apesar das suas peculiaridades. A Belle Époque, período em que se passa o filme, é apresentada de uma forma detalhada e quase nostálgica. O espectador se sente de fato como se pudesse vivenciar esse período. A direção de arte e figurino realmente fez um trabalho primoroso.

Adéle não é uma personagem feminina habitual. Não espere ver uma mulher dócil e introspectiva. Em verdade a personagem é desbocada, feroz e apaixonada por seus ideais (apesar de as vezes passar por cima da lei para alcançá-los). Suas atitudes acabam passando o recado de “ame-me ou odeia-me”, o que a torna humana, no final das contas. Em contrapartida, temos o personagem Andrej (com “j” de “jardim”, quem assistiu ao filme entenderá), um acadêmico modesto, esperto e correto, uma lufada de ar fresco entre tantos personagens com índole duvidosa (onde a própria Adèle está inclusa).

Por fim, não espere ver um filme de ação ao estilo “A Múmia” de 1999. “As múmias do faraó” está mais para uma comédia com um pouco de humor negro e personagens caricatos. A minha dica é que assistam a esse filme totalmente desprendidos de qualquer realidade histórica, divirtam-se, mas, claro, depois retornem para esse post para aprender um pouco.

Fotos de Bastidores:

Agradecimentos:

Ao Lucas Pimenta, fã das revistas da Adèle, por disponibilizar o seu tempo me auxiliando ao esclarecer alguns pontos sobre a personagem.


[1] ATENÇÃO, clicando no botão abaixo você lerá um spoiler:

Clique aqui para ler o spoiler

As tais múmias referem-se a uma exposição que está ocorrendo no Museu do Louvre. Elas são ressuscitadas pelo o professor e fecham o filme caminhando livres por Paris.

 

(Vídeo) Silly Symphony – Egyptian Melodies

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Em outra oportunidade cheguei a comentar aqui no A.E. sobre o Antigo Egito e os primórdios do cinema, post que é a tradução de um texto do curador do cinema mudo no British Film Institute, o Bryony Dixon. Nele Dixon rememora como o cinema fixou e reciclou imagens que tomamos como genuinamente advindas da Antiguidade faraônica, mas que em verdade são criações orientalistas.

Egyptian Melodies (Silly Symphony). 1931.

Em 1931 a Walt Disney estreou mundialmente a animação “Egyptian Melodies”, dentro da série “Silly Symphony”, e que nos apresenta uma aranha curiosa que adentra os corredores da Grande Esfinge e se depara com uma cena musical inusitada.

Igualmente a muitas produções de sua época, Egyptian Melodies bebeu da Egiptomania e do Orientalismo, onde somos apresentados ao ambiente do deserto com coqueiros, as pirâmides de Gizé (imagens favoritas naquela época e que costumavam resumir o que era o Egito para o público), inclusive a ideia de uma entrada para o interior da Esfinge, o que permeia a cabeça de muitas pessoas, principalmente aquelas que acreditam em algumas vertentes exotéricas. Abaixo o vídeo completo:

(Vídeo) O Egito Antigo nos filmes de terror

Neste vídeo convido vocês a fazerem um passeio comigo por algumas das obras cinematográficas de terror que tiraram inspiração da antiguidade egípcia. Naturalmente não citei alguns filmes, mas em breve liberarei em um segundo post mais detalhes sobre o tema e mais alguns títulos para vocês darem uma olhada.

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