(Resenha – filme) As Múmias do Faraó (2010)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Este texto não contém spoiller.

Lançado em meados de 2010, “As Múmias do Faraó” (Les Aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec, no original) é um filme francês inspirado nas HQs “As Múmias Loucas”, “Adèle e o Monstro” e “O sábio louco” do quadrinista Jacques Tardi. A trama é baseada na tentativa da Adèle Blanc-Sec (Louise Bourgoin) de curar a sua irmã, que sofreu um acidente que a deixou em uma espécie de coma. Para tal, a protagonista rouba uma múmia de um médico egípcio na esperança de ressuscitá-lo, para que ele utilize o seu avançado conhecimento para salvar a moça. Contudo, para que isso ocorra, Adèle precisa da ajuda do professor Marie-Joseph Espérandieu (Jacky Nercessian), um estudioso que descobriu como devolver a vida a pessoas e animais mortos há milênios. O problema é que em um dos treinos da sua técnica ele ressuscita um pterodáctilo (Sim! Um dinossauro!), que agora voa livre pelos os céus da França, levando o pânico à população.

O filme pode não agradar a muitos fãs da Antiguidade egípcia, até porque, apesar do título, o foco da trama está na bagunça proporcionada pelo despertar do dinossauro e nas tentativas da Adèlede de ter acesso a Espérandieu. A múmia roubada é um pequeno fio em toda a trama e o título brasileiro foi pensando totalmente fora do contexto [1]. Exatamente por isso que o título original, cuja a tradução é “As aventuras extraordinárias de Adèle Blanc-Sec”, teria feito muito mais sentido. Inclusive, o homem que aparece na capa brasileira não tem relação alguma com o restante da história, sendo praticamente um mero figurante.

“As Múmias do faraó”, a exemplo de outras produções cinematográficas, apela para a ideia de que o Egito Antigo é um lugar com poderes mágicos ocultos e ciência avançada (em um dado momento, por exemplo, é sugerido que nos tempos dos faraós eram realizados estudos de energias moleculares, o que é um equívoco).

Somado a isso, com a desculpa do entretenimento alguns absurdos, do ponto de vista da Arqueologia, são apresentados. O primeiro é a “máquina de mumificar”, um aparelho presente no início do filme e que, embora divertido, nunca existiu. Todo o processo de mumificação era realizado manualmente. O outro é o de que uma tumba teria uma entrada e uma saída, o que é totalmente errado; uma sepultura possuía somente uma porta que deveria ser lacrada. Em um vídeo para o canal do Arqueologia Egípcia listei e comentei mais algumas incoerências presentes no filme. Assista abaixo:

Uma sacada interessante do filme – e a qual não tenho muita certeza se foi proposital – é que a Adèle, em um momento de fuga, encontra um remo dentro de um sarcófago. Isso realmente poderia ocorrer, já que em espaços funerários egípcios não era incomum por artefatos de cunho aquático, tais como embarcações, desenhos de barcos e mesmo remos. Outra curiosidade, mas que não tem a ver com a Arqueologia, e sim com a história dos HQs na França: em um dado momento do filme alguns rapazes estão vendendo jornais e um deles é o “Excélsior”, que, na vida real, publicava história em quadrinhos. Claramente uma homenagem.

Considerações finais:

“As Múmias do Faraó” foi um filme que demorei para gostar. O assisti em 2010 ou 2011 e não foi do meu agrado. Precisei assisti-lo novamente em 2016 (para realizar esta resenha e gravar o vídeo para o Cine Arqueológico) para ele finalmente se mostrar um bom divertimento, apesar das suas peculiaridades. A Belle Époque, período em que se passa o filme, é apresentada de uma forma detalhada e quase nostálgica. O espectador se sente de fato como se pudesse vivenciar esse período. A direção de arte e figurino realmente fez um trabalho primoroso.

Adéle não é uma personagem feminina habitual. Não espere ver uma mulher dócil e introspectiva. Em verdade a personagem é desbocada, feroz e apaixonada por seus ideais (apesar de as vezes passar por cima da lei para alcançá-los). Suas atitudes acabam passando o recado de “ame-me ou odeia-me”, o que a torna humana, no final das contas. Em contrapartida, temos o personagem Andrej (com “j” de “jardim”, quem assistiu ao filme entenderá), um acadêmico modesto, esperto e correto, uma lufada de ar fresco entre tantos personagens com índole duvidosa (onde a própria Adèle está inclusa).

Por fim, não espere ver um filme de ação ao estilo “A Múmia” de 1999. “As múmias do faraó” está mais para uma comédia com um pouco de humor negro e personagens caricatos. A minha dica é que assistam a esse filme totalmente desprendidos de qualquer realidade histórica, divirtam-se, mas, claro, depois retornem para esse post para aprender um pouco.

Fotos de Bastidores:

Agradecimentos:

Ao Lucas Pimenta, fã das revistas da Adèle, por disponibilizar o seu tempo me auxiliando ao esclarecer alguns pontos sobre a personagem.


[1] ATENÇÃO, clicando no botão abaixo você lerá um spoiler:

Clique aqui para ler o spoiler

As tais múmias referem-se a uma exposição que está ocorrendo no Museu do Louvre. Elas são ressuscitadas pelo o professor e fecham o filme caminhando livres por Paris.

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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