Guerras ao modo antigo: resenha do livro “Fortificar o Nilo”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Não possuímos muitos títulos acadêmicos em português sobre a Antiguidade egípcia e quando um surge precisamos aproveitar a oportunidade. Este é o caso da obra “Fortificar o Nilo: a ocupação militar egípcia da Núbia na XII Dinastia (1980-1790 A.C.)”, do historiador e arqueólogo Eduardo Ferreira, que é mestre em História Militar.

Publicado pela Chiado Editora, editora parceira do nosso site, esse livro é o resultado de uma dissertação de mestrado cujo foco são as fortificações egípcias da 12ª Dinastia; como eram usadas, construídas, etc. As fortalezas abordadas são aquelas da Segunda Catarata do Nilo, na Baixa Núbia, atual Sudão, e que passaram por um resgate de emergência na década de 1970, por conta da construção da Represa de Assuã. E é graças a essa represa que alguns desses edifícios hoje encontram-se em baixo da água, estando somente duas ainda visíveis.

O autor, já de início, deixa claro que os pesquisadores, no geral, têm pouco interesse em História Militar, preferindo então focar em temas culturais ou religiosos. Esclarecendo isso é possível entender melhor a importância desta obra.

O livro é dividido em 4 capítulos, todos possuindo subcapítulos. E ao longo de suas páginas vocês encontrarão termos que não são muito comuns para o público não acadêmico, como é o caso de “Grupo C”, “Uauat”, que se refere a Baixa Núbia, “Kerma”, “ta-seti”, que significa “Terra do Arco” e que era um dos nomes dados pelos egípcios para Núbia, etc. No canal do Arqueologia Egípcia no Youtube fiz uma resenha bem completa deste livro. Confira a seguir:

No primeiro capítulo ele fala sobre o papel de alguns faraós da 12ª Dinastia na construção de fortes e a ameaça bélica da Núbia. Também apresenta os medjay e os satu. Os primeiros, a priori, eram relacionados com os núbios, até que o termo se tornou uma designação para qualquer tipo de militar. É tanto que nesse livro são citadas as mulheres medjay, mas isso em relação a sua etnia. E os segundos eram os arqueiros núbios.

Um dos pontos que o autor salienta é que os exércitos núbios, em especial o de Kerma, usualmente são subestimados por alguns pesquisadores, que os tomam como inferiores em relação aos egípcios. É aí que ele explica a sofisticação militar desses povos que, inclusive, faziam uso de frotas.

No segundo capítulo um dos primeiros tópicos abordados é sobre a demografia no Egito e as cidades muradas. E então o autor parte para as fortalezas, explicando que não se sabe muito sobre como os habitantes delas viviam nem sobre a sua organização.

O motivo de se fixar fortes na fronteira com a Núbia também é explicado: em termos simples era para controlar e fixar uma fronteira, além de, claro, servir de apoio e base para as operações militares.

Ele também explica muito brevemente a presença de artefatos arqueológicos pertencentes aos núbios dentro dessas estruturas, e esclarece que algumas populações nativas levantaram residências próximas as fortalezas. A conclusão do autor do porquê da presença dessas pessoas em um “território hostil” como esse é de que essa proximidade com as fortalezas teria relação com a busca por proteção contra outros grupos também nativos da Núbia.

No terceiro capítulo ele trata dos elementos arquitetônicos dessas estruturas, abordado pontos como proteção e captação de água. Assim como questões sobre a vida dos soldados egípcios que viviam nesses lugares. As discussões sobre as formas de acesso, como portas e escadas, claro que também estão inclusas, assim como a existência, ou suposta existência, de espaços como quartel-general, arsenal, celeiros e casas de banho.

Já sobre a residência de generais e dos soldados comuns é uma grande incógnita e em complemento o autor se pergunta quantos indivíduos poderiam viver lá e qual a capacidade agrícola de um lugar desses.

Então no quarto capítulo é levantada a questão de quem eram as pessoas destacadas para ir para os fortes, discutindo o número de contingentes. Que tipo de pessoa aceitaria esse trabalho? O que eles ganhariam em troca? Eles recebiam algum incentivo financeiro? Novos cargos? Sabe-se que no Médio Reino os comandantes possuíam o cargo de “Generalíssimo” e no Novo Império eles passaram a ser vice-reis da Núbia, e isso seria um grande estímulo para ir morar em um lugar tão isolado. Porém, não está comprovado a existência física de um generalíssimo nas fronteiras.

Ele igualmente aborda como o recrutamento era realizado, explicando que a cada 100 jovens de um determinado local, um era levado para servir. E ele complementa falando que os recrutas poderiam exercer funções de policiamento ou escolta. Então temos a apresentação do cargo de patrulheiro, que também eram chamados de “caçadores”. Eles patrulhavam o deserto, as fronteiras e as cidades.

Em seguida ele faz uma abordagem sobre os armamentos, locais para a sua manufatura e materiais usados para fazê-los. Dentre as armas citadas estão as lanças, arcos, flechas, maçãs, machado, punhais e espadas.

E finalmente chegamos as conclusões finais, onde ele faz um resumo do que levantou no livro.

 

Uma abordagem geral sobre “Fortificar o Nilo”:

Em um livro cujo foco está em estruturas arquitetônicas, senti muita falta de boas reconstituições das fortalezas, muralhas, torres de vigia e postos sinaleiros. Na verdade, a obra contém ilustrações, mas algumas estão com a qualidade comprometida ou não possuem muitas informações. Por isso, acredito que quem é só um curioso que está interessado em conhecer um pouco mais sobre a história egípcia pode ter certa dificuldade, enquanto que um acadêmico se sentirá mais à vontade.

Eu também queria ver uma lista com os nomes das fortalezas em um mapa maior e com uma qualidade melhor. Alguns dos encontrados no livro infelizmente possuem letras pequenininhas.

Tirando esses detalhes, a obra é bem referenciada, ou seja, os interessados no assunto terão várias sugestões de bibliografia. Sem contar que ele é uma ótima base para quem quer estudar o tema militar, até porque está em português. É desnecessário dizer que isso é um grande bônus.

Esteticamente é um livro bonito e as folhas amareladas tornam a leitura agradável. Isso me deixa ansiosa para saber qual será a próxima publicação sobre o Egito Antigo da Chiado Editora. Lembrando que eles publicaram também o livro “Gramática Fundamental de Egípcio Hieroglífico”.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Em uma delas você poderá ver o faraó pronto para a batalha em seu carro de guerra.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

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É descoberto o mais antigo sítio arqueológico de Tell Edfu (Egito)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Uma missão de arqueologia do Instituto Oriental da Universidade de Chicago descobriu em Tell Edfu um complexo administrativo que remonta do final da 5ª Dinastia (Antigo Reino). A equipe é composta por pesquisadores dos EUA e do Egito sob a coordenação da Dra. Nadine Mueller e o Dr. Gregory Marward.

Foto: Ministry of Antiquities

O Secretário Geral do Conselho Supremo de Antiguidades, Mostafa Waziri, disse que no momento esse complexo administrativo é a evidência arqueológica mais antiga encontrada em Tell Edfu. Até então a mais velha era datada da metade da 6ª dinastia.

A equipe trabalha nesse local desde 2014 e os pesquisadores estão bastante contentes com a descoberta. Um dos motivos é porque a construção possui evidências de expedições reais que foram organizadas durante esse período e que tinham como objetivo extrair minerais e pedras preciosas do Deserto Oriental. Esses mesmos edifícios foram usados ​​como armazéns para os produtos e mercadorias dessas expedições e constituem o que na época era um recém-fundado bairro de assentamentos na antiga cidade de Behdet (Edfu)

Foto: Ministry of Antiquities

Essa construção é do tipo monumental e foi feita com mudbrick (um tipo de tijolo de barro) e está próxima do Templo de Edfu, que foi construído séculos mais tarde, durante o Período Ptolomaico.

Foto: Ministry of Antiquities

Vários artefatos e algumas inscrições foram encontrados. Dentre eles estão 220 selos de tijolos de barro do rei Djedkaré Isesi (que ordenou uma famosa expedição a Punt), fragmentos de atividades de mineração, nomes dos trabalhadores que participaram de escavações (a exemplo do comandante Sementio) e obras mineiras. Também foram encontradas conchas do Mar Vermelho e potes advindos da Núbia (atual Sudão).

Foto: Ministry of Antiquities

Descobertas paralelas:

Próximo a Edfu também foram realizadas pesquisas. Na área de Kom Ombo estatuetas (tanto de deuses como de pessoas) foram encontradas. Assim como uma estela de pedra calcária que descreve um homem e sua esposa apresentando ofertas para uma deidade sentada

 

Fonte:

Oldest archaeological evidence in Aswan, Tel Edfu revealed. Disponível em < http://www.egypttoday.com/Article/4/39872/Oldest-archaeological-evidence-in-Aswan-Tel-Edfu-revealed >. Acesso em 11 de janeiro de 2018.

Archaeologists unveil two major discoveries in Upper Egypt’s Tel Edfu and Kom Ombo. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/287937/Heritage/Ancient-Egypt/Archaeologists-unveil-two-major-discoveries-in-Upp.aspx >. Acesso em 11 de janeiro de 2018.

Press Release Jan. 2018 (submitted Dec. 2017). Disponível em < https://telledfu.uchicago.edu/news/press-release-jan-2018-submitted-dec-2017 >. Acesso em 11 de janeiro de 2018.

(Artigo) Distâncias egípcias, encontros núbios

Distâncias egípcias, encontros núbios: interações culturais e fronteiras étnicas no Novo Império egípcio – Fábio Amorim Vieira | Português |

Caracterizado pelos expressivos contatos egípcios com povos estrangeiros, o período denominado de Novo Império, entre 1580 e 1080 a. C., fornece evidências do processo de estabelecimento de relações étnicas e intercâmbios culturais entre os povos do Egito e os seus vizinhos estrangeiros do sul, na Núbia. Este artigo anseia perceber as fronteiras culturais, formações de identidades étnicas e relações de contato edificadas, mantidas e transformadas entre egípcios e núbios no contexto do nordeste saariano.

Obtenha o artigo Distâncias egípcias, encontros núbios: interações culturais e fronteiras étnicas no Novo Império egípcio

【Artigo】Interações culturais e fronteiras étnicas no Novo Império egípcio

Distâncias egípcias, encontros núbios: interações culturais e fronteiras étnicas no Novo Império egípcio | Fábio Amorim Vieira | Português |

Caracterizado pelos expressivos contatos egípcios com povos estrangeiros, o período denominado de Novo Império, entre 1580 e 1080 a. C., fornece evidências do processo de estabelecimento de relações étnicas e intercâmbios culturais entre os povos do Egito e os seus vizinhos estrangeiros do sul, na Núbia. Este artigo anseia perceber as fronteiras culturais, formações de identidades étnicas e relações de contato edificadas, mantidas e transformadas entre egípcios e núbios no contexto do nordeste saariano.

Obtenha o artigo Distâncias egípcias, encontros núbios: interações culturais e fronteiras étnicas no Novo Império egípcio

Meroe é agora Patrimônio da Humanidade

Na 35 ª reunião do Comitê da UNESCO em Paris, que ocorreu neste mês, foi decidido que os sítios arqueológicos da Ilha de Meroe (Meroé), que fica ao norte de Cartum, devem ser declarados Patrimônio da Humanidade.

Sítios arqueológicos da Ilha de Meroe – Sudão. Foto BBC Brasil. Disponível em < http://noticias.br.msn.com/fotos/galeria-bbc.aspx?cp-documentid=29312472&page=2 >Acesso em 30 de Junho de 2011.

A Ilha fica entre os rios Nilo e Atbara e foi na antiguidade o centro do reino de Kush que chegou a rivalizar fortemente com os egípcios. Para saber mais sobre este povo está abaixo uma matéria que saiu na revista Planeta em Novembro de 2010:

O mistério dos faraós negros

Uma civilização africana que rivalizou com os antigos egípcios e, por um século, chegou a dominá-los: eis o império kush, localizado na região da Núbia, atual Sudão. Construtores de pirâmides e criadores de uma língua ainda não decifrada, os kushitas são hoje em dia um dos mais fascinantes desafios da arqueologia.

Maroe. Foto: O mistério dos faraós negros. Disponível em < http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/458/artigo193222-1.htm> Acesso em 30 de Junho de 2011.

País dilacerado pela guerra civil, comandado por um presidente – Omar al-Bashir – condenado pelo Tribunal Penal Internacional de Haia e eventual abrigo de militantes da rede terrorista islâmica Al-Qaeda, o Sudão não cativa muitos turistas para visitar suas atrações. Isso ajuda a fazer daqueles que conseguem assistir ao pôr do sol nas pirâmides de Meroe, a última capital do império Kush (a antiga Núbia), a 200 quilômetros a nordeste de Cartum, privilegiados espectadores de uma paisagem única e preciosa.
Guillemette Andreu, chefe de antiguidades do Museu do Louvre, na França, disse à agência de notícias AFP que o que diferencia as pirâmides egípcias das núbias é que, no Egito, boa parte da beleza desses monumentos é ofuscada pelas multidões de turistas. As tumbas no Sudão, por outro lado, não foram totalmente exploradas e ainda não ganharam muita atenção do público.

Uma das mais antigas civilizações do vale do Nilo, Kush tinha seu núcleo principal na confluência dos rios Nilo Azul, Nilo Branco e Atbara, mas se estendia por 1.200 quilômetros às margens do maior curso d’água da África. Inicialmente, a região era dominada pelos egípcios. Os kushitas conseguiram a independência e, no auge de seu poderio, conquistaram o Egito no século 8 d.C. Durante um século eles imperaram em todo o vale do Nilo, até serem obrigados a retroceder às terras do atual Sudão. A dinastia de Meroe foi a última numa linhagem de “faraós negros” que governou Kush por mais de um milênio, até 350 d.C., quando o império, já enfraquecido pelas guerras contra o Egito, então sob domínio romano, foi invadido e subjugado pelas tropas de Ezana, rei de Axum (a atual Etiópia).

As pirâmides núbias são mais baixas que as egípcias – a maior possui 30 metros de altura – e mais pontudas, com ângulos de aproximadamente 70 graus de inclinação. Em Meroe foram encontrados três cemitérios, com mais de 100 pirâmides. Embora essas edificações tivessem sido cuidadosamente escavadas, revelando diversos objetos que expandem o conhecimento sobre a cultura kushita, muitos aspectos dessa civilização permanecem envolvidos em mistério. Até mesmo a cronologia dos fatos ainda não é precisa, ressaltou à AFP Salah Mohammed Ahmed, diretor assistente de antiguidades do Sudão.

Vista parcial do Templo de Amon (antigo Templo de Naga), erguido pelo povo kush. Foto: O mistério dos faraós negros. Disponível em < http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/458/artigo193222-1.htm> Acesso em 30 de Junho de 2011.

Os arqueólogos também descobriram na região um grande número de pilares de pedras com inscrições, denominados estelas. Seu conteúdo ainda não foi decifrado, pois os pesquisadores conhecem o significado de apenas 50 palavras meroítas e calcula-se que esse número precisa chegar a pelo menos mil para se conseguir uma tradução adequada. Julie Anderson, arqueóloga do Museu Britânico e co-diretora, com Ahmed, responsável pelas escavações em Dangeil, no norte do Sudão, afirmou à AFP: “Se conseguirmos decifrar essa linguagem, um novo mundo se abrirá para nós, como se os kushitas antigos estivessem conversando conosco.” Sua equipe descobriu no início deste ano uma estátua de uma tonelada do rei Taharqa, o mais famoso dos faraós negros, que governou por volta do ano 7 a.C.

Baixo-relevo do sítio arqueológico de Meroe, a 300 quilômetros da capital sudanesa, Cartum. Foto: O mistério dos faraós negros. Disponível em < http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/458/artigo193222-2.htm> Acesso em 30 de Junho de 2011.

Meroe é apenas o reduto mais conhecido de um império que, pouco a pouco, começa a revelar outros segredos. Um sítio arqueológico a 300 quilômetros ao norte de Cartum abriga as ruínas de cerca de 50 pequenas pirâmides, datadas desde 250 a.C até 350 d.C., que serviram de tumbas para governantes de Kush. Assentadas no topo de duas cadeias de montanhas cobertas por dunas de areia a aproximadamente cinco quilômetros a leste do Rio Nilo, essas pirâmides compõem uma das vistas mais espetaculares do território sudanês. Alguns anos atrás, uma equipe do Louvre começou a trabalhar em Al-Muweis, um local intocado por muitos anos e localizado a 200 quilômetros ao norte de Cartum. Foram encontrados ali templos, palácios gigantescos e casas.

Localizadas a 300 quilômetros de cartum, cerca de 50 pirâmides serviram de tumbas para governantes de kush

A região pode guardar ainda muitas outras surpresas. Recentemente, o arqueólogo suíço Mattieu Honeggar descobriu em Wadi Al-Arab, um sítio no norte do Sudão, vestígios de que o local foi habitado mais ou menos 10 mil anos atrás, muitos milênios antes dos faraós negros. As escavações poderiam permitir um entendimento melhor da transição do homem para a vida sedentária.

Cerca de 50 pequenas pirâmides estão distribuídas no sítio de Meroe. Elas foram construídas durante um intervalo de tempo de 600 anos, entre 250 a.C. e 350 d.C., quando o império kushita foi subjugado pelos etíopes do reino de Axum. Foto: O mistério dos faraós negros. Disponível em < http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/458/artigo193222-2.htm> Acesso em 30 de Junho de 2011.

Em 2007, pesquisadores do Instituto de Estudos Orientais da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, descobriram 55 pedras que seriam usadas para moer minério com ouro, a fim de extrair o metal, na região de Hosh el-Geruf, a 350 quilômetros de Cartum, perto da quarta catarata do Nilo. As escavações mostram que Kush era um rico centro de minérios. Segundo GeoffEmberling, do Instituto de Estudos Orientais da Universidade de Chicago, a Núbia era conhecida por seus depósitos de ouro. O Egito dominou a região entre 1539 a.C e 1075 a.C. e retirou de lá muito ouro.
No entanto, boa parte das riquezas arqueológicas a serem descobertas nessa região corre o risco de permanecer em segredo por causa da construção da hidrelétrica de Meroe, que inclui um lago de mais ou menos 160 quilômetros de comprimento. Infelizmente para arqueólogos e historiadores, o progresso industrial e os conflitos armados no Sudão podem enterrar para sempre muitos tesouros do país.

Vista parcial das pirâmides que serviram de sepultura para governantes kushitas. Foto: O mistério dos faraós negros. Disponível em Acesso em 30 de Junho de 2011.

Herança egípcia

Muito antes de os faraós negros governarem o Egito, os soberanos da 18ª dinastia egípcia (1539-1292 a.C.) conseguiram dominar a Núbia, que era conhecida por sua riqueza em recursos minerais. Submetida aos egípcios, a elite núbia começou a adotar seus costumes culturais e espirituais, como a veneração a deuses, a língua, os ritos de funeral e enterro e, mais tarde, as pirâmides.
Durante esse período de dominação egípcia, os núbios forneciam ao ocupante outros materiais de valor, como peles de animais, marfim, ébano, gado e cavalos. Com isso, muitos egípcios foram morar na região de Kush e muitos kushitas se mudaram para o norte. Os egípcios também construíram grandes templos e monumentos no local. Um dos centros religiosos de Kush, próximo à terceira catarata do Nilo, era dedicado à estátua do deus egípcio Amon. Outra herança cultural notável foram as pirâmides. O primeiro a querer ser enterrado em uma foi o segundo faraó núbio, Piye. Porém, as pirâmides das duas nacionalidades são diferentes. As dos kushitas são mais baixas e mais pontudas.

Império poderoso

Estabelecido por volta de 2500 a.C., o império de Kush era reconhecido pelo antigo Egito e pelos textos bíblicos. Acredita-se que os kushitas vieram de civilizações africanas que habitavam o sul do Nilo. Os moradores de Kush desenvolveram reinos poderosos. O primeiro foi centrado em Kerma (2000-1650 a.C). As últimas capitais foram Napata (800- 270 a.C) e Meroe (270 a.C.-370 d.C).
Por quase um século, os kushitas governaram seu vizinho do norte, o Egito. Conhecidos também como “faraós negros”, os soberanos da Núbia contribuíram muito para a civilização egípcia. Arqueólogos encontraram evidências de que os faraós de Kush, que representam a 25ª dinastia no poder do Egito, mandaram construir e restaurar muitos monumentos dos dois reinos. Algumas representações, principalmente as dos faraós, mostram novas formas originadas da mistura da cultura dos dois povos.
Numerosas representações faraônicas têm características faciais de kushitas, bem como alguns dos artefatos usados pelos soberanos. Os faraós kushitas conseguiram reunificar um Egito desgastado, criando um império que se estendia da fronteira sul, onde hoje é Cartum, até o Mar Mediterrâneo.

Solução polêmica

A represa hidrelétrica de Meroe, inaugurada em maio deste ano, tem causado muita discussão: as obras levaram ao desaparecimento de alguns artefatos antigos que ainda podiam ser encontrados na região. Mas, segundo os mentores do projeto, a hidrelétrica foi um grande passo para o desenvolvimento econômico e social do Sudão, pois traz benefícios como energia elétrica mais barata para melhorar a agricultura irrigada, indústria pesqueira no lago da hidrelétrica e proteção contra a enchente destrutiva em áreas vizinhas.

Artigo retirado na integra de:  O mistério dos faraós negros. Disponível em < http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/458/artigo193222-1.htm> Acesso em 30 de Junho de 2011.

Fonte da reportagem:

Archaeological sites of Meroe Island inscribed on World Heritage List. Disponível em <http://archaeologynewsnetwork.blogspot.com/2011/06/archaeological-sites-of-meroe-island.html> Acesso em 30 de Junho de 2011.