Mãe de Tutankhamon é tema de documentário

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Recentemente foi anunciada a estreia de um documentário que falará sobre a mãe do faraó Tutankhamon e a nova reconstituição facial feita para ela. Será um especial dividido em duas partes para o programa Expedition Unknown, da Travel Channel. Ainda não existe uma data prevista para o Brasil.

No Egito foram descobertos alguns esconderijos onde estavam múmias da realeza. O mais famoso é o de Deir el-Bahari, o qual já foi comentado aqui no Arqueologia Egípcia. Já um dos menos conhecidos  é o que foi descoberto em 1898, na KV-35. Neste foi encontrada a múmia da mulher cujo exames genéticos apontam como sendo a mãe de Tutankhamon. É ela um dos focos do documentário:

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Cabeça de múmia egípcia é analisada na Universidade de Melbourne

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A tecnologia e a Arqueologia caminham lado a lado desde sempre. Esta disciplina aplicou em vários momentos ferramentas como balões, máquinas fotográficas, bússolas, computadores, GPS, Raio-x, etc. Recentemente pesquisadores e alunos da Universidade de Melbourne utilizaram esta vantagem para analisar um único artefato: uma cabeça humana mumificada que está sob sua posse.

Múmias que foram criadas por mãos humanas — a exemplo das próprias egípcias — são consideradas artefatos (saiba mais assistindo ao vídeo Descobrindo o Passado: o que são múmias e 8 curiosidades sobre múmias egípcias) e como tal necessitam ser estudadas tanto do ponto de vista biológico, como cultural.

O projeto da Universidade de Melbourne possui um caráter multidisciplinar, onde agrega a faculdade de Medicina, Odontologia e Ciências da Saúde, que por sua vez combina pesquisas médicas, Ciências Forenses, tomografia computadorizada, CT Scan, Impressora 3D, Egiptologia e Arte. O time produziu a reconstrução facial do crânio, cuja idade e sexo foram identificados através da análise da sua morfologia craniana: esta pessoa foi uma mulher que faleceu entre seus 18 a 25 anos de vida.

Egiptóloga forense Dra. Foto: Paul Burston.

“A ideia do projeto é pegar essa relíquia e em um sentido trazê-la de volta para a vida com o uso de todas as novas tecnologias”, disse a Dra. Varsha Pilbrow, bioarqueóloga que ensina anatomia no Departamento de Anatomia e Neurociência. “Dessa forma, ela pode tornar-se muito mais do que um objeto fascinante para ser colocado em exposição. Através dela, os alunos serão capazes de aprender como diagnosticar a patologia marcada na nossa anatomia e aprender como os grupos populacionais inteiros podem ser afetados pelo ambiente em que vivem.”

Vídeo (em inglês) falando sobre a pesquisa.

Como a cabeça mumificada da jovem moça foi adquirida pela Universidade é um mistério. A possibilidade é de que tenha sido através de um professor chamado Frederic Wood Jones (1879-1954), que chegou a escavar no Egito. Sem informações acerca da sua aquisição e nem o registro do contexto arqueológico, logo não se sabe qual foi o nome desta mulher durante a antiguidade, o que levou aos pesquisadores da atualidade a nomearem de “Meritamon”, que na nossa língua significa “Amada de Amon”.

A origem do projeto foi a preocupação do curador do museu, o Dr. Ryan Jefferies, de que a cabeça estivesse se deteriorado internamente sem que ninguém fosse capaz de perceber. Como remover as ataduras — processo chamado de autópsia e que nos dias de hoje não é um método aconselhado, exceto em situações muito especificas como: descobrir a coloração de determinados tecidos, olhar tatuagens ou olhar materiais orgânicos tais como tampões — não era uma opção, então foi optado pelo o uso da tomografia computadorizada que consequentemente abriu a oportunidade para uma pesquisa colaborativa.

A análise da tomografia apontou que Meritamon possui abscessos dentários e indicações de anemia, perceptíveis através de manchas específicas nos ossos. A sugestão é de que essa anemia tenha sido resultante de doenças tais como a malária ou esquistossomose. Apesar da ausência do restante do corpo — que poderia fornecer mais dados —, acredita-se que a severa anemia foi a responsável por sua morte ou ao menos um dos fatores principais.

Por hora não será realizado nenhum exame de DNA da múmia por ser um tipo de análise muito cara e que está acima do orçamento do projeto. No entanto, a pesquisa contará como o estudo dos átomos de carbono e nitrogênio que poderá lançar uma luz acerca do que ela comeu durante a sua vida e até sobre o local em que viveu.

Paralelamente, um molde em 3D do crânio foi feito para então realizar uma reconstituição facial, que foi realizada pela escultora Jennifer Mann. Na Arqueologia, as reconstituições faciais têm sido utilizadas para enxergar fenótipos e humanizar as pessoas há muito falecidas. Esse método pode incorrer ao erro — já que não dará detalhes sobre cor da pele, olhos, cabelos, formato do nariz e orelhas —, mas, ainda assim, tende a ser efetivo. No caso de Meritamon ela foi representada com uma cor que eles definiram como dark olive hue, que, pelo o que eu entendi, aqui no Brasil é chamada de “pele oliva”, o que realmente lembra a de muitas iconografias faraônicas.

E ainda uma datação por Carbono-14 será utilizada para dar uma ideia de em qual período ela viveu. Em palavras simples, esse tipo de datação é obtida através da medição da quantidade de C14 disponível em um material orgânico.

Fonte:

Brought to life, 2000 years later. Disponível em < https://pursuit.unimelb.edu.au/articles/brought-to-life-2000-years-later  >. Acesso em 21 de agosto de 2016.

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.

“Tutankhamon não merece esta profanação do século 21”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Estas palavras não são minhas, são do Jonathan Jones, jornalista do The Guardian. Ele as proferiu em seu artigo intitulado Tutankhamun does not deserve this 21st-century desecration [1]. Foi o único, entre tantos, que vi criticar em matéria a nova reconstituição do faraó Tutankhamon, desta vez assinada pela BBC, Tutankhamun: The Truth Uncovered (2014), e a qual ele denominou como “grosseira e vulgar”. Faço minha as palavras dele:

Novos métodos de escaneamento e imagens digitais oferecem novas maneiras de ficarmos dentro das múmias egípcias e outras relíquias biológicas, dando face, carne e mesmo órgãos internos para os mortos. Mas igual a qualquer avanço científico, estas técnicas precisam ser usadas com inteligência e sensibilidade. A realização de uma autópsia virtual altamente promovida em Tutankhamon não é uma investigação sensível com a vida, que nos ajuda a imaginar e entender o passado. É um mórbido show de horrores que reduz o mistério deste faraó uma vez esquecido e seu magnífico túmulo em um grosseiro e vulgar material de entretenimento (Tradução nossa).

A BBC está vendendo o seu documentário como uma amostra da verdadeira face de Tutankhamon, extraída de uma autópsia digital de ponta, o que há de mais moderno em tecnologia. Mas aonde vimos algo parecido? Em 2005 quando fomos apresentados para a “real” face de Tutankhamon, ao lado da genuína causa da sua morte que teria sido uma infecção desenvolvida em um ferimento em sua perna. Ou em 2002 quando também nos mostraram o “autêntico” rosto de Tutankhamon e sua terrível morte por assassinato, uma teoria já apresentada anos antes, mas que não tinha tido uma “comprovação” forense.

Nova reconstituição de Tutankhamon. Deu até pena do coitado se apoiando com a bengala do lado errado do corpo. Fonte da imagem: BBC. 2014.

A cada ano estamos (nós público e até mesmo cientistas) incutindo em novos erros em ajudar a propagandear o entretenimento acerca das mazelas que supostamente abateram o faraó Tutankhamon. Estamos levando a diante um mito sobre outro mito a fim de produzir documentários cada vez mais novelísticos, sensacionalistas vestidos como “fidedigno” e cientifico e cada vez mais estamos deixando que seja jogada fora a humanidade de muitos dos nossos mortos, a exemplo do próprio Tutankhamon.

É difícil explicar para o público comum porque muitos desses documentários têm tantas falhas, uma vez que o senso comum acredita fielmente que o que é apresentado é ciência. Os métodos não deixam de ser científicos, mas outros fatores são ignorados, como, por exemplo, o corpo de Tutankhamon passou por um processo tafonomico cruel. A palavra “tafonomia” é estranha para muitos, mas explicando de forma simples tem a ver com as atividades que ocorrem com o corpo após seu sepultamento. No caso do faraó em questão ele foi carbonizado pelos óleos e resinas, o que torna equivocado falar de uma deficiência no seu pé esquerdo e até mesmo a retirada de amostras decentes de DNA para a análise, mas ninguém explicou isto para os espectadores da National Geographic em 2010, quando anunciaram a resposta “conclusiva” para as linhas de parentesco dele e a nova causa “definitiva” da sua morte, a malária.

Somado a isto existe muito dinheiro rondando a imagem de Tutankhamon, não é barato produzir um documentário sobre ele. A Arqueologia hoje tornou-se um bem de consumo e por isso da importância de que seus documentários viralizem. Só para vocês terem uma ideia do quão descabida tornaram-se as pesquisas sobre a causa da morte de Tutankhamon, deem uma olhada nesta modesta lista [2]:

☥ Década de 1920: tumor cerebral;

☥ 1968: golpe na cabeça;

☥ 1993: atropelamento;

☥ 1999: golpe na cabeça, assassinato;

☥ 2002: golpe na cabeça, assassinato. Primeira reconstituição facial;

☥ 2005: ferida infeccionada no joelho esquerdo;

☥ 2010: malária; possível osteonecrose; anemia falciforme;

☥ 2012: epilepsia;

☥ 2014: Deficiência no pé esquerdo.

Dito isto, o que será que teremos para o ano que vem?


[1] Tutankhamun does not deserve this 21st-century desecration. Disponível em < http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/oct/21/tutankhamun-desecration-computer-scan-images-pharoah-archaeological >. Acesso em 22 de outubro de 2014.
[2] Mais uma teoria para Tutankhamon. Disponível em < http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/06/25/mais-uma-teoria-para-tutankhamon/ >. Acesso em 22 de outubro de 2014.

Reconstrução Facial da Múmia Tothmea

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Depois da popularização da realização de reconstituições faciais em programas de documentários, provavelmente muitos já chegaram a ver alguma. Nomes já conhecidos receberam um rosto: Ramsés II, Tutankhamon (que gerou uma série de polêmicas) e até mesmo Cleópatra, cujo corpo nem sequer foi encontrado e sua reconstituição teve como base uma moeda com sua face cunhada, o que não tem validade.

Embora seja uma ideia empolgante, reconstituições faciais não são de fato totalmente precisas, desta forma o rosto que o espectador observa provavelmente não é o real do indivíduo falecido, ele só nos dá um conceito da aparência. Aspectos essenciais como cor da pele, cor dos olhos, cabelos, orelhas e em alguns casos até mesmo o nariz tendem a ser frutos da subjetividade do pesquisador.

Uma das múmias agraciadas por esta técnica foi a da “Tothmea”, uma dama que viveu entre o Terceiro Período Intermediário e a Baixa Época e que, de acordo com a pesquisa realizada pelo o Museu Egípcio e Rosacruz (Curitiba-PR), teria sido uma servidora de Ísis. “Tothmea” é somente um apelido dado em 1888 em homenagem aos faraós tutmessidas, mas o seu verdadeiro nome é desconhecido. Seu corpo está atualmente disponível para a visita no Museu Egípcio e Rosacruz.

Reconstituição facial de Thotmea. Imagem disponível em < http://www.ciceromoraes.com.br/?p=1096 >. Acesso em 06 de março de 2014.

Abaixo está um texto indicado pela leitora Blenda Amarilis (via Facebook) sobre a reconstituição da sua face:

Reconstrução Facial da Múmia Tothmea

RECONSTRUÇÃO FACIAL FORENSE

A reconstrução facial é um dos ramos da arte forense, cujos trabalhos formais remontam o final do século XIX.

Para que uma face seja reconstruída, inicialmente se estima o sexo, tipo racial e idade do indivíduo, em seguida, com base nesses dados se recorre a níveis de profundidade de tecido mole, que são posicionados em pontos pré definidos ao longo do crânio.

Esses níveis representados por pequenas estacas fornecem a forma básica da face. O posicionamento dos olhos é estipulado por alguns pontos da órbita ocular. Os lábios seguem a projeção dos dentes ou dos olhos. A projeção do nariz pode ser adquirida por várias técnicas, algumas levam em conta a dimensão da espinha nasal e outras o seu ângulo.

Em seguida, são reconstruídos os músculos, ou dependendo do método utilizado e do conhecimento do escultor é modelada diretamente a pele.

Diferente do que muitas pessoas imaginam, a reconstrução facial forense é na verdade uma aproximação do que poderia ser o rosto do indivíduo. Mesmo os artistas/cientistas mais preparados não conseguem gerar uma face 100% compatível com o que era em vida. Mas isso não significa que o nível de precisão não seja o suficiente para lembrar as características do rosto em questão, o número de casos bem sucedidos de reconhecimento de vítimas a partir dessa técnica falam por si.

RECONSTRUÇÃO FACIAL DA MÚMIA TOTHMEA

Em dezembro de 2012, o arqueólogo Moacir Elias Santos e o 3D Artist e Animator Cícero Moraes reuniram seus conhecimentos para dar um rosto à Tothmea – múmia com cerca de 2700 anos da coleção do Museu Egípcio e Rosacruz.

A partir da restauração da face de Tothmea realizada pelo arqueólogo Moacir Elias Santos foram feitas uma série de fotografias que juntamente com os dados da tomografia de 1999 proporcionaram dados para a realização da segunda fase do projeto.

Com base nas imagens fez-se o escaneamento 3D parcial do crânio e em conjunto com os dados de uma tomografia computadorizada e raios-X feitos em 1999 o crânio completo foi reconstruído. Com o crânio em mãos o artista 3D pode reconstruir a face da múmia, lançando mão de programas de software livre, como o Blender 3D, Gimp e outros.

Assim, ciência e tecnologia uniram-se para que pudéssemos conhecer a face de uma ilustre egípcia que habita nosso país desde 1995.

Cícero Moraes

Texto no link original: Reconstrução Facial da Múmia Tothmea. Disponível em < http://www.amorc.org.br/museu-egipcio-3.html >. Acesso em 06 de março de 2014.

Update 25 de julho de 2014
Saiba mais sobre a técnica de reconstrução facial no site de um dos membros da equipe: http://www.ciceromoraes.com.br/?p=1632

Esteve em foco: Face de Tutankhamon

Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Capa da revista “Aventuras na História” da edição 61, agosto 2008. Fonte: Márcia Jamille N. Costa.

Esteve em foco em agosto de 2008 a capa da revista “Aventuras na História” com uma imagem bem realista do faraó Tutankhamon usando uma pequena coroa adornada com as deusas do Alto e Baixo Egito (tal coroa que de fato existe, só sua ponta pendente é que foi excluída da imagem).

Coroa de Tutankhamon com deusas do Alto e Baixo Egito mais a ureus, serpente protetora dos faraós. JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2005. pp. 182.

 

A ilustração foi feita por Sattu e é obviamente inspirada na reconstituição facial de Tutankhamon apresentada em 2005 no documentário A maldição de Tutankhamon da National Geographic. A ilustração fez parte da nova proposta de capa para a revista que, para brindar o acontecimento, retirou a faixa azul da parte inferior das capas que fez parte dos exemplares que seriam apresentadas aos assinantes da Aventuras na História.

Reconstituição da face de Tutankhamon apresentada em 2005. Retirado de “O rosto de Tutankhamon”. Acesso em 19 de Fevereiro de 2011

 

A beleza da capa é admirável e a “humanização” de Tutankhamon foi um tiro seteiro. Por isto que após três anos ela ainda merece menção.

Fote:

Reconstituição da face de Tutankhamon. Retirado de O rosto de Tutankhamon. Disponível em <http://www.fascinioegito.sh06.com/rostotut.htm> Acesso em 19 de Fevereiro de 2011