Foi descoberta documentação que comenta construção da Grande Pirâmide

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Em 2013 foi descoberto por uma equipe de arqueólogos franceses e egípcios que realizam pesquisas na região de Wadi Al Jarf, no sudeste do Cairo, às margens do Mar Vermelho, um importante papiro. O artefato estava fragmentado e necessitou ser remontado para que o seu conteúdo pudesse ser lido. Ele foi datado como pertencente ao Antigo Reino e trata-se de um diário do cotidiano e estilo de vida dos operários que trabalharam em um porto na atual área de Wadi Al Jarf. Entretanto, estas pessoas não trabalhavam em uma atividade qualquer: eles estavam participando da construção da Grande Pirâmide do platô de Gizé, pertencente ao rei Khufu.

Diário de Merer. Foto: MSA.

O diário pertencia a um inspetor chamado Merer e ele detalhou estatísticas e questões administrativas da empreitada, a exemplo dos seguintes pontos:

☥ As pedras calcárias eram retiradas da pedreira de Torah e transportada pelo Nilo até o sítio em que estava sendo construída a pirâmide;

☥ Especificamente a equipe dele continha cerca de 200 operários;

☥ Perto da conclusão da pirâmide o foco dos construtores foi voltado para a elaboração do revestimento externo de calcário. O material utilizado durante esta fase foi extraído de uma pedreira próxima a atual cidade do Cairo e levada até o canteiro de obras através de um sistema de canais. Esta viagem durou quatro dias;

☥ O vizir Ankhaf, que também era meio irmão do rei, na época em que o diário foi escrito foi o supervisor da obra;

A Grande Pirâmide tem 138 metros e é a mais antiga mega construção em pedra do Egito. Na antiguidade foi adotada como uma das “7 Maravilhas do Mundo” (sendo a única ainda existente) e atualmente é um Patrimônio Histórico Mundial.

Dia em que o diário foi posto em exposição no Egito. Foto: @Pastpreservers (Twitter).

Fontes:

Ancient Logbook Documenting Great Pyramid’s Construction Unveiled. Disponível em < http://www.livescience.com/55439-ancient-logbook-on-great-pyramid-unveiled.html >. Acesso em 14 de agosto de 2016.

TALLET, Pierre; MAROUARD, Gregory. The harbor of Khufu on the Red Sea Coast at Wadi al-Jarf, Egypt. Near Eastern Archaeology 77:1 (2014).

Comentários sobre a “nova” teoria para a construção das pirâmides

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

Recebi entre ontem e hoje (02/05 e 03/05) sugestões de um link divulgando os resultados de uma pesquisa publicada no Physical Review Letters, onde é apresentada uma “nova” teoria de como teriam sido movidas as pedras que foram utilizadas para construir as pirâmides. Porém a notícia está equivocada. Segue abaixo o texto na integra:

 

Cientistas descobrem como os egípcios moveram pedras gigantes para formar as pirâmides

Por: Andrew Tarantola

1 de maio de 2014 às 11:38

Uma civilização antiga, sem a ajuda de tecnologia moderna, conseguiu mover pedras de 2,5 toneladas para compor suas famosas pirâmides. Mas como? A pergunta aflige egiptólogos e engenheiros mecânicos há séculos. Mas agora, uma equipe da Universidade de Amsterdã acredita ter descoberto o segredo – e a solução estava na nossa cara o tempo todo.

Tudo se resume ao atrito. Os antigos egípcios transportavam sua carga rochosa através das areias do deserto: dezenas de escravos colocavam as pedras em grandes “trenós”, e as transportavam até o local de construção. Na verdade, os trenós eram basicamente grandes superfícies planas com bordas viradas para cima.

Quando você tenta puxar um trenó desses com uma carga de 2,5 toneladas, ele tende a afundar na areia à frente dele, criando uma elevação que precisa ser removida regularmente antes que possa se ​​tornar um obstáculo ainda maior.

A areia molhada, no entanto, não faz isso. Em areia com a quantidade certa de umidade, formam-se pontes capilares – microgotas de água que fazem os grãos de areia se ligarem uns aos outros -, o que dobra a rigidez relativa do material. Isso impede que a areia forme elevações na frente do trenó, e reduz pela metade a força necessária para arrastar o trenó. Pela metade.

Ou seja, o truque é molhar a areia à frente do trenó. Como explica o comunicado à imprensa da Universidade de Amsterdã:

Os físicos colocaram, em uma bandeja de areia, uma versão de laboratório do trenó egípcio. Eles determinaram tanto a força de tração necessária e a rigidez da areia como uma função da quantidade de água na areia. Para determinar a rigidez, eles usaram um reômetro, que mostra quanta força é necessária para deformar um certo volume de areia.

Os experimentos revelaram que a força de tração exigida diminui proporcionalmente com a rigidez da areia… Um trenó desliza muito mais facilmente sobre a areia firme [e úmida] do deserto, simplesmente porque a areia não se acumula na frente do trenó, como faz no caso da areia seca.

Estas experiências servem para confirmar o que os egípcios claramente já sabiam, e o que nós provavelmente já deveríamos saber. Imagens dentro do túmulo de Djehutihotep, descoberto na Era Vitoriana, descrevem uma cena de escravos transportando uma estátua colossal do governante do Império Médio; e nela, há um homem na frente do trenó derramando líquido na areia. Você pode vê-lo na imagem acima, à direita do pé da estátua.

Agora podemos finalmente declarar o fim desta caçada científica. O estudo foi publicado na Physical Review Letters. [Universidade de Amsterdã via Phys.org via Gizmodo en Español]

 

Antes é necessário esclarecer que não existia escravidão no Egito, o arquétipo de servidão durante o período faraônico seguia um modelo diferente do clássico, então não é correto afirmar que o país se utilizava de um sistema de trabalho escravo, especialmente durante a construção das pirâmides onde já está mais do que comprovado que foram feitas por trabalhadores livres, alguns dos quais foram sepultados próximos a esses edifícios.

O segundo problema é que a teoria apresentada já é antiga. O que há de novo provavelmente é a forma como foi conduzido o experimento, mas a sugestão de que as pedras eram empurradas com o auxílio de trenós friccionados com o solo molhado já é bem antiga, é tanto que em uma entrevista que realizei este ano para O Almanaque a comentei, falando que duas, das muitas teorias existentes, sugerem que as pedras foram arrastadas com o uso de trenós sem rodas ou com o uso de toras de madeira no lugar das rodas. Contudo, ou esqueci de falar, ou foi cortado durante a edição, que os trenós sem rodas eram empurrados sobre o solo molhado.

Existem até documentários que já abordaram isto e testaram na prática, então, em resumo, esta pesquisa não tem nada de novo, exceto que foi realizado o experimento abordado.