Aliens construíram as pirâmides!

Esta é a minha tradução do texto Aliens built the pyramids!” (Aliens construíram as pirâmides!) escrito pelo arqueólogo egípcio Zahi Hawass para o site Egypt Independent. Aqui o Hawass discute sobre o fascínio de algumas pessoas em relação às pirâmides egípcias e sobre a descoberta dos Papiros Wadi al-Jarf, que falam sobre a construção da Grande Pirâmide.

Aliens construíram as pirâmides!

Por Zahi Hawass

Pirâmides do Paltô de Gizé. Foto: Ricardo Liberato.

As pirâmides ainda estimulam a imaginação das pessoas de todo o mundo e geram fãs que ficam obcecados com elas dia após dia!

Muitos, especialmente nos EUA, acreditam que existem criaturas espaciais que vieram de Marte e construíram as pirâmides. Isso não é científico de forma alguma. As teorias ainda aparecem em um show transmitido e produzido pelo canal norte americano History[1], intitulado “Ancient Aliens”[2].

Muitos cidadãos dos EUA e de outros países me enviam e-mails (como qualquer pessoa pode fazer através do meu site). Acusam-me de mascarar todos os fatos que descubro e que, no seu ponto de vista, mostram que os egípcios não são os construtores das pirâmides! Eles erroneamente acreditam que sob a Esfinge estão evidências de Atlântida! Todas essas mentiras levantam a muitas ideias falsas sobre as pirâmides e os fatos reais e contos associados.

E eu escavo embaixo da Esfinge não apenas para saber o nível das águas subterrâneas, mas para provar a ausência de qualquer evidência para essa bobagem.

Infelizmente, alguns egípcios também pregam temas infundados como a “mentira da segunda Esfinge” e outras mentiras que distorcem a grande civilização egípcia antiga, nas mãos de alguns de seus filhos que anseiam por uma fama que não é baseada em trabalho duro, ciência e diligência. Deus salve o Egito e seus grandes monumentos dessas pessoas imprudentes!

Há uma semana, fiz uma ligação para um canal estrangeiro. Expliquei que, infelizmente, o público em toda parte não sabe nada sobre a maior descoberta arqueológica do século 21, que é a descoberta dos papiros “Wadi al-Jarf” perto de Suez.

É o maior e mais antigo papiro em todo o mundo, que remonta ao reinado do rei Khufu, e a primeira descrição conhecida de como a pirâmide de Khufu foi construída. Este papiro foi escrito tanto em linguagem hieroglífica como hierática, e publicado com tradução. Atualmente está no Museu Egípcio em Tahrir.

Nela, o inspetor Merer transcreve o diário de seu trabalho na construção da Grande Pirâmide. Merer era o chefe de 40 trabalhadores, que ele levou para as pedreiras de Tora.

Por sua descrição, Merer preparou um grande barco para transportar as pedras pelo Nilo. Ele descreve o método de transporte até as pedras atingirem a área de construção em Gizé. Ele indica que o peso da pedra chega a 2,5 toneladas cada, e registra que essas pedras, que foram cortadas, foram arrastadas para os barcos.

Então ele nos conta sobre o rei Khufu, e que ele estava morando em seu palácio em Gizé – em vez de viver em Memphis, como alguns livros de história afirmam. Merer aponta que ele tinha um chefe chamado Dede e que o principal responsável pela entrada das pedras e itens alimentares era Ankh-Haf.

A área ao redor da pirâmide foi denominada “Ankh – Khufu”, que significa “a vida do rei Khufu”, enquanto as áreas de sepultamento foram denominadas “Akht Khufu”, que significa “horizonte de Khufu”.

O trabalho foi registrado durante o vigésimo sétimo ano do governo do rei Khufu, o que pode indicar que Khufu governou por cerca de 32 anos.

Isso é o que a ciência nos diz sobre o maior edifício do Egito faraônico, a Grande Pirâmide.

Por outro lado, infelizmente, alguns falam palavras estranhas sem nenhuma evidência científica, como a de que a pirâmide foi usada para gerar eletricidade! Existe quem diga que o rei estava armazenando trigo dentro da pirâmide para uso em tempos de fome! Essas alegações são inválidas, porque há evidências escritas indicando que a pirâmide foi feita especificamente para enterrar o rei e transformá-lo em um deus na vida após a morte.

Eu diria também que a pirâmide foi o projeto nacional do Egito, e que as pirâmides construíram o Egito.

Alguém pode dizer então que existem aliens espaciais que construíram as pirâmides?

Eu digo a todos aqueles que estão obcecados com as pirâmides do Egito: você tem o direito de se surpreender e até mesmo se impressionar com as nossas pirâmides atemporais, mas não vamos permitir que você distorça nossos monumentos, que é a nossa mais querida posse. Pare com esse absurdo. Deus te abençoe!


[1] Provavelmente ele está falando do canal History Channel.

[2] “Alienígenas do Passado”, aqui no Brasil.

Texto original: 

Aliens built the pyramids! Disponível em < https://www.egyptindependent.com/aliens-built-the-pyramids/ >. Acesso em 11 de novembro de 18.

Um afrodisíaco no Antigo Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este texto é a minha tradução do artigo An Ancient Egyptian Aphrodisiac (Um afrodisíaco no Antigo Egito), de Diana Craig Patch, diretora do projeto Joint Expedition to Malqata (JEM). Apesar do título o texto deixa claro que a planta em questão pode até ser afrodisíaca, mas certamente alucinógena. Entretanto, não acreditem cegamente que o aparecimento desta planta ou fruto na iconografia significa que era usada para fins psicodélicos. Abaixo a tradução:

Um afrodisíaco no Antigo Egito

Os pequenos e frágeis ornamentos de faiança que foram coletados durante as escavações em Malqata durante os primeiros anos do The Met (The Metropolitan Museum), sempre foram os meus favoritos. Estas imagens coloridas de elementos florais são provavelmente usadas para decorar diferentes coisas, inclusive colares largos. Nesta temporada uma das imagens que tem aparecido em vários artefatos é o fruto da mandrágora (Mandragora sp.).

Um pingente de faiança representando uma mandrágora do Palácio do rei Amenhotep III em Malqata – Rogers Fund, 1911.

Detalhe do rosto de Tutankhamon no seu santuário de ouro com elementos de mandrágoras claramente vivíveis em seu colar.

A mandrágora é uma pequena planta cujas folhas surgem em uma roseta basal no chão. Encontrada tradicionalmente no norte e leste do Mediterrâneo, ela aparece no Egito durante o Novo Império, crescendo em jardins de membros da elite da sociedade egípcia.

Jardim de Ipuy com a planta de mandrágoras crescendo ao longo do canal (ao lado do chachorro, bem a direita), Rogers Fund, 1930 (30.4.115).

Uma planta herbácea perene, ela é melhor conhecida por sua longa e espessa raiz ramificada que em muitas culturas folclóricas ganharam características humanas. As flores são de um branco esverdeado, azul pálido, ou mesmo violeta e suas pequenas frutas, uma baga, é de um profundo amarelo para laranja com um cálice verde escuro. As frutas foram traduzidas em imagens egípcias como frutas amarelo brilhante cujo cálice em pinturas está em verde e nas faianças em um profundo azul.

Esquerda: Planta de mandrágora; Direita: Fruta da mandrágora.

Um ladrilho ilustrando uma planta de mandrágora no jardim, Purchase, Edward S. Harkness Gift, 1926 (26.7.942).

As folhas e raízes contêm alcaloides tropanos delirantes e alucinógenos, tornando a planta potencialmente venenosa. Dependendo da quantidade ingerida – que varia de planta para planta -, as partes usadas e técnica de preparação. Emético (suscetível a causar vômitos), purgativo (que leva a evacuação das fezes do organismo) e efeitos de narcóticos são susceptíveis; uma mandrágora pode causar uma overdose tóxica. Baseado nos registros advindos da antiguidade, parece que a planta foi usada para fins medicinais. A literatura grega sugere possíveis aplicações para o tratamento da gota, feridas e insônia; para os sumérios, era um remédio para dor.

A mandrágora, no entanto, transforma-se em uma popular imagem na arte egípcia porque a planta e seus frutos são associados com os conceitos de amor e desejo, possivelmente a ser conseguido ou auxiliado por uma poção feita a partir da planta. Como sugerido por Kate Bosse-Griffiths [1], a mandrágora, tem conotações para a potência masculina e o fortalecimento do poder sexual, especialmente em meados do final da XVIII Dinastia.

Uma jovem mulher em um banquete registrado na tumba de Nebamun passando uma fruta de mandrágora.

Nos poemas de amor e em contextos onde o rejuvenescimento é o tema, tal como na cidade festival de Amenhotep III, nós achamos muitas imagens e representações desta linda, mas tóxica, pequena fruta.

Esquerda: Um fragmento de um vaso azul pintado com uma porção de um fruto mandrágora; Direita: Fragmento de uma pintura de parede com as mandrágoras do Palácio do rei Amenhotep III.

Um molde de cerâmica de uma área industrial (N150, E180) em Malqata usado para fazer elementos de faiança em forma da fruta mandrágora.

26 de Janeiro de 2016

Leitura interessante:

[1] Kate Bosse-Griffiths, “The Fruit of the Mandrake in Egypt and Israel,” in Amarna Studies and Other Selected Papers (ed. by J. Gwyn Griffiths), pp. 82-96, Orbis Biblicus et Orientalis 182 (Fribourg, Switzerland and Göttingen, 2001).

Texto original:

Diana Craig Patch. Disponível em < https://imalqata.wordpress.com/2016/01/25/an-ancient-egyptian-aphrodisiac/ >. Acesso em 26 de janeiro de 2016.

O Antigo Egito e os primórdios do cinema

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este texto é uma tradução minha do artigo The sands of time: ancient Egypt and early film (As areias do tempo: o Antigo Egito e os primórdios do cinema) de Bryony Dixon, curador do cinema mudo no British Film Institute. Ele é interessante, dentre tantos motivos, por abordar alguns dos principais aspectos orientalistas que influenciaram na criação e manutenção dos gêneros que utilizavam como ambiente o Antigo Egito tanto na literatura como – e principalmente – no cinema. Vale a pena dar uma conferida, especialmente para entender de onde surgiu alguns dos nossos pensamentos mais cimentados desta antiga civilização:

As areias do tempo: o Antigo Egito e os primórdios do cinema
Bryony Dixon, curador do cinema mudo, British Film Institute

From Cairo to the Pyramids [Do Cairo às Pirâmides] ( Pathé, 1905).

From Cairo to the Pyramids [Do Cairo às Pirâmides] ( Pathé, 1905).

A nova exibição Ancient lives, new discoveries do British Museum usa a mais recente tecnologia de imagem para nos ajudar a entender as realidades da vida e da morte no Egito Antigo. Todos nós já vimos imagens geradas em computador de múmias trazidas à vida no cinema e na TV, por exemplo na franquia de filmes A Múmia que produziu 6 filmes* entre 1998 e 2012. Mas se voltarmos atrás para o século 19 e início do 20, o visitante do museu teria tido semelhante preparação. Quando o cinema surgiu na década de 1890, o público que veio ver a última novidade já tinha familiaridade com imagens do Antigo Egito depois de um século de Egiptomania — a conquista do Egito por Napoleão em 1798, as escavações de alto perfil, dissecação pública de múmias e a divulgação da decifração dos hieróglifos da pedra da Roseta na década de 1820 por Champollion.

Ilustrações das pirâmides e tumbas preencheu a imprensa ilustrada e múmias e outros artefatos expostos em museus significavam que a iconografia do Antigo Egito era instantaneamente reconhecível, justamente como é atualmente. Elementos como palmeiras, esfinges, hieroglifos, flores de lótus, o Olho de Hórus, leques de penas, camelos e rolos de papiros foram infinitamente reciclados para a decoração de interiores, de palcos e sets de filmes. A imagem é muito adaptável e muito redutível. Um simples pano de fundo de areia, uma pirâmide e uma palmeira e você está lá! Na década de 1890, o Antigo Egito era uma fonte de fascínio em todo o mundo ocidental, mas particularmente nos Estados Unidos, que adotou isto para representar uma continuidade entre a antiga civilização e o estado emergente com uma superpotência: Egito era preferível à iconografia da Antiga Grécia e Roma, uma vez que nitidamente contornou o legado das posteriores civilizações da Europa; os EUA desejaram qualquer coisa nova e desconhecida e assim o Antigo Egito um pouco ironicamente começa a ser associado com a modernidade. A Western Electric Company construiu uma fachada de templo egípcio, completo com incandescentes luzes elétricas na Chicago World’s Fair (Feira Mundial de Chicago) de 1893, completo com troca de telefone operado por empregadas domésticas egípcias seminuas e um grupo de homens do mesmo período implantando linhas telefônicas. Os antigos egípcios teriam sido abençoados (ou amaldiçoados) com o poder da jornada pelo tempo por cetenas de anos. Na Inglaterra, a conexão entre Antigo Egito e antigos filmes está bem encapsulada no fato de que o primeiro edifício na Inglaterra a ser influenciado pelo estilo egípcio — o legendário Egyptian Hall (“Salão Egípcio”) em Piccadilly (finalizado em 1812, demolido em 1905) — foi o espaço de apresentações públicas da maioria dos antigos filmes.

The Haunted Curiosity Shop [A loja de curiosidades assombrada ] (R.W. Paul, 1901)

The Haunted Curiosity Shop [A loja de curiosidades assombrada ] (R.W. Paul, 1901)

The Haunted Curiosity Shop [A loja de curiosidades assombrada ] (R.W. Paul, 1901)

Não somente como um esquema decorativo, o Antigo Egito é repleto de histórias com grande potencial para a literatura e a tela: Histórias bíblicas sobre faraós e o Êxodo, mas particularmente o poder de rainhas, tal como a figura de Cleópatra incorporando o exótico, o erótico e um certo nível de nudez permitida. Outras narrativas teve um elemento de horror: talentosos arquitetos (tal como Imhotep) que acabam emparedados dentro de tumbas, reis excessivamente poderosos, escravos, a obsessão com a morte e o além-vida (reservado para poderosos), mumificação e reencarnação. Um tema recorrente é o da mágica e transformação — múmias retornam à vida e se transformam em outras coisas, escaravelhos e joias de princesas egípcias são amaldiçoadas e mudam as pessoas ou controlam as pessoas ao longo do tempo. A propriedade única do cinema é a habilidade de mostrar essas transformações e visualizar histórias de civilizações passadas como se elas estivessem realmente acontecendo.

O Antigo Egito foi descoberto através dos seus remanescentes arqueológicos, é por isto que as histórias que temos são muito focadas na arquitetura e particularmente na arquitetura da morte, que se presta bem a adaptações para o cinema. A habilidade dos filmes de reavivar cenas perdidas no tempo, tanto no passado e futuro, pode repovoar um ambiente que está geralmente falando de dessecações. O Antigo Egito é a maior civilização que o homem do século 19 poderia voltar em termos históricos — o ponto onde a história conhece o mito. O romance sombrio destas frias areias do tempo — em que a pegada de um homem deixa uma impressão que é instantaneamente destruída pelo vento — emprestou umas gravitas às histórias que poderiam ser exploradas pela cultura popular, incluindo cinema ecoando os próprios faraós, que sem a história linear de sua civilização, apenas uma sucessão continua de histórias repetidas, cada rei tentando destruir o passado do seu antecessor imediato. Apenas com um esforço supremo de um excessivamente poderoso governante com milhares de escravos poderiam causar alguma impressão permanente na paisagem a ser construída.

Estátua de Ramsés II, o “Jovem Memnon”. A cabeça inspirou o poeta Percy Bysshe Shelley a escrever Ozymandias: … Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos! Nada resta: ao redor à decadência Destas ruínas colossais, sem limites e vazias As areias solitárias e planas estendem-se à distância.

Esta grandeza e melancolia sobre o Egito que nós encontramos no Ozymandias de Shelley empresta um gravitas para filmes locados no Egito, como ele desempenha a longo prazo nossa preocupação com nossas origens, o ressurgir e a queda das civilizações e o medo de que tudo o que nos são caros um dia será poeira. Esta qualidade épica é provavelmente apenas igualada por histórias ambientadas num futuro distante, no espaço.

A razão para que Antigo Egito seja infinitamente reciclado através do cinema, a partir desses antigos exemplos, é que ele desempenha a favor dos pontos fortes do cinema em si; a condução próxima da paisagem real vista em viagens e relatórios noticiando e o maior truque de mágica do cinema, tornando reconhecíveis as histórias familiares através da iconografia instantaneamente e a visualização do passado romantizado.

Texto original:
The sands of time: ancient Egypt and early film. Disponível em < http://blog.britishmuseum.org/2014/06/23/the-sands-of-time-ancient-egypt-and-early-film/ >. Acesso em 25 de junho de 2014.

*Acredito que o autor cometeu um engano, acho que neste período especifico foram somente 3 filmes.