Tutankhamon na Leituras da História

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille


 

Agora, na edição de maio da revista Leituras da História (da Editora Escala), está disponível nas bancas brasileiras a matéria com o faraó Tutankhamon na capa. O preço é R$8,90. Na edição, além da matéria ligada a Arqueologia Egípcia, encontramos também um texto para discussão em sala de aula sobre a Revolta da Chibata, e uma matéria que gostei [1] sobre as cápsulas do tempo (a autora, Morgana Gomes, cita até a Arqueologia). Alguns dos textos vêm com uma lista de bibliografia, muito interessante.


Tutankhamon na revista Leituras da História. Maio de 2011


Fiquei bastante animada em ver novamente uma matéria de capa com o Tutankhamon, mas logo de cara ela traz um erro em seu subtítulo quando lemos “Leituras da História apresenta os mistérios que restam aos arqueólogos – e à Ciência – desvendar”, a Arqueologia é tratada como ciência, então não faz muito sentido desvincular.

A proposta da matéria é apontar cinco mistérios acerca da vida e da morte de Tutankhamon, no “Mistério um” não entendi a relevância de mencionar um dos muitos achados de estátuas do faraó Amenhotep III no momento de se falar quem seria o pai do Tutankhamon, ao ler esta parte só se passou por minha cabeça a pergunta “Sim… E daí?”. Então, falar sobre esta descoberta em Kom Al Hitan, na minha opinião, foi muito desnecessária. No “Mistério dois” não vi problemas, pelo o contrário, trouxe até uma adição com um comentário sobre uma das novas propostas de quem seria a mãe do faraó.


Tutankhamon na revista Leituras da História. Maio de 2011. Captura: Márcia Jamille N. Costa. 15 de maio de 2011.


No “Mistério cinco” é necessário um esclarecimento sobre a ausência de ossos em um dos pés do faraó. Isto teria sido causado por uma osteonecrose, que se mostrou nos anos finais da vida do Tutankhamon, em suma, não é que ele tenha tido dificuldade de se locomover a vida inteira, mas somente no final dela.

Os erros mais bizarros da matéria estão nas imagens disponibilizadas. Na página 42 eu sinceramente não sei dizer se a foto com a legenda apontando para o Akhenaton é ele mesmo, mas na imagem com a legenda do Smenkhare, em verdade, é o Akhenaton, por acaso é uma das estátuas mais famosas dele, este foi um erro totalmente desnecessário. Na página 43, na imagem de um dos fetos encontrados na tumba do Tutankhamon ambas as legendas estão erradas, os fetos foram encontrados em sarcófagos próprios na Câmara do Tesouro, que fica um cômodo ao lado da Câmara do Sarcófago, onde está o corpo do rei, e ambos os bebês estão em Kasr El Ainy, a Faculdade de Medicina do Cairo, e não no Museu Egípcio de Berlim. Na imagem da página 44 vocês poderão observar a foto de uma múmia com a legenda “A valiosa múmia de Tutankhamon (…)”, mas na imagem está a imagem da “Jovem Dama” (YL) da KV-35, mulher que de acordo com o DNA, cujo resultado foi liberado em 2010, é a mãe de Tutankhamon. No detalhe da mesma imagem a redação aponta para o que na legenda diz ser a fratura do osso esquerdo do faraó, mas o que vemos é a foto de parte da luva de coroação de Tutankhamon.


Tutankhamon na revista Leituras da História. Maio de 2011. Captura: Márcia Jamille N. Costa. 15 de maio de 2011.


Na página 45 tem um quadro falando sobre a Maldição de Tutankhamon, nele diz que na parede da tumba existe uma inscrição amaldiçoando quem perturbar o local. Na verdade não existe nenhuma inscrição do gênero lá.

Não faço a menor ideia se este texto recebeu a correção de um arqueólogo especializado em egiptologia ou um egiptólogo (creio que não, já que não há menção), mas devo falar que infelizmente esta matéria não se tornou lá a minha favorita.

[1] Não li toda a revista ainda.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]

14 comentários sobre “Tutankhamon na Leituras da História

  1. Bom,vou ver a matéria,mesmo com este “errinhos”…
    Vou aproveitar para deixar uma pergunta,talvez só eu pense assim mas…
    Tenho a impressão que quando se olha para a mascara dele e imaginando que ele está sorrindo ele parece sorrir!Mas quando se pensa nele sério,ele está sério!
    Será que isso faz sentido…O.o

  2. para publicar uma história é preciso primeiramente uma boa revisão de tudo e procurar saber se o que será publicado é mesmo fato acontecido provado pela própria história ou mito.alguns que se dizem estudiosos acreditam uma tese e sai publicando como se de fato fosse o que ele acredita.creio que não é este o seu caso,mas infelizmente tem pessoas assim.a história de tutancamom e de muitos outros faraós e rainhas está muito longe de ser desvendada por completo.mas cabe aos estudiooso da área trazer ao mundo o que de fato pé provado e não mito.pois prejudica a história de um povo.

    • O problema é todo mundo quer ter uma tese que explique o que aconteceu a Tutankhamon. Uma múmia de um nobre qualquer (lembrando que múmia era coisa de gente que tinha grana ou que economizou muito) pode passar por um exame visual ou uma tomografia, tiram as conclusões e pronto, fica por isto mesmo, já Tutankhamon, qualquer coisinha é motivo para documentário. Cá entre nós, que relevância para a sociedade tem saber do que ele morreu? Saber as circunstâncias políticas da sua época já virou motivo para circo, mas todos querem demonstrar suas hipóteses para a morte dele. Quando saiu o resultado deste exame de DNA… Nossa… Vocês precisam ver quantas cartas e “artigos de resposta” o JAMA (onde foi publicado o resultado) recebeu.
      Fato comprovado: quando se trata de Tutankhamon arqueólogos e egiptólogos em peso (sem generalizações) descem do salto e fazem “descobertas impressionantes”. Lembro bem que quando estavam falando daquela história de que ele tinha morrido com uma pancada na cabeça eu falava que um dia iriam vir com outro tipo de morte, agora ele morreu de malária. Amanhã ele terá morrido do quê?

  3. Olá Márcia. Obrigado por me informar sobre a matéria publicada na revesta Leituras da História, acerca de supostas “descobertas impressionsntes” pertinentes a Tutankhamon.Suas observações abalizadas e esclarecedoras são oportunas e valiosas, para todos nós que acompanhamos seu site. Elas nos ajudam entender o verdadeiro sentido da referida matéria, e notarmos os eqívocos nela existentes.

    • Obrigada Francisco,
      Que bom que o texto serviu para te elucidar acerca deste assunto.
      De fato equívocos, espero que isto sirva para que a revista tenha mais cuidado com as informações (e as edições) que andam recebendo.

  4. Vamos lá!!!
    Manchete da novela das oito “Quem matou tutankhamon?…Será que foi a Flora ou a Donatela?”
    ¬¬’…O.o

  5. O mérito de todo esse alarmante,quando se fala de tutankhamon, é exclusivamente da mídia. Enquanto usarem as figuras egípcias como se fosse palco pra descobrimento de tesouros e múmias que perseguem arqueólogos,essa concepção generalizada e esse “fogo”,diga-se de passagem,não se apagará. Concordo plenamente com a Márcia quando ela diz: “Cá entre nós, que relevância para a sociedade tem saber do que ele morreu? “. Realmente,tem outras coisas a qual devemos nos preocupar. Ficar dando audiência pra mídia,não ajuda em trabalho científico nenhum,muito pelo contrário…Até atrapalha,e muito.

    Márcia, parabéns pelo site. Estou acompanhando e gostando muito.

    Cordialmente,
    Sabrina ( UFPE )

  6. Olá Márcia!
    Adorei os comentários sobre Tutankhamon e concordo contigo quando te referes a “que relevância para a sociedade tem saber do que ele morreu“. Não vale mais a pena saber como era a sua vida, como ele pensava a respeito de seu povo, mesmo sendo um rapaz ao trono Egípcio? Acredito que há muito mais a ser estudado com relação ao Egito Antigo do que o que levou à morte o nosso queridíssimo faraó Tutankhamon!

    Um grande abraço e parabéns pelo trabalho neste site!
    Paola

    • Olá Paola,
      Que bom que você também pensa assim porque hoje é muito triste o que vem acontecendo. Tutankhamon está deixando de ser um ser humano para ser palco de interesses bizarros (para não dizer ‘macabros’).
      Abraço!

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