Encontradas múmias de animais: Abidos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

A descoberta de múmias de animais ligadas ao deus chacal e restos de uma estátua de feições humanas – presumivelmente pertencente a rainha Hatshepsut -, revelam detalhes antes desconhecidos acerca de um espaço sagrado durante o Período Faraônico.

Localização de Abidos.

Para entender o pensamento da sociedade egípcia temos que ter em mente que precisamos inserir os estudos acerca dos animais ao contexto das pesquisas arqueológicas, uma vez que muitos dos aspectos das sociedades que viviam às margens do Nilo eram ligados intimamente com a visão de mundo que os egípcios possuíam a partir do seu olhar sobre os animais. Desta forma, ao longo do período faraônico, eram realizadas oferendas votivas de um determinado animal ligado a algum deus em especial.

Este ano foi anunciado no último dia 14/02/2012 a descoberta de mais de oitenta e três múmias de animais aparentemente associadas a imagem de um faraó, provavelmente Hatshepsut de acordo com a sugestão da equipe já que a imagem é masculina, mas possui uma quadril levemente avantajado, feição tipicamente feminina. Hatshepsut, que reinou no Egito entre os anos de 1473 – 1458 a.C. (XVIII Dinastia; Novo Império), é conhecida por ter sido uma das poucas mulheres a tornarem-se faraós e por ter se transvestido de homem, buscando se enquadrar a imagem de Hórus (do qual o faraó era um “representante” terreno) [Clique aqui e veja mais sobre Hatshepsut].

As descobertas foram feitas em Abidos durante a campanha passada pela a equipe de Mary-Ann Pouls Wegner, diretora da escavação e professora da Universidade de Toronto. Abidos outrora era considerada uma cidade sagrada devido ao culto a Osíris, pai de Hórus e governante do submundo. De acordo com a lenda o faraó em vida era Hórus e após a morte transformava-se em Osíris, o símbolo maior da fertilidade dos campos egípcios. Seu culto tornou-se popular em Abidos devido a crença de que teria sido lá onde se encontrava o seu sepulcro – existindo, inclusive, uma tumba que acreditavam ser dele [1] -, o que levou aos primeiros soberanos do Egito a escolherem tal cidade como local de sepultamento. Um templo dedicado a Osíris foi construído em Abidos e todos os anos, em uma grande procissão, os egípcios levavam uma imagem do deus deste templo até a sua tumba, onde era velada durante a madrugada com rituais performáticos. Esta procissão era tão importante que capelas tanto de indivíduos da realeza, como particulares foram construídas por toda a rota de passagem [1]. A procissão chamava-se “Mistérios de Osíris”, e ela era um louvor da vida e morte do deus (BAINES; MÁLEK, 2008, p. 114).

Crânio de um dos cães encontrados em Abidos. Imagem: North Abydos Votive Zone Project. 2012. Disponível em < http://www.livescience.com/18462-animal-mummies-ancient-egypt.html >. Acesso em 20 de Fevereiro de 2012.

As múmias foram encontradas em uma das câmaras de um sepulcro encontrado pela missão de Arqueologia. Dos oitenta e três animais encontrados somente dois são gatos, o restante são cães. A presença de tantos cães está ligada ao culto a Wepwawet, um deus chacal cuja procissão precedia imediatamente a de Osíris. Para a equipe de Wegner os animais foram sacrificados, porém existem indícios de que eles foram bem tratados em vida, como o caso de um cão que teve uma pata quebrada, mas que foi medicado e curado antes de ser entregue como oferenda [1].

Encontrar a estátua de madeira de Hatshepsut não é um dos únicos indícios que demonstra que o local foi utilizado em anos subsequentes aos primeiros cultos a Osíris, estruturas ligadas a Tutmosis III (sucessor de Hatshepsut) e até mesmo a Seti I foram descobertas. E Wegner também crê que pode existir outra tumba no local datada do Terceiro Período Intermediário. Na matéria divulgada pelo site LiveScience não fica claro de que período pertencem estes animais (apesar de associados à estátua não quer dizer necessariamente que todos pertenciam a mesma época), mas existem pesquisas que demonstram a existência de oferendas se prolongando até o final do período Greco-romano (BAINES; MÁLEK, 2008, p. 114). Em verdade é possível encontrar em Abidos artefatos ligados a vários faraós de diferentes épocas, desde Aha da I Dinastia até contextos do Período Tardio ligados aos faraós Apries, Amásis e Nectanebo I (BAINES; MÁLEK, 2008, p. 116-117).

Fonte:

Animal Mummies Discovered at Ancient Egyptian Site. Disponível em < http://www.livescience.com/18462-animal-mummies-ancient-egypt.html >. Acesso em 20 de Fevereiro de 2012.

BAINES, John. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito. (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2008.

 

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]