Serekh: o mais antigo abrigo conhecido para o nome real

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram 

O serekh é um símbolo de formato retangular que aparenta reproduzir a planta de um antigo palácio real (TIRADRITTI, 1998; EINAUDI, 2009). Foi utilizado para acolher o mais antigo dos cinco nomes dos faraós, o “título de Hórus” ou “nome de Hórus” (SILIOTTI, 2006). O que invoca essa titulação a Hórus é a presença desse deus no topo do serekh. Entretanto, um faraó da 2ª Dinastia foi pelo caminho contrário e trocou Hórus por Seth. Seu nome era Set Peribsen. Já outro, chamado Khasekhemui, adotou ambas as divindades no topo do seu serekh (COSTA, 2014), realizando uma apologia ao significado do seu próprio nome: “aparecem os dois poderosos”.

O surgimento dos serekhs:

Já podemos ver o serekh nos artefatos tinitas (ou seja, das primeiras dinastias) em Abidos, como um pente com o nome do rei Dejet, datado como pertencente à 1ª Dinastia (EINAUDI, 2006). Anterior a esse período os nomes reais vinham sem proteção alguma, como podemos observar na representação do rei Escorpião, assim como o do rei Narmer: em relação ao primeiro a imagem de um escorpião, que representa o seu próprio nome, está somente ao seu lado, fora de qualquer proteção, assim como o peixe e o porrete, composição do nome de Narmer (COSTA, 2014). Entretanto, no caso deste último, em seu topo, bem entre as imagens de cabeças femininas como orelhas e chifres de vaca (que se acredita trata-se de uma das mais antigas imagens registradas da deusa Hathor) está novamente o nome dele, mas dentro do serekh.

Paleta de Narmer. Imagem disponível em < http://es.wikipedia.org/wiki/Arte_del_Antiguo_Egipto#mediaviewer/File:Narmer_Palette.jpg >. Acesso em 14 de janeiro de 2015.

Detalhe da paleta de Narmer. No centro está o serekh com o nome do rei em seu interior. Observe que no canto inferior esquerdo o rei também está presente e em sua frente está seu nome sem a proteção do serekh. Imagem disponível em < http://es.wikipedia.org/wiki/Arte_del_Antiguo_Egipto#mediaviewer/File:Narmer_Palette.jpg >. Acesso em 14 de janeiro de 2015.

Maça do rei Escorpião. O escorpião em frente ao rosto do rei representa o nome do governante. Imagem disponível em < http://goo.gl/PwNGKI >. Acesso em 14 de janeiro de 2015.

No rótulo de marfim do rei Aha (Dinastia 0 ou 1ª Dinastia) encontrado em Nagada o nome do rei também está presente dentro de um (TIRADRITTI, 1998):

No topo, bem no centro, está um serekh com o nome do rei Aha. TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998. pág. 42.

Os serekhs não são encontrados somente em paletas e placas de marfim. Na estátua de um homem que viveu durante a 3ª Dinastia é possível ver gravados em seu ombro direito três serekhs com nomes de três reis (Hetepsechemui, Nebre e Ninetjer), governantes os quais este homem provavelmente serviu em vida (TIRADRITTI, 1998).

Imagem de um homem chamado Hetepdief. TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998. pág. 49.

A decadência do seu uso ocorreu com a chegada do Antigo Reino, período em que entraram em uso os cartouches, nome francês para “cartucho”, apelido dado pelo fato deste tipo de símbolo lembrar uma capsula de bala.

Referências:

COSTA, Márcia Jamille Nascimento. Uma viagem pelo Nilo. Aracaju: Site Arqueologia Egípcia, 2014.

EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009.

SILIOTTI, Alberto. Egito (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Editora, 2006.

TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]

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