Arqueólogos e dinossauros? Paleontólogos e múmias? Você está errado!

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

É extremamente comum a confusão entre o trabalho de arqueólogos e paleontólogos, embora sejam disciplinas que apesar de estudarem o passado possuem objetos de estudo impares. O equivoco maior é acreditar que profissionais da Arqueologia trabalham na busca e análise dos remanescentes de dinossauros, o que nem de longe é verdade, uma vez que este é o trabalho da Paleontologia. No texto a seguir vocês poderão conferir os aspectos gerais das pesquisas paleontológicas e entenderão em qual momento estas disciplinas podem acabar se encontrando.

O que é Paleontologia?

Malcolm McKenna na Mongólia em meados do século XX.

A Paleontologia (do grego palaios, “antigo” + ontos, “ser”, de “seres vivos” + logos, “estudo”) é a ciência natural que analisa animais e vegetais através dos seus remanescentes fósseis, para assim entender o passado geológico do nosso planeta. Seus estudos abrangem varias perguntas que buscam ser respondidas através da observação das estruturas morfológicas externas e internas de antigos organismos e as marcas de suas atividades, como pegadas e até mesmo urina — Clique aqui e saiba mais “Urólito: Xixi de Dinossauro – Marcelo Fernandes” —. Ela envolve conhecimentos advindos da Biologia, Geociências, Física, Matemática e Química, que unidas auxiliam na compreensão dos eventos que possibilitaram as mudanças ambientais no correr da história do planeta, mas tem em suma a sua base na Biologia e na Geologia  (CARVALHO, 2004). Já a Arqueologia (do grego arqueo, “antigo” + logos, “estudo”), assim como a Paleontologia tem como seu principal enfoque o estudo do passado, contudo a distinção entre ambas está no seguinte principio básico:

☥ Paleontologia: ciência que estuda animais e vegetais fósseis.

☥ Arqueologia: ciência que estuda a cultura material e imaterial.

Ou seja, a Arqueologia trata do passado da perspectiva humana, no entanto, tudo anterior ao aparecimento dos primeiros hominídeos faz parte exclusivamente da enseada da Paleontologia, cuja a importância não está somente em entender essa história mais pretérita. Com o seu estudo podemos compreender mais sobre as plantas e animais atuais, inclusive os próprios humanos, a exemplo da sua linha evolutiva (CARVALHO, 2004).

Escavação de um dinossauro herbívoro na província de Yunnan, China, em 1987.

Mas dentre os objetivos principais da Paleontologia estão:

☥ Analisar a biodiversidade que já existiu;

☥ Reconstituir o ambiente do passado;

☥ Definir uma cronologia para a idade da Terra através dos estratos geológicos (datações relativas, ou seja, gerais, não oferecendo um ano especifico como é o caso das datações absolutas);

☥ Fornecer dados para o entendimento da evolução biológica;

☥ Pontuar locais com reservas de hidrocarboneto, depósitos minerais, etc;

Infelizmente ambas essas disciplinas costumam ser confundidas com hobby, um simples passa-tempo, mas ao contrário do que o senso comum tende a pensar elas se utilizam de metodologias de campo para exercer seus trabalhos, contam com debates teóricos e as coletas de seus objetos de estudo devem ser realizadas somente por profissionais treinados em uma ambiente acadêmico devidamente reconhecido. É importante salientar que a posse ou venda de remanescentes paleontológicos e arqueológicos é crime.

Um poco da história da Paleontologia

Antes do surgimento desta ciência, no mundo ocidental o único conhecimento que se tinha do passado era aquele apresentado pela literatura clássica (grega e romana) e pela Bíblia, principalmente a partir da Idade Média, quando o conhecimento científico foi monopolizado pela Igreja Católica. Graças a isso se acreditava que o mundo teve uma origem sobrenatural e que além de ser mais recente do que é realmente — usando como parâmetro os anos apresentados pela Bíblia — teria um fim iminente, que seria causado pelo retorno de Cristo (SLOTKIN, 1965 apud TRIGGER, 2004).

Escavação na Patagônia revelando ossos de um Saurolophus.

Entretanto, com as descobertas ocasionais não somente de grandes ossos (que mais tarde desvendou-se como remanescentes da megafauna — mamíferos de grandes proporções — e de dinossauros), como também de ferramentas feitas em pedra [1] (as quais, até se descobrir que foram feitas por mãos humanas, eram rodeadas por interpretações sobrenaturais [2]), dúvidas sobre esse passado antes ensinado começaram a surgir.

Fotografia registrada durante uma expedição norte-americana na Mongólia em meados do século XX.

Contudo, em 1669, um pesquisador chamado Nicolau Steno (1638-1686), após comparar fósseis com conchas de moluscos modernas notou suas semelhanças, o que o levou a perceber que tais fósseis eram remanescentes de animais viventes em uma época muito antiga e não de pedras comuns. Com a chegada do século XVIII, cientistas começaram a sugerir muito mais abertamente, mas não livre de represálias, que o mundo era muito mais antigo do que os clérigos apontavam. Vemos surgir então figuras como o geólogo francês George Cuvier (1769 – 1832), um dos pais da Paleontologia científica, que reconstruiu esqueletos de fósseis quadrupedes que até então eram desconhecidos e através dos estratos geológicos conseguiu demonstrar para a comunidade científica a antiguidade destes espécimes e as sucessões de extinções (TRIGGER, 2004).

Paleontologia mais a Arqueologia:

Foi nesse período que uma Arqueologia mais primaveril começou a casar com a Paleontologia. Com uma visão mais questionadora sobre o passado, os remanescentes humanos ou artefatos em contexto com os ossos desses grandes quadrupedes desconhecidos começaram a abrir uma nova página para o entendimento da história do planeta, onde foi visto que em algumas regiões do mundo seres humanos conviveram com tais animais, hoje chamados de megafauna, caçando-os e sendo caçados [3].

Dentre estes animais temos registrados mamutes, rinocerontes peludos, tigres-de-dente-de-sabre, preguiças-gigante, antas, tatus-gigantes, palaeolama, grandes equinos, etc. No Brasil temos espécimes de megafauna, mas ainda não foram encontradas ocorrências convincentes de convivência humana com tais animais.

Osso de preguiça-gigante brasileira. Foto: Márcia Sandrine. 2015.

Esta coexistência foi apresentada não pela primeira vez, mas de forma oficial no livro The Geological Evidences of the Antiquity of Man (As evidências geológicas da antiguidade do homem), de Charles Lyell, em 1863, quatro anos depois da publicação do livro The origin of species by means of natural selection (Traduzido nas versões brasileiras como “A Origem das espécies”), de Charles Darwin, que explicando de forma simplista sugere que espécies evoluíram através de uma “seleção natural” e que os humanos e macacos possuem uma herança símia em comum (NEVES; PILÓ; 2008). Ambas estas obras tiveram muito impacto no desenvolvimento da Arqueologia paleolítica, interessada em entender o passado mais recuado da humanidade.

Em uma escala temporal

Para que vocês tenham uma ideia do quão é antiga a vida na terra e onde podemos encaixar a Arqueologia, separei o próximo parágrafo em duas cores: laranja para Paleontologia e roxo para Arqueologia:

Um dos animais mais antigos conhecidos a caminhar em terra seca foi o Tiktaalik, antes dele outras formas de vida —  as bactérias —  já existiam há cerca de 3,5 bilhões de anos, mas todas eram exclusivamente aquáticas. As primeiras plantas terrestres surgiram há 500 milhões de anos. Os dinossauros e primeiros mamíferos surgiram há 225 milhões de anos e por mais de 100 milhões de anos caminharam pela Terra, até serem extinguidos por um asteroide que caiu no nosso planeta há 66 ou 65 milhões de anos, deixando somente outros tipos de criaturas, a exemplo de pequenos mamíferos. Ao contrário do que alguns podem chegar a considerar, a vida humana não surgiu ligeiramente após a extinção dos dinossauros, ainda foi necessário muito tempo até que os primeiros hominídeos (antepassados de nós humanos modernos) surgissem há 7 milhões e meio de anos e ainda outros para que o Homo erectus caminhasse, há 1,8 milhões de anos e nesse meio tempo nossos antepassados irem desenvolvendo culturas e deixando sua história em ferramentas feitas em pedra e em registros rupestres há cerca de 30 mil anos e a domesticar tanto plantas como animais há cerca de 10 mil, para somente desenvolver a escrita há cerca de 8 mil (TRIGGER, 2004; NEVES; PILÓ; 2008).

Os termos que definem essas disciplinas são simples, mas caso ainda tenham dúvidas, ou tenham ficado mais curiosos, abaixo compartilho um vídeo que gravei em um Laboratório de Paleontologia, onde elaboramos uma mescla entre uma entrevista com um passeio guiado pelo o acervo paleontológico para mostrar as diferenças entre os trabalhos de ambas as áreas.

Visitando um Laboratório de Paleontologia:

No dia 14/07 visitei o Laboratório de Paleontologia do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde — Departamento de Biologia da Universidade Federal de Sergipe onde gravei uma entrevista em vídeo com o Prof. Drº Alexandre Liparini Campos. Além da entrevista caminhamos pelo acervo acompanhados por Paulo Ricardo Lima Aragão, aluno PIBIC/COPES-UFS.

A ideia deste vídeo é mostrar as diferenças entre os trabalhos de Arqueologia e de Paleontologia.

Esta entrevista foi muito esclarecedora para mim e foi divertido aprender mais sobre fósseis, conhecimento que compartilho agora com vocês. Estou escrevendo um post também para o #AEgípcia, onde contarei detalhes de como foi a minha visita. Quando estiver pronto o anexarei aqui.

Onde estudar Paleontologia no Brasil?

Para quem está curioso, não existe no Brasil graduação em Paleontologia, mas existe a Pós-graduação (Mestrado e Doutorado), então o comum é o aluno sair da Geologia ou Biologia. Este é um quadro parecido com o da Arqueologia há uns sete anos atrás, quando não existia as graduações e onde a solução era o interessado sair da História (que é uma disciplina impar da Arqueologia, tendo uma das poucas coisas em comum o estudo do passado) ou mesmo de outras áreas que realmente não tinham nada a ver como literatura, jornalismo, advocacia, administração, etc.

 

Referências bibliográficas:

CARVALHO, Ismar de Souza (Ed). Paleontologia. Volume 1. Rio de Janeiro: Editora Interciência, 2004.

NEVES, Walter Alves; PILÓ, Luís Beethoven. O povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos. São Paulo: Editora Globo, 2008.

TRIGGER, Bruce. História do Pensamento Arqueológico. São Paulo: Odysseus, 2004.

Museu de curiosidades #3 – Megafauna. Disponível em < https://saemuseunacional.wordpress.com/2013/04/05/museu-de-curiosidades-3/>. Acesso em 06 de agosto de 2015.

Site: 

Sociedade de Paleontologia Brasileira: http://www.sbpbrasil.org/
Nele é possível ler artigos científicos, lista de algumas das Universidades onde é possível estudar Paleontologia no Brasil e links interessantes relacionados com a disciplina.

Colecionadores de Ossos: www.scienceblogs.com.br/colecionadores
Este é um blog que reúne várias notícias sobre descobertas paleontológicas e vídeos que mostram aspectos da profissão de paleontólogo.


[1] Até o século XVII acreditava-se que tais ferramentas feitas em pedra fossem fósseis, que por sua vez se imaginava que possuía origem inorgânica.

[2] Ainda hoje entre alguns indivíduos mais crédulos estas pedras possuem uma origem mística, como um dos seus nomes sugerirem: “pedra de raio”.

[3] Mas não podemos esquecer-nos da Zooarqueologia, ramificação que trabalha exclusivamente com os remanescentes faunísticos encontrados em contexto com os sítios arqueológicos e que também pode ser aplicada a este período.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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