Sobre a teoria de câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde meados de 2015 a tumba do faraó Tutankhamon (KV-62) tem sido alvo de pesquisas não invasivas realizadas pelo Ministério das Antiguidades do Egito. São estudos que buscam por evidências de que a sepultura, que possui somente quatro cômodos, em verdade possuiria câmaras ocultas por trás de duas das paredes da câmara funerária (Imagem 01).

Imagem 01: KV-62. As partes amareladas são sugestões do que existiria atrás das paredes. Imagem: Theban Mapping Project (com adições).

Essa busca foi influenciada pelo o artigo do egiptólogo Nicolas Reeves, The burial of Nefertiti, que após observar fotos em alta resolução das paredes da sepultura salientou que o local contém ranhuras e rebocos grosseiros que apontariam que o túmulo possui uma continuação. Ainda de acordo com a sua interpretação, em verdade a KV-62 não pertencia a princípio ao Tutankhamon, mas à rainha Nefertiti, a qual Reeves acredita que teria governado como faraó.

— Leia mais em “Dossiê: Bastidores da procura por câmaras escondidas na tumba de Tutankhamon”.

Apesar da crença de que a KV-62 seja a sepultura de Nefertiti não seja aceita por muitos acadêmicos, a sugestão de que existiriam câmaras ocultas chamou a atenção do Ministério das Antiguidades, que nos dias 28 e 29 de setembro (2015) levou Reeves para dar uma olhada pessoalmente no local. Ocasião em que o ministro anunciou que existia uma grande possibilidade de haver câmaras secretas na tumba (uma chance de 70% em suas palavras).

Imagem 02: Hirokatsu Watanabe. Foto: Brando Quilici. 2016.

Um mês depois desta visita o pesquisador Hirokatsu Watanabe passou um radar na sepultura e anunciou que nos locais apontados por Reeves “Obviamente é uma entrada para alguma coisa”, complementando que “É muito profundo”[1]. Tempos depois, em 17 de março (2016) foi realizada uma conferência de imprensa onde foram liberadas as seguintes imagens:

Imagem 03: Dados produzidos pelas curvas do radar de penetração. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Imagem 04:  Área 1 e 2: O radar sugere que sejam espaços vazios; W e X o radar sugere que sejam metais; Y e Z o radar sugere que sejam materiais orgânicos. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Foi após este período que começou a crescer cada vez mais a desconfiança por parte de acadêmicos e não acadêmicos de que talvez a forma como esta pesquisa estava sendo levada era só uma tentativa de fascinar as pessoas e fazê-las visitar o país, cujo turismo não está em seus melhores anos.

— Leia mais em “Câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon ou uma forma de chamar a atenção dos turistas para o Egito?

Uma segunda análise com um scaner foi realizada, mas ao contrário da primeira o Ministério das Antiguidades não liberou nenhuma imagem. O que foi particularmente estranho. Se vocês observarem eu nem sequer cito aqui no Arqueologia Egípcia o que ocorreu neste período porque alguma coisa realmente não estava se encaixando. E eu não estava interessada em encher o A.E. com notícias incompletas sobre uma pesquisa que estava cada vez mais parecendo ter intenções questionáveis.

Paralelamente, pesquisadores não vinculados ao projeto começaram a pedir por mais dados da análise feita pelo o Watanabe, afinal, o Ministério só tinha liberado imagens verticais e não horizontais. E de fato, com um corte assim não é possível ter muita certeza do que ele conseguia ver.

Conferência sobre o Tutankhamon:

Ocorreu entre os dias 06 a 08 de maio (2016) uma conferência no Egito para mostrar as últimas pesquisas realizadas sobre o faraó Tutankhamon e a última mesa do evento foi dedicada justamente para discutir a busca por câmaras ocultas. E nesta mesma mesa participaram Mamdouh Eldamaty (que era ministro na época em que os trabalhos tiveram início), o Nicholas Reeves, Hirokatsu Watanabe, Yasser El Shayb e Zahi Hawass.

Um dos meus contatos estava presente e pelas informações passadas ocorreu um notável debate acadêmico. Incrivelmente, horas mais tarde, a imprensa internacional e nacional (Egito) teve mais interesse em veicular sobre o breve bate-boca entre Hawass e Eldamaty e não se preocupou em noticiar para seus leitores que Watanabe, que meses antes tinha tanta certeza de que existia uma câmara oculta na tumba,  desta vez falou que os seus dados são inconclusivos. Ele ainda complementou que o seu aparelho foi customizado por ele e que por isso só ele conseguia ler os dados obtidos [2].

Imagem 05: Trabalho realizado pela National Geograhic. Foto: Kenneth Garrett. 2016.

Dias seguintes, 11 de maio (2016), saiu uma notícia escrita pelo jornalista e bacharel em Arte, Owen Jarus, no site Live Science [3] onde foi mencionado que os dados coletados pela equipe da National Geographic não foram liberados para o público porque eles simplesmente não tinham encontrado nada no local, mas que o Ministério queria continuar a manter a história. De acordo com a sua matéria ele tinha solicitado para a National Geographic os dados de sua pesquisa e como resposta foi dito que ela estava proibida de liberar qualquer informação sobre o assunto.

Quais são os passos futuros?

Tempos depois da mesa redonda do dia 08 o atual ministro anunciou que ia montar uma nova comissão para definir quais novas pesquisas serão realizadas. Particularmente não faço ideia de qual técnica eles planejam utilizar agora já que eles já fizeram uso do GPR, que de acordo com o pesquisador Lawrence Conyers (especialista na área e que foi entrevistado pelo Owen) é a ferramenta mais confiável.

Por hora só nos resta esperar.

Fontes:

[1] Will a New Bout of King Tut Fever Bring Visitors Back to Egypt?. Disponível em <http://news.nationalgeographic.com/2015/10/151002-tutankhamun-valley-of-the-kings-nefertiti-hidden-burial-rooms-archaeology-howard-carter-nicholas-reeves/ >. Acesso em 28 de novembro de 2015.

[2] In Egypt, Debate Rages Over Scans of King Tut’s Tomb. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/2016/05/160509-king-tut-tomb-chambers-radar-archaeology/ >. Acesso em 09 de maio de 2016.

[3] Nefertiti Still Missing: King Tut’s Tomb Shows No Hidden Chambers. Disponível em < http://www.livescience.com/54708-nefertiti-missing-no-chambers-in-king-tut-tomb.html >. Acesso em 11 de maio de 2016.

Lá no canal do Arqueologia Egípcia no YouTube irá sair um vídeo onde respondi algumas questões sobre esta pesquisa. O vídeo sairá aqui no site em uma próxima postagem, mas caso queira se inscrever no canal é só clicar aqui.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]