Antigos feitiços egípcios prometiam trazer a pessoa amada

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A recente decifração de um papiro descoberto há cerca de 100 anos pelos arqueólogos Bernard Grenfell e Arthur Hunt em Oxirrinco, próximo a Fayum, mostrou um lado mais obsessivo dos egípcios antigos. Sua tradução foi realizada por um pesquisador da Universidade de Udine (Ítália), Franco Maltomini. O que ele leu foram alguns detalhes do desejo possessivo de algumas pessoas do Período Faraônico em forçar nascer o amor em terceiros ou a submissão através de magia. Em um dos textos o leitor é ensinado a “queimar o coração” da mulher desejada até que ela o ame. Também é explicado como realizar um feitiço para “subjugar” algum homem em especifico, para que ele realize tudo o que lhe for mandado.

Imagem meramente ilustrativa. Nebamun e sua esposa. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/menesje/sets/72157622616113777/ > Acesso em 14 de maio de 2011.

De acordo com Maltomini, estes feitiços eram formulas para invocar os deuses e interceder pela pessoa. Bastava somente que ela inserisse em meio ao feitiço o nome do indivíduo desejado. Esta magia é datada do período romano e está escrita em grego. Mas a surpresa maior é que os deuses invocados são gnósticos, ou seja, incorporavam elementos cristãos. O cristianismo estava em acessão no Egito neste período e tinha frequente choques com a religião oficial, que ainda cultuava os antigos deuses, alguns deles helenizados, como era o caso de Serápis.

Papiro que prometia fazer uma pessoa se apaixonar ou ser subjugada. Foto: © the Imaging Papyri Project, University of Oxford & Egypt Exploration Society.

No texto voltado para enfeitiçar uma mulher pode-se ler mais ou menos o seguinte:

Eu vos conjuro, terra e água, pelo demônio [1] que habita em você. E conjuro o destino deste banho para que, enquanto se queima, queime ela [aqui era posto o nome da mulher visada] que [aqui era escrito o nome da mãe da moça] pariu, até que ela venha a mim (…) Nomes sagrados, inflamem o caminho e queimem o coração dela.

Depois bastava que fosse realizada uma série de oferendas em uma casa de banho e se registrasse o feitiço nas paredes do local.

— Leia também: Um afrodisíaco no Antigo Egito

Magias no Egito Antigo:

Fórmulas mágicas não eram incomuns na Antiguidade egípcia. Acreditava-se, por exemplo, que se algo fosse escrito em um contexto religioso a ação citada magicamente iria acontecer ou entrava como uma narrativa do passado. Este era um caminho utilizado por muitos faraós, em especial aqueles que estivessem prestes a ir ou já tivessem participado de alguma grande batalha.

Conjurações e amuletos também eram utilizados para fazer mal a um inimigo. Um dos exemplos conhecidos é advindo do reinado do rei Senusert III, onde os chamados “textos para amaldiçoar” foram utilizados. Eles eram escritos em pedaços de cerâmicas que depois eram quebradas.

Fontes:

Ancient ‘Mad Libs’ Papyri Contain Evil Spells of Sex and Subjugation. Disponível em < http://www.livescience.com/54819-ancient-egyptian-magic-spells-deciphered.html >. Acesso em 08 de junho de 2016.

Para poder ler esta pesquisa:

Graeco-Roman Memoirs 103 (P. Oxy 82). Disponível em < http://www.ees-shop.com/index.php?main_page=product_info&cPath=5&products_id=956 >. Acesso em 08 de junho de 2016.


[1] No artigo do Live Science não é explicado o contexto do termo “demônio”. Quando vemos em uma tradução de um texto egípcio o uso de tal palavra pode ser uma referência a um dos dois tipos de “entidades errantes”: os “andarilhos” ou “guardiões”. Se for o caso dessa formula, talvez o papiro esteja falando dos “guardiões”, que seriam os poderiam protetores de um determinado lugar.

Udapte (09/06/2016 – 17h11) – Enviado pelo usuário @marcus_valias via Twitter:

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]