(Filme – Resenha) “A pirâmide” (2014)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este texto não contém spoiller.

O filme “A Pirâmide” (“The Pyramid”, no original) é uma ficção de terror cuja trama se baseia na ideia da descoberta de uma misteriosa pirâmide de três paredes encontrada no deserto do Egito no auge da Primavera Árabe. Sua estreia ocorreu em dezembro de 2014.

Filmado em uma mistura de found footage e gravação em terceira pessoa, o enredo nos traz os arqueólogos Nora (Ashley Hinshaw) e Holden (Denis O’Hare), que descobrem uma pirâmide de construção incomum no meio do deserto egípcio através de imagens de satélite. O que chama a atenção da cinegrafista Sunni (Christa Nicola) e o câmera Fitzie (James Buckley) que vão até o sítio arqueológico para poder gravar um especial com a equipe abrindo a tumba pela primeira vez. Porém, assim que eles adentram o local descobrem que sair de lá não será nada simples.

Apesar de algumas loucuras cinematográficas (é de praxe, dificilmente algum filme que queira vender fugirá disso), “A Pirâmide” é um dos pouquíssimos longas que conseguiram usar elementos tão reconhecíveis do Antigo Egito e dos trabalhos de Arqueologia. Dois bons exemplos é a própria descoberta da pirâmide, que me lembra os estudos realizados na pirâmide de Djedfra, que também está localizada no deserto e que cuja pesquisa inspirou um documentário para a The History Channel com mais de duas horas de duração. Outro é a descoberta de sítios arqueológicos com o uso de imagens de satélites ou fotografias aéreas, ferramentas que têm sido utilizadas já há muitos anos. Mas certamente a inclusão desta metodologia no filme foi inspirada por algumas notícias que rolaram na internet e em alguns programas de TV de que pirâmides teriam sido descobertas no deserto egípcio. Infelizmente, tais notícias beiravam ao equívoco.

Foto: Divulgação.

Porém, o filme propõe que alguns arqueólogos são avessos a tecnologia. De fato alguns usam metodologias demasiadamente defasadas, mas isso não é geral. Muitos são extremamente receptivos a novas ferramentas que possam auxiliar na interpretação arqueológica. O problema é saber usar. Aí já é uma outra questão. A desculpa do filme é que usar novas metodologias e ter resultados totalmente diferentes dos alcançados em outras ocasiões implicaria questionar trabalhos de uma vida. Acreditem, existe gente realmente assim, mas novamente este pensamento não é unanime e muitos são ansiosos por novas descobertas.

Sobre o robozinho, o Shorty, há anos pesquisadores tentam utilizar robores com câmeras para entrar em estruturas arqueológicas. Isso, inclusive, foi realizado na pirâmide de Khufu e as imagens foram transmitidas ao vivo para os espectadores em casa pela National Geographic. A pena é que não encontraram nada [1].

Retornando para o enredo, a princípio a pirâmide é associada com o faraó Akhenaton, mas depois corrigem explicando que ela seria de um outro período. Mas só aproveitando a deixa; na época de Akhenaton, o Novo Império, reis não estavam mais sendo sepultados em pirâmides, mas em hipogeus. Somente em duas épocas a alta nobreza foi inumada em pirâmides: durante o Antigo Reino e durante a Baixa Época, quando o Egito esteve sob domínio núbio.

Foto: Divulgação.

E eles fazem um brevíssimo comentário tecendo um paralelo entre o Aspergillus e maldições: Bem no início do filme, quando todos estão esperando a abertura da pirâmide, ocorre uma explosão de um pó verde, que mais tarde nos é revelado que se trata do Aspergillus. Em outro momento, quando todos estão calmos, o Holden, um pouco irritado, diz que nem quer ouvir falar de uma sugestão de maldição. A fala dele tem relação com um acontecimento real; a proposta de que o Lord Carnarvon, patrocinador da descoberta da tumba do faraó Tutankhamon, teria morrido graças a infecção do seu sangue pelo o Aspergillus, isso após ter sido picado por um mosquito e ter machucado o local ao se barbear (- Saiba mais assistindo: “A Maldição de Tutankhamon”). Aqui no Arqueologia Egípcia já até citei a morte de uma turista pelo Aspergillus no texto “(Resenha – Documentário) A Maldição de Tutankamon, da Discovery”.

Foto: Divulgação.

E foi interessante ver no filme o Ministério das Antiguidades do Egito (MSA) ser citado porque ele foi criado justamente na época da Primavera Árabe de uma forma relâmpago. O Ministério é mencionado porque no enredo ele estava retirando todas as equipes de Arqueologia do país. Porém, na realidade os poucos arqueólogos que estavam trabalhando no Egito foram justamente utilizados como propaganda pelo governo para passar para o mundo que estava tudo sob controle no país. Por outro lado, algumas regiões desérticas estão sob o auspício de militares, então os roteiristas do filme podem ter realizado esta relação, embora, mesmo antes da Primavera, pesquisas nessas regiões eram proibidas devido as próprias manobras do exército.

Na cena do arsenal que eles encontraram dentro da tumba vê-los utilizar o luminol foi no mínimo peculiar. Posso estar errada, mas acredito que esta ferramenta não funciona em artefatos arqueológicos. Deixo em aberto aí para quem tem realmente uma boa experiência na área responder.

Foto: Divulgação.

E claro, temos os anacronismos. Nenhum filme que cite algum assunto histórico está de todo imune a esse tipo de erro. Existiam vários tipos de textos funerários, mas o Livros dos Mortos, que é citado no filme, passou a ser popularizado no Novo Império. Na época das pirâmides os que eram utilizados são os chamados hoje de “Textos das Pirâmides”. Também é dito que os Gatos Esfinges são da Antiguidade egípcia, mas a verdade é que eles não existiam no Egito, esta foi uma licença poética do longa. Este tipo de raça surgiu somente na década de 1960 aqui na América.

Também é citado os maçons como ladrões de tumbas. Não sei exatamente de onde eles tiraram esta ideia, mas creio que deve ter alguma relação com o fato de que alguns maçons eram membros da nobreza dos séculos XVIII, XIX e XX, que, por sua vez, costumavam ser colecionistas.

Considerações finais:

Ao contrário das várias críticas negativas que este filme ganhou em alguns sites, em um sentido muito geral (e ignorando alguns efeitos especiais de um gosto bem questionável) gostei do enredo. A pena é que apesar de ter casado, na medida do possível, tão bem com a Arqueologia e a cultura egípcia faraônica, o final, ao menos para mim com o meu olhar de arqueóloga, foi bem decepcionante. Não posso falar do que se trata, porque é um spoiller, mas eu o cito na conclusão do vídeo que gravei para o canal do Arqueologia Egípcia no YouTube, onde também comento sobre este filme:

Dicas de leituras:

Sobre a pesquisa com robôs dentro da pirâmide de Khufu:

The Secret Doors Inside the Great Pyramid. Disponível em <http://www.guardians.net/hawass/articles/secret_doors_inside_the_great_pyramid.htm>. Acesso em 04 de junho de 2016.

Robot to Expose Hidden Secrets of the Pyramids. Disponível em <http://www.livescience.com/6860-robot-expose-hidden-secrets-pyramids.html>. Acesso em 04 de junho de 2016.

Acerca de presença do Aspergillus em sítios arqueológicos:

(Resenha – Documentário) A Maldição de Tutankamon, da Discovery. Disponível em <http://arqueologiaegipcia.com.br/2014/05/08/resenha-documentario-a-maldicao-de-tutankamon-da-discovery/>. Acesso em 04 de junho de 2016.


[1] Somente posteriormente conseguiram ver que no pequeno espaço tenham inscrições hieroglíficas ao estilo das que existem em uma das câmaras da própria pirâmide, que apontam os nomes das equipes de trabalhadores que a construiu.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]