Análise em múmia de ave egípcia revela mais sobre o tratamento animal durante o Faraônico

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma das características mais marcantes da civilização egípcia definitivamente foi a sua tradição de mumificar tanto humanos como os demais animais. No caso destes últimos, alguns acadêmicos optam por dividi-los em quatro categorias: Pets, comida para o além, sagrados e de devoção. Os de devoção diz respeito aos que faleceram naturalmente ou foram sacrificados para que os sacerdotes os utilizasse como oferenda para uma determinada divindade. Foram encontrados em sítios múmias de crocodilos, babuínos, gatos, falcões, íbis, touros, cães, etc, todos em diferentes contextos.

Mykreeve/Flickr

Recentemente, durante uma análise de uma múmia de uma ave, pesquisadores, sob a coordenação da zooarqueóloga Salima Ikram, encontraram uma surpresa rara: tal múmia, identificada como um falcão, parece ter sufocado até a morte por culpa de um rato cujo cóccix está em seu esôfago e o restante do corpo jaz no estômago. Também foram encontrados vestígios de, pelo menos, dois outros ratos e ossos de pardal e garras.

— Leia mais sobre animais no Egito Antigo no capítulo Necrópoles para Animais do livro “Uma viagem pelo Nilo”.

Na natureza uma ave de rapina como essa teria comido a sua presa, digerido o que podia e regurgitado partes como os ossos e dentes. Porém, este animal em questão estava tão empanturrado que não teve chance de vomitar, sugerindo para Ikram que ele foi mantido em cativeiro e alimentado à força.

Imagem do CT Scan mostrando os restos do rato no esôfago da ave. Foto: South African Mummy Project Team.

Registros de animais criados em cativeiro e alimentados à força já eram conhecidos, como a citação a seguir deixa claro no caso de um crocodilo sagrado:

O crocodilo sagrado é alimentado em um lago separado, os sacerdotes sabem alimentá-lo e o chamam Sobek. Seu alimento consiste em pão, carne, vinho, que cada um dos visitantes estrangeiros lhe traz. É assim que nosso hóspede, personagem considerado no país, que se havia nos oferecido para servir de guia, teve a precaução, antes de partir para o lago, de apanhar sobre sua mesa um doce, um pedaço de carne cozida e um frasco de hidromel. Encontramos o monstro estendido sobre a margem, os sacerdotes se aproximaram e, enquanto uns lhe afastavam as mandíbulas, outro introduziu goela abaixo o doce, depois a carne, e conseguiu fazer com que ele tragasse o hidromel. Depois disso, o crocodilo se lançou no lago e nadou em direção à margem oposta; mais um outro estrangeiro apareceu, trazendo também sua oferenda; os sacerdotes tornaram-na nas mãos, fizeram a volta do lago correndo e, com o crocodilo dominado, fazem-no tragar da mesma maneira as guloseimas que lhe são destinadas.

— Estrabão (VERCOUTTER, 2002, p 25, 26).

Bovídeos alimentados à força. Foto: STROUHAL, 2007. 117.

A grande diferença é que agora temos um espécime conservado capaz de nos mostrar empiricamente como alguns tratadores de animais durante o faraônico poderiam ser descuidados (ou quem sabe cruéis).

Imagem do CT Scan mostrando os ossos não digeridos. Foto: South African Mummy Project Team.

Esse foi um, entre milhões de animais, que foram cuidados para serem mumificados e oferecidos aos deuses entre cerca de 600 a.E.C a 250 d.E.C. Ele provavelmente foi ofertado ao deus sol, Rá, ou a Hórus, a exemplo de muitos outros da sua espécie.

Esta pesquisa será apresentada em uma publicação da National Geographic (Estados Unidos) em setembro deste ano (2016). Ainda não foi lançada uma previsão para a sua publicação na edição brasileira.

Fonte:

COSTA, Márcia Jamille Nascimento. Uma viagem pelo Nilo. Aracaju: Site Arqueologia Egípcia, 2014.
STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.
VERCOUTTER, Jean. Em busca do Egito Esquecido. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.


A notícia sobre essa descoberta foi veiculada no Snapchat da National Geographic. Não foi apontado em qual sítio arqueológico a múmia foi encontrada. Leia também aqui: Look Inside an Ancient Egyptian Bird Mummy. Disponível em < http://www.nationalgeographic.com/magazine/2016/09/explore-egyptian-bird-mummy/ >. Acesso em 01/09/16.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]