Sepulturas de crianças egípcias revelam desnutrição generalizada, diz arqueóloga

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

É em Saqqara, antiga Menphis, que se encontra um dos principais cemitérios do Egito, que existiu deste a época da unificação do país, sendo utilizado ainda por muitos anos após a era dos faraós. Lá, além de pessoas comuns foram sepultados mulheres e homens ilustres. É onde se encontra também a primeira pirâmide do país: a pirâmide de Djozer.

Recentemente a Dra. Iwona Kozieradzka-Ogunmakin, da Universidade de Manchester, em sociedade com a Missão Arqueológica Polaco-Egípcia, fez uma série de descobertas perturbadoras: eles encontraram corpos de crianças que parecem ter sofrido de grave anemia, cáries dentárias e sinusite crônica.

Duplo sepultamento de crianças com 4 ou 5 anos de idade. Foto: Iwona Kozieradzka-Ogunmakin

A equipe trabalha no local desde 2006, com o objetivo de estudar restos humanos mumificados ou esqueletizados e assim realizar uma análise acerca da relação entre o status social e a saúde física da antiga população de Saqqara durante o Período Ptolmaico, além de tentar entender o efeito do ambiente sobre a saúde humana.

“Dada a estreita dependência dos antigos sistemas agrícolas egípcios no rio Nilo, flutuações ambientais podem ter tido impacto adverso sobre a saúde da população no antigo vale do Nilo”, disse ela ou IBTimes. “Meu estudo foi baseado em um pequeno agrupamento de 29 indivíduos com 12 anos ou menos no momento da morte e que foram recuperados de um cemitério ptolomaico em Saqqara. Embora a aglomeração seja bastante pequena, ela apresenta uma importante contribuição para o corpo de pesquisa sobre as populações da época ptolomaica do Egito que até agora permanecem não estudadas”.

A saúde das crianças:

Através dos seus estudos, Kozieradzka-Ogunmakin foi capaz de estabelecer que a criança mais jovem tinha algumas semanas de idade e as mais velhas 12 anos, mas a maioria tinha entre três e cinco anos. A partir de observações macroscópicas — ou seja, a olho nu —, ela foi capaz de aprender mais sobre suas dietas e o tipo de ambientes em que elas teriam vivido.

Suas análises revelaram a presença dos indicadores de estresse fisiológico [1]: Olhando para os ossos orbitais, ela descobriu que elas estavam porosas em 70% das crianças — uma condição conhecida como cribra orbitalia. Isso pode ser indicativo de anemia causada por uma deficiência de minerais, como ferro ou vitamina B12 e B9.

Duplo sepultamento: Uma mulher com cerca de 30 a 40 anos de idade e uma criança com 7 anos de idade. Foto: Polish Centre of Mediterranean Archaeology (PCMA)

Como metade dessas crianças tinham entre três e cinco anos, a arqueóloga acredita que a doença pode ter surgido quando deixaram de ser amamentadas e mudaram para uma dieta mais pobre e insalubre. Sua conclusão bate com o contexto geral do Egito Antigo, cuja mortalidade dos infantes está várias vezes relacionada com a deficiência em vitaminas causadas durante esse período de transição alimentar.

— Saiba mais: Ser criança no Egito Antigo 

“Práticas de alimentação e desmame espalhadas por todo o antigo Egito poderia ter sido em grande parte responsável pela alta prevalência da cribra orbitalia no atual conjunto de esqueletos. Desmamar um lactente colocou-os em risco, incluindo aumento da morbidade e mortalidade como resultado de doenças infecciosas e parasitárias”.

A outra hipótese é que a cribra orbitalia foi causada por uma doença parasitária como a malária, tão comum durante a antiguidade egípcia.

Kozieradzka-Ogunmakin também descobriu evidências de cárie dentária entre os corpos. “Um quarto das crianças com dentição preservada foram afetadas pela deterioração dentária, e a maioria eram indivíduos com idade entre três a cinco anos no momento da morte. Um dos alimentos básicos na dieta egípcia antiga foi pão; dietas onde os açúcares são misturados com amidos poderia ser mais cariogênicas do que o açúcar por conta própria”, salientou.

Múmia parcial de uma criança de 8 meses de idade. Foto: Polish Centre of Mediterranean Archaeology (PCMA)

A pesquisadora também encontrou indícios de que algumas dessas crianças podem ter sofrido de sinusite crônica.

Kozieradzka-Ogunmakin poderia descobrir muito mais, se fosse capaz de realizar estudos moleculares ou exame histológico dos tecidos moles. Porém, o Ministério das Antiguidades não permitiu que os restos fossem enviados para fora do país.

Fonte:

Graves of ancient Egypt’s last children reveal widespread malnutrition. Disponível em < http://www.ibtimes.co.uk/ancient-egypts-children-died-young-suffered-anaemia-tooth-decay-1602859 >. Acesso em 14 de fevereiro de 2017.


[1] Efeito desfavorável de fatores ambientais sobre as funções fisiológicas de um determinado organismo.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]