Uma entidade maligna do Egito Antigo na série “Penny Dreadful”?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

“Penny Dreadful” é uma série de terror e fantasia que se passa durante a Era Vitoriana. Seu enredo faz várias analogias a personagens de histórias literárias clássicas de horror tais como “Drácula” de Bram Stoker, “Frankenstein” de Mary Shelley e “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde. O seu nome vem de publicações de terror e horror que eram vendidas no século XIX na Inglaterra por centavos; Penny Dreadfuls: “centavos do horror” (DAVINO, 2014; MOREIRA, 2017).

Mas, além de tirar inspirações nestas publicações, a produção também se inspirou em algumas das coisas que eram vistas como instigantes para os ricos da Era Vitoriana, como era o caso do ocultismo, onde a ele poderia ser misturado um pouco de mitologia egípcia, isto graças a Egiptomania.

 

Egiptomania e o ocultismo:

São várias as formas de apropriação do passado egípcio. Algumas delas são através de movimentos sociais, outras por meio da espiritualidade. Esta insistência em se ter um pedaço do passado egípcio para si têm levado muitas pessoas desde o século XIX a criar narrativas onde os antigos mitos egípcios se encaixavam com suas crenças pessoais. Nisso criaram novas roupagens para o Egito Antigo. Estas novas roupagens são tema de estudo da Egiptomania a qual, falando de forma bem básica, é a apropriação de elementos das antigas sociedades egípcias — tais como imagens, gramática, mitos, etc — mas, dando a ela uma nova vida ou um novo uso (BAKOS, 2004).

Fotos: Penny Dreadful (Divulgação)

E é um dos ramos da Egiptomania que estuda o fascínio dos ocultistas em se misturar em suas sessões elementos da antiga civilização egípcia. Durante o século XIX essas sessões costumavam ocorrer em salões particulares ou em gabinetes de pessoas ricas. E é em um desses salões que os personagens principais de Penny Dreadful se depararam com o nome Amonet. Referida no enredo como “A Oculta”, Amonet é tomada como um demônio bastante perigoso e que se cujo poder foi libertado trará catástrofe. Mas, será que era isto mesmo?

 

Amonet: um demônio egípcio?

No Egito Antigo uma das tradições que existia era empregar a dualidade. O deserto versus o Nilo, a ordem versus o caos, a vida versus a morte. E também algumas divindades possuíam sua contraparte. É o caso dos deuses da “Ogdóade de Hermópolis”. Este grupo de deuses têm esse nome porque o “ogdóade” refere-se ao número 8 (LESKO, 2002).

Assim temos Nun e Naunet representando as águas primordiais, Kuk e Kauket a escuridão, Hu e Hauhet a ausência de forma e Amon e Amonet que representavam o ocultamento. O “ocultamento” de Amon e Amonet não é porque eles eram demônios que espreitavam no escuro, mas, pelo motivo de serem divindades cuja natureza expressava conceitos da criação de acordo com a concepção religiosa egípcia (LESKO, 2002).

 

Fontes:

BAKOS, Margaret. Egiptomania. O Egito no Brasil. 1a.. ed. São Paulo: Paris (Contexto), 2004.

DAVINO, Vanessa. Penny Dreadful: Rastros de clássicos góticos em palimpsesto televisivo de horror; Davino (UFBA); BABEL: Revista Eletrônica de Línguas e Literaturas Estrangeiras; ISSN: 2238-5754 – n.07, ago/dez de 2014.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

MOREIRA, Maria Elisa Rodrigues. Penny Dreadful: a literatura e o cinema nas telas da TV. In: Anais do XV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada. ABRALIC. Rio de Janeiro: UERJ, 2017. v. 3. p. 5324-5332.

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]