Pesquisadores estão tentando identificar fragmentos antigos de tinta em uma múmia egípcia

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Ao contrário do que possa parecer, pelo fato da antiguidade egípcia ser uma das sociedades antigas mais populares entre os fãs de história, sabemos pouco sobre as pessoas que viveram às margens do Nilo.

Estamos falando de uma civilização que passou por grandes períodos históricos onde mudanças culturais — pequenas, porém relevantes — ocorreram. E que cujos remanescentes, a exemplo de seus mortos, foram privados de sua identidade durante as explorações a tumbas que ocorreram há alguns séculos. Um exemplo foi o que ocorreu com uma múmia que chegou à América no início do século 19.

Atualmente pertencente ao acervo do Art Institute de Chicago, essa múmia foi exibida primeiro no Art Institute e depois no Children’s Museum de Indianápolis dentro de um caixão de madeira, que por sua vez é dedicado a uma mulher chamada Wenuhotep. Entretanto, ao retornar para Chicago em 2007, foi descoberto que o caixão não pertence originalmente a essa múmia, cuja verdadeira identidade se perdeu com o tempo.

Contudo, apesar da ausência do verdadeiro nome dessa pessoa, os arqueólogos responsáveis por sua análise não se intimidaram e descobriram alguns detalhes interessantes sobre esse indivíduo: A primeira descoberta, graças a tomografias recentes[1], é a de que essa pessoa era do sexo masculino. A segunda, foi através da identificação do método de mumificação e o estilo da decoração aplicada em seu invólucro, o que tornou possível saber que essa pessoa viveu durante o Período Ptolomaico (cerca de 332 a 30 aEC), época em que o Egito foi governado por faraós de descendência grega. Já o sarcófago é datado da 26ª Dinastia, ou seja, é cerca de 500 anos mais velho.

Essa múmia chegou à coleção acompanhada de quase uma centena de artefatos faraônicos que foram comprados no Egito em 1892 por Henry H. Getty e Charles L. Hutchinson, os dois primeiros administradores do local. Vale salientar que nos dias de hoje a venda e posse de artefatos arqueológicos é crime em alguns países, a exemplo do Egito e do próprio Brasil.

Em 1941, ela foi emprestada ao Oriental Institute da Universidade de Chicago. De lá, viajou para Indianápolis, para o Children’s Museum, em 1959, onde permaneceu em exibição até 2007.

Agora a múmia está passando por uma série de estudos para se conhecer mais acerca deste homem e procurar meios que possibilitem a conservação das pinturas que decoram os objetos que foram encontrados juntos ao corpo: uma máscara funerária, uma cobertura para os pés e dois painéis — os quais um cobria seu tronco e o outro as pernas —. Ambos os painéis foram decorados com cenas funerárias e imagens de divindades. Esses artefatos são feitos com cartonagem, que basicamente é um material feito com tecido de linho coberto com finas camadas de gesso.

O estado da múmia foi documentado cuidadosamente antes que a equipe pudesse iniciar o tratamento nas pinturas, que passaram por uma análise de Luminescência Induzida Visível (VIL). Essa técnica não invasiva (ou seja, que não prejudica a múmia ou qualquer outro tipo de artefato onde ela for aplicada) foi desenvolvida pelo cientista de imagem do Art Institute, Giovanni Verri. Através dela uma câmera digital com um sensor modificado para detectar radiação infravermelha pode determinar se o azul egípcio (um tipo de pigmento artificial criado pelos egípcios antigos para substituir a cor do lápis-lazúli) está presente. O VIL é uma ferramenta útil até mesmo quando apenas alguns grãos minúsculos de tintura sobreviveram ao passar do tempo ou se o pigmento não aparenta mais ser azul devido à descoloração.

Outro ponto importante dessa pesquisa foi a tentativa de remoção da sujeira que estava cobrindo a superfície da múmia e seus artefatos. Mas, como muitos tratamentos de conservação de artefatos arqueológicos, isso está provando ser mais fácil dizer do que fazer. Os conservadores realizaram testes em com vários solventes em um local discreto de uma das cartonagens para saber até onde ia sua capacidade de remover a sujeira sem afetar a tinta. O resultado foi desanimador: as soluções aquosas de fato removem a sujeira, mas também afetam a tinta, que é altamente sensível à água.

Os trabalhos ainda não estão finalizados e a equipe de conservação do museu espera trazer em um futuro não tão distante mais novidades sobre essa pesquisa.

Fontes:

Wenuhotep: Mystery Mummy. Disponível em < https://www.artic.edu/articles/451/wenuhotep-mystery-mummy >. Acesso em 19 de maio de 2020.

Solving a Mummy Mystery. Disponível em < https://www.artic.edu/articles/459/solving-a-mummy-mystery >. Acesso em 19 de maio de 2020.

The Secrets of a Mummy Emerge. Disponível em < https://www.artic.edu/articles/819/the-secrets-of-a-mummy-emerge >. Acesso em 19 de maio de 2020.


[1] Em 1988, enquanto estava emprestada ao Children’s Museum de Indianápolis a múmia passou por uma tomografia, cujo resultado foi inconclusivo. Retornou para Chicago em 2007, onde os dados coletados em 1988 foram reexaminados pela egiptóloga Dra. Emily Teeter, do Oriental Institute da Universidade de Chicago. Ela descobriu que a múmia não era a verdadeira dona do sarcófago, assim como que também trata-se de um homem.  

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]