Ser pai no Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Quando comecei a escrever este texto não fiquei surpresa por não encontrar nenhum artigo falando especificamente sobre a paternidade, no sentido de afetividade (zelo, amor por seus filhos) na antiguidade egípcia [1], porque eu sempre tive a impressão de que para muitos acadêmicos o ato de cuidar de crianças estivesse fora da enseada masculina ou que nem sequer ela fosse digna de ser estudada pela Egiptologia. Contudo, quando procuramos sobre a paternidade no sentido de virilidade o assunto torna-se digno de citação e isso é uma grande infelicidade porque estamos perdendo a oportunidade de observar as famílias egípcias de um ponto de vista amplo.

Pai com as suas crianças. Tumba de Inherkha. 20ª Dinastia. Deir el-Medina. STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p.25

Não sabemos bem qual era a situação social da paternidade ao longo do faraônico. Entendemos que o cuidado dos infantes até certa idade era praticamente a responsabilidade das mães e que essas tinham grande papel na identidade da criança em meio a sociedade, afinal, sabemos, por exemplo, que a criança, independente do seu sexo biológico, usualmente era relacionada, mesmo na idade adulta, com a mãe e raramente com o pai (DESPLANCQUES, 2011; COELHO; BALTHAZAR, 2012). Esse posicionamento era estendido ao âmbito funerário, onde a crença ditava que a progenitora doava parte do seu coração para o rebento no momento da gestação (STROUHAL, 2007).

Da parte do pai a crença ditava que a criança herdava os ossos, mas a importância não parava por aí: no faraônico já se tinha o órgão sexual masculino como o recipiente do mu, o esperma nos termos de hoje, onde estava a essência do bebê, o qual, para desenvolver, precisava ser depositado em uma mulher e é aí onde alguns acadêmicos acreditam que veio a perspectiva da criação egípcia ter sido iniciada por uma divindade masculina e não feminina (STROUHAL, 2007; WILFONG, 2010). Uma proposta aceitável, já que o óvulo não era conhecido, mas que é extremamente simplista, necessitando de mais debates.

Seti I e seu filho Ramsés II retratados no Templo de Abidos. 19ª Dinastia. O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark (a). Grandes civilizações do passado: Terra de faraós (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007. p. 14

Saindo do campo espiritual, os registros escritos nos dão uma imagem formal da educação dada de um pai para o seu filho, a exemplo dos “Livros das Instruções”, “Compendio de Instruções pelo Nobre e Real Príncipe Hordjedef” e a “Instrução de Ptahotep”, onde é apresentado o personagem do pai, que de forma ríspida passa concelhos de cunho moral e ético para o seu herdeiro (STROUHAL, 2007), mas saindo do campo da escrita, que usualmente partia do ponto de vista idealizado pela a elite, e observando os registros arqueológicos é possível observar um mundo muito mais amplo onde o amor paternal e sua preocupação com a educação de suas filhas e filhos demonstram um teor mais humano e menos protocolar.

Akhenaton brinca com uma de suas filhas. 18ª Dinastia. Amarna. STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p. 56.

A iconografia, ao lado de alguns textos literários ao estilo das instruções apresentadas acima, costumavam também retratar um ambiente formal e muitas vezes idealizado, mas em alguns momentos podemos ver exemplos de amor paternal, especialmente durante o Período Amarniano, quando vemos o faraó Akhenaton segurar suas filhas, acariciá-las e até brincar. Outro é Tutankhamon: ele nunca foi retratado cuidando de nenhuma criança, mas em seu túmulo foram encontrados dois corpos pequenos de bebês falecidos provavelmente um antes de nascer e o outro ligeiramente após o parto. Acredita-se que ambos sejam meninas e suas filhas. Independente da verdade o fato é que estas crianças foram sepultadas justamente no espaço do sepulcro reservado para guardar os órgãos internos do próprio Tutankhamon.

Se olharmos mais atentamente poderemos encontrar muito mais exemplos desta ligação mais afetuosa entre os pais e seus filhos, sejam biológicos ou adotivos. A Arqueologia, especialmente a latino-americana, está aí para isso e precisamos aproveitar este momento em que ela está cada vez mais aberta a entender o passado de uma perspectiva mais ampla para começar a levantar estas questões.

Referências:

BALTHAZAR, G. S.; COELHO, l. C. “As múltiplas sensibilidades do feminino na literatura egípcia do Reino Novo (c. 1550-1070 a.c.)”. In: CANDIDO, M. R. (Ed). Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG Ltda, 2012.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

GRALHA, J. “Senhora da casa, divindade e faraó as várias imagens da mulher do Antigo Egito”. In: CANDIDO, M. R. (Ed). Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG Ltda, 2012.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

WILFONG, T. G. “Gender in Ancient Egypt”. In: WENDRICH, W. (Ed). Blackwell Studies in Global Archaeology: Egyptian Archaeology. New Jersey: Wiley-Blackwell, 2010.

Crianças no Antigo Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A relação entre os egípcios adultos e suas crianças, especialmente aquelas de fora da enseada da realeza, ainda nos é nebulosa. Dentre algumas características gerais é determinado que na estatuária ou iconografia elas usualmente fossem representadas pondo o indicador na boca ou menor que as demais figuras, embora pareçam representar pessoas mais maduras.

Ramsés II representado como uma criança chupando o dedo. Foto disponível em < http://www.panoramio.com/photo/8724911 >. Acesso em 12 de outubro de 2014.

Do lado mais espiritual, a crença ditava que era a deusa da escrita Seshat quem definia por quantos meses ou anos a criança viveria, mas que existiam vários males que estariam na espreita esperando uma brecha dos pais (STROUHAL, 2007). Por outro lado, havia varias rezas e amuletos que poderiam servir para proteger a criança tanto de doenças como de mortes trágicas.

Além destas informações temos conhecimento, também gerais, de outros aspectos da vida infantil e que envolvem desde o lado lúdico mais a vivência no âmbito familiar e até a morte.

Brinquedos:

O arqueólogo inglês Flinders Petrie durante suas pesquisas descreveu artefatos que julgou serem brinquedos, tais como bonecas representando mulheres segurando seus bebês, animais comuns na antiga paisagem egípcia, barquinhos, bolas (feitas de tecido, papiro ou couro, recheadas com palha) e até pequeninas múmias em seus ataúdes (STROUHAL, 2007), mas as brincadeiras poderiam ser diversas e contavam muito com a criatividade e a imaginação infantil. Madeira, pedras e até plantas podiam proporcionar muito divertimento, fruto da engenhosidade que podemos notar até nas crianças da atualidade.

Princesa amarniana em jardim. STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. pág. 7.

Além dos brinquedos, elas se distraiam com jogos frívolos como testar seu equilíbrio (sobre tábuas ou sobre os ombros dos seus próprios amigos), corrida, brigas, danças, natação e o conhecido “pisar nas uvas” que consistia em se dar as mãos fazendo um círculo, como em uma ciranda, e girar: enquanto algumas crianças ficavam de pé outras eram levadas ao chão, mas sem tocá-lo totalmente.

Garotas brincando de “pisar nas uvas”. STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. pág. 26.

Trabalhos e obrigações:

A partir dos cinco anos as crianças já começavam a ser treinadas para o trabalho, exercendo diferentes funções, dependendo do que se esperava dela, indo das mais simples até as mais complexas com a passagem dos anos. Entretanto, uma carta da 18ª Dinastia (Novo Império) nos alerta que crianças deveriam ser tratadas de fato como crianças ao reprimir uma família que tomou uma menina jovem como funcionária (FROOD, 2010). Não era incomum também que as crianças herdassem as atividades dos pais, por exemplo, filhos de sacerdotes tendiam a assumir postos semelhantes, ou em caso de oferendas familiares que eram levadas a diante pelos filhos (FROOD, 2010; SPENCER, 2010).

Adultos e crianças trabalhando. STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. pág. 36.

Vestimenta:

As crianças egípcias raramente eram representadas vestidas. O normal, tanto entre as classes comuns como entre a realeza, eram os infantes viverem nus e descalços (FROOD, 2010). Como uma assinatura de sua infância tanto meninas como meninos usavam um corte de cabelo especifico, constituído por uma cabeça praticamente raspada, exceto por uma mecha lateral comprida (usada normalmente até os dez anos). Em casos especiais, como os das princesas ou príncipes que eram obrigados a chegar à maioridade devido à acessão ao trono, estes eram representados como adultos, ou seja, totalmente carecas, usando perucas ou com os cabelos integralmente crescidos.

Pai na companhia de suas filhas. TROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. pág. 25.
Tutankhamon quando criança representado com vestimentas de um adulto, já que era um faraó. Disponível em < http://www.griffith.ox.ac.uk/gri/carter/gallery/p0686als.html >. Acesso em 20 de Novembro de 2011.

Alimentação:

Durante o século I a.E.C, o historiador grego Diodoro Sículo escreveu que “(…) até o momento de seu completo crescimento, a criança não custa aos pais mais que vinte dracmas” (STROUHAL, 2007, 25) e este talvez seja um quadro semelhante para os tempos mais pretéritos.

Após o seu nascimento esperava-se que a criança fosse alimentada com o leite materno o máximo quanto fosse possível. A literatura indica que em alguns casos elas poderiam ser alimentadas até os três anos. Durante este período algumas crianças estavam livres de morrer por infecções, contudo, em alguns casos, a morte vinha a ocorrer devido a uma falta de adaptação durante a troca do leite materno para outro tipo de alimentação que usualmente era constituída por talos de papiro, pão e cerveja (STROUHAL, 2007).

Morte:

Observando os registros arqueológicos vemos que aparentemente as crianças que tinham mortes prematuras, especialmente as natimortas ou falecidas ligeiramente após o evento do parto, não possuíam um túmulo exclusivo para elas, sendo sepultadas com a mãe ou o pai, dependendo de quem falecia primeiro. Contudo, ao menos fora da realeza, existem situações em que o corpo era posto em um recipiente de barro e sepultado ao lado da casa ou dentro dela. Supostamente em casos particulares, quando a família não conseguia estabelecer uma ligação fraternal com a criança falecida, o corpo era deixado nos limites do deserto ou jogado no Nilo, para ser devorado pelos animais (STROUHAL, 2007).

Observando algumas múmias remanescentes é possível notar que o zelo no embalsamamento que foi dado para os adultos foi transmitido para os infantes (STROUHAL, 2007), mas isto para aqueles cuja família tinha condições de pagar. Para as crianças mais pobres nos restam somente alguns ossos frágeis. A diferença é notada também no involucro: as abastardas eram sepultadas em pequenos ataúdes de madeira ou de ouro (como foi o caso das filhas de Tutankhamon), já as carentes tinham como proteção ou já citados potes de barro, tecidos ou esteiras de palmeiras. Já o espólio funerário era composto de amuletos, jarros e brinquedos (STROUHAL, 2007).

No lado direito está uma caixa destampada com os dois pequenos ataúdes que guardavam os corpos dos dois bebês (provavelmente filhas de Tutankhamon) encontrados na KV-62. Foto disponível em < http://www.vazyvite.com/html/egypte/egypte_luxor3.htm >. Acesso em 12 de outubro de 2014.

Referências:

Frood, Elizabeth. Social Structure and Daily Life: Pharaonic. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

Spencer, Neal. Priests and Temples: Pharaonic. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

(Guest Post) Produção Científica de História sobre “Vivenciando o Egito Antigo em Sala de Aula”

Nas últimas semanas a profa. Lorena Mendonça Aleixo contou para mim sobre as atividades que estava realizando com os alunos dela, onde estava incluso uma sala temática sobre o Antigo Egito. Os seus relatos acerca das atividades são muito interessantes e podem servir como inspiração para outros educadores, então fiz um convite pedindo um Guest Post. A Lorena é graduada do Curso de Licenciatura em História da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) e Professora do Município de Rio Bonito e Município de Tanguá. Seu projeto foi realizado com as turmas do 6º ano (turmas A, B e C) da Escola Municipal Maurício Kopke, localizada no município de Rio Bonito-RJ. A atividade foi realizada no dia 05 de Julho de 2013 e nela os alunos puderam vivenciar fatos históricos, caracterizando-se de acordo com os personagens da época específica. A profa. teve o apoio da direção da Instituição de Ensino a Srª Lenita Carvalho da Silva e a Srª Franciane Lurdes Mendonça. Quem também tiver interesse em escrever um Guest Post é só enviar uma mensagem pelo formulário de contato. Abaixo confiram o texto:

INTRODUÇÃO

“Uma escola que tem História, sabe levar o aluno a construir a História de sua vida”.
Maurício Hanna Badr.

Ensinar História nos dias de hoje tem se tornado um verdadeiro desafio, pois em uma sociedade onde as crianças lêem cada vez menos, passam o dia jogando video-game, assistindo televisão e usando o Facebook, ensiná-los a importância da História e a construção de um pensamento crítico, muitas das vezes é frustrante. São raros os alunos que se interessam pelo estudo da História, pois, segundo eles, “é uma matéria chata que fala sobre coisas do passado onde a professora fala coisas difíceis, é necessário decorar textos enormes”.

Lecionar História não é copiar textos no quadro com linguajar rebuscado e no final da aula solicitar aos alunos que respondam a uma série de perguntas no qual se trabalha somente a capacidade de memorização e não o entendimento e o raciocínio crítico. Não queremos dizer que copiar textos no quadro não tenha sua importância, entretanto, o ensino-aprendizagem vai muito mais além do que isso, é necessário que o aluno vivencie e se interesse pelo que esta sendo ensinado, é preciso aguçar a curiosidade do aluno, trazer a História para a realidade deles, fazer com que os mesmos se sintam parte da História e vivenciem aquele momento como se estivessem na época dos Faraós, dos Reis e Rainhas, da Ditadura Militar, enfim, é necessário viver a História.

Lorena Aleixo e seus alunos.

Aprender, portanto, não significa recitar um número cada vez maior de conceituações formais, mas elaborar modelos, articular conceitos de vários ramos da ciência, de modo a cada conhecimento apropriado pelo sujeito ampliar-lhe a rede de informações e lhe possibilitar tanto a atribuição de significados com o uso dos conceitos como instrumentos de pensamento. Enfim, a aprendizagem promove uma transformação cognitiva no individuo que envolve reflexão, análise e síntese, ou seja, o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer (Sforni e Galuch, 2006).

Através da experiência como professora de História do 6º ano, podemos perceber que a dificuldade em compreender a História aumenta nesta etapa, em comparação aos outros anos do Ensino Fundamental do segundo seguimento. Pois, é durante este período que a maturidade do aluno está sendo desenvolvida, juntamente com o seu conhecimento e capacidade de questionar. No conteúdo de História do 6º ano se trabalha Pré-História e História Antiga, conteúdos que, muitas das vezes, se torna distante demais do entendimento do aluno. Não basta somente explicar que na Pré-História o homem que era nômade tornou-se sedentário, é necessário que além do significado da palavra, o aluno entenda a razão do acontecido, ou seja, o que levou o homem a se tornar sedentário, o que mudou, e por que o aluno precisa saber isso.

Em virtude disto, usamos como estratégia, o método construtivista, passando a realizar encenações durante algumas das aulas, tentando trazer um pouco mais da vivência da história para os alunos. Assim, formatou-se a idéia de um Projeto. Quando esta idéia foi apresentada para a turma, os alunos mostraram-se entusiasmados e interessados rapidamente, dando inicio ao “Projeto Sala Egípcia”. Uma Sala Temática sobre o Egito Antigo, no qual os alunos seriam os personagens principais deste evento.

O Egito Antigo está muito mais disseminado no imaginário popular, seja por conta dos filmes como, por exemplo, “A Múmia”, “Moisés: O Príncipe do Egito”, entre outros, ou até mesmo por conta de todo o esoterismo que ele atrai e através de vídeos games, podendo ir muito mais além. Ao participar do Projeto, os alunos puderam aprender muito mais sobre o Egito Antigo de uma maneira lúdica e divertida.

Consideramos como uma experiência efetiva e gratificante, pois o objetivo em trazer a História para a vida dos alunos além da vivência deste momento foi alcançado. Vale à pena ressaltar, que alunos de outras turmas de diferentes seguimentos também tiveram contato com a “atmosfera egípcia” onde puderam interagir, tornando-se personagens, como se não estivessem mais em uma sala de aula, e sim no Antigo Egito as margens do Rio Nilo.

OBJETIVO GERAL

Nosso maior objetivo como educador é incentivar a criança a gostar de História, a entender que é um direito de todo o ser humano ter acesso a informação. Além disso, ao instigar a curiosidade dos alunos, vemos que eles buscam mais informações na internet assim como em livros e através dos questionamentos realizados aos pais e aos professores. Acabamos por atuar como agentes catalizadores de motivação e interesse por História e pelas demais disciplinas.

ESPECÍFICOS

Levar os alunos a vivenciar a partir de encenações, fatos históricos de diversas épocas.

Buscar através de caracterizações de personagens históricos a interação do aluno no processo ensino-aprendizagem.

Contribuir de maneira efetiva para o ensino-aprendizagem dos alunos utilizando o método construtivista.

METODOLOGIA

Para a realização do referido projeto, tivemos como metodologia a utilização do Método Construtivista, por considerar ser uma estratégia que auxilia sobremaneira o ensino-aprendizagem, além de colaborar na integração e sociabilização dos alunos.

Os trajes foram confeccionados tendo como referência, pesquisa realizada na Internet pelos alunos participantes do Projeto.

RESULTADO

Para a realização deste Projeto os alunos se dividiram em grupos, onde cada grupo tinha uma função importante na realização do evento, havendo uma interdependência entre eles.

Grupos de alunos caracterizados. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

O primeiro grupo de alunos representou a sociedade egípcia, sendo trajados de Faraó, Esposa Real, Servo, Escravo, Militar, Escriba e Sacerdote. O segundo grupo, representando a riqueza da religião egípcia, caracterizaram-se de Deusa Maat (a Deusa do Equilíbrio e Justiça) e a Deusa Ísis (Esposa do Deus Osíris, deusa da maternidade e fertilidade), além de mais duas alunas, uma que representou os Rituais Fúnebres caracterizada de Múmia, e outra representando a cultura através da arte da música e dança, trajada de dançarina egípcia. Os trajes foram confeccionados de TNT e EVA, e os demais adereços como coroas e braceletes foram feitos de cartolina e papel laminado, o cetro, chicote e lança foram confeccionados com cano de PVC envolvidos com fita dupla-face e papel laminado, somente a espada do militar que foi feita de madeira trabalhada e envolvida com o papel laminado e durex.

A “Sala Egípcia” foi montada no refeitório da escola e transformada numa sala improvisada com uma imensa cortina para separar os ambientes, dentro desta sala foram montadas estandes com diversos materiais, onde cada grupo de alunos era responsável pelo seu setor, informando e ensinando que se aproximasse para observar os trabalhos expostos.

Sala Egípcia. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Em uma dessas estantes havia livros didáticos, “pop-up” de literatura sobre o Egito Antigo, além de revistas. Todo material exposto estava disponível para ser manuseado e examinado por todos que visitavam a exposição.

Material de consulta do Egito. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Também foram confeccionados pelos alunos estatuetas de argila para representar os Shauabtis (estatueta funerária egípcia de aspecto mumiforme, designada a substituir o falecido na execução dos trabalhos agrícolas após a morte), material que ficou exposto e um grupo de alunos disponível para tirar dúvidas dos curiosos que se aproximavam deste estante.

Estande dos Shauabtis. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Outro grupo de alunos ficou responsável pela confecção das vestimentas egípcias, onde bonecos foram vestidos com roupinhas feitas de restos de tecido e paetês pelos próprios alunos (com uma ajuda especial dos pais e avós) e expostos na Sala.

O mini-museu foi montado com os trabalhos realizados pelos alunos e pelos materiais que eu mesma levei (fotos, papiros, amuletos, panos e estatuetas).

Mini-Museu. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Os alunos se maquiavam como egípcios e apresentavam o trabalho para as turmas que chegavam na sala para visitar a exposição, cada aluno que visitava esta estande além de se informar sobre as técnicas de maquiagem egípcia, também tinha os seus olhos e rostos pintados pelos alunos responsáveis por este setor da Sala. O material utilizado pelos alunos foi lápis de olho, delineadores, batom e sombras.

Produção da maquiagem egípcia com a diretora Srª Lenita. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Além dos cartazes de trabalhos sobre o Egito Antigo, Mumificação e Deuses Egípcios expostos nas paredes da sala, também foram expostas maquetes das Pirâmides de Gizé na entrada da Sala Egípcia.

Alguns alunos que não estavam participando dos estandes e nem estavam trajados, atuaram como monitores da Sala Egípcia, cuidando da iluminação da sala, do som, da localização dos alunos trajados, da organização dos estandes e dos demais alunos que visitavam a sala, enfim, colaboraram para uma perfeita organização e funcionamento da Sala Egípcia.

Todo o material necessário para a realização deste Projeto foi fornecido pela Escola Municipal Maurício Kopke e pelas Diretoras Srª Lenita Carvalho da Silva e Srª Franciane Lurdes Mendonça que foram de fundamental importância para a realização deste Projeto.

Não houve um aluno que não se surpreendeu ao entrar na sala egípcia, as janelas foram tapadas com cartolina preta e a luz ficou apagada, apenas a luz de um abajur dava o clima de mistério e aguçava a curiosidade, o som ficava ligado tocando músicas egípcias e um leve aroma de incenso pairava no ar, o visitante da Sala Egípcia logo que entrava era recepcionado pelas Deusas Ísis e Maat, que guardavam os portais da Sala Egípcia, logo em seguida se deparava com uma múmia repousando no meio da sala sob o olhar vigilante do Sacerdote, ao lado o Faraó acompanhado de sua Esposa Real, seu Servo, Militar, Escriba e Escrava observavam os visitantes que por alí passavam em direção os estandes, onde podia-se observar os inúmeros trabalhos expostos nas paredes e nas mesas, bem como a Biblioteca do Egito, onde o visitante poderia ler e manusear as obras, observar as peças egípcias no Mini-Museu e admirar os Shauabtis feitos de argila. Monitores atentos a todo o instante, prontos e capacitados para tirar qualquer dúvida dos visitantes acerca dos materiais expostos. No final da exposição uma dançarina egípcia dança ao som ambiente que impregnava magicamente a Sala com a atmosfera egípcia. Ao lado uma equipe de alunas maquiavam os visitantes com a maquiagem egípcia, além de ensiná-los as técnicas e a história por trás deste costume. Na televisão passava ininterruptamente documentários sobre o Egito Antigo, e no computador tocava a música egípcia acompanhado de belíssimas imagens (vídeos extraídos do youtube), no final da sala, ao sair, o visitante mais uma vez era cumprimentado pelas Deusas e guiado pelos monitores.

O “Projeto Sala Egípcia” não só despertou a paixão pelo Egito Antigo, como também por todos aqueles que a visitaram. Todos os alunos participaram voluntariamente e foram fundamentais para o sucesso deste Projeto, assim como os pais que visitaram a sala, prestigiando seus filhos e a direção da Escola que foi de grande apoio e incentivo para a realização do Projeto.

A Sala Egípcia aconteceu no dia 05 de Julho de 2013, tendo início às 9 horas e término às 16 horas (com intervalos). Todas as turmas da Escola Municipal Maurício Kopke visitaram a exposição, assim como alguns pais de alunos, demais funcionários da escola e coordenadores do município, que ficaram encantados com o Projeto e a competência dos alunos do 6º ano ao executá-lo.

CONCLUSÃO

Através deste Projeto, foi possível despertar a paixão e a curiosidade pela História, em especial pelo Egito Antigo. Os alunos passaram a gostar mais de História, se tornaram mais participativos em sala de aula, podemos observar inclusive, uma sensível melhora no aproveitamento dos alunos participantes. Sabemos que este Projeto ficará para sempre registrado na mente destes alunos, contribuindo para que haja um grande diferencial no futuro e na formação dos mesmos. Sendo extensivos também aos demais alunos que visitaram a Sala Egípcia.

Isto foi percebido claramente em alguns depoimentos de alunos que participaram do Projeto, como poderemos observar logo abaixo.

“Eu gostei da Sala Egípcia que retratou bem o Egito que é um dos lugares que eu gostaria de conhecer!(…)”. (Dâmaris – 11 anos)

“Eu amei a Sala Egípcia, é educativa e divertida. Eu amei quando eu fui a rainha”. (Helena – 11 anos).

“Eu gostei da Sala Egípcia por que foi muito legal e eu aprendi um monte de coisas legais e interessantes. Eu vi a dançarina e também gostei quando as crianças entraram na Sala Egípcia para ver as coisas e se maquiar. Foi a melhor coisa que eu já fiz na Escola toda! (Ludmila – 12 anos)

“Eu adorei a Sala Egípcia por que eu fui a Deusa Maat(…)”. (Edielli – 11 anos).

“Eu gostei muito da Sala Egípcia, foi bom para avaliar a capacidade de cada um. A parte que eu mais gostei foi quando a múmia levantou e as crianças menores morreram de medo(…)”. (Aline – 11 anos)

“O que eu mais gostei foi do faraó e seus criados, servo, serva, escravo, escriba, militar e muito mais. Achei realista e muitos também acharam bem feito.” (Maria Pilar – 11 anos)

“Eu gostei de muitas coisas: a múmia, os trabalhos, a Deuses, as pessoas fantasiadas. Porque eu gostei por causa do trabalho em equipe, eu pude interagir.” (Lucas – 12 anos)

“Eu gostei da Sala Egípcia porque eu achei muito legal e também por participar e colaborando com o que era os Shabbits, explicando para quem não sabia o que era e eu até tinha ficado muito interessada. Eu adoro minha professora Lorena, porque ela explica muito bem e isso me faz ficar mais interessada pela História.”(Kássia – 11 anos)

“Sim, gostei muito, pois consegui aprender melhor sobre o Egito e me diverti muito. Agora se alguém perguntar eu saberei bastante sobre o Egito.”(Sylviane – 12 anos)

“Eu gostei da Sala Egípcia, por que tava muito legal e também por que minha mãe, meu pai e meu irmão estavam lá. O que eu mais gostei foi a decoração.”( Thalia – 11 anos)

A partir dos depoimentos podemos perceber o quanto a participação dos alunos neste Projeto foi importante para a construção do ensino-aprendizagem.

Vale a pena mencionar, a importância da participação dos pais para a construção do ensino-aprendizagem, considerando que esta interação entre a escola e os pais, certamente contribuirá efetivamente para que estes alunos que possuem a orientação, carinho e apoio em casa e na escola vislumbrem um futuro brilhante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SFORNI, M. S. F. GALUCH, M.T. B. Aprendizagem conceitual nas séries iniciais do ensino fundamental. Educar, Curitiba, n. 28, p. 117-229, 2006.

Sites:

Wikipédia, enciclopédia virtual, http://pt.wikipedia.org/wiki/aprendizagem, acessado em 29 de junho de 2013
http://www.smartkids.com.br/especiais/egito-antigo.html , acessado em 29 de junho de 2013

http://antigoegito.org/antigo-egito-para-as-criancas-2/ ,acessado em 01 de julho de 2013

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=8960, acessado em 01 de julho de 2013

(Guest Post) Oficina sobre o Antigo Egito para Crianças

Convidei a Beatriz Moreira, um dos membros do grupo de estudo Gekemet e estudante de História para escrever um post contando como foi a experiência dela realizando uma oficina de educação sobre o Antigo Egito para crianças. Ela não somente aceitou na hora como o fez no mesmo dia. Quem também tiver interesse em escrever um Guest Post é só enviar uma mensagem pelo formulário de contato. No texto a seguir ela discorre os principais acontecimentos da oficina e suas reflexões acerca das atividades realizadas:

Olá, queridos leitores do Arqueologia Egípcia.
Meu nome é Beatriz Moreira, faço parte do Grupo de Estudos Kemet do Laboratório de História Antiga (LHIA) / UFRJ e sou leitora assídua do Arqueologia Egípcia. A queridíssima Márcia Jamille me convidou para escrever aqui no site sobre uma ótima experiência pela qual passei no dia 30 de maio de 2014: a realização de uma oficina pedagógica – intitulada “Indo além de Indiana Jones & Lara Croft: a Arqueologia do século XXI” – no Museu Nacional (MN) / UFRJ (FOTO 1), cujos principais objetivos foram apresentar o trabalho de um arqueólogo e expor características funerárias da religião egípcia para crianças do 6º ano do Ensino Fundamental.

FOTO 1: Beatriz Moreira, coordenadora da oficina “Indo além de Indiana Jones & Lara Croft: a Arqueologia do século XXI”. Foto: Célia Palacios. Maio de 2014.

Para tanto, foi formada uma equipe (FOTO 2):

FOTO 2: Em pé, da esquerda para direita: Professoras. Céli Palacios e Regina Bustamante, licenciandas Beatriz Moreira (bolsista PIBIC), Natália Seixas e Geórgia Albuquerque (bolsista PIBIC). Abaixados: Prof. João Luiz Corrêa Gomes e licencianda Luisa Tavares (bolsista PIBIC). Foto: Equipe de Filmagem da Oficina. maio de 2014.

Houve a orientação de Regina Bustamante (professora de História Antiga na UFRJ) e Céli Palacios (professora de Teatro da Escola Britânica do Rio de Janeiro). Como equipe de apoio, tivemos a colaboração de colegas do Curso de História da UFRJ (Natália Seixas, Luisa Tavares e Geórgia Albuquerque) e também do Prof. João Luiz Corrêa Gomes. A compra do material da oficina foi financiada pelo Programa de Consolidação das Licenciaturas da CAPES (PRODOCÊNCIA).
O trabalho de elaboração da oficina foi gratificante, pois como bolsista de Iniciação Científica da Profª Regina Bustamante, participo de disciplinas eletivas ministradas pela referida docente na UFRJ – onde curso História –, cujo produto final de cada período é a criação de uma oficina pedagógica a partir do acervo do Museu Nacional. Com esta atividade, objetiva-se tornar a cultura material da Antiguidade, exposta em museus cariocas, mais acessível a professores e estudantes da Educação Básica, propiciando maior efetividade na interação Museu-Escola através da mobilização de conhecimentos acadêmicos para a produção de um saber histórico escolar.
A oficina pedagógica em questão foi elaborada em 2013 com o intuito de ressignificar a exposição de Egito Antigo do Museu Nacional. E, após a realização, posso afirmar que, de fato, conseguimos. Contamos com o apoio da Seção de Assistência ao Ensino (SAE) do Museu Nacional, que disponibilizou dois mediadores para nos ajudar na oficina e entrou em contato com a Escola Municipal Portugal, que se mostrou muito interessada em participar, já que seria uma ótima forma de trabalhar o conteúdo de História Antiga.
A turma tinha 30 alunos, que foram divididos em dois grupos de 15: enquanto um grupo visitava a sala de Egito Antigo acompanhado pelos mediadores do Museu, o outro participava da oficina. Eu, como coordenadora da oficina, me dirigi ao grupo da vez, comunicando que estava acontecendo uma escavação arqueológica no Auditório Roquette Pinto do MN – sempre levantando questionamentos sobre o assunto: por exemplo, se eles sabiam o que um arqueólogo fazia ou se já tinham ouvido falar sobre o que era uma escavação arqueológica – e que naqueles sítios arqueológicos havia indícios de que se encontrariam artefatos egípcios antigos. Estavam dispostos pelo ambiente três “sítios arqueológicos” e, em cada sítio, estava um “arqueólogo” que ajudaria os alunos nessa parte da oficina (FOTO 3).

FOTO 3: “Arqueólogo” João Luiz Corrêa Gomes em um dos “sítios arqueológicos”. Foto: Beatriz Moreira. maio de 2014.

Enquanto os alunos procuravam artefatos egípcios (FOTO 4), os arqueólogos davam informações sobre as etapas de uma escavação arqueológica: catalogação das peças encontradas, identificação do artefato (FOTO 5), análise iconográfica da estatueta, a diferenciação entre a arqueologia do século XIX e início do XX e a do século XXI, e definição de cultura material, pois também havia objetos do cotidiano contemporâneo em cada “sítio arqueológico”.

FOTO 4: Alunos em busca de artefatos egípcios no “sítio arqueológico”. Foto: Beatriz Moreira. maio de 2014.

FOTO 5: Aluno identificando o artefato egípcio. Foto: Beatriz Moreira. maio de 2014.

Após todos terem encontrados as estatuetas (Ísis, Osíris, Hórus, Anúbis e olho de Hórus), os alunos tiveram que explicar aos colegas de turma o que tinham aprendido sobre cada deus representado, assim como realizar uma breve análise iconográfica (FOTO 6). Reforcei, nesse momento, a diferença entre a arqueologia do século XXI e a arqueologia de quando as peças do acervo egípcio do Museu Nacional foram encontradas (século XIX), além da importância do Museu em que eles estavam presentes. Houve uma imensa dificuldade por parte desses alunos ao exporem aos colegas a iconografia de cada deus, mas não foi por displicência ou por não terem prestado atenção na explicação, mas sim porque era o primeiro contato que tinham com a figura do deus e tudo ali era muito novo para eles. Esses alunos saíram do ambiente expositivo da sala de aula, ao qual estão acostumados, e lidaram diretamente com o trabalho manual, em que eram eles o centro das atenções e não o professor. Essa dinâmica é muito nova, porém extremamente enriquecedora para os alunos.

FOTO 6: Explicação da aluna aos colegas sobre a estatueta que encontrou. Foto: Céli Palacios. maio de 2014.

Após essa etapa, houve a apresentação da história do Mito de Osíris utilizando a técnica do teatro de sombras (FOTO 7). Foi uma etapa importante da oficina, pois, além de ter deixado mais claro quem eram os deuses que eles tiveram contato através das estatuetas encontradas nos “sítios arqueológicos”, foi explicitada a relação entre esses deuses e os alunos definitivamente entraram no jogo e se entregaram ao teatro de sombras. Ficaram extremamente curiosos também sobre como tínhamos elaborado o material.

FOTO 7: O Mito de Osíris narrado através do teatro de sombras. Foto: Beatriz Moreira. maio de 2014.

No final da oficina, fiz algumas perguntas aos alunos: o que mais chamou sua atenção na história? Quem eram os personagens da história? Quais eram as crenças sobre a pós-morte na religião egípcia antiga? E nas religiões atuais? Há alguma semelhança da religião egípcia com as religiões atuais? De acordo com o que aprenderam na oficina, o que um arqueólogo faz? Qual a relação entre o trabalho do arqueólogo e um museu? Estas perguntas objetivavam fixar o aprendizado e trabalhar a noção de alteridade.
Nós passamos um questionário de avaliação para ser preenchido por cada aluno com perguntas fáceis, tais como “o que você aprendeu de novo?”, e pedimos para que eles avaliassem a oficina. Todos avaliaram a oficina como “ótima” e responderam apontaram diversos aspectos que lhes chamaram atenção. A partir da análise das respostas, podemos perceber como diante da realidade de um país multicultural, a Educação Patrimonial torna-se um objeto de reflexão relevante no processo educacional. Os museus, enquanto espaços não formais de produção de saberes escolares, são campos privilegiados para a Educação Patrimonial. A atividade lúdica, todo tipo de jogo pedagógico, assim como as oficinas pedagógicas, são de extrema utilidade para o Ensino de História, pois os alunos afastam-se da “decoreba” do conteúdo para “passar na prova” e compreendem, de fato, o que está sendo “construído”. Assim, conseguimos aguçar a curiosidade e a vontade de estudar. E isso ficou muito claro quando a professora de Português da turma – que também dá aula de História por conta do regime de polivalência do município do Rio de Janeiro – nos disse “Eles são uns pestinhas! Não sei como aqui eles estão sendo uns anjinhos!”. E eles estavam sim sendo anjinhos, pois estavam interessados em aprender. E pasmem: o aluno mais indisciplinado da turma foi o que mais participou!
Enfim, espero que a descrição da minha experiência tenha sido de alguma valia para os professores e futuros professores que possam vir a lê-la. Se alguém quiser entrar em contato comigo para solicitar mais informações ou até ajuda para a elaboração de alguma oficina pedagógica, podem entrar em contato via e-mail: beatrizmoreira@ufrj.br.

Ser mãe no Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ser mãe durante o Egito Antigo concebia à mulher, a posição de ser a responsável pela perpetuação da sua família e consequentemente a imortalidade da mesma através das gerações. A importância da concepção de uma criança é vista nos principais mitos, especialmente o de Ísis e Osíris, onde a deusa se empenha em engravidar do marido já falecido, para dar uma continuidade à família.

Existiam ainda significados especiais na maternidade e que usualmente era levado para o hábito funerário. Por exemplo, a crença ditava que a criança adquiria os ossos do seu pai e os tecidos moles da mãe, incluindo parte do coração dela (STROUHAL, 2007). Era pensando nisso que um dos trechos do Livro dos Mortos trazia versos voltados diretamente para a figura maternal, tal como o que veremos a seguir:

Meu coração, minha mãe; meu coração, minha mãe!

Meu coração por meio do qual nasci!

Nada surja para opor-se a mim no meu julgamento;

Não haja oposição a mim na presença dos príncipes soberanos;

Não haja separação entre ti e mim na presença do que guarda a balança! (BUDGE,2002, p 215 apud CÉSAR, 2008).

O ato de ser mãe era tratado também como algo sagrado. Muitos dos aspectos desta condição eram retratados em relevos religiosos e até mesmo utilizados em amuletos, a exemplo do ato de amamentar, usualmente visto em imagens funerárias, onde Hathor, como protetora do falecido, o alimenta pelo seio quando ela está em sua forma de vaca, ou Ísis, cuja imagem que a representa dando de mamar a Hórus era utilizada como amuleto de proteção.

Rainha Aqaluqa representada como Ísis amamentando. Imagem disponível em < http://wysinger.homestead.com/nubians5.html >. Acesso em 11 de maio de 2014

Durante o desenvolvimento do feto, os pais poderiam se apegar à deusa hipopótamo Tauret, para ela proteger a vida da mãe e da criança e providenciar um bom nascimento, já que os riscos advindos do parto era um dos principais fatores de mortalidade entre as mulheres (STROUHAL, 2007). Já Hathor, dentre tantas propriedades, era constantemente associada à maternidade – é tanto que nas décadas finais do Novo Império foi sincretizada à Isís, divindade com qualidades semelhantes -. Ela provavelmente foi uma das deusas mais respeitadas neste sentido, tanto em um aspecto político, como religioso. Contudo, era Bastet, a deusa gata, quem zelava pelo o amor familiar, especialmente o maternal. Sua dedicação para com os filhos era tamanha que alguns pesquisadores tendem a associar sua fúria como Sekmet como uma forma de proteger as suas crias contra o mal.

Mulher colhendo figos enquanto cuida de uma criança de colo. Tumba de Montemhet. Luxor. 25ª Dinastia. Fonte da imagem: STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p. 22.

Mas não eram somente deusas que presavam pelo bem estar das crianças e da mãe, Bés, um deus anão, sempre estaria na espreita para afastar espíritos malignos, especialmente durante o sono.

Deus Bes.

Deus Bés.

Tal como hoje, ser mãe não era tarefa fácil. A grande responsabilidade da maternidade chegou até mesmo a ser utilizada nas “Lições de Ani”, em uma tentativa de fazer com que o leitor reflita acerca de suas atitudes:

Quando o momento chegou e tu nasceste, ela aceitou a carga de por o peito em tua boca durante três anos (STROUHAL, 2007, p 23).

E para as mães menos experientes existiam regulamentos escritos denominados “Ensalmos para mães e filhos” que, embora possuam ideias equivocadas e supersticiosas, era uma tentativa de diminuir os anseios das mães, tal qual um manual moderno para conviver com a maternidade, com a diferença que os ensalmos eram repletos de rezas (STROUHAL, 2007). Eis um exemplo do que poderia ser lido:

Sai! Visitante das trevas, que te arrastas com o nariz e rosto atrás da cabeça, sem saber por que estais aqui!

Viestes beijar esta criança? Proíbo-te!

Viestes mimar esta criança? Proíbo-te!

Viestes afastá-la de mim? Proíbo-te! (STROUHAL, 2007, p 24).

Embora o poder centralizado usualmente fosse herdado por homens, tradicionalmente na Egiptologia se argumenta que quem era responsável pela legitimidade real eram as mulheres (DESPLANCQUES, 2011), embora existam debates adversos a esta teoria (COELHO; BALTHAZAR, 2012). Caso tal discurso seja verídico, essa postura provavelmente tinha alguma ligação com o mito de Ísis e Osíris, onde foi a deusa quem articulou a subida ao trono de seu filho, quando ele foi impedido pelo tio assassino.  Em verdade os filhos, mesmo adultos, usualmente eram associados ao nome da mãe (COELHO; BALTHAZAR, 2012).

 

Referências:

CÉSAR, Marina Buffa. Livro dos Mortos, uma discussão acerca do Capítulo 30. Nearco (Rio de Janeiro), v. 1, p. 66-80, 2008.

COELHO, Liliane Cristina; BALTHAZAR, Gregory da Silva. As múltiplas sensibilidades do feminino na literatura egípcia do Reino Novo (c. 1550-1070 a.c.). In: CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG ltda, 2012.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.