As 9 melhores descobertas arqueológicas de 2017 sobre o Egito Antigo

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Caso você tenha caído de paraquedas aqui neste post ou simplesmente não tem o habito de ler sites ou blogs: o Arqueologia Egípcia é um site dedicado a trazer textos, vídeos, fotos e notícias sobre as pesquisas relacionadas com o Egito Antigo. Aqui até existe uma aba especial dedicada às novidades. É lá onde se encontram as notícias sobre descobertas arqueológicas associadas com a história egípcia e foi de onde tirei as 9 pesquisas que foram tidas como as mais interessantes, chamativas e legais de 2017.

Contudo, antes de dar início a lista, devo explicar que usei o termo “melhores” no título para resumir as mais magnificas do ponto de vista não só dos acadêmicos, mas do público. Sou da turminha da Arqueologia que considera toda e qualquer descoberta arqueológica passível de ser interessante para o entendimento do passado. Abaixo, as descobertas selecionadas:

 

1: Descoberta de imagens de embarcações:

Uma equipe de arqueólogos encontrou, gravadas na parede de um fosso em Abidos, gravuras representando uma frota egípcia. No local, que fica próximo ao túmulo do faraó Sesostris III (Médio Império; 12ª Dinastia) foram contados nos desenhos 120 navios, desenhados sobre uma superfície de gesso. Alguns são bem detalhados, contendo informações como remos e timões.

Foto: Josef Wegner

Neste caso não se sabe quem fez estas gravuras, mas ao menos duas teorias foram levantadas: a de que foram feitas pelos próprios trabalhadores que construíram o fosso ou que tenha sido a ação de vândalos. É né… Vai que.

 

2: Sepulturas de crianças egípcias revelam desnutrição generalizada:

Esta provavelmente é uma das descobertas mais chocantes. Uma arqueóloga da Universidade de Manchester, em sociedade com a Missão Arqueológica Polaco-Egípcia, fez uma série de descobertas perturbadoras em Saqqara: eles encontraram corpos de crianças que parecem ter sofrido grave anemia, cáries dentárias e sinusite crônica.

Foto: Iwona Kozieradzka-Ogunmakin

Através dos seus estudos, a arqueóloga foi capaz de estabelecer que a criança mais jovem encontrada no cemitério tinha algumas semanas de idade e as mais velhas 12 anos, mas a maioria tinha entre três e cinco anos.

 

3: Fragmentos de uma estátua colossal:

Esta foi um hype! A historinha é a seguinte: Uma missão egípcia-alemã, que está trabalhando em El-Mataria (Cairo), antiga Heliópolis, desenterrou partes de duas estátuas colossais da época ramséssida, no sítio arqueológico de Suq el-Khamis. A princípio acreditou-se que se trataria de Ramsés II, da 19ª dinastia, Novo Império, mas não passou muito tempo até que descobrissem que na verdade era Psamético I, que reinou como rei do Egito durante a 26ª Dinastia, Baixa Época.

Foto: Reuters.

4: Descoberta de tumba de princesa egípcia:

A tumba de uma princesa egípcia foi identificada na pirâmide de Ameny Qemau (13ª Dinastia), na necrópole de Dashur. Nas escavações que revelaram a câmara funerária da princesa foram identificados um sarcófago mal preservado, bandagens e uma caixa de madeira contendo vasos canópicos. Inscrições na caixa indicam que os objetos pertenceram a ela, que por sua vez era uma das filhas do próprio Ameny Qemau.

Foto: MSA

Esta foi uma descoberta que não revelou para a imprensa tantos achados assim, somente informações básicas. Mas o público do site amou muito e compartilhou a notícia extensamente. Então ela está aqui marcando presença.

 

5: Descoberta de faraó pouco conhecido:

Na verdade, esta foi uma descoberta dupla em que a princípio tinha sido encontrada uma pirâmide datada do Segundo Período Intermediário, em Dashur e somente depois foi apontado que ela pertencia a um faraó praticamente desconhecido chamado Ameny Qemau.

Foto: Ministério das Antiguidades do Egito.

Porém, esta história não acaba por aqui: uma outra pirâmide pertencente a esse mesmo governante foi descoberta em 1957, também em Dashur.

 

6: Os mais antigos hieróglifos egípcios:

Uma expedição conjunta entre a Universidade de Yale e o Museu Real de Belas Artes de Bruxelas, que está estudando a antiga cidade egípcia de El kab, descobriu inscrições hieroglíficas com cerca de 5200 anos. São as mais antigas conhecidas.

Foto: MSA.

Os arqueólogos também identificaram um painel de quatro sinais, criados por volta de 3250 aEC e escritos da direita para esquerda — é assim que usualmente os hieróglifos egípcios eram lidos — retratando imagens de animais tais como cabeças de touros em um pequeno poste, seguido por duas cegonhas com alguns íbis acima e entre eles.

 

7: Cabeça de faraó encontrada em Israel:

Uma cabeça de uma estátua retratando um faraó tem intrigado alguns pesquisadores. Isso porque ela foi encontrada em 1995 em Israel na área da antiga cidade de Hazor. Outrora fragmentada ela retrata uma típica imagem de um faraó contendo, inclusive, a serpente ureus, que é uma das insígnias reais egípcias, ou seja, um dos símbolos que demonstram realeza.

Divulgação/Gaby Laron/Hebrew University/Selz Foundation Hazor Excavations.

Em outros anos outras estátuas egípcias também foram encontradas em Hazor e todas fragmentadas no que os pesquisadores concluíram como uma destruição deliberada.

 

8: O maior fragmento de obelisco datado do Antigo Reino:

Uma missão arqueológica — encabeçada por franceses e suíços — que atua em Saqqara encontrou a parte superior de um obelisco datado do Antigo Reino, pertencente à rainha Ankhnespepy II, mãe do rei Pepi II (6ª Dinastia).

Foto: MSA

Ankhnespepy II foi uma das rainhas mais importantes da sua dinastia. Ela foi casada com Pepi I e quando ele morreu casou-se com Merenre, o filho que o seu falecido esposo tinha tido com sua irmã Ankhnespepy I.

 

9: Descoberta da localização de um templo de Ramsés II

A missão arqueológica egípcio-checa descobriu restos do templo do faraó Ramsés II (Novo Império; 19ª Dinastia) durante os trabalhos de escavações realizados em Abusir.

Foto: MSA

A missão já tinha encontrado em 2012 evidências arqueológicas de que existia um templo nesta área, fato que encorajou os pesquisadores a escavar nesta região ao longo dos últimos quatro anos.

 

Deliberadamente deixei a descoberta do “espaço vazio” da Grande Pirâmide de fora pelos motivos citados no vídeo “Espaço vazio dentro da Grande Pirâmide do Egito: Entenda!”:

Agora é a vez de vocês! Qual é a sua descoberta arqueológica do ano de 2017 favorita?

O mistério de uma cabeça de estátua de um faraó em Israel

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Uma cabeça de uma estátua retratando um faraó tem intrigado alguns pesquisadores. Isso porque ela foi encontrada em 1995 em Israel na área da antiga cidade de Hazor [1;2].

Outrora fragmentada ela retrata uma típica imagem de um faraó contendo, inclusive, a serpente ureus, que é uma das insígnias reais egípcias, ou seja, um dos símbolos que demonstram realeza.

Divulgação/Gaby Laron/Hebrew University/Selz Foundation Hazor Excavations.

Trata-se de um artefato genuíno, datado de cerca de 4.300 anos. Esta peça pode ter parado em Israel de variadas maneiras, podendo ter sido presenteada, levada como lembrança ou como espólio de guerra, por exemplo. “A história da estátua é extremamente complexa, e o reino de Hazor deve ter ficado muito orgulhoso de poder exibir um objeto de tanto prestígio, conectado às imagens da realeza egípcia” [1], afirmaram os egiptólogos Dimitri Laboury e Simon Connor, em um relatório publicado no livro ‘Hazor VII: A Era de Bronze das Escavações 1990-2012 (Israel Exploration Society, 2017). De acordo com eles os traços estilísticos do objeto são comuns da 5ª Dinastia, o que intriga mais ainda, já que isto a situa como sendo do Antigo Reino, a época mais recuada do reinado dos faraós [1;2].

Divulgação/Gaby Laron/Hebrew University/Selz Foundation Hazor Excavations.

Os pesquisadores também acreditam que o artefato foi destruído em algum momento há 3.300 anos, provavelmente após a invasão liderada pelo rei Joshua [1;2].

Em outros anos outras estátuas egípcias também foram encontradas em Hazor e todas fragmentadas no que os pesquisadores concluíram como uma destruição deliberada [2].

 

Fonte:

[1] Estátua de faraó de 4.300 anos intriga arqueólogos e gera série de dúvidas. Disponível em < https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2017/08/30/estatua-de-farao-de-4300-anos-intriga-arqueologos-e-gera-serie-de-duvidas.htm >. Acesso em 30 de agosto de 2017.

[2] 4,300-Year-Old Statue Head Depicts Mystery Pharaoh. Disponível em < https://www.livescience.com/60270-ancient-statue-head-depicts-mystery-pharaoh.html >. Acesso em 30 de agosto de 2017.

Fatos interessantes sobre os faraós: sua divindade e mais algumas curiosidades

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Devido a Egiptomania (a reinterpretação de aspectos do Antigo Egito fazendo uso de valores da atualidade) propagada pelas produções cinematográficas e a literatura, muitas pessoas têm impressões equivocadas sobre os faraós. E foi exatamente tais impressões o que levou muita gente a criar certo fetiche ao redor desse cargo. Não é à toa que existem tantas pessoas alegando ser a reencarnação de governantes tais como Ramsés II ou Akhenaton. Até mesmo alguns grupos étnicos e religiosos tentam procurar vínculos com eles. Tal fascínio exótico e nostálgico, apontou o egiptólogo brasileiro Ciro Flamarion Cardoso (1982), é causado por alguns dos elementos culturais do Egito faraônico, a exemplo do caráter divino da realeza e a sua religião, tão profundamente interessada na imortalidade.

Akhenaten

Faraó Akhenaton.

É certo que não sabemos quase nada sobre o oficio dos faraós, pior ainda sobre a sua vida particular. Foram poucos os que nos deixaram a chance de saber, mesmo que de forma superficial, sobre a sua vida. A maioria, em verdade, possuiu a preocupação de deixar um legado de esmero e sucesso: registros da humanidade dos reis são bastante raros; usualmente eles eram retratados como a representação do que os egípcios antigos interpretavam como a extrema perfeição, de forma idealizada (BRANCAGLION Jr., 2001; MORRIS, 2010).

— Aproveite para assistir: 6 curiosidades sobre os faraós

O rei, quando exercendo seu papel de governante do Alto e Baixo Egito, era definido como nsw, enquanto que o seu eu físico era referido como ḥm, “encarnação”, de uma divindade. Eles também usualmente eram chamados de “bom deus” (nṯr nfr) ou ocasionalmente de “o grande deus” (nṯr ‘3). Essa proposta da divindade do faraó é relacionada com a de que ele, além de filho de Rá (divindade solar), seria a representação do próprio deus Hórus, uma ideia existente desde mesmo antes da unificação do Egito, durante o Período Pré-dinástico (MORRIS, 2010).

Kefren

Faraó Kefren protegido pelo deus Hórus.

A lenda de Hórus só chegou até nós praticamente completa graças ao grego Plutarco, que viveu nos anos finais do Período Faraônico. Em sua obra “De Ísis e Osíris” ele relata que o deus Osíris governou como rei do Egito ao lado da sua irmã Ísis. Porém, ambos possuíam mais dois irmãos, o casal Néftis e Seth. Esse último tinha muita inveja Osíris então o assassinou para usurpar o trono. Para evitar que o seu corpo fosse resgatado, Seth desmembrou Osíris e espalhou cada parte sua pelo Egito, o que levou Ísis a realizar uma longa jornada para reaver cada parte do marido, juntá-lo com o auxílio de bandagens e trazê-lo de volta a vida por meio de magia. Após uma série de tentativas de reanimar a múmia do marido, Ísis finalmente obtém sucesso e recriando o pênis de Osíris copula com ele, engravidando assim de Hórus, que, anos mais tarde, viria a lutar contra o tio Seth para assumir o seu lugar de direito como rei do Egito (MORRIS, 2010).

Este mito representava, dentre muitas coisas, o poder que a legitimidade real possuía e a alta importância que a mesma tinha para os egípcios. Por isso, existiu muita preocupação em relação ao assunto. Assim, para evitar problemas com a legitimação real, os reis e as rainhas casavam-se com parentes muito próximos, tais como irmãos ou filhos. Essa prática não tinha somente como princípio afastá-los do mundo dos mortais, se assemelhando assim ao casal de irmãos divinos Ísis e Osíris, mas, garantir que o sangue do herdeiro real fosse “puro” (MORRIS, 2010).

Porém, isso nem sempre foi possível.

Desta forma, quando um governante não era o original herdeiro do trono, para legitimá-lo ele poderia recorrer a profecias ou apagar os registros dos reis anteriores, como foi o caso de Hatshepsut e Tutmés III (MORRIS, 2010). A primeira, quando assumiu o trono, declarou em seu templo mortuário em Deir el-Bahari, que era a filha (ou melhor, filho) do próprio deus Amon-Rá, já o segundo, para legitimar a ascensão ao trono do seu filho, apagou os registros históricos da existência da sua antecessora.

— Saiba mais: Um vislumbre da faraó-mulher Hatshepsut

Quando um rei assumia ao trono, era realizada uma viagem cerimonial por todo o Egito, onde ele visitava templos e recebia presentes. Essa viagem era conhecida como “A criação da ordem nas províncias”. Ainda tinha o jogo dos mistérios da sucessão, uma performance para mostrar a consideração do novo rei para com o antigo. Apesar dessa jornada, as saídas do faraó do seu palácio real eram bastante raras [1], ocorrendo somente durante atividades muito especiais — eventos religiosos ou batalhas importantes, por exemplo —.

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Ramsés II – Museu Egípcio de Turim.

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Faraó Hatshepsut. 

Contudo, quando essas saídas ocorriam, altos cortesãos beijavam o chão pelo qual ele passaria para simbolizar respeito e resignação. Nós encontramos registros escritos desse ato em alguns exemplos literários como o “Conto do Naufrago” e Sinuhe. Também temos o texto de um sacerdote de Khnum, que registrou que “beijou a terra antes do senhor da catarata[2]” (BREASTED, 1988 apud MORRIS, 2010). A prática de beijar o chão foi uma tradição tão importante que existiu, por exemplo, durante o Antigo Reino um escritório chamado “supervisor dos beijos no solo” (STRUDWICK, 2005 apud MORRIS, 2010). Agora, se beijar o chão foi considerado um prestigio importante, beijar os seus pés era um extremo privilégio, digno de ser citado no túmulo de quem fez a ação (MORRIS, 2010).

Referências bibliográficas:

BAKOS, Margaret (org). Egiptomania: O Egito no Brasil. Rio de Janeiro: Paris Editorial, 2004.

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

CARDOSO, Ciro Flamarion S. O Egito Antigo. São Paulo: Brasiliense, 1982.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

MORRIS, Ellen. “The Pharaoh and Pharaonic Office”. In: LLOYD, Alan, B. A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.


[1] E ainda assim estátuas do rei poderiam ser utilizadas para representar o próprio.

[2] Referente às cataratas do Nilo.