Aha: o “Falcão Guerreiro”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Aha, faraó do Período Arcaico, 1ª Dinastia, provavelmente foi o pioneiro das práticas das quais emergiram a monarquia, como a construção de templos votivos aos deuses e campanhas militares de unificação do Sul e Norte do Egito (RICE, 1999). A identidade dos seus pais é motivo de debates, uma vez que não se sabe se era filho de Narmer ou somente um sucessor escolhido a dedo por ele ou mesmo se era o próprio (RICE, 1999); em relação a sua mãe não sabemos se era filho, consorte [1] ou ambos da rainha Neithotep (BUNSON, 2002; WILKINSON, 2010).

Governo e atividades políticas:

Também chamado de Hor-Aha (Hórus Aha), o “Falcão Guerreiro” (DAVID, R.; DAVID, A., 1992; BUNSON, 2002), durante o seu reinado a arquitetura começou a ser de uma notável qualidade; em adição aos templos que ele diz ter construído, existem evidências de monumentos funerários substanciais, de um tamanho e caráter marcadamente diferente dos do Período Pré-dinástico (RICE, 1999).

Vaso cilíndrico do rei Aha, por Einsamer SchützeObra do próprio. Licenciado sob CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons.

Seu nome é citado nas placas de marfim que foram usadas para registrar os eventos mais significativos do governo dos primeiros reis (RICE, 1999). Na “placa de Abidos”, por exemplo, o seu nome já é mostrado dentro de um serekh e menciona a fundação do templo da deusa Neith, um santuário, a captura de um touro selvagem e uma representação de barcos que navegaram indo para antigas cidades nas margens do Nilo (RICE, 1999).

No topo, bem no centro, está um serekh com o nome do rei Aha. TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998. pág. 42.

Datado do seu período também está a tumba 3503 de Saqqara que provavelmente pertenceu a um dos seus ministros. Nela foi encontrada uma maquete mostrando celeiros e outras construções do tipo que teriam estado em uso na época do rei (RICE, 1999).

Morte e sepultamento:

De acordo com a cronografia de Manetho, Aha viveu até os seus 63 ou 64 anos de idade e diz-se que faleceu devido aos ferimentos sofridos durante uma caça a um hipopótamo (RICE, 1999; BUNSON, 2002). Foi enterrado em Saqqara, em uma tumba com 27 armazéns no nível do solo e cinco câmaras subterrâneas. No local foi encontrado um barco solar (BUNSON, 2002), o que o torna um dos mais antigos indícios deste tipo de prática funerária. No local foi encontrado igualmente o corpo de um homem jovem, que acredita-se que tenha praticado suicídio para acompanhar o rei. Outro detalhe é que ele foi sepultado também com leões, animal que viria a compor um importante simbolismo para a manutenção do poder monárquico (BUNSON, 2002; MORRIS, 2010; COSTA, 2014).

Parte da tumba de Aha. B10-B15-B19 em Umm el Ga’ab em Abydos. Foto disponível em < http://profidom.com.ua/poleznoe/148-vseobshhaja-istorija-arkhitektury/489-drevnij-jegipet-ranneje-carstvo-period-i-ii-dinastij-nachalo-iii-tys-do-ne >. Acesso em 29 de junho de 2015.

Entretanto ele erigiu também um cenotáfio, mas em Abidos, onde um considerável número de pessoas jovens, presumivelmente serviçais do rei, todos eles com menos de 25 anos de idade, foram sepultados — não se sabe se assassinados ou se cometeram suicídio —, para atendê-lo no além-vida. Este costume foi difundido durante a 1ª Dinastia (RICE, 1999; BUNSON, 2002).

Com a sua morte o trono foi assumido por seu filho Djer, cuja mãe provavelmente foi uma rainha chamada Khenthap.

Seria ele Narmer?

De acordo com os registros escritos egípcios, a união das “Duas Terras” foi alcançada com a vitória de um rei do Alto Egito (Sul), sob o Baixo Egito (Norte). Tal rei seria um homem chamado Meni (em grego, Menés), que após a sua vitória inaugurou Ineb-hedj, mais conhecida entre nós como Menphis, como capital do reino (DAVID, R.; DAVID, A., 1992; LESKO, 2002; MOKHTAR; VERCOUTTER, 2011; COSTA, 2014). Contudo, outros dois nomes surgiram como possíveis unificadores: Namer e Aha (LESKO, 2002; COSTA, 2014).

Fragmento de faiança vitrificada com o nome de Aha.  Fotografia licenciada sob CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons.

Namer foi sugerido como unificador devido a “Paleta de Namer”, descoberta em 1897 pelo arqueólogo James Quibell (DAVID, R.; DAVID, A., 1992; DAVID, R., 2011). Nesse artefato o rei é apresentado em dois momentos distintos, usando separadamente as coroas do Alto e Baixo Egito, que, nos anos seguintes, passaram a ser representadas sobrepostas. É em razão da existência deste artefato que alguns pesquisadores apontam que Meni seria em verdade Narmer (BAINES; MALEK, 2008; COSTA, 2014).

Por outro lado, outros pesquisadores apontam que seria Aha o rei Meni, isto porque foi encontrada em Nagada, através das pesquisas de Jean-Jacques de Morgan em 1897, uma tábua onde o nome de ambos foram grafados no mesmo objeto (DAVID, R.; DAVID, A., 1992; BUNSON, 2002; COSTA, 2014).

Para aumentar a confusão foram encontrados em Abidos alguns artefatos com o nome de Meni e Narmer associados (David 1992).

A relação entre Aha com Narmer é totalmente especulativa (DAVID, R.; DAVID, A., 1992; BUNSON, 2002; WILKINSON, 2010; COSTA, 2014). O túmulo da sua mãe — ou esposa — encontra-se em Abidos e trata-se de uma longa e elaborada estrutura. Dentre os artefatos remanescentes foi encontrada uma pequena placa de marfim que mostra Aha e Meni lado a lado (BUNSON, 2002).

Outro rótulo parece ligar Aha com Meni. Ele foi o primeiro rei egípcio a usar o nome nebty em honra “às duas senhoras”, deusas do Alto e Baixo Egito, em sua titulação: neste caso o nome escolhido aparentemente foi Men, o que contribui para que alguns egiptólogos acreditem que ele em verdade seja o lendário Meni (RICE, 1999; BUNSON, 2002).

Referências bibliográficas:

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

BUNSON, Margaret R. Encyclopedia of Ancient Egypt. New York: Facts On File, 2002.

COSTA, Márcia Jamille Nascimento. Uma viagem pelo Nilo. Aracaju: Site Arqueologia Egípcia, 2014.

DAVID, Rosalie; DAVID, Antony. A Biographical Dictionary of Ancient Egypt. London: Steaby, 1992.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

MOKHTAR, Gamal; VERCOUTTER, Jean. “Introdução Geral”. In: MOKHTAR, Gamal (Org.). História Geral da África Vol. II: África Antiga (Tradução de MEC – Centro de Estudos afro-brasileiros da Universidade de São Carlos). Brasília: UNESCO, 2011.

MORRIS, Ellen F. “The Pharaoh and Pharaonic Office”. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999

WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos (Tradução de Maria Filomena Duarte). Lisboa: Taschen, 2009.

WILKINSON, Toby. “The Early Dynastic Period”. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.


[1] Provavelmente também foi casado com outras duas rainhas: Khenthap e Benerib.

Serekh: o mais antigo abrigo conhecido para o nome real

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O serekh é um símbolo de formato retangular que aparenta reproduzir a planta de um antigo palácio real (TIRADRITTI, 1998; EINAUDI, 2009). Foi utilizado para acolher o mais antigo dos cinco nomes dos faraós, o “título de Hórus” ou “nome de Hórus” (SILIOTTI, 2006). O que invoca essa titulação a Hórus é a presença desse deus no topo do serekh. Entretanto, um faraó da 2ª Dinastia foi pelo caminho contrário e trocou Hórus por Seth. Seu nome era Set Peribsen. Já outro, chamado Khasekhemui, adotou ambas as divindades no topo do seu serekh (COSTA, 2014), realizando uma apologia ao significado do seu próprio nome: “aparecem os dois poderosos”.

O surgimento dos serekhs:

Já podemos ver o serekh nos artefatos tinitas (ou seja, das primeiras dinastias) em Abidos, como um pente com o nome do rei Dejet, datado como pertencente à 1ª Dinastia (EINAUDI, 2006). Anterior a esse período os nomes reais vinham sem proteção alguma, como podemos observar na representação do rei Escorpião, assim como o do rei Narmer: em relação ao primeiro a imagem de um escorpião, que representa o seu próprio nome, está somente ao seu lado, fora de qualquer proteção, assim como o peixe e o porrete, composição do nome de Narmer (COSTA, 2014). Entretanto, no caso deste último, em seu topo, bem entre as imagens de cabeças femininas como orelhas e chifres de vaca (que se acredita trata-se de uma das mais antigas imagens registradas da deusa Hathor) está novamente o nome dele, mas dentro do serekh.

Paleta de Narmer. Imagem disponível em < http://es.wikipedia.org/wiki/Arte_del_Antiguo_Egipto#mediaviewer/File:Narmer_Palette.jpg >. Acesso em 14 de janeiro de 2015.

Detalhe da paleta de Narmer. No centro está o serekh com o nome do rei em seu interior. Observe que no canto inferior esquerdo o rei também está presente e em sua frente está seu nome sem a proteção do serekh. Imagem disponível em < http://es.wikipedia.org/wiki/Arte_del_Antiguo_Egipto#mediaviewer/File:Narmer_Palette.jpg >. Acesso em 14 de janeiro de 2015.

Maça do rei Escorpião. O escorpião em frente ao rosto do rei representa o nome do governante. Imagem disponível em < http://goo.gl/PwNGKI >. Acesso em 14 de janeiro de 2015.

No rótulo de marfim do rei Aha (Dinastia 0 ou 1ª Dinastia) encontrado em Nagada o nome do rei também está presente dentro de um (TIRADRITTI, 1998):

No topo, bem no centro, está um serekh com o nome do rei Aha. TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998. pág. 42.

Os serekhs não são encontrados somente em paletas e placas de marfim. Na estátua de um homem que viveu durante a 3ª Dinastia é possível ver gravados em seu ombro direito três serekhs com nomes de três reis (Hetepsechemui, Nebre e Ninetjer), governantes os quais este homem provavelmente serviu em vida (TIRADRITTI, 1998).

Imagem de um homem chamado Hetepdief. TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998. pág. 49.

A decadência do seu uso ocorreu com a chegada do Antigo Reino, período em que entraram em uso os cartouches, nome francês para “cartucho”, apelido dado pelo fato deste tipo de símbolo lembrar uma capsula de bala.

Referências:

COSTA, Márcia Jamille Nascimento. Uma viagem pelo Nilo. Aracaju: Site Arqueologia Egípcia, 2014.

EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009.

SILIOTTI, Alberto. Egito (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Editora, 2006.

TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998.

Tumba do rei Narmer (B17 e B18)

 

 

Conhecido por ser um dos propensos unificadores do Egito, o rei Narmer provavelmente acompanhou ou participou deste importante momento que definiu o Egito Faraônico até o seu fim com a morte da rainha Cleópatra VII milênios depois.

Por ter sido representado em sua “Paleta de Narmer” (hoje em exposição no Egyptian Museum do Cairo) utilizando as coroas do Alto e Baixo Egito, alguns egiptólogos o adotaram não só como unificador do país, mas como o lendário Meni (Menés, em grego), embora esta não seja uma conclusão unanime.

De acordo com o arqueólogo inglês Flinders Petrie (1853 – 1942), Narmer foi sepultado no “Cemitério B”, em Abidos, mais especificamente em Umm el-Qa’ab, em uma tumba que compreende duas câmaras funerárias subterrâneas, tombadas como B17 e B18. Seus muros foram feitos com tijolos de barro e o teto com vigas de madeira.

Tumba de Narmer. Imagem disponível me < http://www.narmer.pl/abydos/qaab_en.htm >. Acesso em 19 de março de 2013.

Atualmente a disposição das paredes da sepultura é conhecida devido a presença de pedras que marcam o seu local.

Tumba do Rei Narmer (B17 e B18). Imagem disponível em BELMONTE, Juan Antonio; GARCÍA, Antonio César González; SHALTOUT, Mosalam; FEKRI, Magdi; MIRANDA, Noemi. From Umm al Qab to Biban al Muluk: The Orientation of Royal Tombs in Ancient Egypt. Archaeologia Baltica. n. 10, p. 226 – 233 , 2008.

Pelo o fato do túmulo ser pequeno, há quem discorde que foi aí onde Narmer teria sido sepultado, mas não é aconselhável empregar valores “atuais” (entre aspas, já que faraós do Antigo e Novo Império são conhecidos por sua busca por estruturas grandiosas) do que seria digno para um rei para a antiguidade.

Update – 19 de maio de 2013

Pergunta do Tenorio Figueredo na Pagina do A.E. em 27 de abril no Facebook e que é extremamente relevante para o post:

Tenorio Figueiredo: Márcia, como os egiptólogos atestaram que esta tumba é a do faraó Narmer? Existe inscrições?

Márcia Jamille – Arqueologia Egípcia: Sim Tenorio Figueiredo, foram encontrados selos e, posso estar enganada agora, plaquinhas com o nome dele. Acho que é no DREYER (1999), citado no post, que tem um pouquinho mais sobre o assunto. Porém, como citado no texto, alguns não concordam (talvez esperem que seja uma tumba no estilo Seti I). Existe também a possibilidade de ser uma “tumba simbólica”, o problema é que se for considerar esta como algo figurativo teremos que considerar as outras deste mesmo período e local da mesma forma, já que possuem elementos semelhantes.

 

Referências:

BELMONTE, Juan Antonio; GARCÍA, Antonio César González; SHALTOUT, Mosalam; FEKRI, Magdi; MIRANDA, Noemi. From Umm al Qab to Biban al Muluk: The Orientation of Royal Tombs in Ancient Egypt. Archaeologia Baltica. n. 10, p. 226 – 233 , 2008.

DREYER, Günter. “Abydos, Umm el-Qa’ab”. In: BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.

WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos (Tradução de Maria Filomena Duarte). Lisboa: Taschen, 2009.