Pinturas antigas exclusivas são encontradas em templo do deus Sobek

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Uma missão egípcia de arqueologia, enquanto trabalhava acompanhando a redução do nível do lençol freático no Templo Kom Ombo, Aswan, descobriu duas pinturas antigas feitas de arenito. Uma delas pertence ao faraó Seti I e a outra ao faraó Ptolomeu IV. Ambos viveram em épocas bem distintas da história do Egito Antigo, sendo o primeiro na 19ª Dinastia e o último na Dinastia Ptolomaica.

Foto: Ministry of Antiquities

O chefe do Conselho Supremo de Antiguidades, Mostafa Waziri, explicou que a primeira pintura possui entre 2.30 m de altura e 1 m de largura, com uma espessura de 30 cm. Foi encontrada quebrada em duas partes, mas suas inscrições estão em boas condições. Ela retrata o rei Seti I em pé diante do deus Hórus e do deus Sobek e sob a cena está um texto com várias analogias ao faraó Horemheb, antecessor do pai de Sei I.

A segunda pintura está fragmentada em várias partes e tem 3.25 m de altura, 1.15 m de largura e 30 cm de espessura. Ela precisará de cuidados extras com o restauro e retrata o faraó Ptolomeu IV acompanhado por sua esposa Arsinoe III.

Ambas estas descobertas são importantes dada a sua exclusividade e com sendo mais uma comprovação de que o templo recebeu atenção dos governantes do Egito em diferentes períodos.

Foto: Ministry of Antiquities

Foto: Ministry of Antiquities

Fonte:

Two ancient paintings discovered at Temple of Kom Ombo. Disponível em < http://www.egypttoday.com/Article/4/58372/Two-ancient-paintings-discovered-at-Temple-of-Kom-Ombo >. Acesso em 02 de outubro

Se encante com estas fotos da tumba do faraó Seti I

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Seti I foi o segundo faraó da 19ª Dinastia (Novo Império) e por conta das realizações do seu governo é considerado por alguns egiptólogos como o governante que estreou o Período Ramséssida, em vez do seu pai, Ramsés I. Sua Grande Esposa Real foi Tuya, a mãe de Ramsés II e de possivelmente mais outras três crianças: um primogênito (mas falecido jovem), Tia e Hanutmiré (que se casou mais tarde com Ramsés II).

— Saiba mais: Seti I: o primeiro ramséssida.

Não se sabe por quantos anos ele governou o Egito. Alguns acadêmicos apontam que foi por 13, outros que foi por 17 ou 20 anos. A análise da sua múmia não aponta nenhuma violência, por isso acredita-se que ele faleceu provavelmente de causas naturais.

A sua sepultura está localizada no Vale dos Reis, uma das maiores necrópoles reais do país. Ela recebeu o código tombo KV-17. Descoberta em outubro de 1817, pelo explorador Giovanni Battista Belzoni (1778 — 1823), ela já tinha sido saqueada na antiguidade, mas, não deixou de ser um maravilhoso achado arqueológico, graças ao nível de conservação de suas pinturas parietais. Confiram abaixo algumas delas:

Tumba de Seti I , Sethi I , Luxor Egipto , Egypt. 27-05-2016 .

Tumba de Seti I , Tomb of Seti I , Sethi I -Sala de la "Vaca Celestial"- Luxor Egipto , Egypt. 27-05-2016 .

Fonte de todas as fotografias: Soloegipto.com

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(Comentários) Novela “Os 10 Mandamentos” (Brasil)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde o início deste ano a Rede Record está veiculando a novela “Os Dez Mandamentos”, cujo enredo baseia-se no mito bíblico do êxodo hebreu, que narra os passos de Moisés, um escravo hebreu que é adotado por uma princesa egípcia e que anos depois liberta o seu povo e os lidera em uma fuga pelo Deserto Oriental. Eu assisti a obra em suas primeiras semanas e ao contrário de “José do Egito” o roteiro me agradou muito, ocorreram até alguns momentos de piadas com termos egípcios, misturando com os nossos, como uma fala da personagem de Yunet, “eu não nasci quando Rá nasceu na manhã de ontem”. Entretanto, com o tempo a história ficou um pouco massante e se estava difícil acompanhar tantos erros históricos, pior ainda estava ter que ver o núcleo feminino dos hebreus falando da importância de casar… Todo o tempo. Abandonei a novela e desde então não tive vontade de voltar a assistir.

Cena da coroação do personagem Ramsés II, interpretado por Sergio Marone. Imagem: Reprodução.

Porém, resolvi escrever este post porque a novela está fazendo um grande desserviço para a Egiptologia; é impressionante o número de gente que está escrevendo para mim com as mais variadas perguntas, algumas sem muito sentido. Vale lembrar que esta novela, assim como “José do Egito” trata-se de uma obra de ficção e que muita coisa apresentada não corresponde com a realidade do Egito faraônico. O próprio mito do Êxodo já é um ponto complicado, porque há alguns anos alguns pesquisadores e teólogos resolveram encaixa-lo no início da 19ª Dinastia, porém esta proposta trata-se de especulação, arqueologicamente falando não existe indícios de escravidão hebreia no Egito (para saber mais leia o texto Êxodo hebreu no Egito: aconteceu ou não?). Mas, ignorando a ausência de indícios, entre esses pesquisadores convencionou-se a encaixar a vida de Moisés no reinado de Seti I e Ramsés II, ponto de vista que foi popularizada por obras cinematográficas, inclusive a própria novela em questão.

Então, para fazer um resumo simples, abaixo estão as atrizes e os atores e os respectivos personagens inspirados em figuras históricas que estão representando (por favor, não caiam no erro da achar que todos os atos deles na trama realmente aconteceram):

Com o enredo planejado com a 19ª Dinastia como plano de fundo, vemos então em “Os Dez Mandamentos” uma série de equívocos na trama, são alguns deles:

☥ Coroação de Seti I: no início da novela temos Seti I reinando enquanto, se não me falha a memória, Ramsés era só uma criança de colo. A realidade é que quando ele foi coroado o príncipe já tinha cerca de nove anos de idade;

☥ Filhas de Seti I: Henutmire não é filha única do casal real (embora alguns pesquisadores nem sequer achem que ela era de fato filha deles), existia ainda outra conhecida, Tyie;

☥ Os pais de Nefertari: Este foi mais um devaneio da obra, já que não conhecemos os nomes e os cargos dos seus pais. Esclarecendo: os personagens Yunet e Paser não existiram;

☥ Dança do Ventre: Esta é uma visão orientalista e anacrônica, totalmente irreal. A Dança do Ventre não tem relação alguma com a antiguidade egípcia;

☥ A Grande Esposa Real e a coordenação de trabalhos domésticos: Checar se a limpeza do quarto do rei estava em ordem não era o trabalho de uma rainha.

☥ Coroação e casamento de Ramsés II: Antes de ser coroado faraó, Ramsés II já possuía duas esposas e vários filhos. Inclusive já era casado com Nefertari.

☥ Quando ocorria o casamento real? O Casal Real casava no dia da coroação.

Outra questão problemática são as roupas, as quais a maioria são casos anacrônicos (não esquecerei tão cedo os biquínis e as roupas de Dança do Ventre), com cores que não eram usadas, cortes e costuras inexistentes na época. Acredito que estes erros grosseiros relacionados com o vestuário tem uma explicação: acho que a ideia era criar uma variedade de imagens, “Os Dez Mandamentos” nunca teve uma finalidade educativa, esta é a realidade, os produtores não estão servindo a um propósito de Educação Patrimonial, é entretenimento. Entretanto, por mais que as roupas egípcias ao longo do faraônico não tenham tido uma variedade de cores, existia uma boa variedade de cortes que poderiam ter sido aproveitados, mas que ironicamente nem sequer aparecem na obra. Uma pena, porque esta seria uma ótima oportunidade de mostrar para as pessoas que a moda egípcia não era monótona. Abaixo alguns exemplos absurdos:

A personagem Nefertari (Camila Rodrigues) e sua mãe Yunet (Adriana Garambone). A roupa da Nefertari tem um corte irreal, mas a da Yunet desconsidere totalmente; do corte a cor, nada disso existia. Imagem: Reprodução.

A princesa Henutmire (Vera Zimmermann) e seu pai e faraó Seti I (Zécarlos Machado). Principalmente nela: ignore toda a roupa. Imagem: Reprodução.

Yunet e Seti I. A roupa dele ainda vai, mas a roupa dela é totalmente século XX, desde a roupa de Dança do Ventre ao chador. Puro orientalismo. Imagem: Reprodução.

Um segurança da guarda real e Seti I. Ainda não sei porque insistem em por armaduras nos soldados, enfim. Já a roupa de Seti I… Esta capa já diz tudo. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez tudo errado. Sem brincadeira, o que se salva mesmo aí são os leques de pena. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez uma capa, mas não bastava, tinha que ser azul. Meus olhos de arqueóloga verteram lágrimas de sangue. Destaque também para estes arbustos que me lembram árvores de festa natalina. Imagem: Reprodução.

As maquiagens femininas também deprimem. O uso de sombras coloridas provavelmente foi inspirado no Egito Hollywoodiano do filme “Cleópatra” de 1963.

Em relação as joias eu devo tecer alguns elogios; nos primeiros dias da novela eu senti uma pobreza em termos de ligação com a antiguidade e até um erro no mínimo engraçado, onde Seti I aparece usando uma tiara igual ao do Tutankhamon, o que é irônico, visto que Seti I o excluiu da lista de faraós, e ver a personagem do faraó usando um artefato réplica de alguém que ele desvinculou da linhagem real é até cômico. Contudo, com o passar da trama a produção começou a por mais elementos ricos, como peitorais com imagens de deuses, tiaras representando flores, etc. Nesse sentido até que fizeram um bom trabalho.

Esse peitoral usado pelo Ramsés II é perfeito. Ele representa o deus Hórus segurando o símbolo “ouro” em ambas as suas patas. Imagem: Reprodução.

Outro aspecto que foi modificado e para o qual também deixo o meu elogio é sobre a tolerância religiosa: No início era retratado um maniqueísmo entre o povo egípcio e os hebreus, mas com o passar da trama o enredo começou a ficar mais brando e até a explicar um pouco sobre a religião egípcia. Achei ótimo, isto mostra para o público deles que nem todos seguem a mesma religião e que isso não é justificativa para destratar uns aos outros.

Eu tentei assistir a novela mais algumas vezes, mas sinceramente não dá mais. O enredo começou a ficar tolo e nem mesmo os personagens mais cômicos salvam do desastre que são os diálogos sexistas, figurinos e cenários que parecem ter saído de algum filme de gosto duvidoso da década de 1930 a 60 e tantas idéias orientalistas que merecem serem analisadas em algum artigo científico.

Seti I: o primeiro ramséssida

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

 

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/ photos/oar /52193 11780/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Seti I (Sethos, em grego), segundo faraó da 19ª Dinastia (Novo Império), cujo nome de batismo era Seti Mery-en-ptah (Do deus Seth, amado de Ptah) [1], foi filho de Paramessu, um homem proveniente do Delta – território o qual tradicionalmente o deus Seti (Seth) era padroeiro – e sem ligações com a realeza, mas que foi designado, apesar do cargo de vizir, como “príncipe hereditário da terra” pelo faraó Horemheb (Novo Império; 18ª Dinastia), pelo fato do rei não ter tido herdeiros (O’CONNOR  et al (b),  2007).

Ao assumir o trono, Paramessu mudou seu nome para Ramsés (I) e incluiu o seu filho, Seti (I), nos assuntos administrativos do país (O’CONNOR  et al (b), 2007; DESPLANCQUES, 2011), e tornando-o co-regente, de acordo com uma estátua de Medamud [1]. O então príncipe assumiria o trono um ou dois anos depois, devido a morte do pai (O’CONNOR  et al (b), 2007), por este motivo Seti I é considerado o derradeiro fundador da dinastia ramsessida [2].

Ele foi casado com Tuya (Toya), a mãe de Ramsés II, a qual não recebeu muito destaque no seu governo até a morte do esposo, mas com a viuvez ela foi presenteada com construções e um templo em sua honra a mando de seu filho (O’CONNOR  et al (b), 2007). O Casal Real teve mais outras três crianças: um primogênito (mas falecido jovem), Tia e Hanutmiré (que casou-se mais tarde com o irmão Ramsés II) [1].

 

Governo e atividades militares:

Seti I já era nascido, inclusive um oficial e pai de Ramsés (II), quando Horemheb ainda era vivo, e teve educação nas artes bélicas, provavelmente por influencia da distinção que uma carreira militar tinha entre a alta nobreza egípcia. Esta educação foi bem a calhar em seu governo, que era herdeiro de uma ideologia que pregava o discurso de que acima de tudo o faraó deveria proteger as fronteiras do Egito e assim manter a maat.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/soloegipto/4092548965/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Em uma inscrição em sua biografia conservada em uma das paredes da sala hipostila de Karnak possuímos a narrativa de uma batalha com o Seti I como protagonista:

Sua majestade exulta no princípio da batalha, compraz-se em participar; seu coração regozija-se com a visão do sangue. Ele corta as cabeças dos dissidentes. Mais que a celebração da vitória, ama o momento de abater o inimigo (O’CONNOR  et al (b), 2007, pág. 17).

Assim como seus antecessores ele entrou em choque com os hititas, batalhando contra o rei Muwatallis, momento em que estabeleceu a fronteira de Kadesh no rio Orontes entre o Líbano e as montanhas do Anti-Líbano [2]. Também ordenou incursões bélicas no norte da Palestina e Síria e fortificou as fronteiras egípcias [2].

 

Algumas construções:

Seti I seguiu a tradição de construtor, mas uma das suas mais emblemáticas obras é o seu templo funerário em Abidos, no Alto Egito, onde se retratou, mais o filho Ramsés (II), como herdeiro legítimo de Amenhotep III, excluindo todos os faraós desde Akhenaton até Ay. Esta atitude provavelmente se deu pela a experiência amarniana que viria a ser condenada por Horemheb, iniciando assim o desmantelamento de templos votivos ao deus Aton e aos sucessores de Akhenaton (O’CONNOR et al (a), 2007; DESPLANCQUES, 2011). Por outro lado, o seu catálogo é impreciso em outro sentido, listando somente 75 monarcas a partir de Meni (Menés, em grego), o qual, de acordo com a tradição egípcia, acreditava-se ser o fundador do Egito unificado e da primeira dinastia (O’CONNOR  et al (b),  2007).

Templo de Seti I em Abidos. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Templo de Seti I em Abidos. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/soloegipto/5451575592/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Também reabriu minas e pedreiras, restaurou templos e capelas que estavam degradados, dando especial atenção aos templos danificados por Akhenaton (18ª Dinastia; Novo Império) e concluindo construções de Tutankhamon (BRAND, 2009). Seus programas de reparos foram gravados com o uso da palavra sm3wymnw, marca de renovação bastante empregada para registrar sua autoria nestes restauros (BRAND, 2009). Ele também ampliou a Grande Sala Hipóstila de Karnak e construiu edifícios para a sua honra também na Núbia (atual Sudão) e na Ásia Ocidental (BRAND, 2009).

Seti I e o jovem Ramsés II em Abidos. Foto: O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. Pág. 35.

Seti I e o jovem Ramsés II em Abidos. Foto: O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. Pág. 35.

O maior problema em relação a este assunto é se entender a cronologia de acontecimentos dentro do seu reinado, especialmente em relação ao seu programa de construção (BRAND, 2009), uma vez que após a sua morte alguns dos seus predecessores imediatos, especialmente seu filho Ramsés II, dedicaram templos em seu nome (BRAND, 2009).

 

Sepultamento:

Ele governou possivelmente por 13 anos (existindo uma divergência de opiniões que põe seu fim entre 17 e 20 anos de reinado) [1], provavelmente de causas naturais, e foi sepultado no Vale dos Reis, na tumba KV17, descoberta em outubro de 1817, pelo explorador Giovanni Battista Belzoni (1778 — 1823), e se constitui de um dos maiores túmulos da necrópole.

 

Para saber mais:

Livro: The Monuments of Seti I: Epigraphic, Historical and Art Historical Analysis, de Peter J. Brand.

Livro: The Monuments of Seti I.

Livro: The Monuments of Seti I.

Embora caro (€210,00, no valor do título na língua original), este livro é o resultado das pesquisas para a tese de doutorado do professor Brand acerca dos monumentos realizados por Seti I e os que foram associados a ele mesmo após a sua morte. Apresenta metodologias de análises, como o reino de Seti I influenciou na instituição do discurso ramséssida e um ensaio acerca da família do faraó. Não é um livro dedicado para amadores, embora possua uma leitura fácil, mesmo em inglês.

 

Referências:

BRAND, Peter. The Monuments of Seti I: Epigraphic, Historical and Art Historical Analysis. Brill, 2009.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011

O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark (a). Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007.

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

[1] “Seti I by Jimmy Dunn”. Disponível em < http://www.touregypt.net/featurestories/seti.htm >. Acesso em 14 de novembro de 2013.

[2] “Seti I”. Disponível em < http://global.britannica.com/EBchecked/topic/536230/Seti-I >. Acesso em 12 de novembro de 2013.

Omm Seti: o caso de Dorothy Eady

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Dorothy Louise Eady (1904-1981) foi uma inglesa que protagonizou uma das histórias mais famosas e que mais despertam a curiosidade para os assuntos que falam a respeito da possibilidade da existência de vidas passadas, inspirando artigos e debates acerca. Sua crença de que tinha vivido durante a Era Faraônica a fez popular na cidade de Abidos em meio aos nativos, turistas e profissionais da Egiptologia onde, entre muitos grupos de pesquisadores, sua história não foi só tolerada, mas admirada.

Omm Seti. Imagem retirada do documentário “Em Busca da Eternidade” ("Egypt: Quest for Eternity", no original) da National Geographic.

Omm Seti. Imagem retirada do documentário “Em Busca da Eternidade” (“Egypt: Quest for Eternity”, no original) da National Geographic.

Porém, justamente esta consideração não fez com que ocorresse um interesse em tentar reafirmar ou desmentir alguns dos seus testemunhos acerca de edifícios da antiguidade, o que só faz aumentar a curiosidade por esta figura, ignorando o que poderia se tratar da verdade.

Este texto, que servirá para demonstrar como o Egito Antigo pode influenciar na crença de algumas pessoas, seguirá de forma linear, apresentando alguns fatos da vida de Dorothy ao lado das experiências pelas quais ela afirmava ter passado.

 

A vida de Dorothy até ir morar no Egito

Nascida em 6 de janeiro de 1904 na cidade de Blackheath, na Inglaterra, durante os seus três anos de idade um incidente seria tomado como a explicação dos eventos que se seguiram na vida de Dorothy: em 1907 a queda de um lance de escadas fez com que o médico que foi ao seu socorro declarasse seu óbito, no entanto, minutos depois a menina encontrava-se desperta e brincando (JAMES; THORPE, 2001; O’CONNOR et al 2007). Após o acidente ela começou a sonhar recorrentemente com um grande edifício com colunas e jardins, também tinha explosões de choros e ignorando a residência em que nasceu e cresceu afirmava que gostaria de voltar para a sua casa, mas não sabia explicar onde é que este lar se encontrava (JAMES; THORPE, 2001).

Omm Seti

Omm Seti. Imagem disponível em < http://www.brown.edu/Research/Breaking _Ground/results.php?d=1&first= Omm&last=Sety >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Meses depois, em 1908, quando ela tinha quatro anos, os pais a levaram ao museu Britânico. Ao chegar à seção egípcia começou a beijar freneticamente os pés das estátuas e por fim parou em frente à vitrine de uma múmia. Após minutos os pais tentaram retirá-la do lugar, mas Dorothy se agarrou ao móvel expositor e gritou “Deixe-me aqui, este é o meu povo!”. Posteriormente a este ocorrido, seu pai lhe compra uma enciclopédia infantil que possuía imagens de artefatos egípcios (JAMES; THORPE, 2001).

Aos sete anos viu uma revista com uma fotografia do templo de Abidos e afirmou ao pai que ali era a sua casa e complementou “Mas por que está tudo quebrado? E onde está o jardim?”, o que o indignou, já que na sua concepção no deserto não existiam jardins (JAMES; THORPE, 2001).

No início da adolescência seu fascínio pelo Egito fez com que Sir Ernest Wallies Budge a tomasse como discípula, treinando-a para compreender hieróglifos nos períodos em que ela não estava nas aulas da escola (JAMES; THORPE, 2001).

Com a chegada da vida adulta, agregou aos seus estudos extraescolares acerca do Antigo Egito um curso de desenho de uma escola de artes de Plymouth. Também começou a frequentar grupos de interesse em reencarnações, mas nenhum a animou. Uma destas confrarias tentou entender o que ocorria com Dorothy, buscando saber por que ela tinha sonhos constantes com o Egito Antigo e deduziram que de fato ela teria morrido no acidente da escada e que a alma de alguém que viveu na antiguidade tinha se apossado do seu corpo, explicação esta que ela não acatou (JAMES; THORPE, 2001).

Com 27 anos ela foi morar em Londres, assumindo um emprego em uma revista egípcia onde desenhava quadrinhos e escrevia artigos defendendo a emancipação do Egito da Grã-Bretanha. Foi neste período que conheceu Abdel Maguib, que viria a tornar-se seu marido e com quem se mudou para o Egito em 1933, onde engravidou do seu primeiro e único filho, a quem deu o nome de Seti o que lhe rendeu o denominativo “Omm Seti” (“mãe de Seti”), seguindo o costume egípcio de não se referir às mulheres por seu nome (JAMES; THORPE, 2001; O’CONNOR et al 2007).

 

Relatos de “vidas passadas” e problemas com a família

Omm Seti no templo de Seti em Abidos. O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth.Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. P. 16.

Omm Seti no templo de Seti em Abidos. O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth.Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. P. 16.

Na época em que viveu no Egito com o marido, durante algumas noites Dorothy levantava da cama e começava a escrever hieróglifos, os quais ela dizia serem ditados por um espírito chamado Hor-Rá em momentos que descreveu estar semiacordada. Destas seções ela reuniu setenta páginas onde estava o relato de que ela teria vivido durante a antiguidade egípcia e que era uma mulher que tinha falecido muito jovem, chamada Bentreshyt (JAMES; THORPE, 2001).

Ainda de acordo com a narrativa, Bentreshyt era a filha de um casal pobre que a enviou para o templo de Seti I, que estava sendo construído na atual área de Kom el-Sultan, onde seria criada e treinada como sacerdotisa, momento este em que deveria fazer um voto de castidade (JAMES; THORPE, 2001).

No período de um ano, intervalo que Dorothy levou para preencher estas páginas, ela começou a ter problemas com a sua família egípcia: primeiro em relação a onde morar, uma vez que o marido queria viver na moderna Cairo e ela no subúrbio, para poder ficar perto das pirâmides, o segundo foi acerca do seu sogro, que enquanto morava com o casal fugiu de casa alegando ter visto um “faraó” na cama da sua nora (JAMES; THORPE, 2001).

Com o seu marido indo morar, devido ao trabalho, no Iraq, ela se mudou com o filho para uma barraca próxima das pirâmides, época a qual ela foi empregada pelo Departamento de Antiguidades do Egito (atual Ministério das Antiguidades do Egito), tornando-se a primeira funcionaria do sexo feminino (JAMES; THORPE, 2001).

Templo de Seti I em Abidos. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Templo de Seti I em Abidos. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/soloegipto/5451575592/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Trabalhou por vinte anos como assistente dos arqueólogos egiptólogos Selim Hasan e Ahmed Fakhry, que atuavam em Gizé e Dashur, mas durante este tempo jamais tinha ido conhecer Abidos, local que na infância ela tinha identificado como seu lar (JAMES; THORPE, 2001). Acerca deste assunto ela registrou:

Só tinha um objetivo na vida: ir para Abidos, viver em Abidos e ser enterrada em Abidos. [Contudo] algo além do meu alcance me detivera até mesmo de visitar Abidos (JAMES; THORPE, 2001, pág. 487).

Com o ano de 1952 finalmente foi conhecer Abidos, que se tratava de um vilarejo sem eletricidade e água encanada, e ao chegar rumou diretamente para o Templo de Seti I, onde passou a noite acendendo incensos e rezando para as divindades egípcias, mas só tornou-se residente da província em 1956, após conseguir um emprego para registrar os relevos das paredes do templo e deixar que o seu filho fosse morar com o pai no Kuwait (JAMES; THORPE, 2001; O’CONNOR et al 2007).

Omm Seti. Imagem retirada do documentário “Em Busca da Eternidade” ("Egypt: Quest for Eternity", no original) da National Geographic.

Omm Seti. Imagem retirada do documentário “Em Busca da Eternidade” (“Egypt: Quest for Eternity”, no original) da National Geographic.

Durante sua estadia no local pôde acompanhar os trabalhos de uma equipe de Arqueologia que tinha encontrado no sítio os vestígios de um jardim (JAMES; THORPE, 2001).

 

Seus relatos de encontros com o faraó Seti I

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/oar/5219311780/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Embora não fizesse segredo acerca da sua convicção de que tinha vivido durante a antiguidade egípcia, Dorothy não relatou publicamente tudo o que tinha escrito nos papéis que guardavam suas narrativas acerca de Bentreshyt, porém, com a insistência do seu melhor amigo, o Dr. Hanny El Zeini, ela registrou mais detalhes das experiências que dizia ter passado, especialmente acerca de como Bentreshyt, aos 14 anos, teria encontrado o próprio Seti I no jardim, a paixão repentina dos dois e a gravidez indesejada, uma vez que de acordo com as leis do templo as sacerdotisas deveriam manter-se virgens (JAMES; THORPE, 2001).

Ainda de acordo com os escritos de Dorothy, os responsáveis pelo edifício a pressionaram para que ela revelasse quem era o pai da criança, mas pensando na integridade de Seti I ela se matou, levando o segredo consigo. Consternado, após saber do ocorrido, Seti I prometeu que jamais iria esquecê-la (JAMES; THORPE, 2001).

Imagem de Hathor e Seti I na KV-17. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Imagem de Hathor e Seti I na KV-17. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/soloegipto/4092548965/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Ela ainda afirmou que ao completar 14 anos em sua vida como inglesa o espírito do faraó a visitou em forma de múmia e ela só voltou a vê-lo somente mais tarde, quando foi morar no Cairo, mas desta vez ele estava com a aparência normal e frequentava sua casa com mais assiduidade (JAMES; THORPE, 2001).

 

Até onde vai a veridicidade?

James e Thorpe (2001) apontam que a única pessoa que deixou um testemunho acerca do caso foi a própria Dorothy, a qual não esclareceu vários aspectos dos seus relatos, especialmente os ligados a sua infância, se as lembranças do acidente e do acontecimento no museu de fato eram dela ou lhes foram descritos por seus pais.

Outro ponto são as informações acerca de edifícios egípcios que ela afirmava ter recebido de Seti I, tais quais:

(1) Que embaixo do Templo de Seti I em Abidos existiria uma câmara mortuária secreta, contendo uma biblioteca com registros históricos (JAMES; THORPE, 2001);

(2) O Osirion de Abidos não teria sido construído por este faraó (JAMES; THORPE, 2001);

(3) Que a esfinge do platô de Gizé não foi construída por Khufu (Quéfren), mas anos antes em honra ao deus Hórus (JAMES; THORPE, 2001); afirmação esta que se choca com as atuais pesquisas da Arqueologia que sugerem que ela teria sido edificada pelo o sucessor de Khufu em honra a este falecido faraó.

(4) A tumba de Nefertiti foi edificada próxima a de Tutankhamon e aparentemente permanece intacta (EL ZEINI; DEES) [1].

Muitos dos seus relatos são artificiais e dedutivos, desta forma, independente da crença de cada um, ela continua mais como um ponto de curiosidade para os fascinados pela antiguidade egípcia. Não é tarefa fácil aceitar suas afirmações, especialmente porque convenientemente todas as pessoas as quais ela fez comentários acerca da personalidade naturalmente já estão mortas fazem mais de 3000 anos.

 

Legado de Dorothy Eady… Omm Seti

Embora seja reconhecida devido a sua insistência em afirmar que teria vivido durante a antiguidade egípcia, Omm Seti se sustentava através na Egiptologia, mesmo que não possuísse uma formação formal na área.

Com o seu amigo El Zeini ela escreveu vários artigos. No entanto, se não fossem suas alegações de que era a reencarnação de uma egípcia e suas biografias que trazem seus comentários de encontros com o faraó Seti I, provavelmente seu nome seria lembrado por poucos acadêmicos.

Para saber mais:

Livro: Omm Sety’s Egypt.

Livro: Omm Sety’s Egypt.

O amigo de Omm Seti, Dr. Hanny El Zeini, ao lado de Catherine Dees, escreveu uma biografia acerca da história de Dorothy, o Omm Sety’s Egypt: A Story of Ancient Mysteries, Secret Lives, and the Lost History of the Pharaohs.

O jornalista Jonathan Cott, com o apoio de El Zeini, publicou em seu The Search for Omm Sety: A True Story of Eternal Love and One Woman’s Voyage Through the Ages parte do diário secreto dela.

 

Vídeo:

Pouco antes de falecer Omm Seti recebeu a equipe de filmagens da National Geographic em sua residência em Abidos. Abaixo a sua participação no documentário “Egito: Em Busca da Eternidade” (“Egypt: Quest for Eternity”, no original).

Referências:

[1] Omm Sety`s Egypt: A Story of Ancient Mysteries, Secret Lives, and the Lost History of the Pharaohs. Disponível em < http://www.nicholasreeves.com/item.aspx?category=Press&id=300 >. Acesso em 01 de agosto de 2013.

JAMES, Peter; THORPE, Nick. “O caso Omm Seti”. In: O Livro de Ouro dos Mistérios da Antiguidade: Os maiores enigmas da História da Humanidade. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. “Dorothy Eady e sua máquina do tempo” In: Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.