(Comentários) Novela “Os 10 Mandamentos” (Brasil)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde o início deste ano a Rede Record está veiculando a novela “Os Dez Mandamentos”, cujo enredo baseia-se no mito bíblico do êxodo hebreu, que narra os passos de Moisés, um escravo hebreu que é adotado por uma princesa egípcia e que anos depois liberta o seu povo e os lidera em uma fuga pelo Deserto Oriental. Eu assisti a obra em suas primeiras semanas e ao contrário de “José do Egito” o roteiro me agradou muito, ocorreram até alguns momentos de piadas com termos egípcios, misturando com os nossos, como uma fala da personagem de Yunet, “eu não nasci quando Rá nasceu na manhã de ontem”. Entretanto, com o tempo a história ficou um pouco massante e se estava difícil acompanhar tantos erros históricos, pior ainda estava ter que ver o núcleo feminino dos hebreus falando da importância de casar… Todo o tempo. Abandonei a novela e desde então não tive vontade de voltar a assistir.

Cena da coroação do personagem Ramsés II, interpretado por Sergio Marone. Imagem: Reprodução.

Porém, resolvi escrever este post porque a novela está fazendo um grande desserviço para a Egiptologia; é impressionante o número de gente que está escrevendo para mim com as mais variadas perguntas, algumas sem muito sentido. Vale lembrar que esta novela, assim como “José do Egito” trata-se de uma obra de ficção e que muita coisa apresentada não corresponde com a realidade do Egito faraônico. O próprio mito do Êxodo já é um ponto complicado, porque há alguns anos alguns pesquisadores e teólogos resolveram encaixa-lo no início da 19ª Dinastia, porém esta proposta trata-se de especulação, arqueologicamente falando não existe indícios de escravidão hebreia no Egito (para saber mais leia o texto Êxodo hebreu no Egito: aconteceu ou não?). Mas, ignorando a ausência de indícios, entre esses pesquisadores convencionou-se a encaixar a vida de Moisés no reinado de Seti I e Ramsés II, ponto de vista que foi popularizada por obras cinematográficas, inclusive a própria novela em questão.

Então, para fazer um resumo simples, abaixo estão as atrizes e os atores e os respectivos personagens inspirados em figuras históricas que estão representando (por favor, não caiam no erro da achar que todos os atos deles na trama realmente aconteceram):

Com o enredo planejado com a 19ª Dinastia como plano de fundo, vemos então em “Os Dez Mandamentos” uma série de equívocos na trama, são alguns deles:

☥ Coroação de Seti I: no início da novela temos Seti I reinando enquanto, se não me falha a memória, Ramsés era só uma criança de colo. A realidade é que quando ele foi coroado o príncipe já tinha cerca de nove anos de idade;

☥ Filhas de Seti I: Henutmire não é filha única do casal real (embora alguns pesquisadores nem sequer achem que ela era de fato filha deles), existia ainda outra conhecida, Tyie;

☥ Os pais de Nefertari: Este foi mais um devaneio da obra, já que não conhecemos os nomes e os cargos dos seus pais. Esclarecendo: os personagens Yunet e Paser não existiram;

☥ Dança do Ventre: Esta é uma visão orientalista e anacrônica, totalmente irreal. A Dança do Ventre não tem relação alguma com a antiguidade egípcia;

☥ A Grande Esposa Real e a coordenação de trabalhos domésticos: Checar se a limpeza do quarto do rei estava em ordem não era o trabalho de uma rainha.

☥ Coroação e casamento de Ramsés II: Antes de ser coroado faraó, Ramsés II já possuía duas esposas e vários filhos. Inclusive já era casado com Nefertari.

☥ Quando ocorria o casamento real? O Casal Real casava no dia da coroação.

Outra questão problemática são as roupas, as quais a maioria são casos anacrônicos (não esquecerei tão cedo os biquínis e as roupas de Dança do Ventre), com cores que não eram usadas, cortes e costuras inexistentes na época. Acredito que estes erros grosseiros relacionados com o vestuário tem uma explicação: acho que a ideia era criar uma variedade de imagens, “Os Dez Mandamentos” nunca teve uma finalidade educativa, esta é a realidade, os produtores não estão servindo a um propósito de Educação Patrimonial, é entretenimento. Entretanto, por mais que as roupas egípcias ao longo do faraônico não tenham tido uma variedade de cores, existia uma boa variedade de cortes que poderiam ter sido aproveitados, mas que ironicamente nem sequer aparecem na obra. Uma pena, porque esta seria uma ótima oportunidade de mostrar para as pessoas que a moda egípcia não era monótona. Abaixo alguns exemplos absurdos:

A personagem Nefertari (Camila Rodrigues) e sua mãe Yunet (Adriana Garambone). A roupa da Nefertari tem um corte irreal, mas a da Yunet desconsidere totalmente; do corte a cor, nada disso existia. Imagem: Reprodução.

A princesa Henutmire (Vera Zimmermann) e seu pai e faraó Seti I (Zécarlos Machado). Principalmente nela: ignore toda a roupa. Imagem: Reprodução.

Yunet e Seti I. A roupa dele ainda vai, mas a roupa dela é totalmente século XX, desde a roupa de Dança do Ventre ao chador. Puro orientalismo. Imagem: Reprodução.

Um segurança da guarda real e Seti I. Ainda não sei porque insistem em por armaduras nos soldados, enfim. Já a roupa de Seti I… Esta capa já diz tudo. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez tudo errado. Sem brincadeira, o que se salva mesmo aí são os leques de pena. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez uma capa, mas não bastava, tinha que ser azul. Meus olhos de arqueóloga verteram lágrimas de sangue. Destaque também para estes arbustos que me lembram árvores de festa natalina. Imagem: Reprodução.

As maquiagens femininas também deprimem. O uso de sombras coloridas provavelmente foi inspirado no Egito Hollywoodiano do filme “Cleópatra” de 1963.

Em relação as joias eu devo tecer alguns elogios; nos primeiros dias da novela eu senti uma pobreza em termos de ligação com a antiguidade e até um erro no mínimo engraçado, onde Seti I aparece usando uma tiara igual ao do Tutankhamon, o que é irônico, visto que Seti I o excluiu da lista de faraós, e ver a personagem do faraó usando um artefato réplica de alguém que ele desvinculou da linhagem real é até cômico. Contudo, com o passar da trama a produção começou a por mais elementos ricos, como peitorais com imagens de deuses, tiaras representando flores, etc. Nesse sentido até que fizeram um bom trabalho.

Esse peitoral usado pelo Ramsés II é perfeito. Ele representa o deus Hórus segurando o símbolo “ouro” em ambas as suas patas. Imagem: Reprodução.

Outro aspecto que foi modificado e para o qual também deixo o meu elogio é sobre a tolerância religiosa: No início era retratado um maniqueísmo entre o povo egípcio e os hebreus, mas com o passar da trama o enredo começou a ficar mais brando e até a explicar um pouco sobre a religião egípcia. Achei ótimo, isto mostra para o público deles que nem todos seguem a mesma religião e que isso não é justificativa para destratar uns aos outros.

Eu tentei assistir a novela mais algumas vezes, mas sinceramente não dá mais. O enredo começou a ficar tolo e nem mesmo os personagens mais cômicos salvam do desastre que são os diálogos sexistas, figurinos e cenários que parecem ter saído de algum filme de gosto duvidoso da década de 1930 a 60 e tantas idéias orientalistas que merecem serem analisadas em algum artigo científico.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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9 comentários sobre “(Comentários) Novela “Os 10 Mandamentos” (Brasil)

  1. Mesmo com tanta “licença poética” rsrs eu gosto dessa novela, acho tão leve e divertida. Pena que a maioria que assiste não se interessa em ir atrás pra ver se a história bate mesmo com a real.
    O que achei legal esses dias foi que Ramses na novela disse a Nefertari que mandara erguer uma bela tumba e um templo em sua homenagem e que fará uma estatua dela, nivelada [não lembro a palavra certa] com a dele para que vejam o quão importante ela foi pra ele rsrs e no dia seguinte os fãs da novela foram atrás pra ver se isso realmente aconteceu, e ficaram compartilhando fotos do templo de Nefertari e afins rsrs

  2. Pouco importa se a novela descreve fatos reais ou não. A verdade é que hoje em dia quase nada se tem para ver com a família neste horário. Sei que muitas coisas são da criatividade da escritora. Muito do que conheço vou explicando para meus netos que não demonstra a realidade. Mas acho que ninguém ali está tentando descrever a bíblia, mas sim dar uma pincelada acrescentando passagens ilusórias, mas que atraem a atenção. Eu não assistia novelas há mais de 3 anos. Voltei assistir quando começou a passar os déz mandamentos. Não perco um capítulo.

  3. Marcia, entendo suas críticas. Sou médico mas nem por isso deixo de assistir a série
    House um médico que muitas vezes consegue resolver ou diagnosticar casos com uma simples consulta verbal. A obra da novela desde do início foi dada como uma semi-ficção ou seja com acrescentos de romances e tramas. A novela já chegou a derrubar a própria Rede Globo no índice de audiência e sem dúvida é a melhor novela no momento no ar. Não olhe a novela com olhar profissional pois se cada um de nós julgarmos com nossas origens profissionais não existirá mais filmes nem mesmo novelas apenas bibliografias e documentários.

    • Um biólogo, o Pirula, gravou um vídeo intitulado “A desculpa do entretenimento” (https://www.youtube.com/watch?v=PtFd97xm3gE) que cabe muito bem nesta situação.
      Eu acho sim que tudo deve ser visto com um olhar sério, caso contrário qual seria o motivo de procurarmos conhecimento?
      E não, minhas criticas não são só relacionadas com o fundo histórico, sinceramente achei a novela de gosto duvidoso. Não assisto novelas da Globo (na verdade não assisto novela alguma, a última que tentei acompanhar foram “Os 10 Mandamentos”) e é interessante o fato de que muitas das críticas positivas a novela precisem incluir uma comparação com as novelas da Globo.
      Abraços.

  4. Entendo que um trabalho ficcional tem lá suas licenças poéticas, más este é um caso que se enquadra na lista de trabalhos que apresentam MENTIRAS que acabam tidas como verdade sem alegar (ou ao menos de forma clara) que se trata apenas de ficção.

    O que diferencia a ficção e licença poética da novela com a ficção de uma série como “game of Thrones” por exemplo, é o fato de que na série o espectador tem a certeza de que se trata de um trabalho meramente ficcional e não vai sair por ai caçando lobos gigantes!

    O problema de trabalhos ficcionais como a novela é que, assim como documentários do “discovery channel” por exemplo, não se mostram claramente ficcionais levando pessoas a tomarem ficção como verdade, o que neste caso induz a uma interpretação errada de uma civilização.

    O correto seria que a novela fosse fiel no que retrata (uma equipe descente de historiadores não deve custar mais que o templo de Salomão construído pelo dono da emissora não?) ou que deixasse bem claro que usa diversos elementos FICTÍCIOS sem base arqueológica na retratação de tal MITO bíblico que é a história de Moisés.

  5. O mais irônico, é o fato de que a novela esteve repleta de desenhos de mulheres egípcias, nem para copiar, mas não, resolveram modernizar as roupas. Alem disso, nada que uma busca na internet não resolveria.

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