KV-55: uma das mais controversas descobertas feitas no Egito

Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A Arqueologia egípcia na virada do século XIX para o XX ainda tinha um forte caráter imperialista e antiquarista, estando associada ao fetiche da descoberta do ouro e de belas esculturas. E foi nesse cenário que uma das mais polêmicas descobertas realizadas no Vale dos Reis foi feita, contando com um registro pobre dos artefatos e um relatório pouco confiável.

A temporada teve início no dia 1 de janeiro de 1907 com o arqueólogo Edward Russell Ayrton (1882 – 1914) limpando a área a sul da KV-6 (tumba de Ramsés IX) onde encontrou nos dias seguintes vários jarros grandes datados da 20ª Dinastia e mais adiante, em um nível inferior, a entrada para uma tumba hoje chamada de KV-55 (REEVES; WILKINSON, 1996).

Hortense Schleiter, Edward Russell Ayrton, Theodore Davies e Arthur Weigall.

Mesmo após mais de 100 anos da sua descoberta, a KV-55 é um dos mais controversos achados feitos no Egito, mas não somente devido às dúvidas que levantou acerca dos artefatos, mas dada as circunstâncias adversas em que foi escavada e a confecção do seu relatório de divulgação, que não foi escrito pelo arqueólogo da equipe, o Ayrton, mas por Theodore Davis, um rico empresário norte-americano patrocinador da pesquisa e sem formação em Arqueologia (REEVES, 2008). Aparentemente Davis era um homem caprichoso e não queria que ninguém interferisse em suas opiniões, mesmo que a intromissão fosse de algum profissional da Arqueologia, como uma citação em uma carta do rev. Archibald Henry Sayce (1845 – 1933) para Arthur Weigall (1880 – 1934), supervisor de Davis em nome do Serviço de Antiguidades, sugere:

“Eu estou com medo de que você poderia muito bem tentar parar uma avalanche assim com tentar parar Sr. Davis quando ele está inclinado a fazer uma coisa em particular” (REEVES; WILKINSON, 1996, pág. 78).

Graças a intervenção de Davis o relatório não saiu de acordo com o ponto de vista e análises de Ayrton e até mesmo o registro fotográfico foi comprometido: a ordem foi para que deixasse a bagunça do local mais “apresentável” nas fotografias (JACQ, 2002). Um erro grosseiro.

A KV-55 é compreendida por um corredor que leva até uma câmara funerária onde foi encontrada uma série de artefatos incluindo um santuário de madeira folheado a ouro, um ataúde, quatro vasos canópicos e um conjunto de objetos chamados de “tijolos mágicos”. Provavelmente foi escavada concomitante com a KV-46 (tumba de Yuya e Tuya) e a KV-62 (tumba de Tutankhamon) e um indicio aponta que o local não foi finalizado: foi observado que as paredes e o teto da câmara funerária foram engessados, mas não decorados e uma ostraca pintada com o que parece ter sido o plano original da tumba foi encontrada dentro da KV-55 em 1993, durante as pesquisas da arqueóloga canadense Lyla Pitada Brock. Algumas marcas nas paredes também dão indicações sobre a sua confecção, pois mostram indícios de alargamento deixados pelos pedreiros na entrada, incluindo uma posterior elevação no teto e o número de escadas aumentado[1].

O Período Amarniano:

Para tentar compreender esta sepultura e seus artefatos é necessário entender o Período Amarniano, intervalo temporal que inicia com a coroação do faraó Akhenaton e termina com o reinado do faraó Ay[2]. Filho de Amenhotep III e da rainha Tiye, Akhenaton, outrora chamado de Amenhotep IV, tornou-se notável na Egiptologia por conta de sua revolução religiosa onde passou a ignorar todas as divindades do Egito, exceto uma, Aton, o Disco Solar, e da mudança da capital de Tebas, que recebia a proteção do deus Amon, para Aketaton, cuja tradução é “Horizonte de Aton”.

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Akhenaton, sua esposa Nefertiti e três das suas seis filhas sendo tocadas pelos raios de Aton. Foto: Kenneth Garrett. Abril de 2001.

Sua preferência por Aton ao contrário dos demais deuses foi o que levou anos depois a exclusão tanto do seu nome, como dos seus descendentes, dos inventários de faraós, sendo então apresentada uma lista que dá um pulo do governo de Amenhotep III para o de Horemheb. Porém, entre estes dois conhecemos a existência de ao menos cinco faraós:

☥ Amenhotep IV/Akhenaton: Que inaugurou a capital “Akhetaton” e criou templos para Aton. Construiu uma tumba para si em Tebas e depois em Akhetaton, contudo provavelmente sua sepultura foi relocada para algum lugar em Tebas;

☥ Smenkhará: Sucessor de Akhenaton, mas que só reina por cerca de três a dois anos. Sua tumba não foi encontrada;

☥ Ankheperurá: Farani cuja existência ainda é fruto de muito debate. Sua tumba não foi encontrada;

☥ Tutankhaton/Tutankhamon: Faraó que reinou por nove anos e foi sepultado na KV-62;

☥ Ay: Reinou por cerca de dois anos. Foi sepultado na KV-22.

O declínio do Período Amarniano tem início com o reinado do faraó Tutankhamon, que restituiu o panteão de deuses, mas não dá totalmente as costas para Amarna, relocando sepultamentos da família real para Tebas e a KV-55 parece ser uma dessas tumbas.

Os artefatos encontrados e o corpo no ataúde:  

No local foram encontrados muitos objetos datados como pertencentes ao Período Amarniano. Um dos principais é o santuário que foi originalmente preparado para a rainha Tiye, o que levou Davis a declarar que a KV-55 trata-se da sua tumba e de fato faz sentido, já que este tipo de peça era utilizado para proteger o sarcófago de pedra e o ataúde. Entretanto, foi sugerido através dos exames de DNA realizados entre os anos de 2007 e 2008 que uma das múmias encontradas em um esconderijo em outra tumba, a KV-35, seria a da rainha, uma proposta que não é amplamente aceita, porque mesmo com o resultado apontando que ela trata-se de uma parente sanguineamente próxima ao casal Yuya e Tuya, pais da própria rainha (HAWASS et al, 2010; PARRA, 2011), não é aconselhado realizar análise de DNA em múmias por conta não só da antiguidade do material, mas devido a possibilidade de contaminação que os corpos podem ter sofrido. Caso de fato uma das múmias encontradas na KV-35 seja da rainha Tiye a explicação para o que poderia ter ocorrido é que a sua tumba original (talvez a KV-55) foi comprometida de alguma forma e ela precisou ser relocada para um espaço seguro (REEVES, 2008).

Já os vasos canópicos seguramente foram feitos para a rainha Kiya, uma esposa secundária do faraó Akhenaton, uma vez que estão nominados para ela. Por muito tempo muitos acadêmicos acreditaram que a rainha Kiya era a mãe do faraó Tutankhamon, entretanto, a análise de DNA dos anos de 2007 e 2008 aponta que em verdade a mãe dele seria uma irmã de Akhenaton (HAWASS et al, 2010; PARRA, 2011).

Tampa do vaso canópico da rainha Kiya. Imagem disponível em < https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/05/f2/60/05f260fc082f729bcfc514ffeb334e6e.jpg >. Acesso em 27 de janeiro de 2015.

Todavia a identidade do dono do ataúde e do corpo encontrado dentro dele é uma grande incógnita. O problema começa com o próprio ataúde, cujo o nome que se encontrava em um cartouche protetor foi extraído, o que parece ter sido algo deliberado, já que o rosto do sarcófago também foi avariado (REEVES, 2008). De acordo com a crença egípcia, para que o morto não sofresse uma “morte verdadeira” e fosse capaz de realizar sua viagem no “além tumulo” era necessário que a sua múmia estivesse intacta e devidamente nominada. A sua máscara mortuária deveria retratar o seu rosto de tal forma que o individuo pudesse ser reconhecido. Sabendo disto foi sugerido então que quem quer que realizou as mudanças no sarcófago não tinha a mínima intenção de que a pessoa nele sepultada pudesse ingressar no além vida (PARRA, 2011).

Ataúde da KV-55. Imagem disponível em < http://www.ancient-origins.net/ancient-places-africa/mystery-egyptian-tomb-kv55-valley-kings-002608 >. Acesso em 27 de janeiro de 2015.

Uma das primeiras teorias levantadas durante a busca da sua identidade foi apontada pelo famoso filólogo Sir Alan Gardiner (1879 – 1963) que argumentou que as titulações presentes no ataúde eram as de Akhenaton. Outros pesquisadores, no entanto, pontuaram que as inscrições foram alteradas em algum momento na antiguidade e que por isso o corpo sepultado lá poderia não ser o dono original do ataúde. Já o estudioso francês Georges Daressy sugeriu que ele poderia ter sido originalmente feito para a rainha Tiye e que depois foi adaptado para Smenkhkara, um sucessor de Akhenaton que reinou por pouco tempo antes de Ankheperura e Tutankhamon. Outra teoria é de que ele foi feito para Smenkhkara durante o reinado de Akhenaton e que após assumir o trono ele foi modificado[3]. Já Reeves (2008) aponta que o ataúde possivelmente foi preparado originalmente para a rainha Kiya, mas que foi alterado para servir outro dono.

Detalhe do sarcófago da KV-55. Imagem disponível em < http://egyptologist.org/discus/messages/41/7446.html?1046805375 >. Acesso em 27 de janeiro de 2015.

Não é de se espantar que tantos pesquisadores experientes se debatam em razão de qual poderia ser a identidade do dono do ataúde, afinal, quando o olhamos notamos que ele foi feito para alguém da realeza, possuindo o negativo de um cartouche, elemento usado somente para o nome de pessoas da nobreza como o faraó, a rainha e suas crianças, e também possui uma ureus em sua testa; Entretanto, no lugar do tradicional nemes (o toucado de listras), que era um objeto que identificava um faraó ou uma farani, está uma peruca núbia que era usada tanto por mulheres como por homens comuns e inclusive pelos próprios faraós. Ainda nas inscrições remanescentes no corpo do ataúde podemos encontrar a expressão “senhor do Alto e Baixo Egito” (JACQ, 2002), também marcas que apontam ser ali um faraó ou uma farani.

Em relação ao corpo, algumas das pesquisas já realizadas apontaram similaridades físicas e de grupo sanguíneo entre este individuo com a múmia de Tutankhamon (alguns aspectos desse estudo serão apresentados no meu livro “Tutankhamon, 1922 e o Vale dos Reis”); o exame de DNA 2007/2008 apontou um forte grau de parentesco que sugere que ele seria o pai de Tutankhamon e as deduções arqueológicas levam a crer que este homem desconhecido da KV-55 seria o próprio Akhenaton (REEVES, 2008; HAWASS et al, 2010). Todavia, o fato é que ainda não existe consenso acerca da identidade dos restos mortais do individuo encontrado lá, especialmente porque em algum momento ao longo destes mais de 3000 anos a múmia se decompôs e resumiu o corpo a osso os quais atualmente está em um mau estado de conservação a tal ponto que não é possível realizar uma análise osteológica para definir um parâmetro de sua idade no momento da sua morte, sem acabar por confundir a degradação óssea devido à sua antiguidade com uma patologia óssea gerada pelo o envelhecimento do próprio individuo. Desta forma a sua idade já chegou a ser estimada como 25/26 anos, outros acima de 35, e mesmo reduzida para 20 anos (PÉREZ-ACCINO, 2003; REEVES, 2008).

Mais questões problemáticas:

Conhecer a finalidade da KV-55, a identidade do corpo nela encontrado e para quem de fato o ataúde foi confeccionado não são meras curiosidades, ter estas informações podem auxilar os atuais pesquisadores a entender mais os anos finais do Período Amarniano, como por exemplo, além de excluir os nomes dos faraós deste período e se de fato a ideia de danificar o ataúde era para deixar a pessoa nele encerrado sem uma identidade na sua vida no “além-túmulo”, até onde teria ido a perseguição à memória dos principais nomes dessa época?

Entretanto, dado ao trabalho executado com tantas falhas, algumas questões podem não ser respondidas, uma vez que existem casos não solucionados de furtos. Desde a década de 1920 os pesquisadores que tiveram algum contato com os artefatos retirados da tumba não foram coesos em afirmar quais objetos chegaram a sumir após a descoberta. Aparentemente tratam-se de folhas de ouro que teriam sido encontradas dentro do ataúde e que possivelmente um dia enrolou o corpo da múmia. Ao que parece tais folhas foram furtadas em algum momento ligeiramente após a descoberta da KV-55. Porém, mais coisas teriam sido furtadas, como sugeriu o ex-ministro das antiguidades, Zahi Hawass. Segundo ele, há alguns anos, partes dessas folhas, juntamente com elementos do fundo do próprio sarcófago, ressurgiram no Museu de Arte Egípcia, em Munique, na Alemanha e que com a descoberta do crime os objetos foram repatriados para o Egito[3].

O que tudo sugere é que a KV-55 continuará emanando muitos mistérios, pois, independente dos esforços dos atuais pesquisadores, questões e mais questões (algumas de teor sensacionalista) sempre são levantas, demonstrando o fascínio que o senso comum e mesmo acadêmicos sentem por esta descoberta que guarda o corpo de um individuo tão desafortunado, uma vez que o ódio e exclusão de um nome em um ataúde era uma situação gravíssima e indicava que a pessoa não era bem-quista em vida e muito menos na morte.

Referências:

HAWASS, Zahi.  GAD, Yehia Z.  ISMAIL, Somaia. KHAIRAT, Rabab. FATHALLA, Dina. HASAN, Naglaa. AHMED, Amal. ELLEITHY, Hisham. BALL, Markus. GABALLAH, Fawzi. WASEF, Sally. FATEEN, Mohamed. AMER, Hany. GOSTNER, Paul. SELIM, Ashraf. ZINK, Albert. PUSCH, Carsten M. Ancestry and Pathology in King Tutankhamun’s Family. JAMA. 303(7):638-647, 2010.

JACQ, Christian. Nefertiti e Akhenaton: O casal solar (Tradução de Maria D. Alexandre). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2005.

PARRRA, José Miguel. El verdadero origen del faraón niño: La familia de Tutankamón. Historia. National Geographic. Nº 83.

PÉREZ-ACCINO, José Ramón (c). “Where is the body of Akhenaten?”. In: Manley, Bill. (ed). The Seventy Great Mysteries of Ancient Egypt. United Kingdom: Thames & Hudson, 2003.

O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007.

REEVES, Nicholas; WILKINSON, Richard. The Complete Valley of the Kings. London: Thames & Hudson, 1996.

REEVES, Nicholas. The Complete Tutankhamun. London: Thames & Hudson, 2008.


 

[1] KV 55 (Tiye (?) or Akhenaten (?)).  Disponível em < http://www.thebanmappingproject.com/sites/browse_tomb_869.html >. Acesso em 16 de janeiro de 2015.
[2] Alguns autores preferem situar seu fim no reinado do faraó Tutankhamon.
[3] Hawass, Zahi. Mystery of the Mummy from KV55. Disponível em < http://www.guardians.net/hawass/articles/Mystery%20of%20the%20Mummy%20from%20KV55.htm >. Acesso em 16 de janeiro de 2015.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]

8 comentários sobre “KV-55: uma das mais controversas descobertas feitas no Egito

  1. Quem sabe essa múmia não seria da gloriosa Nefertiti…Tem muitas razões pela qual não queriam a entrada dela no pós-morte…

  2. Muito interessante, infelizmente pessoas que só atentam as suas ambições, podem ter danificado e furtado algumas evidências que poderiam ajudar muito no enigma desta descoberta!

  3. Minha Egiptóloga preferida !!!!!!!!!!!!!!!!!! Linda, competente e especialista no antigo Egito o que mais posso dizer – eu sigo todas as suas publicações sou apaixonado tb pelo egito estou tatuando a historia do egito em meus braços – estou me formando em história com tcc sobre cultura afro e pretendo ser um egiptólogo ou arquiologo – vc é muita linda mesmo parece a nefertiti – sou seu fã e pretendo ter todos os seus livros – bjs princesa do nilo

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