Imagens de beijos na Antiguidade egípcia

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

São numerosas as imagens parietais encontradas em sítios arqueológicos no Egito, a maioria delas fragmentadas, mas que, todavia, ainda são capazes de passar informações acerca do passado, não somente sobre linhas artísticas ou tecnologia, mas também sobre aspectos culturais.

Estamos habituados a ver em galerias de museus ou almanaques retratos de faraós, rainhas, sacerdotes ou escribas; muitas são efígies formais e na maioria das vezes idealizadas (BRANCAGLION Jr., 2001). Contudo, é possível encontrar exemplos mais “humanos”, de valor sentimental e até sexual, como é o caso das cenas de beijos nos lábios

É fato que não se sabe qual sociedade “inventou” tal beijo. É possível encontrar algumas teorias na internet, revistas e livros. Contudo, definir quem beijou primeiro provavelmente não será uma pergunta que terá resposta já que é algo que a Arqueologia não pode alcançar; Algumas sociedades retratam o ato, mas e aquelas pertencentes à Pré-História? Rememoremos que os registros rupestres não documentaram tudo o que fosse relacionado ao cotidiano.

Um erro comum é deduzir o passado como se estivesse olhando o presente. Então, não se pode interpretar o ato de beijar da mesma forma nas diferentes culturas e menos ainda em diferentes tempos. Quando nos deparamos com o Período Faraônico identificamos que o beijo era uma expressão sexual, contudo, igualmente demostrava a devoção familiar ou tinha a intenção de passar uma benção divina  (O’CONNOR, David et al., 2007).

Estas representações são encontradas em diferentes contextos. No templo mortuário de Ramsés III em Medinet Habu, por exemplo, o faraó é representado beijando sua noiva (TIRADRITTI, 1998). Mas nos talatats e estátuas de Amarna podemos visualizar muito mais, graças a predileção do faraó Akhenaton de retratar muitas imagens “informais”.  A escultura a seguir (Imagem 1) mostra o rei (sabemos que é ele graças a “Coroa Azul”, exclusiva dos faraós) beijando uma figura feminina. Apesar das especulações de que se trataria de Nefertiti, uma outra esposa chamada Kiya, ou uma de suas filhas (TIRADRITTI, 1998), a verdade é que não se conhece a real identidade desta pessoa:

Imagem 1: Akhenaton e uma figura feminina desconhecida (STROUHAL, 2007, p. 20).

Na próxima (Imagem 2) podemos observá-lo mais uma vez (a esquerda) aparentemente prestes a beijar a sua filha mais velha, Meritaton, que está em seus braços. Deve-se incluir aqui o “aparentemente” porque na cultura egípcia faraônica existia também uma ação de afagar os narizes para demonstrar carinho.

Imagem 2: Akhenaton aproxima-se de Meritaton para um provável beijo (MARIE; HAGEN, 1999, p. 47).

Na “Imagem 3” quem realiza o ato são duas figuras femininas que sugere-se que sejam a rainha Nefertiti com a sua filha Meritaton (O’CONNOR, David et al., 2007,p. 91):

Imagem 3: figuras do Período Amarniano (O’CONNOR, David et al., 2007,p. 91).

E na “Imagem 4” temos um casal durante o coito onde eles se beijam.

Referências:

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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