Vasos canópicos + Vídeo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Durante a antiguidade egípcia a crença, de uma forma geral, era que após a morte os falecidos realizariam uma viagem que os levariam ao paraíso. Entretanto, para que esta jornada pudesse ocorrer, eram necessários alguns procedimentos para dar ao morto a chance de realizar esta passagem. Um deles era que o seu corpo fosse mumificado, situação em que alguns dos seus órgãos seriam postos em recipientes que atualmente são chamados de “vasos canopos” ou “vasos canópicos”.

— Assista também: 8 curiosidades sobre múmias egípcias.

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Para ocorrer a mumificação era necessário que o corpo fosse ressecado, entretanto, os órgãos possuem muito líquido e para que eles não comprometam o embalsamamento usualmente eles eram retirados do corpo, mumificados separadamente e depositados em recipientes chamados atualmente de vasos canópicos, exceto o cérebro e o coração: o primeiro era jogado fora e o segundo mumificado também, mas posto de volta no corpo (BIERBRIER, 2008).

Imagem 1: Desenho de vaso canópico. Fonte: Revista Segredo das Múmias.

Não foi encontrado durante as pesquisas bibliográficas qual seria o fim dado para o útero ou outros órgãos. Há quem sugira que poderiam ser considerados como “intestinos” e postos no recipiente Kebehsenuef, mas isso carece de confirmação.

Usualmente podemos reconhecer esses objetos graças ao seu formato peculiar que traz as cabeças dos chamados “4 filhos de Hórus” (Imagem 2), cuja mitologia não nos é clara. Quando depositados na tumba eles eram protegidos também por mais quatro divindades, femininas todavia, e obedeciam aos pontos cardeais (BIERBRIER, 2008). Confiram o quadro a seguir:

Vasos Canópicos

Deusas protetoras Pontos Cardeais Vísceras Iconografia Filhos de Hórus
Neit Leste Estômago Chacal Duamutef
Néftis Norte Pulmões Babúino Hapi
Ísis Sul Fígado Homem Imseti
Selket Oeste Intestinos Falcão Kebehsenuef

Imagem 2: Vasos canópicos com o tema dos “4 Filhos de Hórus”, pertencente a um sacerdote de Amon, Padiuf (Terceiro Período Intermediário; XXII Dinastia). Fonte: Revista Egiptomania.

Imagem 3: Vasos canópicos datados da Baixa Época (MARIE; HAGEN, 1999, p. 154).

Voltando aos “4 filhos de Hórus”, apesar da imagem dos vasos canópicos serem tão reconhecíveis graças a esses deuses a verdade é que estes artefatos podem ser encontrados em outras formas: durante o Antigo Reino eles eram potes simples (Imagem 4) e especialmente durante o Novo Império podemos encontrá-los enfeitados somente com cabeças humanas (BIERBRIER, 2008; JIRÁSKOVÁ, 2015).

Imagem 3: Vaso canópico do Antigo Reino. Foto: M. Frouz (JIRÁSKOVÁ, 2015).

Imagem 5: Exemplo de vaso canópico do Novo Império com cabeça humana. Este pertence a rainha Kiya. Fonte: Revista Egiptomania.

Acerca da sua confecção, os tipos de matérias-primas utilizadas para fazer este artefato não variavam muito, sendo usualmente feitos de rochas derivadas do calcário e em alguns casos é possível encontrá-los feitos com alabastro, que era mais nobre (JIRÁSKOVÁ, 2015).

Curiosidades:

O nome “canópico” não é egípcio, ele foi dado para estes vasilhames porque os antiquários do século XIX os associaram com um herói mitológico grego, Canopus, que de acordo com a lenda teria sido sepultado em uma urna com cabeça humana (BIERBRIER, 2008; DAVID, 2011). É um dos muitos casos em que a cultura clássica influenciou a interpretação histórica do Egito faraônico por parte dos olhos modernos.

 Em algumas situações foi visto que os órgãos não foram postos em vasos. Assim como o coração eles poderiam ser mumificados e devolvidos para o interior do falecido (BIERBRIER, 2008).

Referências bibliográficas:

BIERBRIER, Morris L. Historical dictionary of Ancient Egypt. Maryland: The Scarecrow Press, Inc, 2008.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

JIRÁSKOVÁ, L. Damage and repair of the Old Kingdom canopic jars: the case at Abusir. PES XV, 2015.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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