Como foi o evento da “Lua de Sangue” no Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No início da noite de ontem (27/07) muitos brasileiros puderam presenciar um eclipse lunar total (o segundo do ano no Brasil) e a oposição do planeta Marte (ou seja, ele ficou bem mais visível no nosso céu noturno). Já outros não tiveram tanta sorte, devido ao tempo nublado em uma grande porção do país.

O grande chamariz desta ocorrência é que durante o eclipse a Lua assumiu um tom avermelhado, por isso que entre a imprensa ela tem sido chamada vulgarmente de “Lua Sangrenta” ou “Lua de Sangue”.

Os sortudos conseguiram registrar o ocorrido através de vídeos e fotografias e outros, mesmo com o tempo fechado, puderam assistiram ao evento através de lives tais como da NASA ou do canal Ciência e Astronomia (que comentou o eclipse e retirou várias dúvidas da audiência).

Mas, naturalmente, o eclipse não esteve visível somente no Brasil: em vários outros países foi possível acompanhar o fenômeno. Um deles foi o Egito, que, por não possuir muitas nuvens, basicamente teve um show no céu. E para nossa boa sorte algumas pessoas registraram. Alguns destes registros compartilho com vocês:

Fotografias tiradas no Platô de Gizé. Fonte: ADÓN // Scientific Investigations (não foi possível confirmar se o crédito das imagens de fato é da página)

O pontinho amarelo é o planeta Marte.

Publicado por ADÓN // Scientific Investigations em Sexta, 27 de julho de 2018

Vídeo feito no Cairo.

Mas atenção! Algumas das fotos que estão rondando pela internet são falsas. Cuidado especialmente com aquelas que mostram templos egípcios com luas gigantes do lado.

 

O significado dos eclipses para os antigos egípcios:

Embora sejam eventos incríveis e muitas vezes visíveis a olho nu, como foi o caso do de ontem, eclipses no Egito Antigo não parecem ter sido algo muito digno de nota nos registros oficiais do país. Ao menos não foram encontrados textos muito explícitos advindos das épocas mais antigas[1]. O que é irônico, vindo de uma civilização que tirava inspiração de muitos aspectos da natureza e que tomava eventos astronômicos (como é o caso do surgimento da estrela Sirius) para organizar seu calendário.

Quando vemos citações de eclipses durante a antiguidade egípcia elas eram escritas em demótico e com certa associação com alguma tradição estrangeira tal como a babilônica ou a grega (RIHLL, 2010 ; RYHOLT, 2010). Contudo, existem sim tentativas de egiptólogos de se identificar termos relacionados com tais eventos, entretanto, este ainda é um campo nebuloso. Quem estiver mais curioso acerca do tema pode consultar o texto “Total solar eclipses in Ancient Egypt – a new interpretation of some New Kingdom texts” de David G. Smith.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a “barca solar de Quéops. Para os antigos egípcios as estrelas seriam, em verdade, embarcações.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes:

Morenz, Ludwig D. Popko, Lutz. The Second Intermediate Period and the New Kingdom. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

Rihll, T. E. Science and Technology: Alexandrian. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

Ryholt, Kim. Late Period Literature. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

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[1] Durante o Período Romano um estudioso chamado Heron registrou a ocorrência de um eclipse no ano 62 durante a Era Cristã (RIHLL, 2010).

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]