Deuses egípcios: Abdyu

Por Márcia Jamille | @Mjamille | Instagram

 

De acordo com a teologia heliopolitana (da cidade de Heliópolis em grego, Iunu em egípcio), Abdyu era um dos deuses condutores da Barca Solar durante a sua viagem noturna no submundo (CASTEL, 2001). Ele é citado no “Hino a Rá”, como mostrado no Capítulo 15 do “Livro dos Mortos” do papiro de Ani (RODRÍGUEZ, 2003):

Deves ser benévolo comigo para que possa ver suas belezas, ser próspero sobre a terra, golpear os asnos e afugentar a maldade depois de destruir a serpente Apep[1] no momento da ação e ver peixe abdyu transformado em seu tempo e o peixe inet, […] sendo o barco inet em seu lago (RODRÍGUEZ, 2003, pág 145 Tradução nossa).

Como o próprio hino sugere, na iconografia ele é representado por um peixe.

A palavra “Abdyu” também denominava a cidade de Abidos, consequentemente a transliteração do nome da divindade é semelhante a desta milenar cidade.

Transliteração: ȝbḏw
Em hieróglifos

 

Referências:

CASTEL, Elisa. Gran Diccionario de Mitología Egipcia. Madrid: Aldebarán, 2001.

RODRÍGUEZ, Ángel Sánchez. La Literatura en el Egipto Antiguo: Breve antología. Servilla: Ediciones Egiptomanía S.L, 2003.


 

[1] Apophis em grego. Era a serpente maligna que todas as noites tentava devorar o deus Rá em sua viagem.

Omm Seti: o caso de Dorothy Eady

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Dorothy Louise Eady (1904-1981) foi uma inglesa que protagonizou uma das histórias mais famosas e que mais despertam a curiosidade para os assuntos que falam a respeito da possibilidade da existência de vidas passadas, inspirando artigos e debates acerca. Sua crença de que tinha vivido durante a Era Faraônica a fez popular na cidade de Abidos em meio aos nativos, turistas e profissionais da Egiptologia onde, entre muitos grupos de pesquisadores, sua história não foi só tolerada, mas admirada.

Omm Seti. Imagem retirada do documentário “Em Busca da Eternidade” ("Egypt: Quest for Eternity", no original) da National Geographic.

Omm Seti. Imagem retirada do documentário “Em Busca da Eternidade” (“Egypt: Quest for Eternity”, no original) da National Geographic.

Porém, justamente esta consideração não fez com que ocorresse um interesse em tentar reafirmar ou desmentir alguns dos seus testemunhos acerca de edifícios da antiguidade, o que só faz aumentar a curiosidade por esta figura, ignorando o que poderia se tratar da verdade.

Este texto, que servirá para demonstrar como o Egito Antigo pode influenciar na crença de algumas pessoas, seguirá de forma linear, apresentando alguns fatos da vida de Dorothy ao lado das experiências pelas quais ela afirmava ter passado.

 

A vida de Dorothy até ir morar no Egito

Nascida em 6 de janeiro de 1904 na cidade de Blackheath, na Inglaterra, durante os seus três anos de idade um incidente seria tomado como a explicação dos eventos que se seguiram na vida de Dorothy: em 1907 a queda de um lance de escadas fez com que o médico que foi ao seu socorro declarasse seu óbito, no entanto, minutos depois a menina encontrava-se desperta e brincando (JAMES; THORPE, 2001; O’CONNOR et al 2007). Após o acidente ela começou a sonhar recorrentemente com um grande edifício com colunas e jardins, também tinha explosões de choros e ignorando a residência em que nasceu e cresceu afirmava que gostaria de voltar para a sua casa, mas não sabia explicar onde é que este lar se encontrava (JAMES; THORPE, 2001).

Omm Seti

Omm Seti. Imagem disponível em < http://www.brown.edu/Research/Breaking _Ground/results.php?d=1&first= Omm&last=Sety >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Meses depois, em 1908, quando ela tinha quatro anos, os pais a levaram ao museu Britânico. Ao chegar à seção egípcia começou a beijar freneticamente os pés das estátuas e por fim parou em frente à vitrine de uma múmia. Após minutos os pais tentaram retirá-la do lugar, mas Dorothy se agarrou ao móvel expositor e gritou “Deixe-me aqui, este é o meu povo!”. Posteriormente a este ocorrido, seu pai lhe compra uma enciclopédia infantil que possuía imagens de artefatos egípcios (JAMES; THORPE, 2001).

Aos sete anos viu uma revista com uma fotografia do templo de Abidos e afirmou ao pai que ali era a sua casa e complementou “Mas por que está tudo quebrado? E onde está o jardim?”, o que o indignou, já que na sua concepção no deserto não existiam jardins (JAMES; THORPE, 2001).

No início da adolescência seu fascínio pelo Egito fez com que Sir Ernest Wallies Budge a tomasse como discípula, treinando-a para compreender hieróglifos nos períodos em que ela não estava nas aulas da escola (JAMES; THORPE, 2001).

Com a chegada da vida adulta, agregou aos seus estudos extraescolares acerca do Antigo Egito um curso de desenho de uma escola de artes de Plymouth. Também começou a frequentar grupos de interesse em reencarnações, mas nenhum a animou. Uma destas confrarias tentou entender o que ocorria com Dorothy, buscando saber por que ela tinha sonhos constantes com o Egito Antigo e deduziram que de fato ela teria morrido no acidente da escada e que a alma de alguém que viveu na antiguidade tinha se apossado do seu corpo, explicação esta que ela não acatou (JAMES; THORPE, 2001).

Com 27 anos ela foi morar em Londres, assumindo um emprego em uma revista egípcia onde desenhava quadrinhos e escrevia artigos defendendo a emancipação do Egito da Grã-Bretanha. Foi neste período que conheceu Abdel Maguib, que viria a tornar-se seu marido e com quem se mudou para o Egito em 1933, onde engravidou do seu primeiro e único filho, a quem deu o nome de Seti o que lhe rendeu o denominativo “Omm Seti” (“mãe de Seti”), seguindo o costume egípcio de não se referir às mulheres por seu nome (JAMES; THORPE, 2001; O’CONNOR et al 2007).

 

Relatos de “vidas passadas” e problemas com a família

Omm Seti no templo de Seti em Abidos. O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth.Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. P. 16.

Omm Seti no templo de Seti em Abidos. O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth.Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. P. 16.

Na época em que viveu no Egito com o marido, durante algumas noites Dorothy levantava da cama e começava a escrever hieróglifos, os quais ela dizia serem ditados por um espírito chamado Hor-Rá em momentos que descreveu estar semiacordada. Destas seções ela reuniu setenta páginas onde estava o relato de que ela teria vivido durante a antiguidade egípcia e que era uma mulher que tinha falecido muito jovem, chamada Bentreshyt (JAMES; THORPE, 2001).

Ainda de acordo com a narrativa, Bentreshyt era a filha de um casal pobre que a enviou para o templo de Seti I, que estava sendo construído na atual área de Kom el-Sultan, onde seria criada e treinada como sacerdotisa, momento este em que deveria fazer um voto de castidade (JAMES; THORPE, 2001).

No período de um ano, intervalo que Dorothy levou para preencher estas páginas, ela começou a ter problemas com a sua família egípcia: primeiro em relação a onde morar, uma vez que o marido queria viver na moderna Cairo e ela no subúrbio, para poder ficar perto das pirâmides, o segundo foi acerca do seu sogro, que enquanto morava com o casal fugiu de casa alegando ter visto um “faraó” na cama da sua nora (JAMES; THORPE, 2001).

Com o seu marido indo morar, devido ao trabalho, no Iraq, ela se mudou com o filho para uma barraca próxima das pirâmides, época a qual ela foi empregada pelo Departamento de Antiguidades do Egito (atual Ministério das Antiguidades do Egito), tornando-se a primeira funcionaria do sexo feminino (JAMES; THORPE, 2001).

Templo de Seti I em Abidos. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Templo de Seti I em Abidos. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/soloegipto/5451575592/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Trabalhou por vinte anos como assistente dos arqueólogos egiptólogos Selim Hasan e Ahmed Fakhry, que atuavam em Gizé e Dashur, mas durante este tempo jamais tinha ido conhecer Abidos, local que na infância ela tinha identificado como seu lar (JAMES; THORPE, 2001). Acerca deste assunto ela registrou:

Só tinha um objetivo na vida: ir para Abidos, viver em Abidos e ser enterrada em Abidos. [Contudo] algo além do meu alcance me detivera até mesmo de visitar Abidos (JAMES; THORPE, 2001, pág. 487).

Com o ano de 1952 finalmente foi conhecer Abidos, que se tratava de um vilarejo sem eletricidade e água encanada, e ao chegar rumou diretamente para o Templo de Seti I, onde passou a noite acendendo incensos e rezando para as divindades egípcias, mas só tornou-se residente da província em 1956, após conseguir um emprego para registrar os relevos das paredes do templo e deixar que o seu filho fosse morar com o pai no Kuwait (JAMES; THORPE, 2001; O’CONNOR et al 2007).

Omm Seti. Imagem retirada do documentário “Em Busca da Eternidade” ("Egypt: Quest for Eternity", no original) da National Geographic.

Omm Seti. Imagem retirada do documentário “Em Busca da Eternidade” (“Egypt: Quest for Eternity”, no original) da National Geographic.

Durante sua estadia no local pôde acompanhar os trabalhos de uma equipe de Arqueologia que tinha encontrado no sítio os vestígios de um jardim (JAMES; THORPE, 2001).

 

Seus relatos de encontros com o faraó Seti I

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/oar/5219311780/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Embora não fizesse segredo acerca da sua convicção de que tinha vivido durante a antiguidade egípcia, Dorothy não relatou publicamente tudo o que tinha escrito nos papéis que guardavam suas narrativas acerca de Bentreshyt, porém, com a insistência do seu melhor amigo, o Dr. Hanny El Zeini, ela registrou mais detalhes das experiências que dizia ter passado, especialmente acerca de como Bentreshyt, aos 14 anos, teria encontrado o próprio Seti I no jardim, a paixão repentina dos dois e a gravidez indesejada, uma vez que de acordo com as leis do templo as sacerdotisas deveriam manter-se virgens (JAMES; THORPE, 2001).

Ainda de acordo com os escritos de Dorothy, os responsáveis pelo edifício a pressionaram para que ela revelasse quem era o pai da criança, mas pensando na integridade de Seti I ela se matou, levando o segredo consigo. Consternado, após saber do ocorrido, Seti I prometeu que jamais iria esquecê-la (JAMES; THORPE, 2001).

Imagem de Hathor e Seti I na KV-17. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Imagem de Hathor e Seti I na KV-17. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/soloegipto/4092548965/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Ela ainda afirmou que ao completar 14 anos em sua vida como inglesa o espírito do faraó a visitou em forma de múmia e ela só voltou a vê-lo somente mais tarde, quando foi morar no Cairo, mas desta vez ele estava com a aparência normal e frequentava sua casa com mais assiduidade (JAMES; THORPE, 2001).

 

Até onde vai a veridicidade?

James e Thorpe (2001) apontam que a única pessoa que deixou um testemunho acerca do caso foi a própria Dorothy, a qual não esclareceu vários aspectos dos seus relatos, especialmente os ligados a sua infância, se as lembranças do acidente e do acontecimento no museu de fato eram dela ou lhes foram descritos por seus pais.

Outro ponto são as informações acerca de edifícios egípcios que ela afirmava ter recebido de Seti I, tais quais:

(1) Que embaixo do Templo de Seti I em Abidos existiria uma câmara mortuária secreta, contendo uma biblioteca com registros históricos (JAMES; THORPE, 2001);

(2) O Osirion de Abidos não teria sido construído por este faraó (JAMES; THORPE, 2001);

(3) Que a esfinge do platô de Gizé não foi construída por Khufu (Quéfren), mas anos antes em honra ao deus Hórus (JAMES; THORPE, 2001); afirmação esta que se choca com as atuais pesquisas da Arqueologia que sugerem que ela teria sido edificada pelo o sucessor de Khufu em honra a este falecido faraó.

(4) A tumba de Nefertiti foi edificada próxima a de Tutankhamon e aparentemente permanece intacta (EL ZEINI; DEES) [1].

Muitos dos seus relatos são artificiais e dedutivos, desta forma, independente da crença de cada um, ela continua mais como um ponto de curiosidade para os fascinados pela antiguidade egípcia. Não é tarefa fácil aceitar suas afirmações, especialmente porque convenientemente todas as pessoas as quais ela fez comentários acerca da personalidade naturalmente já estão mortas fazem mais de 3000 anos.

 

Legado de Dorothy Eady… Omm Seti

Embora seja reconhecida devido a sua insistência em afirmar que teria vivido durante a antiguidade egípcia, Omm Seti se sustentava através na Egiptologia, mesmo que não possuísse uma formação formal na área.

Com o seu amigo El Zeini ela escreveu vários artigos. No entanto, se não fossem suas alegações de que era a reencarnação de uma egípcia e suas biografias que trazem seus comentários de encontros com o faraó Seti I, provavelmente seu nome seria lembrado por poucos acadêmicos.

Para saber mais:

Livro: Omm Sety’s Egypt.

Livro: Omm Sety’s Egypt.

O amigo de Omm Seti, Dr. Hanny El Zeini, ao lado de Catherine Dees, escreveu uma biografia acerca da história de Dorothy, o Omm Sety’s Egypt: A Story of Ancient Mysteries, Secret Lives, and the Lost History of the Pharaohs.

O jornalista Jonathan Cott, com o apoio de El Zeini, publicou em seu The Search for Omm Sety: A True Story of Eternal Love and One Woman’s Voyage Through the Ages parte do diário secreto dela.

 

Vídeo:

Pouco antes de falecer Omm Seti recebeu a equipe de filmagens da National Geographic em sua residência em Abidos. Abaixo a sua participação no documentário “Egito: Em Busca da Eternidade” (“Egypt: Quest for Eternity”, no original).

Referências:

[1] Omm Sety`s Egypt: A Story of Ancient Mysteries, Secret Lives, and the Lost History of the Pharaohs. Disponível em < http://www.nicholasreeves.com/item.aspx?category=Press&id=300 >. Acesso em 01 de agosto de 2013.

JAMES, Peter; THORPE, Nick. “O caso Omm Seti”. In: O Livro de Ouro dos Mistérios da Antiguidade: Os maiores enigmas da História da Humanidade. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. “Dorothy Eady e sua máquina do tempo” In: Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

O som de uma escavação na cidade de Abidos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Com a internet existe uma série de possibilidades de tentar aproximar o público comum dos trabalhos de Arqueologia realizados no Egito. Dentre os registros fotográficos e em vídeo estão as gravações sonoras para que os internautas tenham uma impressão do que ocorre em um sítio arqueológico.

Entre estes arquivos disponibilizados está o de um dos trabalhos de escavação arqueológica realizada na cidade de Abidos e nele é possível ouvir os sons realizados pelas colheres, peneiras e até conversas da equipe. O registro foi realizado por Laurel Bestock. Clique aqui para ouvir.

Tumba do rei Narmer (B17 e B18)

 

 

Conhecido por ser um dos propensos unificadores do Egito, o rei Narmer provavelmente acompanhou ou participou deste importante momento que definiu o Egito Faraônico até o seu fim com a morte da rainha Cleópatra VII milênios depois.

Por ter sido representado em sua “Paleta de Narmer” (hoje em exposição no Egyptian Museum do Cairo) utilizando as coroas do Alto e Baixo Egito, alguns egiptólogos o adotaram não só como unificador do país, mas como o lendário Meni (Menés, em grego), embora esta não seja uma conclusão unanime.

De acordo com o arqueólogo inglês Flinders Petrie (1853 – 1942), Narmer foi sepultado no “Cemitério B”, em Abidos, mais especificamente em Umm el-Qa’ab, em uma tumba que compreende duas câmaras funerárias subterrâneas, tombadas como B17 e B18. Seus muros foram feitos com tijolos de barro e o teto com vigas de madeira.

Tumba de Narmer. Imagem disponível me < http://www.narmer.pl/abydos/qaab_en.htm >. Acesso em 19 de março de 2013.

Atualmente a disposição das paredes da sepultura é conhecida devido a presença de pedras que marcam o seu local.

Tumba do Rei Narmer (B17 e B18). Imagem disponível em BELMONTE, Juan Antonio; GARCÍA, Antonio César González; SHALTOUT, Mosalam; FEKRI, Magdi; MIRANDA, Noemi. From Umm al Qab to Biban al Muluk: The Orientation of Royal Tombs in Ancient Egypt. Archaeologia Baltica. n. 10, p. 226 – 233 , 2008.

Pelo o fato do túmulo ser pequeno, há quem discorde que foi aí onde Narmer teria sido sepultado, mas não é aconselhável empregar valores “atuais” (entre aspas, já que faraós do Antigo e Novo Império são conhecidos por sua busca por estruturas grandiosas) do que seria digno para um rei para a antiguidade.

Update – 19 de maio de 2013

Pergunta do Tenorio Figueredo na Pagina do A.E. em 27 de abril no Facebook e que é extremamente relevante para o post:

Tenorio Figueiredo: Márcia, como os egiptólogos atestaram que esta tumba é a do faraó Narmer? Existe inscrições?

Márcia Jamille – Arqueologia Egípcia: Sim Tenorio Figueiredo, foram encontrados selos e, posso estar enganada agora, plaquinhas com o nome dele. Acho que é no DREYER (1999), citado no post, que tem um pouquinho mais sobre o assunto. Porém, como citado no texto, alguns não concordam (talvez esperem que seja uma tumba no estilo Seti I). Existe também a possibilidade de ser uma “tumba simbólica”, o problema é que se for considerar esta como algo figurativo teremos que considerar as outras deste mesmo período e local da mesma forma, já que possuem elementos semelhantes.

 

Referências:

BELMONTE, Juan Antonio; GARCÍA, Antonio César González; SHALTOUT, Mosalam; FEKRI, Magdi; MIRANDA, Noemi. From Umm al Qab to Biban al Muluk: The Orientation of Royal Tombs in Ancient Egypt. Archaeologia Baltica. n. 10, p. 226 – 233 , 2008.

DREYER, Günter. “Abydos, Umm el-Qa’ab”. In: BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.

WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos (Tradução de Maria Filomena Duarte). Lisboa: Taschen, 2009.

Encontradas múmias de animais: Abidos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

A descoberta de múmias de animais ligadas ao deus chacal e restos de uma estátua de feições humanas – presumivelmente pertencente a rainha Hatshepsut -, revelam detalhes antes desconhecidos acerca de um espaço sagrado durante o Período Faraônico.

Localização de Abidos.

Para entender o pensamento da sociedade egípcia temos que ter em mente que precisamos inserir os estudos acerca dos animais ao contexto das pesquisas arqueológicas, uma vez que muitos dos aspectos das sociedades que viviam às margens do Nilo eram ligados intimamente com a visão de mundo que os egípcios possuíam a partir do seu olhar sobre os animais. Desta forma, ao longo do período faraônico, eram realizadas oferendas votivas de um determinado animal ligado a algum deus em especial.

Este ano foi anunciado no último dia 14/02/2012 a descoberta de mais de oitenta e três múmias de animais aparentemente associadas a imagem de um faraó, provavelmente Hatshepsut de acordo com a sugestão da equipe já que a imagem é masculina, mas possui uma quadril levemente avantajado, feição tipicamente feminina. Hatshepsut, que reinou no Egito entre os anos de 1473 – 1458 a.C. (XVIII Dinastia; Novo Império), é conhecida por ter sido uma das poucas mulheres a tornarem-se faraós e por ter se transvestido de homem, buscando se enquadrar a imagem de Hórus (do qual o faraó era um “representante” terreno) [Clique aqui e veja mais sobre Hatshepsut].

As descobertas foram feitas em Abidos durante a campanha passada pela a equipe de Mary-Ann Pouls Wegner, diretora da escavação e professora da Universidade de Toronto. Abidos outrora era considerada uma cidade sagrada devido ao culto a Osíris, pai de Hórus e governante do submundo. De acordo com a lenda o faraó em vida era Hórus e após a morte transformava-se em Osíris, o símbolo maior da fertilidade dos campos egípcios. Seu culto tornou-se popular em Abidos devido a crença de que teria sido lá onde se encontrava o seu sepulcro – existindo, inclusive, uma tumba que acreditavam ser dele [1] -, o que levou aos primeiros soberanos do Egito a escolherem tal cidade como local de sepultamento. Um templo dedicado a Osíris foi construído em Abidos e todos os anos, em uma grande procissão, os egípcios levavam uma imagem do deus deste templo até a sua tumba, onde era velada durante a madrugada com rituais performáticos. Esta procissão era tão importante que capelas tanto de indivíduos da realeza, como particulares foram construídas por toda a rota de passagem [1]. A procissão chamava-se “Mistérios de Osíris”, e ela era um louvor da vida e morte do deus (BAINES; MÁLEK, 2008, p. 114).

Crânio de um dos cães encontrados em Abidos. Imagem: North Abydos Votive Zone Project. 2012. Disponível em < http://www.livescience.com/18462-animal-mummies-ancient-egypt.html >. Acesso em 20 de Fevereiro de 2012.

As múmias foram encontradas em uma das câmaras de um sepulcro encontrado pela missão de Arqueologia. Dos oitenta e três animais encontrados somente dois são gatos, o restante são cães. A presença de tantos cães está ligada ao culto a Wepwawet, um deus chacal cuja procissão precedia imediatamente a de Osíris. Para a equipe de Wegner os animais foram sacrificados, porém existem indícios de que eles foram bem tratados em vida, como o caso de um cão que teve uma pata quebrada, mas que foi medicado e curado antes de ser entregue como oferenda [1].

Encontrar a estátua de madeira de Hatshepsut não é um dos únicos indícios que demonstra que o local foi utilizado em anos subsequentes aos primeiros cultos a Osíris, estruturas ligadas a Tutmosis III (sucessor de Hatshepsut) e até mesmo a Seti I foram descobertas. E Wegner também crê que pode existir outra tumba no local datada do Terceiro Período Intermediário. Na matéria divulgada pelo site LiveScience não fica claro de que período pertencem estes animais (apesar de associados à estátua não quer dizer necessariamente que todos pertenciam a mesma época), mas existem pesquisas que demonstram a existência de oferendas se prolongando até o final do período Greco-romano (BAINES; MÁLEK, 2008, p. 114). Em verdade é possível encontrar em Abidos artefatos ligados a vários faraós de diferentes épocas, desde Aha da I Dinastia até contextos do Período Tardio ligados aos faraós Apries, Amásis e Nectanebo I (BAINES; MÁLEK, 2008, p. 116-117).

Fonte:

Animal Mummies Discovered at Ancient Egyptian Site. Disponível em < http://www.livescience.com/18462-animal-mummies-ancient-egypt.html >. Acesso em 20 de Fevereiro de 2012.

BAINES, John. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito. (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2008.