Foi Maya a irmã mais velha de Tutankhamon?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Sabemos poucos detalhes da história do faraó Tutankhamon e da sua família e bem menos da vida de membros do seu séquito o qual conhecemos alguns nomes. Dentre estas pessoas estava uma mulher chamada Maya, cujo cargo era um dos mais importantes da corte: ela foi a ama-de-leite do rei.

Sabemos disso graças a sua tumba encontrada em 1996 no sítio de Bubastis, na cidade de Saqqara, que na antiguidade possuía uma das necrópoles mais importantes do Egito.

A tumba de Maya é dividida em dois níveis onde no superior existem duas câmaras para cultos e no inferior câmaras funerárias; é na primeira capela do nível superior onde encontra-se uma breve biografia da Maya, inclusive uma das suas imagens mais famosas onde ela tem em seu colo um garoto, o próprio Tutankhamon (Imagem 1)[2].

— Conheça mais sobre esta sepultura: Sobre leão achado no Egito em 2001.

O cargo de ama-de-leite na realeza não era dado a qualquer pessoa, afinal a mulher escolhida ia dar do seu leite para uma criança divina beber e sabemos que esse alimento possuía uma conotação religiosa notável. Maya foi então a escolhida pelos pais (ou representantes) de Tutankhamon, mas não sabemos de onde ela surgiu, somente que certamente era uma mulher da nobreza.

Imagem 1: Maya com o faraó Tutankhamon sentado em seu colo. Qui fut véritablement maïa? La nourrice de Toutânkhamon! En égypte ancienne!. Disponível em < http://www.aime-free.com/2100/12/qui-fut-veritablement-maya-la-nourrice-de-toutankhamon-en-egypte-ancienne.html >. Acesso em 26 de janeiro de 2016.

Contudo, recentemente surgiu uma teoria para ela. O descobridor do seu sepulcro, o arqueólogo francês Alain Zivie, e o Ministro das Antiguidades do Egito, Mamdouh El-Damaty, têm sugerido que esta mulher seria, em verdade, Meritaton [1][2], filha mais velha de Akhenaton e Nefertiti e irmã mais velha da esposa de Tutankhamon, Ankhesenamon e alguns sugerem que até do próprio Tutankhamon.

Maya. Fonte: Tomb of Tutankhamun’s wet-nurse opened to tourists. Disponível em < http://www.euronews.com/2015/12/20/tomb-of-tutankhamun-s-wet-nurse-opened-to-tourists/ >. Acesso em 26 de janeiro de 2016.

A ideia baseia-se no fato da existência de um fragmento de vaso cerâmico, encontrado durante a limpeza da tumba de Maya. Nele está um título honorífico, o de “Superiora do Harém”, o que indica que ela tinha um espaço privilegiado na corte real. Entretanto, Zivie e El-Damaty estão se apoiando na ideia de que era um título demasiado grande para uma simples ama [3], mas como foi pontuado no início deste texto, amas-de-leite da família real não eram simplesmente escolhidas entre mulheres comuns (embora não possamos descartar que para toda regra existe uma exceção).

Eles também se justificam fazendo uso de uma imagem encontrada na tumba de Meketaton, uma das irmãs de Meritaton e que morreu de forma prematura. A imagem retrata uma mulher segurando um bebê. A sugestão dos dois é que aquela trata-se da princesa Meritaton segurando em seu colo Tutankhamon. Contudo, esta afirmação não pode ser confirmada porque não existe nada na tumba que sugira quem são aqueles dois indivíduos.

Zivie ainda se justifica assinalando a semelhança facial entre Maya e Tutankhamon, mas sabe-se que quando um faraó chegava ao poder não era incomum que os artistas (aparentemente especialmente durante o Novo Império) adaptassem alguns dos seus traços faciais ao rosto de membros da família real e da alta nobreza. É exatamente por isso que muitas pessoas de determinados períodos se parecem tanto.

Entretanto, existe um ponto em que a teoria de que Maya poderia ser alguém da realeza faria algum sentido. Em entrevista ao “Diario La Prensa” Zivie declarou que interpretou a famosa imagem de Tutankhamon e Maya como que ela estaria sentada em um trono real [4], o que explicaria o fato dela ter sido retratada com o faraó em seu colo em um período que o contato físico mais próximo que uma pessoa comum teria com o rei é beijar a terra que ele pisou (não estou sendo poética, isso é verídico). Encontrei em um fórum estrangeiro uma fotografia que um dos usuários postou do livro “Les Tombes Du Bubasteion À Saqqara”, do próprio Zivie. Nela está um croqui da imagem do faraó com sua ama que está sentada em uma cadeira que possui entre os seus pés o “sema-taouy”, um símbolo que significa a união do Alto e Baixo Egito. Logo, a proposta de que esta estaria sentada em um trono real faz algum sentido. Por outro lado, se vocês observarem com atenção, o sema-taouy parece estar sob os pés do Tutankhamon e não no trono de fato. Ainda assim é uma questão a se pensar.

Link do fórum < http://www.perkemet.be/viewtopic.php?f=11&t=987 >. Acesso em 26 de janeiro de 2016. User que postou: Rozette. Livro: Les Tombes Du Bubasteion À Saqqara; La tombe de Maïa, mère nourricière du roi Toutânkhamon et grande du harem. Autor: Alain Zivie; pagina 105.

O outro problema nessa teoria é que não existe um motivo lógico para se escolher uma herdeira ao trono como ama-de-leite; as princesas destinadas ao trono quase não amamentavam seus próprios filhos, por que amamentariam o filho dos outros? Outra questão é que os registros escritos arqueológicos apontam que Meritaton e seu esposo Smenkhara tinham sido escolhidos como co-regentes de Akhenaton. A princesa até substituiu a própria mãe, enquanto ela ainda estava viva, em deveres da Grande Esposa Real. Então, qual seria o motivo de torna-se uma ama-de-leite ou uma “Superiora do Harém”?

Por fim, para ter leite no seio é necessário que a mulher tenha concebido um bebê, então, caso Meritaton fosse ama-de-leite de Tutankhamon, onde estaria o seu próprio filho? Zivie ainda sugere que a mãe de Tutankhamon poderia ser a falecida Meketaton [4], que ainda era uma pré-adolescente quando faleceu, entretanto, o exame de DNA de 2010 aponta que uma múmia de uma mulher adulta encontrada na KV-35 seria a sua mãe.

Tutanhkamon retratado ainda criança. Autor da imagem: Desconhecido.

Desta forma, logo se vê o porquê de o meio acadêmico não ter dado muita atenção para esta proposta.

A partir deste mês de janeiro (2016), a tumba de Maya estará aberta para a visita de não acadêmicos. Foi pensada nesta determinação como uma tentativa de alavancar a economia do Egito, em parte sustentada pelo turismo, que sofreu um grande dano após a revolução de 2011.

Fontes:

[1] ¿Fue Maya la hermana mayor de Tutankhamón? Disponível em < http://www.nationalgeographic.com.es/articulo/historia/actualidad/11000/fue_maya_hermana_mayor_tutankhamon.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

[2] Another King Tut’s related discovery would change chapters in history books. This time in Sakkara Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.eg/2015/12/another-king-tuts-related-discovery.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

[3] Egipto inaugura la tumba de la nodriza de Tutankamón. Disponível em < http://cultura.elpais.com/cultura/2015/12/24/actualidad/1450970687_880613.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

[4] Tumba egipcia era de la hermana y no de la nodriza de Tutankamón, dice arqueólogo. Disponível em < http://www.lagranepoca.com/ciencia-y-tecnologia/35733-tumba-egipcia-era-de-la-hermana-y-no-de-la-nodriza-de-tutankamon-dice-arqueologo.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Egipto abre al público en Saqqara la tumba de Maya, el ama de crianza de Tutankamón. Disponível em < http://es.euronews.com/2015/12/20/egipto-abre-al-publico-en-saqqara-la-tumba-de-maya-el-ama-de-crianza-de/ >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Egyptian pharaoh Tutankhamun’s wet nurse might have been his sister. Disponível em < http://www.theguardian.com/culture/2015/dec/21/egyptian-pharaoh-tutankhamuns-wet-nurse-might-have-been-his-sister >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

El otro misterio del faraón Tutankamón que deja perplejos a los científicos. Disponível em < http://www.periodistadigital.com/america/cultura/2015/12/23/el-otro-misterio-del-faraon-tutankamon-que-deja-perplejos-a-los-cientificos.shtml?utm_medium=twitter&utm_source=twitterfeed >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Otro misterio del faraón Tutankamón deja perplejos a los científicos. Disponível em < https://actualidad.rt.com/ciencias/194916-faraon-tutankamon-tumba >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Tomb of Tutankhamun’s wet nurse in Egypt’s Saqqara opened to public. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/174009.aspx >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Tutankhamun’s half-sister Meritaten might have also been his wet nurse, archaeologists say. Disponível em < http://www.independent.co.uk/news/science/archaeology/tutankhamuns-half-sister-meritaten-might-have-also-been-his-wet-nurse-archaeologists-say-a6781231.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Tumba de ama-de-leite de Tutankhamon é aberta ao público

Por Márcia Jamille | Twitter | Instagram

Este mês de dezembro (2015) o Ministério das Antiguidades do Egito anunciou que a tumba da ama-de-leite do faraó Tutankhamon está aberta ao público comum.

A sepultura foi descoberta em Bubastis, Saqqara, no ano de 1996 pela Mission archéologique française du Bubasteion (Missão Arqueológica Francesa de Bubasteion), coordenada pelo egiptólogo francês Alain Zivie.

Tumba de Maya. Foto: Ahram.

No local além de existir uma representação do faraó Tutankhamon sentado no colo de sua ama, uma tipo raro de iconografia, também foi descoberto o sepultamento de um leão datado do período helênico. — Leia mais em “Sobre leão achado no Egito em 2001”.

Recentemente este túmulo também chamou a atenção pela afirmativa do Zivie de que a Maya seria, em verdade, a princesa Meritaton, primogênita de Akhenaton. Suposição que não está sendo muito bem aceita por muitos acadêmicos. Comentarei este assunto em breve aqui no Arqueologia Egípcia.

Fontes:

Egipto abre al público en Saqqara la tumba de Maya, el ama de crianza de Tutankamón. Disponível em < http://es.euronews.com/2015/12/20/egipto-abre-al-publico-en-saqqara-la-tumba-de-maya-el-ama-de-crianza-de/ >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Tomb of Tutankhamun’s wet nurse in Egypt’s Saqqara opened to public. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/174009.aspx >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Sobre leão achado no Egito em 2001

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Leões são animais nativos das savanas, mas seu culto se fez popular no nordeste da África por representar o poder do faraó. Imagem disponível em < http://www.androidwallpaper.us/animals/african-lion/ leão >. Acesso em 02 de abril de 2012.

Vários foram os animais divinizados no Egito, mas poucos são tão populares nas discussões atualmente. É reconhecida a existência de cultos aos gatos e crocodilos, mas raramente é comentado acerca do culto aos leões, animais tão raros no Egito na época dos faraós, mas que eram de suma importância para pensamento religioso e o discurso monárquico, sendo um dos principais símbolos do poder do governante.

Nativo das savanas africanas, os leões deveriam chegar até o Egito transportados pelo rio Nilo. Assim como outros felídeos de grande porte é possível que alguns deles tenham vivido nos palácios reais, servindo como animal de estima do faraó. Em suma, poucos exemplares foram encontrados em sítios arqueológicos o que dificulta fazer uma estimativa de quantos poderiam ter vivido no Egito. Um destes exemplares foi encontrado em 2001 em Bubastis e transformou-se em uma das ocorrências incomuns da Arqueologia Egípcia.

Bubastis encontrava-se próximo a Aváris e Tânis, na literatura clássica ela era conhecida como Bubasteion, mas dentre os egípcios era chamada de Per-Bastet, “casa de Bastet” ou “pertencente à Bastet” (clique aqui e leia mais sobre Bubastis).

Embora a necrópole de Bubastis seja celebre pelas múmias dos gatos votivos a deusa Bastet, cujo culto tornou-se popular durante a Baixa Época e principalmente período Ptolomaico, também existiam múmias de outros animais, dentre elas, a de um leão, o único exemplar descoberto em Saqqara [1]. Ele foi encontrado na tumba de uma funcionária da casa real chamada Maya, que viveu nos anos finais da XVIII Dinastia servindo ao faraó Tutankhamon como ama de leite.

A tumba de Maya foi descoberta em 1996 pela Missão Arqueológica Francesa (MafB), equipe que trabalha até hoje nas ruínas da antiga capital. Foi esta mesma missão que encontrou o este animal em 2001. O espécime está praticamente intacto, exceto pelo o fato de que o seu crânio está parcialmente esmagado, porém não foi encontrado nenhum sinal de violência que poderia ter causado a morte do animal. A sugestão da equipe é de que ele morreu idoso e de forma natural.

Em seu artigo A lion found in the Egyptian tomb of Maïa, o coordenador da expedição, Alain Zivie (et al), destaca que a primeira vista o esqueleto está em uma posição que lembra as das múmias de gatos, embora a disposição dos membros posteriores esteja diferente.

Desenho da missão de arqueologia. A cor azul e amarela/laranja representam os membros anteriores e posteriores, respectivamente. Imagem disponível em ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

Nos textos clássicos e inscrições faraônicas os leões são citados como animais sagrados no Egito. As esfinges, por exemplo, era um misto de cabeça humana (ou de carneiro) com o corpo de um leão.

Zivie aponta que o leão pode ser o símbolo do deus Mahes, senhor da coragem, filho da deusa Sekhemet (uma mulher com a cabeça de uma leoa) ou Bastet (geralmente apontada como um lado apaziguado de Sekhemet).

A pesquisa no túmulo demonstrou que o leão, apesar de estar em uma tumba da XVIII Dinastia, pertence ao período Helenístico (anos finais da chamada era faraônica), ou seja, em nada tinha a ver com a Maya ou o seu protetor Tutankhamon.

Membro da equipe de Arqueologia em frente ao corpo do leão encontrado na tumba da ama de leite de Tutankhamon. Embora esteja em uma tumba da XVIII Dinastia o animal pertence ao período Helenístico. Imagem disponível em ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

[1] Existe outro exemplar, mas datado da Dinastia 0, na época do faraó A-ha.

 

Fontes consultadas:

MÁLEK, J; BAINES, J. Deuses templos e faraós: atlas cultural do Antigo Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 174 – 175. 2008

SILIOTTI, A. Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 59. 2006

ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

Tumba de Maya na National Geographic

Esta matéria publicada em 2003 na revista National Geographic Brasil conta um pouco sobre a tumba de Maya, o tesoureiro real de Tutankhamon (e que provavelmente foi o responsável pela supervisão do encerramento da tumba do faraó).

Confira o texto com as palavras de Alain Zivie, o arqueólogo responsável pelas pesquisas no sepulcro:

O guardião do tesouro do deus-sol (Edição 43/Novembro de 2003)

A descoberta do túmulo do guardião das finanças do faraó Akhenaton intriga cientistas

 

Por Alain Zivie

Fonte: National Geographic Brasil

O túmulo do guardião do patrimônio dos templos do Egito, no reino do Deus-Sol Akhenaton, há mais de 3,3 mil anos

Muita experiência, intuição e um pouco de sorte fizeram com que eu chegasse até esse túmulo no antigo cemitério de Saqqara.

Com o apoio do Ministério de Assuntos Exteriores da França, eu já encontrara sítios funerários num penhasco da região, inclusive um que pertencera a um alto funcionário de Ramsés, o Grande (consulte “O enviado de paz do faraó”, outubro de 2002) e outro preparado para Maïa, ama-de-leite de Tutankhamon. À medida que minha equipe trabalhava, as pás iam revelando uma abertura na rocha. Assim que a areia foi removida, vi uma capela mortuária sustentada por uma colunata, com uma estela de pedra entalhada. Na escarpa atrás dela, descobrimos dois aposentos cobertos de relevos e uma escadaria levando a uma câmara sepulcral inacabada. Inscrições revelam que o proprietário tinha dois nomes: Raïay e Hatiay. Ele foi um importante administrador dos templos de Aton em Akhetaton (a nova capital) e em Mênfis (a antiga). Ou seja, esse homem cuidava do ouro e das oferendas para Aton em duas das principais cidades egípcias. Suas relações com Akhenaton eram próximas: relevos na tumba refletem a devoção de Raïay à religião extremista do faraó. Mas alguns deles foram modificados, e isso aconteceu provavelmente durante a vida de Raïay. Agora, a pergunta que fica no ar é: por quê?

Lindos relevos, executados pelos melhores artistas do país, enfeitam a tumba de Raïay. Mas sua função não é só decorativa. Envoltos em magia, facilitavam o caminho dele de volta à vida após a morte. Na cerimônia de “abrir a boca,” um sacerdote devolve os sentidos à múmia de Raïay, segura por um parente de luto. Esta imagem mostra que preparativos tradicionais para a vida eterna eram feitos mesmo durante o reinado nada ortodoxo de Akhenaton. Mas, como os textos que acompanham a cena estão de acordo com a adoração do faraó ao deus Aton, referências normais a Osíris, o deus da morte, foram omitidas. De fato, os relevos das paredes da tumba homenageiam apenas Aton.

A estela da entrada da tumba, porém, menciona diversos deuses egípcios. Num painel, Raïay e sua mulher fazem oferendas a Osíris. Inscrições mencionam deuses como Ptah, patrono de Mênfis, e Amon, a quem a esposa de Raïay ofereceu canções sagradas. Essa estela é fundamental para interpretar a tumba. Teria sido colocada depois que Akhenaton morreu, quando Raïay e seus contemporâneos retomaram antigos costumes, sob a autoridade de um novo faraó, Tutankhamon.

Raïay construiu essa tumba para sua mulher e para si mesmo. A esposa aparece sentada atrás dele ofertando flores. Mas ninguém foi enterrado nesse local.

A imagem de Raïay vigia a entrada de uma câmara mortuária inacabada. À medida que o povo deixou de lado as obsessões de Akhenaton, essa tumba provavelmente transformou-se numa ameaça, apesar das alterações feitas. Ao sentir o perigo iminente, Raïay parece ter abandonado o complexo funerário. Inscrições revelam que o nome de sua mulher era Maïa. Seria Maïa a que foi a ama-de-leite do rei Tutankhamon? Se for, será que a influência dela ajudou Raïay a recuperar a confiança real? E será que ele foi, afinal, enterrado em uma tumba ao lado da mulher? As respostas podem estar escondidas no penhasco de Saqqara.

Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-tumba >. Acesso em 02/11/2011.