A Barca Solar do faraó Khufu foi transferida para o Grande Museu Egípcio: conheça todos os detalhes!

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Para vocês que me seguem nas redes sociais, não é surpresa alguma que a Barca Solar do faraó Khufu tenha sido transferida da área arqueológica das pirâmides do platô de Gizé durante uma pequena, mas solene, passeata para o Grande Museu Egípcio (GME), a 8,5 km de distância. Essa notícia, ao contrário do que ocorreu durante o desfile das múmias reais, foi recebida com mais timidez pelos veículos de imprensa, mas isso não diminui a importância do feito, que teve a duração de 48 horas. Todo o processo de transferência teve início no dia 5 de agosto e só teve fim na manhã do dia 7. 

Khufu Boat Museum, Giza, Egypt.

A embarcação, que tem 43,6 metros de comprimento, 5,9 metros de largura e 45 toneladas, foi posta dentro de um enorme caminhão e saiu do seu local original, no Museu da Barca Solar, que fica ao lado da Grande Pirâmide e seguiu para o seu novo destino, chegando ao Grande Museu Egípcio nas primeiras horas da manhã. 

Mas, afinal, que barco é esse? Por que o Egito está dando tanta importância para ele?

A Barca Solar de Khufu é uma embarcação em madeira que possui mais de 4.600 anos, ou seja, é uma das mais antigas, se não a mais antiga do mundo. Ela foi encontrada desmontada dentro de um fosso escavado ao lado da Grande Pirâmide (sepultura de Khufu) em 1954. Não se sabe exatamente o motivo dessa embarcação (e uma “gêmea” dela, enterrada em um segundo fosso) ter sido sepultada ao lado da pirâmide. Alguns acadêmicos sugerem que ela fez parte de uma frota pessoal do faraó, outros acreditam que ela tem um valor simbólico. Isso porque os antigos egípcios acreditavam que o deus sol navegava pelo céu usando uma barca, fazendo assim a mudança do dia para a noite e vice-versa.

A descoberta e restauro:

A descoberta foi feita durante uma limpeza de rotina nos arredores da Grande Pirâmide. A princípio a equipe tinha pensado se tratar de algum muro que um dia cercou a sepultura, mas, após escavações coordenadas pelo arqueólogo Kamal El Mallakh, descobriram que na verdade estavam olhando para dois fossos. E essas estruturas continham, cada um, um amontoado de madeiras de cedro: eles tinham acabado de encontrar duas barcas pertencentes ao faraó Khufu (O’CONNOR et al., 2007).

Restauro do primeiro barco de Khufu (ano desconhecido). Disponível em < http://skunkincairo.blogspot.com/2007/05/solar-boats.html> acesso em 25 de Junho de 2011.

O passo seguinte foi pensar no trabalho de restauro e montagem, então o restaurador egípcio Hag Ahmed Youssef Moustafa foi o escolhido para a empreitada. E também foi decidido que somente uma das barcas (a Khufu I) seria retirada, enquanto a outra permaneceria em seu local original.

2ª Barca solar de Khufu será revelada

Quando os pesquisadores retiraram todos os pedaços da embarcação, tomaram uma surpresa: ela foi montada com 1224 peças de madeira, cordas de linho e esteiras de junco. Tudo material orgânico, o que tornaria sua conservação um desafio.

No final, sua montagem durou dezesseis anos.   

O polêmico museu e a transferência

Com a embarcação finalmente montada, ela foi posta em exposição em um museu construído exclusivamente para ela, sobre o fosso onde esteve por séculos (O’CONNOR et al., 2007). Entretanto, o Museu da Barca Solar foi alvo de críticas por anos, porque “estragou” a paisagem arqueológica da região, além de não possuir os equipamentos necessários para manter a segurança do grande artefato e sua manutenção. Sobre esse último era imperativa a sua retirada para um lugar devidamente climatizado e com a presença de laboratórios de restauro, já que a madeira da embarcação estava começando a se deteriorar, o que tornava urgente seu envio para o Grande Museu Egípcio. Após a aprovação do Comitê Permanente de Antiguidades do Egito Antigo e seguindo a Lei de Proteção às Antiguidades, a transferência do barco foi aprovada [1]. 

Os estudos e debates sobre como ocorreria a transferência se seguiram por cerca de um ano. Cogitou-se, a princípio, desmontar toda a embarcação e remontá-la no GME. Porém, essa ideia se mostrou arriscada. Depois de muita discussão foi visto que mover o barco inteiro era a única solução adequada. 

Depois veio a proposta de se usar um veículo especializado controlado remotamente que foi encomendado diretamente da Bélgica. Ele contém uma tecnologia que absorve vibrações e se adapta às mudanças no terreno [4]. Isso foi feito usando um transportador modular autopropelido (SPMT) e exigiu levar em consideração vários fatores locais, a exemplo da velocidade do vento durante a manobra da relíquia até a gaiola e da gaiola até o caminhão [3]. Ou seja, teve muita ciência envolvida, onde arqueólogos e engenheiros colaboraram entre si.

Foto: Besix-Orascom Construction

Mas, antes da ideia ser posta em prática, três simulações foram realizadas nos últimos meses, para garantir que tudo funcionasse [1] e uma empresa de engenharia, a Besix-Orascom Construction (responsável pela construção do Grande Museu Egípcio), foi contratada para organizar e realizar o transporte que foi feito em meio a rígidas medidas de segurança. 

A barca então foi envolvida como espumas científicas especiais e colocada dentro de uma gaiola de ferro, projetada exclusivamente para ela, para resguardá-la durante o transporte [1], amortecendo qualquer impacto que viesse a ocorrer durante o trajeto.  

Durante a transferência, ruas e pontes foram preparadas e fechadas para a passagem do caminhão que continha a carga preciosa [1][2]. O caminho não é longo, mas ele teve que ser feito lentamente, para proteger a frágil carga de danos. Assim, só a viagem de um museu para o outro durou dez horas, tendo início na sexta à noite e terminando na manhã do sábado [4].  

Foto: Besix-Orascom Construction

Já para colocar a embarcação dentro do novo museu foi uma nova jornada: um guindaste, normalmente utilizado para mover pontes, sobre esteiras de 800 toneladas levantou a gaiola a uma altura de 30 metros para que ela pudesse entrar no edifício pelo telhado e o barco ser instalado em seu novo lugar de exibição [3]. 

Foto: Besix-Orascom Construction

Essa embarcação estará em exibição ao lado de sua gêmea (que foi retirada de seu fosso em 2011), que já está no Grande Museu Egípcio. E tem mais novidades vindo por aí, já que o governo egípcio planeja realizar uma cerimônia de inauguração do barco no novo museu, mas uma data ainda não foi definida. 

Dica de leitura:

Pyramids of Ancient Egypt: https://amzn.to/3B7NAMz

Fontes:

[1] Khufu’s Boat to begin long journey to Grand Egyptian Museum. Disponível em < https://english.ahram.org.eg/NewsContent/1/64/418527/Egypt/Politics-/Khufus-Boat-to-begin-long-journey-to-Grand-Egyptia.aspx >. Acesso em 6 de agosto de 2021. 

[2] King Khufu’s boat to be transferred to GEM Today. Disponível em < https://lomazoma.com/breaking-news/8781553.html >. Acesso em 6 de agosto de 2021. 

In Photos: Egypt transports King Khufu’s first boat to Grand Egyptian Museum. Disponível em < https://english.ahram.org.eg/NewsContent/1/64/418538/Egypt/Politics-/In-Photos-Egypt-transports-King-Khufus-first-boat-.aspx >. Acesso em 7 de agosto de 2021. 

[3] Egyptian engineers harness bridge transport methods to move world’s oldest ship. Disponível em < https://www.newcivilengineer.com/latest/egyptian-engineers-harness-bridge-transport-methods-to-move-worlds-oldest-ship-12-08-2021/ >. Acesso em 12 de agosto de 2021. 

[4]Why King Khufu’s Solar Boat Is on the Move After 4,600 Years. Disponível em < https://www.smithsonianmag.com/smart-news/egypts-ancient-king-khufus-boat-moved-pyramids-giza-new-grand-egyptian-museum-180978413/ >. Acesso em 12 de agosto de 2021. 

BESIX-Orascom Construction: Successful Transport of the King Khufu Solar Boat to the Grand Egyptian Museum. Disponível em < https://press.besix.com/besix-orascom-construction-successful-transport-of-the-king-khufu-solar-boat-to-the-grand-egyptian-museum- >. Acesso em 25 de agosto de 2021. 

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

O’CONNOR, D.; FORBES, D.; LEHNER, M. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. Tradução de Francisco Manhães. 1ª Edição. Barcelona: Ed. Folio, 2007.

Google homenageia descoberta arqueológica do Egito

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

No último dia 26 de maio (2019), foi comemorado os 65 anos da descoberta da barca solar do faraó Khufu, que reinou durante a 4ª dinastia (Antigo Reino). Encontrada dentro de um fosso de pedra durante uma limpeza de rotina próxima a Grande Pirâmide (Gizé) em 1954, ela estava desmontada ao lado de uma outra embarcação, também desmontada.

Khufu solar boatBarca solar de Khufu exposta no Museu da Barca Solar de Gizé

O trabalho de montagem ficou sob a coordenação do restaurador egípcio Hag Ahmed Youssef Moustafa. Apesar da sua experiência de duas décadas trabalhando na restauração de tumbas tebanas, ele acreditava que seus conhecimentos e os conhecimentos de seus colegas cientistas seriam limitados ao lidar com a montagem de uma embarcação tão antiga.

Ele então passou três meses visitando artesãos egípcios na tentativa de identificar algo que parecesse com as técnicas de seus antepassados. Entretanto, não encontrou nada que o ajudasse diretamente, mas isso lhe deu segurança para enfim escolher a embarcação melhor preservada e dar início aos seus trabalhos. Dentre as 1200 peças que tinha que juntar estavam tábuas de cedro, esteiras de junco e cordas de linho.

Mais uma parte de uma das embarcações de Khufu é encontrada

Importantes descobertas de embarcações em tumbas egípcias

Porém, o trabalho em si não foi fácil, uma vez que ele não sabia a disposição real das peças, o que acabou o obrigando a montar e desmontar a embarcação quatro vezes. A reviravolta desta história veio quando um dos seus ajudantes percebeu que a dica do que fazer estava ali o tempo todo, deixada de presente pelos antigos egípcios: as peças que se encaixavam possuíam símbolos comuns que pareciam servir como guia para montagem.

Museu-Barco-Farao-Queops-Khufu-Ship-Piramide-Gize-Cairo-Egipto (16)

E assim, após dezesseis anos de trabalho, Hag Ahmed Youssef Moustafa e equipe conseguiram montar toda a embarcação.

Museu-Barco-Farao-Queops-Khufu-Ship-Piramide-Gize-Cairo-EgiptoÁrea externa do Museu da Barca Solar de Gizé, onde a embarcação encontra-se exposta.

Este feito foi tão notável que este ano o Google Doodles homenageou a descoberta. Representado a barca solar em um papiro, ela foi desenhada sendo mostrada de lado e de cima, enquanto é acompanhada pelo nome “Google” cujos os “o” são substituídos por um cartouche — nome dado para um desenho em forma oval em que eram postos os nomes dos faraós — com o nome do faraó Khufu em hieróglifos. A imagem de um arqueólogo também é retratada, assim como as pirâmides do Platô de Gizé e o ano da descoberta da barca.

Infelizmente a visualização deste doodle não estava disponível no território brasileiro (somente para parte da África, Europa e Ásia).

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a “barca solar de Quéops.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fonte:

O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007.

As 9 melhores descobertas arqueológicas de 2017 sobre o Egito Antigo

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Caso você tenha caído de paraquedas aqui neste post ou simplesmente não tem o habito de ler sites ou blogs: o Arqueologia Egípcia é um site dedicado a trazer textos, vídeos, fotos e notícias sobre as pesquisas relacionadas com o Egito Antigo. Aqui até existe uma aba especial dedicada às novidades. É lá onde se encontram as notícias sobre descobertas arqueológicas associadas com a história egípcia e foi de onde tirei as 9 pesquisas que foram tidas como as mais interessantes, chamativas e legais de 2017.

Contudo, antes de dar início a lista, devo explicar que usei o termo “melhores” no título para resumir as mais magnificas do ponto de vista não só dos acadêmicos, mas do público. Sou da turminha da Arqueologia que considera toda e qualquer descoberta arqueológica passível de ser interessante para o entendimento do passado. Abaixo, as descobertas selecionadas:

 

1: Descoberta de imagens de embarcações:

Uma equipe de arqueólogos encontrou, gravadas na parede de um fosso em Abidos, gravuras representando uma frota egípcia. No local, que fica próximo ao túmulo do faraó Sesostris III (Médio Império; 12ª Dinastia) foram contados nos desenhos 120 navios, desenhados sobre uma superfície de gesso. Alguns são bem detalhados, contendo informações como remos e timões.

Foto: Josef Wegner

Neste caso não se sabe quem fez estas gravuras, mas ao menos duas teorias foram levantadas: a de que foram feitas pelos próprios trabalhadores que construíram o fosso ou que tenha sido a ação de vândalos. É né… Vai que.

 

2: Sepulturas de crianças egípcias revelam desnutrição generalizada:

Esta provavelmente é uma das descobertas mais chocantes. Uma arqueóloga da Universidade de Manchester, em sociedade com a Missão Arqueológica Polaco-Egípcia, fez uma série de descobertas perturbadoras em Saqqara: eles encontraram corpos de crianças que parecem ter sofrido grave anemia, cáries dentárias e sinusite crônica.

Foto: Iwona Kozieradzka-Ogunmakin

Através dos seus estudos, a arqueóloga foi capaz de estabelecer que a criança mais jovem encontrada no cemitério tinha algumas semanas de idade e as mais velhas 12 anos, mas a maioria tinha entre três e cinco anos.

 

3: Fragmentos de uma estátua colossal:

Esta foi um hype! A historinha é a seguinte: Uma missão egípcia-alemã, que está trabalhando em El-Mataria (Cairo), antiga Heliópolis, desenterrou partes de duas estátuas colossais da época ramséssida, no sítio arqueológico de Suq el-Khamis. A princípio acreditou-se que se trataria de Ramsés II, da 19ª dinastia, Novo Império, mas não passou muito tempo até que descobrissem que na verdade era Psamético I, que reinou como rei do Egito durante a 26ª Dinastia, Baixa Época.

Foto: Reuters.

4: Descoberta de tumba de princesa egípcia:

A tumba de uma princesa egípcia foi identificada na pirâmide de Ameny Qemau (13ª Dinastia), na necrópole de Dashur. Nas escavações que revelaram a câmara funerária da princesa foram identificados um sarcófago mal preservado, bandagens e uma caixa de madeira contendo vasos canópicos. Inscrições na caixa indicam que os objetos pertenceram a ela, que por sua vez era uma das filhas do próprio Ameny Qemau.

Foto: MSA

Esta foi uma descoberta que não revelou para a imprensa tantos achados assim, somente informações básicas. Mas o público do site amou muito e compartilhou a notícia extensamente. Então ela está aqui marcando presença.

 

5: Descoberta de faraó pouco conhecido:

Na verdade, esta foi uma descoberta dupla em que a princípio tinha sido encontrada uma pirâmide datada do Segundo Período Intermediário, em Dashur e somente depois foi apontado que ela pertencia a um faraó praticamente desconhecido chamado Ameny Qemau.

Foto: Ministério das Antiguidades do Egito.

Porém, esta história não acaba por aqui: uma outra pirâmide pertencente a esse mesmo governante foi descoberta em 1957, também em Dashur.

 

6: Os mais antigos hieróglifos egípcios:

Uma expedição conjunta entre a Universidade de Yale e o Museu Real de Belas Artes de Bruxelas, que está estudando a antiga cidade egípcia de El kab, descobriu inscrições hieroglíficas com cerca de 5200 anos. São as mais antigas conhecidas.

Foto: MSA.

Os arqueólogos também identificaram um painel de quatro sinais, criados por volta de 3250 aEC e escritos da direita para esquerda — é assim que usualmente os hieróglifos egípcios eram lidos — retratando imagens de animais tais como cabeças de touros em um pequeno poste, seguido por duas cegonhas com alguns íbis acima e entre eles.

 

7: Cabeça de faraó encontrada em Israel:

Uma cabeça de uma estátua retratando um faraó tem intrigado alguns pesquisadores. Isso porque ela foi encontrada em 1995 em Israel na área da antiga cidade de Hazor. Outrora fragmentada ela retrata uma típica imagem de um faraó contendo, inclusive, a serpente ureus, que é uma das insígnias reais egípcias, ou seja, um dos símbolos que demonstram realeza.

Divulgação/Gaby Laron/Hebrew University/Selz Foundation Hazor Excavations.

Em outros anos outras estátuas egípcias também foram encontradas em Hazor e todas fragmentadas no que os pesquisadores concluíram como uma destruição deliberada.

 

8: O maior fragmento de obelisco datado do Antigo Reino:

Uma missão arqueológica — encabeçada por franceses e suíços — que atua em Saqqara encontrou a parte superior de um obelisco datado do Antigo Reino, pertencente à rainha Ankhnespepy II, mãe do rei Pepi II (6ª Dinastia).

Foto: MSA

Ankhnespepy II foi uma das rainhas mais importantes da sua dinastia. Ela foi casada com Pepi I e quando ele morreu casou-se com Merenre, o filho que o seu falecido esposo tinha tido com sua irmã Ankhnespepy I.

 

9: Descoberta da localização de um templo de Ramsés II

A missão arqueológica egípcio-checa descobriu restos do templo do faraó Ramsés II (Novo Império; 19ª Dinastia) durante os trabalhos de escavações realizados em Abusir.

Foto: MSA

A missão já tinha encontrado em 2012 evidências arqueológicas de que existia um templo nesta área, fato que encorajou os pesquisadores a escavar nesta região ao longo dos últimos quatro anos.

 

Deliberadamente deixei a descoberta do “espaço vazio” da Grande Pirâmide de fora pelos motivos citados no vídeo “Espaço vazio dentro da Grande Pirâmide do Egito: Entenda!”:

Agora é a vez de vocês! Qual é a sua descoberta arqueológica do ano de 2017 favorita?

Mais uma parte de uma das embarcações de Khufu é encontrada

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Quando o faraó Khufu (Quéops em grego) foi sepultado em sua pirâmide foi acompanhado por duas embarcações que foram seladas em fossos construídos ao lado do seu túmulo. Uma foi desenterrada em 1954. A outra permaneceu em seu local original jamais analisada, até que em 1987 a National Geographic examinou o seu fosso, o qual, consequentemente, passou a ser assolado por pequenos animais, que comprometeram a integridade das peças.

Khufu solar boat

A primeira embarcação de Khufu já montada e disponível para a visita em seu próprio museu.

Foi com a chegada de 2011 que um projeto, liderado pela Universidade de Waseda retirou as peças do lugar para restaurá-las.

Contudo, recentemente uma tábua de madeira de 26 metros foi desenterrada próximo da grande pirâmide e acredita-se que faça parte dessa segunda barca.  Ela foi encontrada a quase 3 metros de profundidade e já está sendo restaurada com as demais. Abaixo fotos dos trabalhos:

Foto: Mohamed el-shahed (AFP)

Foto: Mohamed el-shahed (AFP)

Foto: Mohamed el-shahed (AFP)

 

Foto: Mohamed el-shahed (AFP)

Foto: Mohamed el-shahed (AFP)

Foto: Mohamed el-shahed (AFP)

Foto: Mohamed el-shahed (AFP)

Outros sítios arqueológicos egípcios contêm embarcações em contextos funerários. Isso tem relação com a crença religiosa de que esse tipo de artefato seria utilizado em algumas passagens durante a jornada no além vida.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a “barca solar de Quéops.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

 

Fonte:

Ancient Plank from Pharaoh King Khufu’s Boat Found near the Great Pyramids. Disponível em < https://egyptianstreets.com/2017/03/30/ancient-plank-from-pharaoh-king-khufus-boat-found-near-the-great-pyramids/ >. Acesso em 14 de abril de 2017.

Comienza la restauración de la segunda barca funeraria de Keops. Disponível em < http://elpais.com/elpais/2017/03/29/album-02/1490806314_072400.html >. Acesso em 14 de abril de 2017.

2ª Barca solar de Khufu será revelada. Disponível em < http://arqueologiaegipcia.com.br/2011/06/25/segunda-barca-solar-de-khufu-revelada/ >. Acesso em 14 de abril de 2017.

Importantes descobertas de embarcações em tumbas egípcias

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Em 2013, após dois anos de pesquisas, finalmente apresentei a dissertação que me deu o título de mestra em arqueologia. O tema era relacionado com a discussão da importância de se estudar os artefatos ligados de alguma forma com os ambientes aquáticos durante o Período Faraônico. Nesse mesmo trabalho levantei propostas de análises e exemplos de artefatos. Afinal, é um fato que os seres humanos convivem com a água desde sempre, de uma forma ou de outra.

Os egípcios, por exemplo, tinham uma série de simbolismos em relação aos líquidos como o vinho, a cerveja e, claro, a água (POO, 2010). Mas, essa última possuia um patamar diferente, pois os aspectos imaginários ligados a ela são muito mais complexos, ao ponto de os artefatos relacionados com os ambientes aquáticos ou úmidos possuírem, em alguns casos, um status sagrado. É aqui onde entram as embarcações.

Nas palavras de George Bass, o pioneiro da Arqueologia Subaquática, o papel das embarcações no progresso humano não deve ser subestimado. Em várias e diferentes sociedades elas foram as responsáveis por transportar matérias-primas e ideias. Capazes de deslocar pessoas com rapidez, o seu uso permitiu chegar a ilhas e continentes, abrindo assim cada vez mais o horizonte humano (BASS, 1969).

Recentemente, uma equipe de arqueólogos encontrou, gravadas na parede de um fosso em Abidos, gravuras representando uma frota egípcia. No local, que fica próximo ao túmulo do faraó Sesostris III (Médio Império; 12ª Dinastia) [1], outrora tinha sido encontrada uma embarcação com cerca de 20 metros [2].

Foto: Josef Wegner

Na iconografia foram contados 120 navios, desenhados sobre uma superfície de gesso. Alguns são bem detalhados, contendo informações como remos e timões [2].

Foto: Josef Wegner

Não se sabe quem realizou tais registros. O arqueólogo responsável pelo estudo do local, Josef Wegner, apresentou várias teorias do que poderia ter ocorrido, mas, salientando que nenhuma é uma certeza: talvez foram feitos pelos próprios construtores do local, foram parte de uma cerimônia religiosa ou invasores fizeram isso. A única coisa que é garantia é que em algum momento posterior ao sepultamento do faraó um grupo de ladrões invadiram o recinto e levaram tábuas que pertenciam a embarcação que um dia esteve lá [2].

Foto: Josef Wegner

145 peças de cerâmicas também foram encontradas no espaço, provavelmente para guardar algum líquido. “As oferendas líquidas foram parte integral do culto funerário pessoal nas práticas mortuárias egípcias, mas não aparecem associadas normalmente a objetos inanimados” comentou o Wegner no seu artigo “A Royal Boat Burial and Watercraft Tableau of Egypt’s 12th Dynasty (c.1850 BCE) at South Abydos“, publicado na Online Library [2].

Muitas outras descobertas envolvendo embarcações:

Em sítios arqueológicos egípcios foi possível encontrar desenhos representando embarcações durante o Pré-dinástico (5300-3000 a. E. C.) e a prática se seguiu com força durante o faraônico, mas desta vez também através de pequenos modelos ou de embarcações propriamente ditas. Um ótimo exemplo, sem dúvidas, são as barcas do rei Khufu, descobertas em 1955. Uma delas, a Khufu I, encontra-se montada próximo a sua pirâmide (HAWASS, 1992; O’CONNOR, 2007).

Khufu Boat Museum, Giza, Egypt.

Khufu I

Khufu solar boat

Khufu I

Muitos anos antes, em 1894, na área de Dashur foram descobertas seis embarcações próximas a pirâmide de Sesostris III[1]. De todas somente o paradeiro de quatro é conhecido: duas permanecem no Egito e as demais nos EUA (DELGADO, 1996).

Dashur Boat

Um dos barcos de Dashur

Em 1920 um arqueólogo norte-americano encontrou durante a limpeza da tumba de um homem chamado Meketra, em Deir-el-Bahari, um esconderijo que continha uma série de modelos que representavam pessoas em diferentes atividades e uma delas era a de navegação (O’CONNOR et al, 2007). A ideia deste tipo de representação provavelmente tinha relação com a crença de que aquelas cenas se tornariam vivas no além. A outra proposta é a de que seriam somente objetos favoritos do Meketra e que, como tal, os queria em sua nova vida.

Traveling Boat Rowing Dynasty 12 early reign of Amenemhat I from tomb of Meketre Thebes 1981-1975 BCE (4)

Um dos modelos de Meketra

Achados desse tipo também se fez presente na tumba de Tutankhamon, descoberta em 1922, temos exemplos de alguns modelos, 35 no total. Alguns certamente foram postos lá com uma intenção ritual, utilizados como um transporte mágico para o além (JAMES, 2005; O’CONNOR et al, 2007). Remos também foram encontrados, todos depositados na câmara mortuária.

Modelo de embarcação encontrada na tumba de Tutankhamon. Foto: Harry Burton.

E em 2012, um uma equipe de arqueólogos encontrou em Abu Rawash uma barca funerária de madeira que pode ter sido usada durante o governo do faraó Den (também chamado de Udimu), da 1ª Dinastia.

O que todas essas descobertas possuem em comum é que elas não só nos dão informações sobre o ponto de vista religioso egípcio, mas, também sobre a tecnologia de construção desse tipo de transporte, tripulação e design.

Para saber mais: Publiquei um artigo intitulado “Por uma Arqueologia egípcia mais ‘aquática’” na Revista Labirinto, onde mostro alguns dos aspectos mais marcantes destas antigas comunidades que demonstram que a água durante o faraônico foi mais do que um espaço para a captação de recursos e que ela deve receber uma atenção maior por parte da Arqueologia.

Fontes:

[2] Hallan una flota de más de 120 barcos grabada junto a la tumba del faraón Sesostris III. Disponível em < http://www.abc.es/cultura/abci-hallan-flota-mas-120-barcos-grabada-junto-tumba-faraon-sesostris-201611021401_noticia.html >. Acesso em 02 de novembro de 2016.

BASS, George, Fletcher. Arqueologia Subaquática. Lisboa: Editorial Verbo, 1969.

DELGADO, James. Encyclopedia of Underwater and Maritime Archaeology. London: British Museum, 1996.

HAWASS,  Zahi. “A  Burial  with  an  Unusual  Plaster  Mask  in  the  Western  Cemetery  of Khufu’s  Pyramid”.  In:  FRIEDMAN,  Renée;  ADAMS,  Barbara. The  Followers  of  Horus: Studies Dedicated to Michael Allen Hoffman. Oxford: Editora Oxbow, 1992.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2005.

O’CONNOR, D.; FORBES, D.; LEHNER, M. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. Tradução de Francisco Manhães. 1ª Edição. Barcelona: Ed. Folio, 2007.

POO, Mu-chou. “Liquids in Temple Ritual”. In: DIELEMAN, Jacco; WENDRICH, Willeke; FROOD, Elizabeth; BAINES, John. UCLA Encyclopedia of Egyptology. Los Angeles: UC Los Angeles, 2010.


[1] Sesostris III possuiu duas sepulturas: uma em Abidos e outra em Dashur. Certamente uma delas foi um cenotáfio.