5 notáveis descobertas feitas pela Egiptologia em 2016

2016 vamos concordar que foi um ano bem polêmico, porém, ocorreram muitas coisas incríveis também, inclusive no campo da Arqueologia. Por isso, fiz essa modesta lista de descobertas relacionadas com artefatos/sítios arqueológicos egípcios que ganharam o mundo por seu caráter único ou raridade. Preciso deixar claro que a Arqueologia é uma disciplina muito lenta, por isso as vezes um objeto é descoberto em um determinado ano, mas a sua importância é notada muito tempo depois.

Não irei comentar sobre a supostas câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon e nem sobre os restos de uma múmia que poderia ser a rainha Nefertari. Ambas essas pesquisas foram inconclusivas. A Arqueologia é assim mesmo. Abaixo a minha seleção:

☥ A múmia tatuada

Já sabemos da existência de tatuagens em diferentes sociedades da antiguidade e o Egito Antigo é um ótimo exemplo. Vemos essa arte corporal representada tanto em desenhos como em estátuas e é algo realmente empolgante. Eu já falei sobre esse assunto no canal do AE:

Então em 2016 foi publicado na Nature um pequeno artigo falando sobre a descoberta de mais de 30 tatuagens na múmia de uma mulher que foi encontrada em Deir el-Medina (No vídeo comento um pouco sobre essa pesquisa).

☥ Antigos feitiços antigos para trazer a pessoa amada

É minha gente, não é somente nos dias de hoje que as pessoas sofrem por amor e estão dispostas a tomar medidas drásticas. A tradução de um papiro descoberto nas proximidades de Fayum mostrou bem isso. O leitor é ensinado a “queimar o coração” ou “subjugar” a pessoa amada. Essas magias são datadas do período romano e foram escritas em grego (Clique aqui para saber mais).

☥ Um faraó que foi atacado e assassinado

Desde 2012 temos conhecimento que Ramsés III de fato foi assassinado, mas foi somente em 2016 que soubemos que ele foi atacado por mais de uma pessoa. Também agora sabe-se que as armas utilizadas foram três: uma espada, um machado e uma faca (Clique aqui para saber mais).

Múmia de Ramsés III. Imagem disponível em < http://www.bmj.com/content/345/bmj.e8268#aff-4 >. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.

☥ Punhal do faraó Tutankhamon

Uma das adagas encontradas na KV-62, tumba do faraó Tutankhamon, andou chamado certa atenção de alguns arqueólogos por um bom tempo. Uma equipe composta por pesquisadores Italianos e egípcios então propôs um projeto para analisá-la. Foi uma surpresa quando, após uma análise por Raio-x foi descoberto que o material utilizado para a sua confecção é um ferro de meteorito (Ainda não publiquei material acerca, mas em breve o farei).

☥ A descoberta de um documento que comenta a construção da Grande Pirâmide

Na realidade essa descoberta foi feita em 2013 por uma equipe de arqueólogos franceses e egípcios que realizavam pesquisas na região de Wadi Al Jarf, no sudeste do Cairo. Contudo, a sua tradução foi feita em 2016 e o seu conteúdo surpreendeu porque trata-se de um diário de trabalho dos operários que realizaram o transporte da matéria prima da Grande Pirâmide (Clique aqui para saber mais).

Dia em que o diário foi posto em exposição no Egito. Foto: @Pastpreservers (Twitter).

Veremos agora o que 2017 reserva para nós!

A arquitetura dos faraós: túmulos e moradias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Nos muitos livros e revistas dedicados a falar sobre a civilização egípcia sempre nos deparamos com a afirmativa de que o Egito só prosperou por conta das cheias do Nilo. Entretanto, raramente somos alertados de que para que elas pudessem ser aproveitadas de forma satisfatória canais foram construídos para distribuir a água e permitir o transporte de pessoas, animais, alimentos e matérias-primas por todo o país, assim como barragens de contenção eram utilizadas para evitar que as fortes cheias invadissem as residências.

Fora que é um pensamento muito simplista considerar que a arquitetura, independente da época, tem como única finalidade edificar abrigos ou edifícios belos. Ela, acima de tudo, é algo proposital, ou seja, independentemente do tamanho da obra, o seu planejamento necessitou de toda uma organização humana. Por esse motivo, não se pode ignorar que ela pode ser capaz de influenciar na percepção das pessoas em relação a uma determinada cultura, religião, figura política, etc.

Abaixo, compartilho um vídeo que gravei para o canal do Arqueologia Egípcia no Youtube (clique aqui para se inscrever) onde dou alguns exemplos do uso da Arquitetura como uma ferramenta de poder e como um discurso religioso. Também apresento alguns tipos de moradias e falo sobre a construção de túmulos:

– Saiba mais: Foi descoberta documentação que comenta construção da Grande Pirâmide

Egito, uma civilização unicamente funerária?

Quando pensamos no Egito Antigo, não é incomum lembrarmos imediatamente das pirâmides ou dos túmulos do Vale dos Reis, como se a Arquitetura egípcia tivesse sido desenvolvida única e exclusivamente para atender a morte e o suposto fascínio que os egípcios possuíam por temas de cunho funerário. Resumir toda uma população de uma civilização que existiu por milênios a suposição de que todos eram indivíduos melancólicos ou obcecados com a ideia da morte é um erro. Atualmente é reconhecido que essas pessoas estavam mais interessadas em perpetuar a vida e tentar evitar a inevitável morte.

Imagem 1: Pirâmide em Deir el-Medina. Foto: WILDUNG, 2009.

Assim, a perspectiva de que através de ritos, amuletos e da própria arquitetura seria possível dar uma chance ao falecido de ingressar em um novo ambiente – uma pós vida – foi vista com muita consideração. No entanto, paralelamente a ideia de eternidade, foi um pensamento comum o de que uma vez que a vida após a morte seria infinita, não teria cabimento que o corpo do morto e a sua tumba fossem finitos. Por este motivo foi que a arquitetura tumular fez uso de matérias primas mais resistentes tais como pedras calcárias ou granito, enquanto que casas eram feitas com tijolos de barro.

Imagem 2: Cena disponibilizada pela Edições Del Prado, uma editora especialista em venda de modelos colecionáveis. Confira aqui outras imagens!

Seguindo um principio parecido era os templos egípcios, ao menos os principais, tais como os de Karnak, Luxor, Abu Simbel, etc.

Imagem 3: Foto aérea do templo de Karnak. Foto: National Geographic.

E ainda temos, claro, as moradias tanto das pessoas da realeza, como daquelas de fora dela. Em ambos os casos os materiais mais comuns utilizados foi o adobe e é exatamente por isso que não possuímos nenhuma amostra desse tipo de edificação totalmente de pé. Contudo, os antigos egípcios nos brindaram com uma extensa iconografia e muitas maquetes, algumas das quais utilizei como base para construir os modelos que apresento no vídeo que abre essa postagem.

Imagem 4: Representação de uma casa do Período Faraônico. Foto: STROUHAL, 2007.

Imagem 5: Reprodução de casa do Peíodo Faraônico.

Arquitetura egípcia é um tema muito amplo e que planejo retomar muito em breve apontando casos mais específicos. Lembrando que lá no canal já falei, por exemplo, do templo de Ramsés II em Abu Simbel. Clique aqui e assista.

Fontes:

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

DODSON, Aidan. As Pirâmides do Antigo Império (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007.

KEMP, B. El Antiguo Egipto: Anatomía de uma civilización. Tradução de Mònica Tusell. Barcelona: Ed. Crítica, 1996.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

ZARANKIN, Andrés. Arqueología de la Arquitectura: modelando al individuo disciplinado em la sociedad capitalista. Revista de Arqueologia Americana. n. 22, 2003; p. 25-39.

WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos (Tradução de Maria Filomena Duarte). Lisboa: Taschen, 2009.

Links interessantes:

Amarna 3D
http://www.amarna3d.com/

EgyptVR
https://www.facebook.com/EgyptVR/

Karnak 3D
http://www.karnak3d.net/

Theban Mapping Project
http://www.thebanmappingproject.com/

Foi descoberta documentação que comenta construção da Grande Pirâmide

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Em 2013 foi descoberto por uma equipe de arqueólogos franceses e egípcios que realizam pesquisas na região de Wadi Al Jarf, no sudeste do Cairo, às margens do Mar Vermelho, um importante papiro. O artefato estava fragmentado e necessitou ser remontado para que o seu conteúdo pudesse ser lido. Ele foi datado como pertencente ao Antigo Reino e trata-se de um diário do cotidiano e estilo de vida dos operários que trabalharam em um porto na atual área de Wadi Al Jarf. Entretanto, estas pessoas não trabalhavam em uma atividade qualquer: eles estavam participando da construção da Grande Pirâmide do platô de Gizé, pertencente ao rei Khufu.

Diário de Merer. Foto: MSA.

O diário pertencia a um inspetor chamado Merer e ele detalhou estatísticas e questões administrativas da empreitada, a exemplo dos seguintes pontos:

☥ As pedras calcárias eram retiradas da pedreira de Torah e transportada pelo Nilo até o sítio em que estava sendo construída a pirâmide;

☥ Especificamente a equipe dele continha cerca de 200 operários;

☥ Perto da conclusão da pirâmide o foco dos construtores foi voltado para a elaboração do revestimento externo de calcário. O material utilizado durante esta fase foi extraído de uma pedreira próxima a atual cidade do Cairo e levada até o canteiro de obras através de um sistema de canais. Esta viagem durou quatro dias;

☥ O vizir Ankhaf, que também era meio irmão do rei, na época em que o diário foi escrito foi o supervisor da obra;

A Grande Pirâmide tem 138 metros e é a mais antiga mega construção em pedra do Egito. Na antiguidade foi adotada como uma das “7 Maravilhas do Mundo” (sendo a única ainda existente) e atualmente é um Patrimônio Histórico Mundial.

Dia em que o diário foi posto em exposição no Egito. Foto: @Pastpreservers (Twitter).

Fontes:

Ancient Logbook Documenting Great Pyramid’s Construction Unveiled. Disponível em < http://www.livescience.com/55439-ancient-logbook-on-great-pyramid-unveiled.html >. Acesso em 14 de agosto de 2016.

TALLET, Pierre; MAROUARD, Gregory. The harbor of Khufu on the Red Sea Coast at Wadi al-Jarf, Egypt. Near Eastern Archaeology 77:1 (2014).