Tenha uma réplica perfeita do Livro dos Mortos em sua casa… Mas com uma (grande) condição

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A editora CM Editores, que tem sede em Salamanca (Espanha), publicou com extrema exclusividade o primeiro e único fac-símile do Papiro de Ani, a mais famosa cópia do Livro dos Mortos e que originalmente possuía 23,6 metros de comprimento, onde estão ilustrações e fórmulas sagradas de cunho funerário.

Foto: CM Editores (divulgação)

Este papiro foi encontrado em 1888 na tumba de um homem chamado Ani, em Tebas, e levado para o Museu Britânico por Ernest Wallis Budge, que o cortou em 37 pedaços com a desculpa — hoje totalmente reprovável — de poder assim melhor transportá-lo. As análises feitas nele apontam que ele é datado da XVIII Dinastia e que foi ilustrado por três escribas.

Existem poucas cópias confiáveis do Livro dos Mortos por aí e usualmente pendem para traduções equivocadas e em alguns casos totalmente irreais. Mas, publicada com o título “Libro de los Muertos: Papiro de Ani”, a edição da CM Editores está trazendo fotos em alta qualidade das folhas do papiro e com a sua tradução feita pelo egiptólogo espanhol Nacho Ares. O livro também conta com a participação do arqueólogo Zahi Hawass.

Foto: CM Editores (divulgação)

Entretanto, existe outro detalhe muito importante: a impressão foi feita em folhas de papiro e exatamente por isso a editora levou 4 anos de confecções cheias de tentativas e erros até chegar ao modelo que consideraram o ideal.

Foto: CM Editores (divulgação)

Olhando assim parece um sonho, não é mesmo? E de fato é, ao menos para muitas pessoas. Primeiro que foram impressas somente 999 unidades e segundo um livro desses custa mais de R$46.000,00. Porém, interessados já apareceram: de acordo com a editora vinte universidades dos Estados Unidos já compraram alguns e os manterão em suas bibliotecas para que os alunos possam estudar o conteúdo do papiro.

Quer conferir o link para comprar? Clique aqui.

Fontes:

Guía para superar las pruebas del inframundo. Disponível em < https://www.libertaddigital.com/cultura/libros/2019-03-01/papiro-de-ani-libro-muertos-cm-editores-inframundo-1276633943/ >. Acesso em 11 de junho de 2019.

Una editorial salmantina publica el primer y único facsímil del Libro de los Muertos de Egipto. Disponível em < https://www.lagacetadesalamanca.es/hemeroteca/editorial-salmantina-publica-primer-unico-LTGS258838 >. Acesso em 11 de junho de 2019.

Exposição explica os poderes mágicos do Livro dos Mortos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Começa no dia 3 de outubro (2017), no Oriental Institute da Universidade de Chicago, a exposição “Book of the Dead: Becoming God in Ancient Egypt” (O livro dos Mortos: Tornando-se deus no antigo Egito). Ela é composta por alguns artefatos funerários egípcios tais como uma múmia de uma antiga mulher da cidade de Akhmim, estátuas, estelas, escaravelhos, tijolos mágicos, ushabtis e alguns textos funerários, como no caso de duas cópias do Livro dos Mortos. Acerca destas, elas estão em exibição na sua totalidade pela primeira vez em um museu.

Foto: Jean Lachat

Os dois papiros do Livro dos Mortos em exibição saíram de duas regiões diferentes do Egito e serão expostos de ponta a ponta. Vale lembrar que cada livro do Livro dos Mortos é uma coleção de feitiços compilados em um único manuscrito que pode ter metros de comprimento.

“A exposição demonstra como os antigos egípcios desenvolveram o Livro dos Mortos para enfrentar a ansiedade mortal da humanidade”, disse Foy Scalf, curador da exposição. “Eles acreditavam que o Livro dos Mortos estava imbuído de poder mágico e quando este poder mágico foi combinado com os rituais funerários apropriados, cada indivíduo poderia se tornar um deus imortal na vida após a morte e assumir a identidade de Osíris, o deus dos mortos”.

Foto: Jean Lachat

“O antigo livro egípcio dos mortos foi frequentemente descrito como um ‘mapa’ do próximo mundo, mas, na realidade, é muito mais do que isso”, disse Scalf. “Cópias do Livro dos Mortos poderiam ter somente um feitiço ou mesmo 165. O conteúdo desses feitiços cobre muitas facetas da espiritualidade dos egípcios: a existência da alma, o que nos espera no pós vida, como seremos julgados, a natureza de deus e a relação contínua com amigos e familiares na Terra”. E complementa “O que descobrimos é que o Livro dos Mortos é sobre a vida eterna, não a morte”.

A exposição apresenta 76 artefatos que demonstram como as crenças religiosas moldaram a vida e a cultura material no Egito durante um período de mais de 2.000 anos. A maioria é da coleção permanente do Instituto Oriental, cujo museu possui a maior coleção de arte egípcia da área de Chicago, bem como galerias dedicadas às outras culturas do antigo Oriente Médio.

 

Fonte:

Exhibit illustrates magical powers of Book of the Dead in ancient Egypt. Disponível em < https://news.uchicago.edu/article/2017/09/22/exhibit-illustrates-magical-powers-book-dead-ancient-egypt >. Acesso em 25 de setembro de 2017.

【Artigo】A dupla natureza monovalente e polivalente do Livro Egípcio dos Mortos

A Dupla Natureza Monovalente e Polivalente do Livro Egípcio dos Mortos a Partir das Acepções de “Sentido” e de “Narrativa” de Ciro Flamarion Cardoso | Keidy Narelly Costa Matias (em português):

Ciro Flamarion Cardoso (1997) nos diz que a estruturação de um texto como relato faz com que, nesse contexto, a noção de tempo seja mais central do que a de espaço; as noções de relato (ou narrativa) são inequivocamente impregnadas de sentido. A palavra “relato”, conta-nos Ciro Flamarion (1997), relaciona-se semanticamente com a palavra referre (transcrever) enquanto que a palavra “narrativa” relaciona-se com o termo narrare (narrar); Ciro Flamarion (1997) coloca, portanto, as duas palavras como sinônimas, embora polissêmicas. A partir das acepções impetradas pelo egiptólogo brasileiro, podemos demarcar o Livro dos Mortos como um relato e, por isso, carregado de sentido.

Obtenha o artigo: A Dupla Natureza Monovalente e Polivalente do Livro Egípcio dos Mortos a Partir das Acepções de “Sentido” e de “Narrativa” de Ciro Flamarion Cardoso

Deuses egípcios: Abdyu

Por Márcia Jamille | @Mjamille | Instagram

 

De acordo com a teologia heliopolitana (da cidade de Heliópolis em grego, Iunu em egípcio), Abdyu era um dos deuses condutores da Barca Solar durante a sua viagem noturna no submundo (CASTEL, 2001). Ele é citado no “Hino a Rá”, como mostrado no Capítulo 15 do “Livro dos Mortos” do papiro de Ani (RODRÍGUEZ, 2003):

Deves ser benévolo comigo para que possa ver suas belezas, ser próspero sobre a terra, golpear os asnos e afugentar a maldade depois de destruir a serpente Apep[1] no momento da ação e ver peixe abdyu transformado em seu tempo e o peixe inet, […] sendo o barco inet em seu lago (RODRÍGUEZ, 2003, pág 145 Tradução nossa).

Como o próprio hino sugere, na iconografia ele é representado por um peixe.

A palavra “Abdyu” também denominava a cidade de Abidos, consequentemente a transliteração do nome da divindade é semelhante a desta milenar cidade.

Transliteração: ȝbḏw
Em hieróglifos

 

Referências:

CASTEL, Elisa. Gran Diccionario de Mitología Egipcia. Madrid: Aldebarán, 2001.

RODRÍGUEZ, Ángel Sánchez. La Literatura en el Egipto Antiguo: Breve antología. Servilla: Ediciones Egiptomanía S.L, 2003.


 

[1] Apophis em grego. Era a serpente maligna que todas as noites tentava devorar o deus Rá em sua viagem.

Ser mãe no Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ser mãe durante o Egito Antigo concebia à mulher, a posição de ser a responsável pela perpetuação da sua família e consequentemente a imortalidade da mesma através das gerações. A importância da concepção de uma criança é vista nos principais mitos, especialmente o de Ísis e Osíris, onde a deusa se empenha em engravidar do marido já falecido, para dar uma continuidade à família.

Existiam ainda significados especiais na maternidade e que usualmente era levado para o hábito funerário. Por exemplo, a crença ditava que a criança adquiria os ossos do seu pai e os tecidos moles da mãe, incluindo parte do coração dela (STROUHAL, 2007). Era pensando nisso que um dos trechos do Livro dos Mortos trazia versos voltados diretamente para a figura maternal, tal como o que veremos a seguir:

Meu coração, minha mãe; meu coração, minha mãe!

Meu coração por meio do qual nasci!

Nada surja para opor-se a mim no meu julgamento;

Não haja oposição a mim na presença dos príncipes soberanos;

Não haja separação entre ti e mim na presença do que guarda a balança! (BUDGE,2002, p 215 apud CÉSAR, 2008).

O ato de ser mãe era tratado também como algo sagrado. Muitos dos aspectos desta condição eram retratados em relevos religiosos e até mesmo utilizados em amuletos, a exemplo do ato de amamentar, usualmente visto em imagens funerárias, onde Hathor, como protetora do falecido, o alimenta pelo seio quando ela está em sua forma de vaca, ou Ísis, cuja imagem que a representa dando de mamar a Hórus era utilizada como amuleto de proteção.

Rainha Aqaluqa representada como Ísis amamentando. Imagem disponível em < http://wysinger.homestead.com/nubians5.html >. Acesso em 11 de maio de 2014

Durante o desenvolvimento do feto, os pais poderiam se apegar à deusa hipopótamo Tauret, para ela proteger a vida da mãe e da criança e providenciar um bom nascimento, já que os riscos advindos do parto era um dos principais fatores de mortalidade entre as mulheres (STROUHAL, 2007). Já Hathor, dentre tantas propriedades, era constantemente associada à maternidade – é tanto que nas décadas finais do Novo Império foi sincretizada à Isís, divindade com qualidades semelhantes -. Ela provavelmente foi uma das deusas mais respeitadas neste sentido, tanto em um aspecto político, como religioso. Contudo, era Bastet, a deusa gata, quem zelava pelo o amor familiar, especialmente o maternal. Sua dedicação para com os filhos era tamanha que alguns pesquisadores tendem a associar sua fúria como Sekmet como uma forma de proteger as suas crias contra o mal.

Mulher colhendo figos enquanto cuida de uma criança de colo. Tumba de Montemhet. Luxor. 25ª Dinastia. Fonte da imagem: STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p. 22.

Mas não eram somente deusas que presavam pelo bem estar das crianças e da mãe, Bés, um deus anão, sempre estaria na espreita para afastar espíritos malignos, especialmente durante o sono.

Deus Bes.

Deus Bés.

Tal como hoje, ser mãe não era tarefa fácil. A grande responsabilidade da maternidade chegou até mesmo a ser utilizada nas “Lições de Ani”, em uma tentativa de fazer com que o leitor reflita acerca de suas atitudes:

Quando o momento chegou e tu nasceste, ela aceitou a carga de por o peito em tua boca durante três anos (STROUHAL, 2007, p 23).

E para as mães menos experientes existiam regulamentos escritos denominados “Ensalmos para mães e filhos” que, embora possuam ideias equivocadas e supersticiosas, era uma tentativa de diminuir os anseios das mães, tal qual um manual moderno para conviver com a maternidade, com a diferença que os ensalmos eram repletos de rezas (STROUHAL, 2007). Eis um exemplo do que poderia ser lido:

Sai! Visitante das trevas, que te arrastas com o nariz e rosto atrás da cabeça, sem saber por que estais aqui!

Viestes beijar esta criança? Proíbo-te!

Viestes mimar esta criança? Proíbo-te!

Viestes afastá-la de mim? Proíbo-te! (STROUHAL, 2007, p 24).

Embora o poder centralizado usualmente fosse herdado por homens, tradicionalmente na Egiptologia se argumenta que quem era responsável pela legitimidade real eram as mulheres (DESPLANCQUES, 2011), embora existam debates adversos a esta teoria (COELHO; BALTHAZAR, 2012). Caso tal discurso seja verídico, essa postura provavelmente tinha alguma ligação com o mito de Ísis e Osíris, onde foi a deusa quem articulou a subida ao trono de seu filho, quando ele foi impedido pelo tio assassino.  Em verdade os filhos, mesmo adultos, usualmente eram associados ao nome da mãe (COELHO; BALTHAZAR, 2012).

 

Referências:

CÉSAR, Marina Buffa. Livro dos Mortos, uma discussão acerca do Capítulo 30. Nearco (Rio de Janeiro), v. 1, p. 66-80, 2008.

COELHO, Liliane Cristina; BALTHAZAR, Gregory da Silva. As múltiplas sensibilidades do feminino na literatura egípcia do Reino Novo (c. 1550-1070 a.c.). In: CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG ltda, 2012.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

O Coração e a Eternidade

O Coração e a Eternidade: o símbolo tema do Arqueologia Egípcia

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Para quem está acompanhado o Arqueologia Egípcia desde a sua criação já deve ter percebido que um símbolo bem incomum prevaleceu no site a partir do tema de 2009. Com sua forma ovulada e uma ave pintada ao centro logo começou a chamar a atenção:

 

 

 

Pertencente aos artefatos da tumba de Tutankhamon, este objeto representa um coração com o tema votivo ao Benu (Bennu).

O nome benu vem do verbo egípcio “brilhar” e na mitologia ele remete aos tempos da criação, tendo o seu grito quebrado o silêncio do início dos tempos, assim como também ao renascimento, o que lhe garantiu comparações com a Fenix, embora o mito do primeiro não possa ser relacionado com a criação do mito da segunda.

Em muitos casos ele é ligado aos deuses e Atum (como também ao ba de Osíris), criando então uma associação com o Sol.

Esta ave é uma das formas utilizadas pelo o falecido para sair de sua tumba, como explica o trecho a seguir do “Livro dos Mortos”:

 

entrei como falcão, mas sai como Benu.

 

No primeiro tema do site escolhi o papiro de Ani, mas agora acredito que o coração (onde os egípcios acreditavam que estaria o centro de todas as suas emoções e ações) e o Benu (símbolo do renascimento e eternidade) podem dar uma idéia melhor do sentimento dos egípcios quanto ao motivo de todas as coisas que construíram e para que fim.

Veja também: Benu, 30/01/2010 <http://www.touregypt.net/featurestories/benu.htm>
Fonte para a imagem: 30/01/2010 <http://www.flickr.com/photos/11787607@N02/3596040207/>