Foi Maya a irmã mais velha de Tutankhamon?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Sabemos poucos detalhes da história do faraó Tutankhamon e da sua família e bem menos da vida de membros do seu séquito o qual conhecemos alguns nomes. Dentre estas pessoas estava uma mulher chamada Maya, cujo cargo era um dos mais importantes da corte: ela foi a ama-de-leite do rei.

Sabemos disso graças a sua tumba encontrada em 1996 no sítio de Bubastis, na cidade de Saqqara, que na antiguidade possuía uma das necrópoles mais importantes do Egito.

A tumba de Maya é dividida em dois níveis onde no superior existem duas câmaras para cultos e no inferior câmaras funerárias; é na primeira capela do nível superior onde encontra-se uma breve biografia da Maya, inclusive uma das suas imagens mais famosas onde ela tem em seu colo um garoto, o próprio Tutankhamon (Imagem 1)[2].

— Conheça mais sobre esta sepultura: Sobre leão achado no Egito em 2001.

O cargo de ama-de-leite na realeza não era dado a qualquer pessoa, afinal a mulher escolhida ia dar do seu leite para uma criança divina beber e sabemos que esse alimento possuía uma conotação religiosa notável. Maya foi então a escolhida pelos pais (ou representantes) de Tutankhamon, mas não sabemos de onde ela surgiu, somente que certamente era uma mulher da nobreza.

Imagem 1: Maya com o faraó Tutankhamon sentado em seu colo. Qui fut véritablement maïa? La nourrice de Toutânkhamon! En égypte ancienne!. Disponível em < http://www.aime-free.com/2100/12/qui-fut-veritablement-maya-la-nourrice-de-toutankhamon-en-egypte-ancienne.html >. Acesso em 26 de janeiro de 2016.

Contudo, recentemente surgiu uma teoria para ela. O descobridor do seu sepulcro, o arqueólogo francês Alain Zivie, e o Ministro das Antiguidades do Egito, Mamdouh El-Damaty, têm sugerido que esta mulher seria, em verdade, Meritaton [1][2], filha mais velha de Akhenaton e Nefertiti e irmã mais velha da esposa de Tutankhamon, Ankhesenamon e alguns sugerem que até do próprio Tutankhamon.

Maya. Fonte: Tomb of Tutankhamun’s wet-nurse opened to tourists. Disponível em < http://www.euronews.com/2015/12/20/tomb-of-tutankhamun-s-wet-nurse-opened-to-tourists/ >. Acesso em 26 de janeiro de 2016.

A ideia baseia-se no fato da existência de um fragmento de vaso cerâmico, encontrado durante a limpeza da tumba de Maya. Nele está um título honorífico, o de “Superiora do Harém”, o que indica que ela tinha um espaço privilegiado na corte real. Entretanto, Zivie e El-Damaty estão se apoiando na ideia de que era um título demasiado grande para uma simples ama [3], mas como foi pontuado no início deste texto, amas-de-leite da família real não eram simplesmente escolhidas entre mulheres comuns (embora não possamos descartar que para toda regra existe uma exceção).

Eles também se justificam fazendo uso de uma imagem encontrada na tumba de Meketaton, uma das irmãs de Meritaton e que morreu de forma prematura. A imagem retrata uma mulher segurando um bebê. A sugestão dos dois é que aquela trata-se da princesa Meritaton segurando em seu colo Tutankhamon. Contudo, esta afirmação não pode ser confirmada porque não existe nada na tumba que sugira quem são aqueles dois indivíduos.

Zivie ainda se justifica assinalando a semelhança facial entre Maya e Tutankhamon, mas sabe-se que quando um faraó chegava ao poder não era incomum que os artistas (aparentemente especialmente durante o Novo Império) adaptassem alguns dos seus traços faciais ao rosto de membros da família real e da alta nobreza. É exatamente por isso que muitas pessoas de determinados períodos se parecem tanto.

Entretanto, existe um ponto em que a teoria de que Maya poderia ser alguém da realeza faria algum sentido. Em entrevista ao “Diario La Prensa” Zivie declarou que interpretou a famosa imagem de Tutankhamon e Maya como que ela estaria sentada em um trono real [4], o que explicaria o fato dela ter sido retratada com o faraó em seu colo em um período que o contato físico mais próximo que uma pessoa comum teria com o rei é beijar a terra que ele pisou (não estou sendo poética, isso é verídico). Encontrei em um fórum estrangeiro uma fotografia que um dos usuários postou do livro “Les Tombes Du Bubasteion À Saqqara”, do próprio Zivie. Nela está um croqui da imagem do faraó com sua ama que está sentada em uma cadeira que possui entre os seus pés o “sema-taouy”, um símbolo que significa a união do Alto e Baixo Egito. Logo, a proposta de que esta estaria sentada em um trono real faz algum sentido. Por outro lado, se vocês observarem com atenção, o sema-taouy parece estar sob os pés do Tutankhamon e não no trono de fato. Ainda assim é uma questão a se pensar.

Link do fórum < http://www.perkemet.be/viewtopic.php?f=11&t=987 >. Acesso em 26 de janeiro de 2016. User que postou: Rozette. Livro: Les Tombes Du Bubasteion À Saqqara; La tombe de Maïa, mère nourricière du roi Toutânkhamon et grande du harem. Autor: Alain Zivie; pagina 105.

O outro problema nessa teoria é que não existe um motivo lógico para se escolher uma herdeira ao trono como ama-de-leite; as princesas destinadas ao trono quase não amamentavam seus próprios filhos, por que amamentariam o filho dos outros? Outra questão é que os registros escritos arqueológicos apontam que Meritaton e seu esposo Smenkhara tinham sido escolhidos como co-regentes de Akhenaton. A princesa até substituiu a própria mãe, enquanto ela ainda estava viva, em deveres da Grande Esposa Real. Então, qual seria o motivo de torna-se uma ama-de-leite ou uma “Superiora do Harém”?

Por fim, para ter leite no seio é necessário que a mulher tenha concebido um bebê, então, caso Meritaton fosse ama-de-leite de Tutankhamon, onde estaria o seu próprio filho? Zivie ainda sugere que a mãe de Tutankhamon poderia ser a falecida Meketaton [4], que ainda era uma pré-adolescente quando faleceu, entretanto, o exame de DNA de 2010 aponta que uma múmia de uma mulher adulta encontrada na KV-35 seria a sua mãe.

Tutanhkamon retratado ainda criança. Autor da imagem: Desconhecido.

Desta forma, logo se vê o porquê de o meio acadêmico não ter dado muita atenção para esta proposta.

A partir deste mês de janeiro (2016), a tumba de Maya estará aberta para a visita de não acadêmicos. Foi pensada nesta determinação como uma tentativa de alavancar a economia do Egito, em parte sustentada pelo turismo, que sofreu um grande dano após a revolução de 2011.

Fontes:

[1] ¿Fue Maya la hermana mayor de Tutankhamón? Disponível em < http://www.nationalgeographic.com.es/articulo/historia/actualidad/11000/fue_maya_hermana_mayor_tutankhamon.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

[2] Another King Tut’s related discovery would change chapters in history books. This time in Sakkara Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.eg/2015/12/another-king-tuts-related-discovery.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

[3] Egipto inaugura la tumba de la nodriza de Tutankamón. Disponível em < http://cultura.elpais.com/cultura/2015/12/24/actualidad/1450970687_880613.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

[4] Tumba egipcia era de la hermana y no de la nodriza de Tutankamón, dice arqueólogo. Disponível em < http://www.lagranepoca.com/ciencia-y-tecnologia/35733-tumba-egipcia-era-de-la-hermana-y-no-de-la-nodriza-de-tutankamon-dice-arqueologo.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Egipto abre al público en Saqqara la tumba de Maya, el ama de crianza de Tutankamón. Disponível em < http://es.euronews.com/2015/12/20/egipto-abre-al-publico-en-saqqara-la-tumba-de-maya-el-ama-de-crianza-de/ >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Egyptian pharaoh Tutankhamun’s wet nurse might have been his sister. Disponível em < http://www.theguardian.com/culture/2015/dec/21/egyptian-pharaoh-tutankhamuns-wet-nurse-might-have-been-his-sister >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

El otro misterio del faraón Tutankamón que deja perplejos a los científicos. Disponível em < http://www.periodistadigital.com/america/cultura/2015/12/23/el-otro-misterio-del-faraon-tutankamon-que-deja-perplejos-a-los-cientificos.shtml?utm_medium=twitter&utm_source=twitterfeed >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Otro misterio del faraón Tutankamón deja perplejos a los científicos. Disponível em < https://actualidad.rt.com/ciencias/194916-faraon-tutankamon-tumba >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Tomb of Tutankhamun’s wet nurse in Egypt’s Saqqara opened to public. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/174009.aspx >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Tutankhamun’s half-sister Meritaten might have also been his wet nurse, archaeologists say. Disponível em < http://www.independent.co.uk/news/science/archaeology/tutankhamuns-half-sister-meritaten-might-have-also-been-his-wet-nurse-archaeologists-say-a6781231.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Tumba de ama-de-leite de Tutankhamon é aberta ao público

Por Márcia Jamille | Twitter | Instagram

Este mês de dezembro (2015) o Ministério das Antiguidades do Egito anunciou que a tumba da ama-de-leite do faraó Tutankhamon está aberta ao público comum.

A sepultura foi descoberta em Bubastis, Saqqara, no ano de 1996 pela Mission archéologique française du Bubasteion (Missão Arqueológica Francesa de Bubasteion), coordenada pelo egiptólogo francês Alain Zivie.

Tumba de Maya. Foto: Ahram.

No local além de existir uma representação do faraó Tutankhamon sentado no colo de sua ama, uma tipo raro de iconografia, também foi descoberto o sepultamento de um leão datado do período helênico. — Leia mais em “Sobre leão achado no Egito em 2001”.

Recentemente este túmulo também chamou a atenção pela afirmativa do Zivie de que a Maya seria, em verdade, a princesa Meritaton, primogênita de Akhenaton. Suposição que não está sendo muito bem aceita por muitos acadêmicos. Comentarei este assunto em breve aqui no Arqueologia Egípcia.

Fontes:

Egipto abre al público en Saqqara la tumba de Maya, el ama de crianza de Tutankamón. Disponível em < http://es.euronews.com/2015/12/20/egipto-abre-al-publico-en-saqqara-la-tumba-de-maya-el-ama-de-crianza-de/ >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Tomb of Tutankhamun’s wet nurse in Egypt’s Saqqara opened to public. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/174009.aspx >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Sobre leão achado no Egito em 2001

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Leões são animais nativos das savanas, mas seu culto se fez popular no nordeste da África por representar o poder do faraó. Imagem disponível em < http://www.androidwallpaper.us/animals/african-lion/ leão >. Acesso em 02 de abril de 2012.

Vários foram os animais divinizados no Egito, mas poucos são tão populares nas discussões atualmente. É reconhecida a existência de cultos aos gatos e crocodilos, mas raramente é comentado acerca do culto aos leões, animais tão raros no Egito na época dos faraós, mas que eram de suma importância para pensamento religioso e o discurso monárquico, sendo um dos principais símbolos do poder do governante.

Nativo das savanas africanas, os leões deveriam chegar até o Egito transportados pelo rio Nilo. Assim como outros felídeos de grande porte é possível que alguns deles tenham vivido nos palácios reais, servindo como animal de estima do faraó. Em suma, poucos exemplares foram encontrados em sítios arqueológicos o que dificulta fazer uma estimativa de quantos poderiam ter vivido no Egito. Um destes exemplares foi encontrado em 2001 em Bubastis e transformou-se em uma das ocorrências incomuns da Arqueologia Egípcia.

Bubastis encontrava-se próximo a Aváris e Tânis, na literatura clássica ela era conhecida como Bubasteion, mas dentre os egípcios era chamada de Per-Bastet, “casa de Bastet” ou “pertencente à Bastet” (clique aqui e leia mais sobre Bubastis).

Embora a necrópole de Bubastis seja celebre pelas múmias dos gatos votivos a deusa Bastet, cujo culto tornou-se popular durante a Baixa Época e principalmente período Ptolomaico, também existiam múmias de outros animais, dentre elas, a de um leão, o único exemplar descoberto em Saqqara [1]. Ele foi encontrado na tumba de uma funcionária da casa real chamada Maya, que viveu nos anos finais da XVIII Dinastia servindo ao faraó Tutankhamon como ama de leite.

A tumba de Maya foi descoberta em 1996 pela Missão Arqueológica Francesa (MafB), equipe que trabalha até hoje nas ruínas da antiga capital. Foi esta mesma missão que encontrou o este animal em 2001. O espécime está praticamente intacto, exceto pelo o fato de que o seu crânio está parcialmente esmagado, porém não foi encontrado nenhum sinal de violência que poderia ter causado a morte do animal. A sugestão da equipe é de que ele morreu idoso e de forma natural.

Em seu artigo A lion found in the Egyptian tomb of Maïa, o coordenador da expedição, Alain Zivie (et al), destaca que a primeira vista o esqueleto está em uma posição que lembra as das múmias de gatos, embora a disposição dos membros posteriores esteja diferente.

Desenho da missão de arqueologia. A cor azul e amarela/laranja representam os membros anteriores e posteriores, respectivamente. Imagem disponível em ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

Nos textos clássicos e inscrições faraônicas os leões são citados como animais sagrados no Egito. As esfinges, por exemplo, era um misto de cabeça humana (ou de carneiro) com o corpo de um leão.

Zivie aponta que o leão pode ser o símbolo do deus Mahes, senhor da coragem, filho da deusa Sekhemet (uma mulher com a cabeça de uma leoa) ou Bastet (geralmente apontada como um lado apaziguado de Sekhemet).

A pesquisa no túmulo demonstrou que o leão, apesar de estar em uma tumba da XVIII Dinastia, pertence ao período Helenístico (anos finais da chamada era faraônica), ou seja, em nada tinha a ver com a Maya ou o seu protetor Tutankhamon.

Membro da equipe de Arqueologia em frente ao corpo do leão encontrado na tumba da ama de leite de Tutankhamon. Embora esteja em uma tumba da XVIII Dinastia o animal pertence ao período Helenístico. Imagem disponível em ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

[1] Existe outro exemplar, mas datado da Dinastia 0, na época do faraó A-ha.

 

Fontes consultadas:

MÁLEK, J; BAINES, J. Deuses templos e faraós: atlas cultural do Antigo Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 174 – 175. 2008

SILIOTTI, A. Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 59. 2006

ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

Tumba de Maya na National Geographic

Esta matéria publicada em 2003 na revista National Geographic Brasil conta um pouco sobre a tumba de Maya, o tesoureiro real de Tutankhamon (e que provavelmente foi o responsável pela supervisão do encerramento da tumba do faraó).

Confira o texto com as palavras de Alain Zivie, o arqueólogo responsável pelas pesquisas no sepulcro:

O guardião do tesouro do deus-sol (Edição 43/Novembro de 2003)

A descoberta do túmulo do guardião das finanças do faraó Akhenaton intriga cientistas

 

Por Alain Zivie

Fonte: National Geographic Brasil

O túmulo do guardião do patrimônio dos templos do Egito, no reino do Deus-Sol Akhenaton, há mais de 3,3 mil anos

Muita experiência, intuição e um pouco de sorte fizeram com que eu chegasse até esse túmulo no antigo cemitério de Saqqara.

Com o apoio do Ministério de Assuntos Exteriores da França, eu já encontrara sítios funerários num penhasco da região, inclusive um que pertencera a um alto funcionário de Ramsés, o Grande (consulte “O enviado de paz do faraó”, outubro de 2002) e outro preparado para Maïa, ama-de-leite de Tutankhamon. À medida que minha equipe trabalhava, as pás iam revelando uma abertura na rocha. Assim que a areia foi removida, vi uma capela mortuária sustentada por uma colunata, com uma estela de pedra entalhada. Na escarpa atrás dela, descobrimos dois aposentos cobertos de relevos e uma escadaria levando a uma câmara sepulcral inacabada. Inscrições revelam que o proprietário tinha dois nomes: Raïay e Hatiay. Ele foi um importante administrador dos templos de Aton em Akhetaton (a nova capital) e em Mênfis (a antiga). Ou seja, esse homem cuidava do ouro e das oferendas para Aton em duas das principais cidades egípcias. Suas relações com Akhenaton eram próximas: relevos na tumba refletem a devoção de Raïay à religião extremista do faraó. Mas alguns deles foram modificados, e isso aconteceu provavelmente durante a vida de Raïay. Agora, a pergunta que fica no ar é: por quê?

Lindos relevos, executados pelos melhores artistas do país, enfeitam a tumba de Raïay. Mas sua função não é só decorativa. Envoltos em magia, facilitavam o caminho dele de volta à vida após a morte. Na cerimônia de “abrir a boca,” um sacerdote devolve os sentidos à múmia de Raïay, segura por um parente de luto. Esta imagem mostra que preparativos tradicionais para a vida eterna eram feitos mesmo durante o reinado nada ortodoxo de Akhenaton. Mas, como os textos que acompanham a cena estão de acordo com a adoração do faraó ao deus Aton, referências normais a Osíris, o deus da morte, foram omitidas. De fato, os relevos das paredes da tumba homenageiam apenas Aton.

A estela da entrada da tumba, porém, menciona diversos deuses egípcios. Num painel, Raïay e sua mulher fazem oferendas a Osíris. Inscrições mencionam deuses como Ptah, patrono de Mênfis, e Amon, a quem a esposa de Raïay ofereceu canções sagradas. Essa estela é fundamental para interpretar a tumba. Teria sido colocada depois que Akhenaton morreu, quando Raïay e seus contemporâneos retomaram antigos costumes, sob a autoridade de um novo faraó, Tutankhamon.

Raïay construiu essa tumba para sua mulher e para si mesmo. A esposa aparece sentada atrás dele ofertando flores. Mas ninguém foi enterrado nesse local.

A imagem de Raïay vigia a entrada de uma câmara mortuária inacabada. À medida que o povo deixou de lado as obsessões de Akhenaton, essa tumba provavelmente transformou-se numa ameaça, apesar das alterações feitas. Ao sentir o perigo iminente, Raïay parece ter abandonado o complexo funerário. Inscrições revelam que o nome de sua mulher era Maïa. Seria Maïa a que foi a ama-de-leite do rei Tutankhamon? Se for, será que a influência dela ajudou Raïay a recuperar a confiança real? E será que ele foi, afinal, enterrado em uma tumba ao lado da mulher? As respostas podem estar escondidas no penhasco de Saqqara.

Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-tumba >. Acesso em 02/11/2011.

 

 

Perguntas de final de ano para Márcia

.

Perguntas enviadas pelos leitores para Márcia Jamille N. Costa (publicado dia 31/12/2010)

.

Na penúltima semana de dezembro recebi questões de vocês leitores e agora as respostas estão disponíveis. Pode parecer clichê, mas não foi tarefa fácil descartar algumas perguntas.

Gostaria de falar que fiquei extremamente feliz pela disposição de todos que enviaram as questões e que esta foi uma experiência muito bacana. Lembrando que foi permitido que algumas perguntas fossem marcadas como anônimas.

Algumas foram extremamente criativas e bem interessantes, mas eu deveria escolher somente cinco perguntas e acabei respondendo sete, o que não deveria ser feito. Eu realmente responderia todas se pudesse.

Vamos para as perguntas e as respostas:

.

1ª pergunta (enviada por Rodolfo Francisco Marques):

Como surgiu seu interesse pela arqueologia e pelo Egito?

.

Olá Rodolfo! Ambos surgiram ao mesmo tempo enquanto eu assistia o documentário “Egito: em busca da imortalidade”, antes desde episódio a história do Egito faraônico era irrelevante para mim, mas quando vi as cenas iniciais que mostravam o túmulo de Tutankhamon e o cuidado que os antigos tinham por seus mortos me senti comovida, aquela gente queria ser lembrada a todo custo, tinham mais medo do esquecimento do que da própria morte, é um sentimento muito profundo. Pois é, desde então  eu quis seguir a carreira.  Eu tinha treze anos e brincava com pinceis tirando as poeiras dos moveis dizendo que estava recuperando um objeto… Eu hoje imagino o que a minha mãe andava pensando de mim naquela época…

.

Rosto de um dos ataúdes de Tutankhamon. Fotografia tirada pela a expedição ao Egito realizada pelo o Metropolitan Museum of Art. (Ano desc.)

.

2ª pergunta (anônima):

Como surgiu a idéia de criar o site?

.

Eu já navegava muito na internet em 2003 (e até 2004, acredite, eu achava que era a única pessoa no mundo que colecionava livros e revistas sobre a civilização egípcia…) e acompanhei o desenvolvimento de sites de Egiptologia em português e muitos me decepcionavam ao extremo, eram conteúdos sem fundamento, impressões de pessoas que nem sequer tinham lido as pesquisas sobre o assunto, então quando tinha chegado 2008 eu resolvi fazer um site só por “diversão”, armazenando cópias digitalizadas de revistas e artigos, passando horários de documentários, divulgando as revistas publicadas, etc, mas voltado só para os meus amigos. No entanto, notei que o site estava recebendo muitas visitas e pessoas começaram a escrever para mim. Estava começando a ficar clara a necessidade de comprar um espaço e tornar o Arqueologia Egípcia algo grande. Acredito que este site que estamos vendo agora faz ainda parte do embrião de 2008 e pela a visível mudança que ele veio sofrendo acredito que vai ficar ainda mais interessante.

.

3ª pergunta (enviada por Rennan Lemos):

O Arqueologia Egípcia é uma ferramenta importantíssima para a disseminação de conhecimento egiptológico atualizado no nosso país, principalmente aquele produzido por egiptólogos nacionais. Para você, então, qual é a importância de se manter um canal de divulgação da Egiptologia no Brasil – um país onde a área não é, ainda, um setor constituído nos cursos de pós-graduação? Parabéns pelo site!

.

Olá Rennan! Esta é uma questão muito importante, mas que está sendo tão ignorada. Nós temos no Brasil egiptólogos tão maravilhosos, mas cujo trabalho é tão pouco acessível e esta é  uma situação desconfortável, principalmente porque a população precisa saber do resultado do nosso trabalho. Existem também as pessoas que não têm uma especialização na área, mas que saem por aí se apresentando como egiptólogos, não preciso nem mencionar que isto é crime. Então, manter um canal de divulgação da Egiptologia nacional ajudaria bastante não só o público, como também a academia a saber se não estamos escutando o papo de um charlatão.

O Arqueologia Egípcia tenta fazer a sua parte, mas não é muito fácil, nem todos querem divulgar seus trabalhos na rede, mas o site está aberto para receber o material que for necessário.

Se eu pudesse faria uma faixa enorme e estenderia na frente de todas as universidades com os dizeres “Egiptologos, saiam um pouco da biblioteca e criem um blog”. Montar uma página na web é a coisa mais fácil do mundo. Façam um grupo com amigos egiptólogos e montem um grande blog e postem toda a sexta-feira. O Brasil está tão carente disto, está muito necessitado dos nossos egiptólogos. Acreditem, eles querem conhecê-los.

.

4ª pergunta (enviada por João Carlos):

Que tal fazer uma sessão no site com sugestões de livros sobre o Egito?

.

Quando li esta pergunta me senti no direito moral de respondê-la. Pois é João, eu nunca tinha pensado nisto! Existe uma parte no site para anunciar publicações, mas estas atualizações só são feitas quando eu acabo de ler um livro. Vou estudar a sua idéia para ver como ela pode se encaixar no site.

.

5ª pergunta (enviada por Ana):

Primeiramente parabéns pelo site! Queria saber se a vida de um arqueólogo é muito difícil. As descobertas são escassas? Vale a pena se tornar um?

.

Olá Ana, obrigada. Primeiramente se a vida fosse fácil a vida não seria vida… Todas as profissões possuem desafios, a Arqueologia não poderia ficar de fora. A sua pergunta é em termos financeiros? Neste caso a resposta vai variar de pessoa para pessoa, em outras profissões mais conhecidas como advocacia, por exemplo, você tem aqueles que ganham muito ou que ganham pouco, é tanto que existem os chamados “advogados de porta de cadeia”. O mercado brasileiro até que é favorável para os arqueólogos, mas muita coisa ainda está em uma total bagunça em termos de fiscalização, pessoas de má fé ainda estão trabalhando com escavação, danificando artefatos (neste sentido o que nos resta é denunciar). Desemprego existe, mas este é um risco a se correr como em qualquer outra profissão.

Dizem que arqueólogo é um aventureiro, entra no mato com uma pederneira e nada mais, passa dias a fio no meio do nada, não tem onde fazer suas necessidades, etc, mas a realidade não é bem assim, arqueólogo não precisa ser masoquista, e ninguém precisa ser radical como F. Petrie que normalmente dormia dentro de túmulos ao lado de múmias. Existem os que tentam apavorar as moças falando, por exemplo, que elas deveriam fazer o mesmo serviço braçal que eles, tudo bem que em alguns campos elas acabam fazendo, mas existem coordenadores de escavação que não obrigam nem os rapazes, nem as moças a fazer o que eles não conseguem. Se você não consegue subir um matacão para analisar pinturas eles não vão te obrigar ou apontar o dedo para a sua cara dizendo que você não serve para a profissão. Outra coisa, dizem que o trabalho de Arqueologia é tão “perigoso” que só pode ser exercido por homens, esta é uma visão equivocada, não só no Brasil, mas no mundo, temos muitos exemplos de arqueólogas de destaque no ramo.

.

Flinders Petrie. Fonte: http://www.athenapub.com/aria-PE-Petrie1.GIF

.

Agora sua pergunta “se as descobertas são escassas”, felizmente não. Trabalhamos com cultura material, coisa produzida pelo o homem, ou seja, enquanto existirmos sempre será produzida cultura material. Certa vez em um evento uma pessoa do público perguntou se os cursos de graduação em Arqueologia iriam deixar escassos os sítios para serem estudados. De forma alguma! Existem vários tipos de Arqueologias, inclusive aquela que trabalha com o meio urbano, ou com lixo moderno e até mesmo com o lixo espacial! Arqueologia não é só escavar.

Se vale a pena se tornar um arqueólogo? Creio que isto conta principalmente do que você ama fazer… Se esta coisa te traz satisfação pessoal. Amo a Arqueologia desde pequena, sempre quis fazer isto e não me imagino mesmo fazendo outra coisa. Ao menos para mim está valendo a pena, apesar dos apesares eu gosto de falar sobre Arqueologia, eu amo ficar procurando fragmentos, amo conhecer lugares novos e pessoas novas. Sinceramente estou muito feliz com a minha decisão de me tornar arqueóloga.

.

6ª pergunta (anônima):

As possibilidades de se fazerem grandes descobertas sobre a civilização egípcia ainda são grandes?

.

“Grandes descobertas” seriam ao estilo da tumba do faraó Tutankhamon? A Arqueologia Egípcia por vezes pode ser uma caixinha de surpresas, antes da descoberta do sepulcro do Tutankhamon um rico chamado Theodore Davis que estava pagando alguns arqueólogos para escavar no Vale dos Reis falou a celebre frase “Receio que o Vale das Tumbas já esteja esgotado”, isto em 1912, daí em 1922 “pimba”! Howard Carter encontra a KV-62. Depois muitos outros acharam que não se tinha mais nada “grande” para se encontrar em todo o Egito até que em 2003 um camponês encontra o sepulcro das múmias douradas (pesquisado então por Zahi Hawass) no oásis Baharia. Estou dando somente dois exemplos que foram assediados pela a mídia, mas tiveram outros como a tumba da princesa Khnumet (Dashur), a tumba do general Psusennes I (Tânis), a tumba da rainha Heteferes, mãe de Quéops (Giza) e assim por diante. O próprio Vale dos Reis promete outras descobertas, acreditam que a tumba da rainha Nefertiti esteja lá. Fora a tumba de Marco Antonio e Cleópatra que alguns acreditam estar em Taposiris Magna. Mas não podemos ignorar as descobertas “menores”, talvez elas não sejam importantes para a imprensa, mas são importantes para entender um contexto de uma sociedade.

.

7ª pergunta (enviada por Paulo H.):

Que múmia você gostaria de descobrir escavando o Vale dos Reis, caso houvesse uma expedição e você fosse convocada para a equipe.

.

Tesoureiro Maya. Foto: Kenneth Garrett. 2003.

.

Olá Paulo! Se fosse para desejar eu gostaria de encontrar Tutmés III ou Amenofis III, mas já encontraram!! Tutmés III era, pelo o que sabemos, um faraó concentrado em suas atividades, não era um relaxado. E Amenofis III usava a paz como estratégia, fazia muito uso da diplomacia, ele parecia ser mesmo um cara muito esperto. Se a sua pergunta fosse em relação as necrópoles de Saqqara eu me sentiria muito feliz em ver cara a cara Maya (ama de leite), Maya (tesoureiro) ou Huy, os três eram funcionários de Tutankhamon.

.

Agora que terminou a lista de perguntas que finalizaram as postagens de 2010 só tenho a desejar para vocês o início de um Ano Novo feliz!

.