Mais uma necrópole é descoberta por arqueólogos no Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Arqueólogos descobriram no Egito uma necrópole da época dos faraós que possui os restos mumificados de um sumo sacerdote do deus Thoth, senhor da sabedoria, patrono dos escribas e personificação da lua. Essa divindade era representada como um homem com cabeça de íbis, uma íbis de fato ou um babuíno.

— Deuses do Egito Antigo: O que você precisa saber! #0

Foto: Reuters/Mohamed Abd El Ghany

Esse grande cemitério foi descoberto em Atum al-Gaba, um vasto local à beira do deserto, próximo a Minya, ao sul da capital do Cairo. De acordo com o Ministério das Antiguidades os trabalhos de pesquisa nesta localidade têm a capacidade de durar cinco anos. “Este é apenas o início de uma nova descoberta”, disse o ministro das antiguidades, Khaled al-Anani. E Mostafa Waziri, chefe da missão arqueológica, falou que oito túmulos foram descobertos até agora e que ele espera que mais sejam encontrados em breve.

Em relação ao sepulcro do sacerdote, foram encontrados mais de mil estátuas e quatro vasos canópicos de alabastro, feitos para manter os órgãos internos dele. Já a sua múmia está decorada com contas azuis e vermelhas, enrolada em lençóis dourados de bronze.

— Vasos canópicos #AntigoEgito

Foto: EPA/IBRAHIM YOUSSEF

Além de parte do equipamento funerário do sacerdote, quarenta sarcófagos, os quais alguns possuem ainda o nome dos seus donos, igualmente foram encontrados.

Foto: Reuters/Mohamed Abd El Ghany

Foto: EPA/IBRAHIM YOUSSEF

Foto: EPA/IBRAHIM YOUSSEF

Reuters/Mohamed Abd El Ghany

Os pesquisadores iniciaram os trabalhos de escavações na área no final do ano passado em uma busca para encontrar o restante do cemitério de um nomo antigo. Isso porque esta área já era conhecida por conter antigas catacumbas datadas tanto do Período Tardio, como da Dinastia Ptolomaica, incluindo uma grande necrópole para milhares de íbis e babuínos mumificados. Somado a isso ano passado o Ministério das Antiguidades anunciou que nessa região foi encontrada uma necrópole com pelo menos 17 múmias.

 

Fonte:

Ancient necropolis discovered by archaeologists in Egypt: ‘This is only the beginning’. Disponível em < http://www.independent.co.uk/news/world/africa/ancient-necropolis-egypt-archeologists-mummy-tuna-al-gabal-a8226891.html >. Acesso em 14 de março de 2018.

Espaço vazio dentro da Grande Pirâmide do Egito: Entenda!

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Em novembro, a revista científica Nature publicou uma notícia anunciando a descoberta de “espaços vazios” dentro da pirâmide do faraó Khufu (Quéops), a maior do Platô de Gizé.

Aqui no Arqueologia Egípcia possuímos um dossiê sobre o assunto, mas você pode encontrar comentários em vídeo também no nosso canal. Nele falo um pouco sobre esta pesquisa e a controvérsia em que ela está envolvida:

E caso tenha curiosidade de conhecer um pouco mais sobre a arquitetura egípcia acesse o nosso vídeo sobre o assunto: Arquitetura egípcia | Pirâmides, moradias e o Vale dos Reis.

Foi aberta para o público a tumba de Nakhtamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Foi anunciada há algumas semanas que a tumba de um homem chamado Nakhtamon, que viveu onde atualmente é Deir el-Midina, será aberta para o público. Ela é uma das sepulturas monocromáticas da necrópole de Tebas, estando decorada com desenhos coloridos em amarelo, branco, preto e vermelho [1].

Além dos belos desenhos em suas paredes, outro detalhe que chama bastante atenção é que a sepultura possui uma entrada com formato piramidal, algo que foi utilizado por alguns nobres durante o Novo Império. Essa mini pirâmide é a parte que nós arqueólogos chamamos de “superestrutura”, enquanto que a câmara funerária é a “subestrutura”. Caso queira saber um pouco mais sobre essas mini pirâmides eu mostrei uma no post “A arquitetura dos faraós: túmulos e moradias”.

Mais um detalhe interessante é que o sepulcro possuiu outrora um pátio com um pórtico que abrigava a estátua [2].

Sobre Nakhtamon:

Esse homem viveu entre os reinados de Ramsés II e Merenptah e possuía o título de “Servente do Lugar da Verdade”. Conhece-se também os nomes dos seus parentes: seus pais eram Piay e Nefertka; sua esposa Nubemshaset e seus filhos chamavam-se Amenemopet e Piay. Ele também tinha três irmãos. Dois deles as tumbas são conhecidas: Ipuy (TT217), Neferrenpet (TT336) e Neferhotep [1].

Fontes:

[1] Se abre al público la tumba TT335 (Najtamón). Disponível em < https://www.aedeweb.com/actualidad-aede/se-abre-al-publico-la-tumba-tt335-najtamon/ >. Acesso em 03 de março de 2017.

[2] Najtamón túmulo TT 335 – Deir el Medina. Disponível em < http://egiptologia.org/?page_id=1240 >. Acesso em 03 de março de 2017.

Arqueólogos espanhóis descobrem quatro tumbas do 2° Período Intermediário

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Em Dra Abu el-Naga arqueólogos espanhóis do Proyecto Djehuty descobriram o sepultamento de quatro indivíduos que viveram no 2° Período Intermediário, durante a XVII Dinastia.

Uma das sepulturas pertence a um homem chamado Intefmose, o qual é identificado em sua tumba como “Filho do Rei” que de acordo com o arqueólogo José Manuel Galán, coordenador do projeto, poderia ser filho de Sobekemsaf. Seu sepultamento destaca-se por uma pequena capela construída com tijolos de adobe, erguida em frente a um poço de cerca de sete metros que leva até a tumba propriamente dita.

 

Imagem do príncipe Intefmose encontrada em sua tumba. Foto: CSIC. Disponível em < http://www.csic.es/ >. Acesso em 04 de abril de 2013.

 

Uma passagem na câmara funerária de Intefmose leva ao sepulcro de um segundo individuo, um funcionário chamado Ahhotep, denominado como “porta voz de Netjen” (Hieracômpolis, em grego), uma das cidades mais antigas do Egito. Neste local foram encontrados três shabtis de barro pintado com inscrições que identificam Ahhotep como o seu dono. Acerca destes artefatos Galán declarou na nota oficial do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC) [1]:

 

Dois destes shabtis se encontravam cada um dentro de pequenos sarcófagos de barro, decorados com uma inscrição em suas laterais e na tampa. O terceiro estava envolto em nove faixas de linho, como se se tratasse de uma verdadeira múmia e cada uma das faixas tinham restos de escritas em tinta negra. Estas figurinhas são de um estilo muito original e naïf, o que lhes dá um encanto especial e um caráter único ([1] tradução nossa).

 

Shabts de Ahhotep. Foto: CSIC. Disponível em < http://www.csic.es/ >. Acesso em 04 de abril de 2013.

Um dos shabt de Ahhotep. Foto: CSIC. Disponível em < http://www.csic.es/ >. Acesso em 04 de abril de 2013.

Shabt envolto em bandagens de linho de Ahhotep. Foto: CSIC. Disponível em < http://www.csic.es/ >. Acesso em 04 de abril de 2013.

 

Foi também durante esta temporada que o sarcófago de uma criança do sexo masculino de aproximadamente cinco anos e provável membro da realeza mais restos do acompanhamento funerário de um príncipe chamado Ahmose-sapair foram encontrados.

 

Sarcófago do garoto de cinco anos. Foto disponível em < http://www.abc.es/cultura/20130130/abci-proyecto-djehuty-descubren-sarcofago-201301301735.html >. Acesso em 04 de abril de 2013.

Sarcófago do garoto de cinco anos. Foto: CSIC. Disponível em < http://www.csic.es/ >. Acesso em 04 de abril de 2013.

 

Um vídeo sobre as pesquisas feitas nesta temporada:

 

 

Estas descobertas estão firmando Dra Abu el-Naga como mais uma das necrópoles reais do Egito faraônico, mas estas pesquisas possuem mais significado por tratarem com artefatos datados do 2° Período Intermediário, uma época de grandes mudanças no poder centralizado dos faraós, que sofre considerável declínio com a tomada do Delta por parte dos hicsos. Estes estrangeiros determinam Avaris como a capital do seu reino, enquanto que paralelamente os nativos governavam o sul do país a partir de Tebas.

 

Fontes da notícia:

El Proyecto Djehuty presenta los resultados de la XII campaña. Disponível em < http://www.csic.es/web/guest/home;j (…) >. Acesso em 04 de abril de 2013.

Arqueólogos españoles descubren en Luxor el ataúd de un niño de hace 3.500 años. Foto disponível em < http://www.abc.es/cultura/20130130/abci-proyecto-djehuty-descubren-sarcofago-201301301735.html >. Acesso em 04 de abril de 2013.

Bubastis: a antiga capital dos gatos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

O Egito, ao longo de seus séculos de existência, possuiu várias capitais onde se destacaram Tebas, Mênfis, Akhetaton e atualmente o Cairo. Dentre estas uma floresceu no Baixo – Egito e só teve sua decadência nos primórdios do período cristão: Bubastis.

Bubastis encontrava-se próximo a Aváris e Tânis, duas das cidades mais prosperas da antiguidade egípcia. Sua posição estratégica permitia controlar as rotas de Mênfis ao Sinai e consequentemente as vias que levavam à Síria (MALEK, 2008). Na literatura clássica o local era chamado de Bubasteion, mas dentre os egípcios a cidade era conhecida como Per-Bastet, “casa de Bastet” ou “pertencente à Bastet”. Já hoje, o lugar chama-se Tell-Basta e é popular pelas pesquisas na necrópole dos gatos. Importantes descobertas foram realizadas nos sítios arqueológicos da cidade como as sepulturas de alguns dos nobres da época do faraó Akhenaton e da tumba semi-rupestre de um dos dignitários de Ramsés II, Netcherouymes, que foi, possivelmente, um dos homens envolvidos no tratado de paz assinado entre os egípcios e hititas.

 

 

Relevo com imagem do faraó Osorkon II durante a festa 'heb-Sed'. Terceiro Período Intermediário, XXII Dinastia. Foto: Dietrich Wildung

 

Sua acessão como sede do governo se deu durante o Terceiro Período Intermediário (cerca de 1076 – 712 a.C, XXI – XXIV Dinastias), num tempo em que várias famílias de diferentes governantes comandaram simultaneamente o Egito. Foram os invasores líbios que transformaram Bubastis na capital, na medida em que a antiga sede, Tebas, entrava em declínio. (SILIOTTI, 2006)

Embora a cidade seja relacionada à deusa Bastet, em sua necrópole também existiam múmias de outros animais além do gato, cujo culto tornou-se popular durante a Baixa Época e principalmente período Ptolomaico. A figura do gato desempenhava um papel importante na cultura religiosa egípcia: além de representar a doçura ele também poderia ser considerado um dos símbolos do combate do bem contra o mal, já que existem representações de felinos lutando contra a serpente maligna Apophis.

 

Imagem de ruínas de um templo de Ramsés III em Bubastis. Foto: Dietrich Wildung.

 

Tamanha era a estima dos antigos egípcios pelos gatos que quando mumificados o corpo destes animais era depositado em pequenos esquifes de madeira, não raramente com o seu exterior coberto de estuque e pintado imitando-o em vida, e guardados em catacumbas. Devido ao culto muitos deste tipo de múmias eram vendidos a devotos que esperavam que o bichano intercedesse por eles aos deuses, o que acabou por se tornar uma atividade extremamente rentável aos sacerdotes.

 

Esquife de gato na coleção de Eva Klabin. Foto: Sérgio Zales. OBS: foto com o fundo modificado.

 

Bubastis experimentou a decadência com o início da era cristã no Egito, quando as antigas crenças dos faraós tornaram-se blasfêmias. A cidade não mais seria conhecida pelo o culto aos gatos e as pequenas múmias destes felídeos acabaram por ser negligenciadas nos séculos seguintes sendo vendidas como souvenir ou fertilizante e não muito raramente deixadas para traz pelos pesquisadores responsáveis pelas áreas de necrópoles de animais durante parte do século XIX. Apesar de abandonada outrora, hoje a cidade recebe a dedicação merecida por parte da academia, a exemplo da Missão Arqueológica Francesa (MafB) e seu trabalho no local. Já as múmias felinas hoje não são usadas mais como adubo, e sim como importantes objetos de estudo tal como as múmias humanas e até recebem tratamento não invasivo. O progresso no campo da arqueologia não alcançou só homens e mulheres, mas também os animais que conviveram com eles em sua capital.   

 

Referências:

MÁLEK, J; BAINES, J. Deuses templos e faraós: atlas cultural do Antigo Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 174 – 175. 2008

SILIOTTI, A. Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 59. 2006