Grandes mães egípcias: da deusa Ísis à rainha Cleópatra VII

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A imagem materna é importante para diferentes culturas, a exemplo do Egito Antigo onde um dos seus principais mitos, o de Ísis e Osíris, aponta a importância da figura da deusa Ísis como protetora do trono e a responsável pela a sobrevivência e educação de Hórus. Vale lembrar que Hórus era a representação do faraó e que as rainhas-mães eram associadas à Ísis.

Para saber mais sobre este assunto leia o texto “Ser mãe no Egito Antigo“.

Statuette of Isis and Horus (Met)

Ísis, no âmbito mitológicos, está no topo da importância em termos de maternidade, mas possuímos uma outra divindade relacionada com o meio materno: Bastet. Ela possuía o formato de uma gata e a sua amabilidade fez com que ela contrastasse com outra deusa, Sekhmet, a leoa com a qual usualmente era associada e que semeava a destruição, ao mesmo tempo que poderia ofertar a saúde.

E saindo da mitologia, possuímos vários exemplos reais de mães egípcias. Porém, por conta do passar do tempo algumas tornaram-se anônimas, outras conhecemos os nomes graças a sua posição política. Alguns exemplos são a rainha Nefertiti, Tiye e Cleópatra VII. Foi pensando em mulheres como elas que gravei há algum tempo um vídeo listando 5 mães famosas do Egito Antigo. Assista abaixo para conhecê-las.

Não foi fácil escolher poucas mulheres, mas está aí uma modesta lista com cinco nomes da antiguidade egípcia que chegaram até nós graças aos trabalhos de Arqueologia e Egiptologia. Notem que a minha escolha não se baseou em mães mais amáveis ou maternais, mas as famosas no meio acadêmico graças a feitos notáveis.
Originalmente Hatshepsut compunha a lista, mas retirei por respeito, já que a sua única filha faleceu muito jovem e na hora da organização do roteiro esqueci completamente de Tutmés III.

Também gravei para o canal um vídeo falando sobre a maternidade nos tempos dos faraós. confira:

A maternidade nunca foi uma tarefa fácil. As antigas egípcias que o diga. Neste vídeo apresento um pouco sobre como era exercer este papel na Antiguidade Egípcia e inclusive como ele era visto, por exemplo: vocês sabiam que a crença ditava que parte do coração do indivíduo era herdado da mãe durante a sua formação no útero?

 

(Vídeo) Maternidade no Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A maternidade nunca foi uma tarefa fácil. As antigas egípcias que o diga. Neste vídeo apresento um pouco sobre como era exercer este papel na Antiguidade Egípcia e inclusive como ele era visto, por exemplo: vocês sabiam que a crença ditava que parte do coração do indivíduo era herdado da mãe durante a sua formação no útero?

Provavelmente a rainha Nefertiti beijando uma de suas filhas. O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007.

— Leia também: Ser mãe no Egito Antigo

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Ser pai no Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Quando comecei a escrever este texto não fiquei surpresa por não encontrar nenhum artigo falando especificamente sobre a paternidade, no sentido de afetividade (zelo, amor por seus filhos) na antiguidade egípcia [1], porque eu sempre tive a impressão de que para muitos acadêmicos o ato de cuidar de crianças estivesse fora da enseada masculina ou que nem sequer ela fosse digna de ser estudada pela Egiptologia. Contudo, quando procuramos sobre a paternidade no sentido de virilidade o assunto torna-se digno de citação e isso é uma grande infelicidade porque estamos perdendo a oportunidade de observar as famílias egípcias de um ponto de vista amplo.

Pai com as suas crianças. Tumba de Inherkha. 20ª Dinastia. Deir el-Medina. STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p.25

Não sabemos bem qual era a situação social da paternidade ao longo do faraônico. Entendemos que o cuidado dos infantes até certa idade era praticamente a responsabilidade das mães e que essas tinham grande papel na identidade da criança em meio a sociedade, afinal, sabemos, por exemplo, que a criança, independente do seu sexo biológico, usualmente era relacionada, mesmo na idade adulta, com a mãe e raramente com o pai (DESPLANCQUES, 2011; COELHO; BALTHAZAR, 2012). Esse posicionamento era estendido ao âmbito funerário, onde a crença ditava que a progenitora doava parte do seu coração para o rebento no momento da gestação (STROUHAL, 2007).

Da parte do pai a crença ditava que a criança herdava os ossos, mas a importância não parava por aí: no faraônico já se tinha o órgão sexual masculino como o recipiente do mu, o esperma nos termos de hoje, onde estava a essência do bebê, o qual, para desenvolver, precisava ser depositado em uma mulher e é aí onde alguns acadêmicos acreditam que veio a perspectiva da criação egípcia ter sido iniciada por uma divindade masculina e não feminina (STROUHAL, 2007; WILFONG, 2010). Uma proposta aceitável, já que o óvulo não era conhecido, mas que é extremamente simplista, necessitando de mais debates.

Seti I e seu filho Ramsés II retratados no Templo de Abidos. 19ª Dinastia. O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark (a). Grandes civilizações do passado: Terra de faraós (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007. p. 14

Saindo do campo espiritual, os registros escritos nos dão uma imagem formal da educação dada de um pai para o seu filho, a exemplo dos “Livros das Instruções”, “Compendio de Instruções pelo Nobre e Real Príncipe Hordjedef” e a “Instrução de Ptahotep”, onde é apresentado o personagem do pai, que de forma ríspida passa concelhos de cunho moral e ético para o seu herdeiro (STROUHAL, 2007), mas saindo do campo da escrita, que usualmente partia do ponto de vista idealizado pela a elite, e observando os registros arqueológicos é possível observar um mundo muito mais amplo onde o amor paternal e sua preocupação com a educação de suas filhas e filhos demonstram um teor mais humano e menos protocolar.

Akhenaton brinca com uma de suas filhas. 18ª Dinastia. Amarna. STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p. 56.

A iconografia, ao lado de alguns textos literários ao estilo das instruções apresentadas acima, costumavam também retratar um ambiente formal e muitas vezes idealizado, mas em alguns momentos podemos ver exemplos de amor paternal, especialmente durante o Período Amarniano, quando vemos o faraó Akhenaton segurar suas filhas, acariciá-las e até brincar. Outro é Tutankhamon: ele nunca foi retratado cuidando de nenhuma criança, mas em seu túmulo foram encontrados dois corpos pequenos de bebês falecidos provavelmente um antes de nascer e o outro ligeiramente após o parto. Acredita-se que ambos sejam meninas e suas filhas. Independente da verdade o fato é que estas crianças foram sepultadas justamente no espaço do sepulcro reservado para guardar os órgãos internos do próprio Tutankhamon.

Se olharmos mais atentamente poderemos encontrar muito mais exemplos desta ligação mais afetuosa entre os pais e seus filhos, sejam biológicos ou adotivos. A Arqueologia, especialmente a latino-americana, está aí para isso e precisamos aproveitar este momento em que ela está cada vez mais aberta a entender o passado de uma perspectiva mais ampla para começar a levantar estas questões.

Referências:

BALTHAZAR, G. S.; COELHO, l. C. “As múltiplas sensibilidades do feminino na literatura egípcia do Reino Novo (c. 1550-1070 a.c.)”. In: CANDIDO, M. R. (Ed). Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG Ltda, 2012.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

GRALHA, J. “Senhora da casa, divindade e faraó as várias imagens da mulher do Antigo Egito”. In: CANDIDO, M. R. (Ed). Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG Ltda, 2012.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

WILFONG, T. G. “Gender in Ancient Egypt”. In: WENDRICH, W. (Ed). Blackwell Studies in Global Archaeology: Egyptian Archaeology. New Jersey: Wiley-Blackwell, 2010.

Crianças no Antigo Egito

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A relação entre os egípcios adultos e suas crianças, especialmente aquelas de fora da enseada da realeza, ainda nos é nebulosa. Dentre algumas características gerais é determinado que na estatuária ou iconografia elas usualmente fossem representadas pondo o indicador na boca ou menor que as demais figuras, embora pareçam representar pessoas mais maduras.

Ramsés II representado como uma criança chupando o dedo. Foto disponível em < http://www.panoramio.com/photo/8724911 >. Acesso em 12 de outubro de 2014.

Do lado mais espiritual, a crença ditava que era a deusa da escrita Seshat quem definia por quantos meses ou anos a criança viveria, mas que existiam vários males que estariam na espreita esperando uma brecha dos pais (STROUHAL, 2007). Por outro lado, havia varias rezas e amuletos que poderiam servir para proteger a criança tanto de doenças como de mortes trágicas.

Além destas informações temos conhecimento, também gerais, de outros aspectos da vida infantil e que envolvem desde o lado lúdico mais a vivência no âmbito familiar e até a morte.

Brinquedos:

O arqueólogo inglês Flinders Petrie durante suas pesquisas descreveu artefatos que julgou serem brinquedos, tais como bonecas representando mulheres segurando seus bebês, animais comuns na antiga paisagem egípcia, barquinhos, bolas (feitas de tecido, papiro ou couro, recheadas com palha) e até pequeninas múmias em seus ataúdes (STROUHAL, 2007), mas as brincadeiras poderiam ser diversas e contavam muito com a criatividade e a imaginação infantil. Madeira, pedras e até plantas podiam proporcionar muito divertimento, fruto da engenhosidade que podemos notar até nas crianças da atualidade.

Princesa amarniana em jardim. STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. pág. 7.

Além dos brinquedos, elas se distraiam com jogos frívolos como testar seu equilíbrio (sobre tábuas ou sobre os ombros dos seus próprios amigos), corrida, brigas, danças, natação e o conhecido “pisar nas uvas” que consistia em se dar as mãos fazendo um círculo, como em uma ciranda, e girar: enquanto algumas crianças ficavam de pé outras eram levadas ao chão, mas sem tocá-lo totalmente.

Garotas brincando de “pisar nas uvas”. STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. pág. 26.

Trabalhos e obrigações:

A partir dos cinco anos as crianças já começavam a ser treinadas para o trabalho, exercendo diferentes funções, dependendo do que se esperava dela, indo das mais simples até as mais complexas com a passagem dos anos. Entretanto, uma carta da 18ª Dinastia (Novo Império) nos alerta que crianças deveriam ser tratadas de fato como crianças ao reprimir uma família que tomou uma menina jovem como funcionária (FROOD, 2010). Não era incomum também que as crianças herdassem as atividades dos pais, por exemplo, filhos de sacerdotes tendiam a assumir postos semelhantes, ou em caso de oferendas familiares que eram levadas a diante pelos filhos (FROOD, 2010; SPENCER, 2010).

Adultos e crianças trabalhando. STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. pág. 36.

Vestimenta:

As crianças egípcias raramente eram representadas vestidas. O normal, tanto entre as classes comuns como entre a realeza, eram os infantes viverem nus e descalços (FROOD, 2010). Como uma assinatura de sua infância tanto meninas como meninos usavam um corte de cabelo especifico, constituído por uma cabeça praticamente raspada, exceto por uma mecha lateral comprida (usada normalmente até os dez anos). Em casos especiais, como os das princesas ou príncipes que eram obrigados a chegar à maioridade devido à acessão ao trono, estes eram representados como adultos, ou seja, totalmente carecas, usando perucas ou com os cabelos integralmente crescidos.

Pai na companhia de suas filhas. TROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. pág. 25.

Tutankhamon quando criança representado com vestimentas de um adulto, já que era um faraó. Disponível em < http://www.griffith.ox.ac.uk/gri/carter/gallery/p0686als.html >. Acesso em 20 de Novembro de 2011.

Alimentação:

Durante o século I a.E.C, o historiador grego Diodoro Sículo escreveu que “(…) até o momento de seu completo crescimento, a criança não custa aos pais mais que vinte dracmas” (STROUHAL, 2007, 25) e este talvez seja um quadro semelhante para os tempos mais pretéritos.

Após o seu nascimento esperava-se que a criança fosse alimentada com o leite materno o máximo quanto fosse possível. A literatura indica que em alguns casos elas poderiam ser alimentadas até os três anos. Durante este período algumas crianças estavam livres de morrer por infecções, contudo, em alguns casos, a morte vinha a ocorrer devido a uma falta de adaptação durante a troca do leite materno para outro tipo de alimentação que usualmente era constituída por talos de papiro, pão e cerveja (STROUHAL, 2007).

Morte:

Observando os registros arqueológicos vemos que aparentemente as crianças que tinham mortes prematuras, especialmente as natimortas ou falecidas ligeiramente após o evento do parto, não possuíam um túmulo exclusivo para elas, sendo sepultadas com a mãe ou o pai, dependendo de quem falecia primeiro. Contudo, ao menos fora da realeza, existem situações em que o corpo era posto em um recipiente de barro e sepultado ao lado da casa ou dentro dela. Supostamente em casos particulares, quando a família não conseguia estabelecer uma ligação fraternal com a criança falecida, o corpo era deixado nos limites do deserto ou jogado no Nilo, para ser devorado pelos animais (STROUHAL, 2007).

Observando algumas múmias remanescentes é possível notar que o zelo no embalsamamento que foi dado para os adultos foi transmitido para os infantes (STROUHAL, 2007), mas isto para aqueles cuja família tinha condições de pagar. Para as crianças mais pobres nos restam somente alguns ossos frágeis. A diferença é notada também no involucro: as abastardas eram sepultadas em pequenos ataúdes de madeira ou de ouro (como foi o caso das filhas de Tutankhamon), já as carentes tinham como proteção ou já citados potes de barro, tecidos ou esteiras de palmeiras. Já o espólio funerário era composto de amuletos, jarros e brinquedos (STROUHAL, 2007).

No lado direito está uma caixa destampada com os dois pequenos ataúdes que guardavam os corpos dos dois bebês (provavelmente filhas de Tutankhamon) encontrados na KV-62. Foto disponível em < http://www.vazyvite.com/html/egypte/egypte_luxor3.htm >. Acesso em 12 de outubro de 2014.

Referências:

Frood, Elizabeth. Social Structure and Daily Life: Pharaonic. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

Spencer, Neal. Priests and Temples: Pharaonic. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Casamento e virgindade no Antigo Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O ocidente se criou sob a sombra das famílias patriarcais, onde a “honra imaculada” da mulher era muito presada. Esta foi uma regra comum entre os membros da elite, que além de apoiar o domínio dos pais, irmãos e futuramente os maridos, procurava garantir que o patrimônio não seria dado para uma criança gerada de outro homem. E foi inspirado neste pensamento que os primeiros egiptólogos começaram a interpretar o casamento no Egito Antigo, modelo esse que é seguido ainda hoje, sem críticas mais apuradas. Por exemplo, a interpretação do papel de cada conjugue no casamento parece ter sido “infectado” pelo o ponto de vista da nossa contemporaneidade.

Usualmente é descrito que homens eram os mantedores da casa, enquanto a mulher era a responsável pela a organização do lar e o cuidado dos filhos. Temos até textos clássicos que são usados para afirmar isto, como o “Ensino de Ptahhotep” (ZABA, 1956 apud TOIVARI-VIITALA, 2013) em que um rapaz é aconselhado a fundar uma família quando ainda é jovem para poder ter crianças. Ele deve amar sua esposa, respeitá-la e mantê-la sob controle, mas este texto é proveniente da elite e não parece ter sido adotado como uma regra geral, mas somente um conselho entre partidários. O próprio Strouhal (2007), que será amplamente citado neste texto, defende uma visão arcaica do que teria sido o casamento no Egito Antigo, contudo, observando os indícios escritos e arqueológicos de uma forma mais questionadora observamos que a realidade poderia ter sido um pouco mais diferente. De fato o cuidado com a criança parecia ser uma prioridade da mãe, contudo, a gerência do lar poderia ser do homem ou da mulher.

Cena familiar no Antigo Egito. Imagem disponível em < http://artehistoriaegipto.blogspot.com.br/2012_01_22_archive.html >. Acesso em 10 de setembro de 2014.

No Período Faraônico, a palavra utilizada para designar esposa foi Hmt e marido hay (TOIVARI-VIITALA, 2013). Estas menções foram encontradas em vários objetos que tinham como uma de suas funções apresentar ao receptor a ligação matrimonial entre um homem e uma mulher e são vistos deste os primórdios das dinastias. As referências textuais ao casamento mais antigas são provenientes do Antigo Reino em edifícios, túmulos da realeza e artefatos móveis, usualmente derivados da elite. Tais referências consistem na descrição de algum título que indica o estado civil dos citados, ou seja, a condição deles de casados (TOIVARI-VIITALA, 2013).

Merit e seu esposo Maya. Imagem disponível em < http://www.rmo.nl/english/collection/highlights/egyptian-collection/statue-of-maya-and-merit >. Acesso em 08 de julho de 2014.

Embora anteriormente à 16ª Dinastia (Segundo Período Intermediário) as mulheres gozassem de certa liberdade — o que para gregos e romanos era considerado algo escandaloso (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007) —, quem definia se o homem que elas tinham escolhido era o ideal era o pai e na ausência deste um tio, contudo, após este período, elas tinham voz em suas decisões, embora casamentos arranjados tenham existido até o final do Faraônico (STROUHAL, 2007).

Algo como “noivado”, ou um acordo prévio que tratasse o casamento como uma promessa entre um casal é desconhecido, mas o par estava livre para namorar e mesmo ter relações sexuais (STROUHAL, 2007). O enlaço sexual, tanto antes, como posterior ao casamento, era aconselhado para que ocorresse somente após a puberdade de ambos os jovens e no caso de uma gravidez indesejada, embora o aborto não fosse bem visto (já que a ideia era perpetuar a linhagem da família), existiam receitas para realizar o que chamavam de “desvio de gravidez” (STROUHAL, 2007).

Contudo, quando se tratava de um futuro casal da realeza, a aliança poderia ocorrer muitos anos antes da maturação sexual do casal, visando não o amor ou a harmonia entre os casados, mas a conveniente união entre famílias e ordens religiosas.

Tutankhamon e Ankhesenamon. Imagem disponível em < http://www.ancient-egypt.co.uk/luxor/images/luxor_2004_027.jpg >. Acesso em 10 de setembro de 2014.

Sabe-se que era popular o matrimônio incestuoso tanto dentro da realeza, como entre as camadas mais populares, no entanto, tal prática tornou-se de fato obrigatória durante o Período Ptolomaico, quando a nobreza tentou agregar para si uma identidade semelhante aos dos deuses (STROUHAL, 2007). Porém, não necessariamente um casal que chamam um ao outro de “irmã (o)” de fato tinham uma ligação sanguínea. Em verdade tal termo buscava explanar algo carinhoso, indicando um forte vínculo com quem se amava (STROUHAL, 2007).

A festa para comemorar a nova vida juntos usualmente consistia em um banquete que reunia o casal com seus familiares e amigos. Um acordo social — escrito e assinado na presença de testemunhas — definia quais eram os bens da mulher e do homem antes do casamento, em uma eventual separação era necessária a correta divisão dos bens segundo este acordo. Contudo, no caso de grandes discórdias, eram feitas seções para decidir o que cada um tinha por direito (STROUHAL, 2007).

Nebamun e sua esposa. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/menesje/sets/72157622616113777/ > Acesso em 14 de maio de 2011.

Como o sexo era permitido antes do matrimonio, naturalmente é de considerar que a virgindade não era um tabu ou algo necessário. O que se esperava é que a esposa não estivesse grávida de outro homem. Embora uma criança com uma ligação sanguínea com a família fosse desejada, a adoção foi um ato cultural e existem registros de testamentos tanto de mulheres como de homens que deixaram seus bens para filhos adotivos (STROUHAL, 2007).

O adultério era condenável para ambos os lados. Caso o casal julgado fosse condenado, ambos eram chicoteados publicamente ou marcados e existiram penas que iam desde o exílio para a Núbia até cortar o nariz ou as orelhas (STROUHAL, 2007). Se levarmos a sério os textos ficcionais como o Papiro Westcar, podemos crer que a pena de morte para estes casos no Antigo Reino era aceitável. Nele, um sacerdote traído pede auxílio ao Faraó, que por sua vez condena o amante da esposa a ser devorado por um crocodilo feito de cera (que se transforma em um animal de verdade) e a mulher a ser queimada e tuas cinzas jogadas no Nilo (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007). Acontecimento semelhante é contato na história dos irmãos Bata e Anúbis: este último, ao descobrir que a esposa assediava o irmão, pede o assassinato da mesma e que o seu corpo seja jogado aos cães (STROUHAL, 2007). Contudo, ao contrário desses textos, nem todas as traições terminavam de forma dramática, alguns documentos citam o divórcio por tais motivos sem incidentes (STROUHAL, 2007; LORTON, 1977; GALPAZ-FELLER, 2004; TOIVARI-VIITALA, 2001 apud TOIVARI-VIITALA, 2013).

Entretanto, a violência contra o gênero feminino também foi registrada em textos não fictícios, como atesta um documento onde a mulher denuncia o crime:

“Meu esposo me bate com um látego, e quebrou meu braço como se fosse um junco. Meu primogênito me deu um pontapé, e esta manhã não pude levantar-me da cama” (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007, pág 111).

Outro motivo para o divórcio poderia ser a não satisfação sexual: a esposa poderia acusar o marido de não satisfazê-la sexualmente e assim dar entrada na separação (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007). Procurando evitar isto alguns homens acionavam médicos que cuidavam do seu problema, definido como “doença de homem” (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007).

União homossexual:
Alguns pesquisadores têm se empenhado, desde o início da Egiptologia, em negar a existência da prática homossexual no Egito Antigo, a exemplo de Frank Fortis que na década de 1950 tendia a negar veemente o enlace sexual entre pessoas do mesmo gênero, ao mesmo tempo que afirmava que tal prática era tolerada. Além deste discurso contraditório ele possuía uma visão preconceituosa, afirmando que as mulheres e homens egípcios eram miseráveis sexualmente e limitados culturalmente (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007).

Mas, a despeito da negativa, existem textos egípcios que apresentam a homossexualidade tais como o do Papiro Prisse (Médio Reino), em posse da Biblioteca Nacional de Paris e o Papiro 10509, sob a custódia do Museu Britânico (EL-QHAMID; TOLEDANO, 2007).

Referências:

COELHO, Liliane Cristina; BALTHAZAR, Gregory da Silva. As múltiplas sensibilidades do feminino na literatura egípcia do Reino Novo (c. 1550-1070 a.c.). In: CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG ltda, 2012.
EL-QHAMID; TOLEDANO, Joseph. Erotismo e sexualidade no Antigo Egito (Tradução de Suzel Santos, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007.
STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.
TOIVARI-VIITALA, J. “Marriage and Divorce”. UCLA Encyclopedia of Egyptology, 1-17. Retirado de https://escholarship.org/uc/item/68f6w5gw (2013)

Ser mãe no Egito Antigo

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Ser mãe durante o Egito Antigo concebia à mulher, a posição de ser a responsável pela perpetuação da sua família e consequentemente a imortalidade da mesma através das gerações. A importância da concepção de uma criança é vista nos principais mitos, especialmente o de Ísis e Osíris, onde a deusa se empenha em engravidar do marido já falecido, para dar uma continuidade à família.

Existiam ainda significados especiais na maternidade e que usualmente era levado para o hábito funerário. Por exemplo, a crença ditava que a criança adquiria os ossos do seu pai e os tecidos moles da mãe, incluindo parte do coração dela (STROUHAL, 2007). Era pensando nisso que um dos trechos do Livro dos Mortos trazia versos voltados diretamente para a figura maternal, tal como o que veremos a seguir:

Meu coração, minha mãe; meu coração, minha mãe!

Meu coração por meio do qual nasci!

Nada surja para opor-se a mim no meu julgamento;

Não haja oposição a mim na presença dos príncipes soberanos;

Não haja separação entre ti e mim na presença do que guarda a balança! (BUDGE,2002, p 215 apud CÉSAR, 2008).

O ato de ser mãe era tratado também como algo sagrado. Muitos dos aspectos desta condição eram retratados em relevos religiosos e até mesmo utilizados em amuletos, a exemplo do ato de amamentar, usualmente visto em imagens funerárias, onde Hathor, como protetora do falecido, o alimenta pelo seio quando ela está em sua forma de vaca, ou Ísis, cuja imagem que a representa dando de mamar a Hórus era utilizada como amuleto de proteção.

Rainha Aqaluqa representada como Ísis amamentando. Imagem disponível em < http://wysinger.homestead.com/nubians5.html >. Acesso em 11 de maio de 2014

Durante o desenvolvimento do feto, os pais poderiam se apegar à deusa hipopótamo Tauret, para ela proteger a vida da mãe e da criança e providenciar um bom nascimento, já que os riscos advindos do parto era um dos principais fatores de mortalidade entre as mulheres (STROUHAL, 2007). Já Hathor, dentre tantas propriedades, era constantemente associada à maternidade – é tanto que nas décadas finais do Novo Império foi sincretizada à Isís, divindade com qualidades semelhantes -. Ela provavelmente foi uma das deusas mais respeitadas neste sentido, tanto em um aspecto político, como religioso. Contudo, era Bastet, a deusa gata, quem zelava pelo o amor familiar, especialmente o maternal. Sua dedicação para com os filhos era tamanha que alguns pesquisadores tendem a associar sua fúria como Sekmet como uma forma de proteger as suas crias contra o mal.

Mulher colhendo figos enquanto cuida de uma criança de colo. Tumba de Montemhet. Luxor. 25ª Dinastia. Fonte da imagem: STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007. p. 22.

Mas não eram somente deusas que presavam pelo bem estar das crianças e da mãe, Bés, um deus anão, sempre estaria na espreita para afastar espíritos malignos, especialmente durante o sono.

Deus Bes.

Deus Bés.

Tal como hoje, ser mãe não era tarefa fácil. A grande responsabilidade da maternidade chegou até mesmo a ser utilizada nas “Lições de Ani”, em uma tentativa de fazer com que o leitor reflita acerca de suas atitudes:

Quando o momento chegou e tu nasceste, ela aceitou a carga de por o peito em tua boca durante três anos (STROUHAL, 2007, p 23).

E para as mães menos experientes existiam regulamentos escritos denominados “Ensalmos para mães e filhos” que, embora possuam ideias equivocadas e supersticiosas, era uma tentativa de diminuir os anseios das mães, tal qual um manual moderno para conviver com a maternidade, com a diferença que os ensalmos eram repletos de rezas (STROUHAL, 2007). Eis um exemplo do que poderia ser lido:

Sai! Visitante das trevas, que te arrastas com o nariz e rosto atrás da cabeça, sem saber por que estais aqui!

Viestes beijar esta criança? Proíbo-te!

Viestes mimar esta criança? Proíbo-te!

Viestes afastá-la de mim? Proíbo-te! (STROUHAL, 2007, p 24).

Embora o poder centralizado usualmente fosse herdado por homens, tradicionalmente na Egiptologia se argumenta que quem era responsável pela legitimidade real eram as mulheres (DESPLANCQUES, 2011), embora existam debates adversos a esta teoria (COELHO; BALTHAZAR, 2012). Caso tal discurso seja verídico, essa postura provavelmente tinha alguma ligação com o mito de Ísis e Osíris, onde foi a deusa quem articulou a subida ao trono de seu filho, quando ele foi impedido pelo tio assassino.  Em verdade os filhos, mesmo adultos, usualmente eram associados ao nome da mãe (COELHO; BALTHAZAR, 2012).

 

Referências:

CÉSAR, Marina Buffa. Livro dos Mortos, uma discussão acerca do Capítulo 30. Nearco (Rio de Janeiro), v. 1, p. 66-80, 2008.

COELHO, Liliane Cristina; BALTHAZAR, Gregory da Silva. As múltiplas sensibilidades do feminino na literatura egípcia do Reino Novo (c. 1550-1070 a.c.). In: CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e Editora-DG ltda, 2012.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.