Estátua colossal de faraó não pertence a Ramsés II, mas provavelmente a Psamético I

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Um grande assunto no meio da Egiptologia nas últimas semanas foi a descoberta de fragmentos de uma estátua colossal em uma periferia do Cairo, onde outrora foi a cidade de Iunu, denominada entre os gregos como Heliópolis. Amplamente conhecida pela devoção ao deus Sol Rá, Iunu possuía um dos mais importantes centros de culto do Egito, mas que foi destruído gradativamente após o fim da era dos faraós.

Foto: Nevine Al-Aref.

O torso e a cabeça. Foto: Reuters.

A estátua, antes referida como pertencente ao Período Ramséssida (Novo Império; 19ª Dinastia), após sua remoção da trincheira feita pelos pesquisadores revelou o nome do seu verdadeiro dono: ali não é o famoso Ramsés II, mas aparentemente Psamético I, que reinou como rei do Egito durante a 26ª Dinastia, Baixa Época. Esta crença baseia-se no fato de que um dos seus cinco nomes foi encontrado na imagem.

Parte da cabeça. Foto: Luxor Times.

A notícia foi dada pelo Ministro das Antiguidades, Khaled El-Enany, que pontuou que caso ela seja mesmo de Psamético I será a maior estátua do Período Tardio descoberta até então [1].

A estátua colossal:

De acordo com o arqueólogo responsável pelas pesquisas na área, Dietrich Raue, essa imagem, feita de quartzito, um dia possuiu cerca de 9 metros de altura [1]. Atualmente só foram encontrados dois grandes fragmentos seus — parte de trás da cabeça e o torso —, e ambos estavam no lençol freático. A cabeça, cuja remoção tornou-se uma grande polêmica e o torso foram transportados para o Museu Egípcio do Cairo e futuramente farão parte do acervo do Grande Museu Egípcio.

Ilustração: @marciasandrine

Representações de faraós e rainhas de tal tamanho tinha a intenção de demostrar o poder real e a divindade dos soberanos. Iconografias nos dão a ideia de como algumas dessas grandes imagens eram feias: com o auxílio de brocas e cinzeis elas eram esculpidas pelos chamados seankn, “aqueles que davam a vida” (BRANCAGLION Jr., 2001). Para otimizar o trabalho elas poderiam ser transportadas semi-prontas e depositadas no templo, onde eram finalizadas (BAINES; MALEK, 2008); para isso andaimes de madeira eram utilizados e uma equipe fazia os retoques e a pintura.

Reconstituição das atividades dos escultores.

A tradição da construção de estátuas colossais teve o seu auge no Novo Império e seguiu até o final do Período Faraônico. O tipo de material variava: o comum era o calcário, mas poderia ser de quartzito (como no caso da deste post), granito ou alabastro.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção de uma grande estátua.

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Fonte:

[1] Newly discovered Matariya colossus is probably of King Psammetich: Ministry. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/261102/Heritage/Ancient-Egypt/Newly-discovered-Matariya-colossus-is-probably-of-.aspx >. Acesso em 17 de março de 2017.

Egypt Pharaoh statue ‘not Ramses II but different ruler. Disponível em < http://www.bbc.com/news/world-middle-east-39298218 >. Acesso em 17 de março de 2017.

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito(Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

BRANCAGLION Jr., Antonio. Tempo, material e permanência: o Egito na coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra – Fundação Eva Klabin Rapaport, 2001.

 

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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