Encante-se com o templo da faraó Hatshepsut

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

O templo funerário da faraó Hatshepsut foi talhado nas rochas de Deir el-Bahari. Sua construção em terraços foi influenciada pelo estilo do templo de Mentuhotep II, o qual é seu vizinho.

— Saiba mais: Um vislumbre da faraó-mulher Hatshepsut

O que um turista vê nos dias de hoje, embora grandioso, são somente os vestígios das suas fundações. Ainda assim o local é um espetáculo único.

Temple of Hatschepsut near Luxor

Deir el Bahari

DEIR EL BAHARI

DEIR EL BAHARI TEMPLE

Deir el Bahari

Deir el-Bahari

Deir el-Bahari, Hatschepsut-Tempel

Deir el Bahari

kairoinfo4u "Deir el Bahari"

Djeser-Djeseru

Deir el-Bahari

Deir El Bahari, EgyptO templo de Hatshepsut (esquerda) e de Mentuhotep II (direita) vistos do alto.

Hatshepsut reinou por pouco mais de duas décadas e foi precedida por seu enteado, Tutmés III. Para saber mais sobre ela clique aqui.

A faraó que não seria esquecida

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Hatshepsut foi uma faraó que viveu no início da 18ª Dinastia (Novo Império). Já comentei sobre ela em dois outros posts aqui no Arqueologia Egípcia e brevemente no vídeo “Mulheres Faraós“.

No vídeo abaixo temos uma animação apresentada no TED-Ed (um projeto que une educadores com animadores) onde a história de Hatshepsut é apresentada de forma resumida. Nesse caso a pesquisadora é a Kate Narev. O vídeo está em inglês, mas vocês podem habilitar as legendas no próprio Youtube (na aba do play tem um quadradinho ao lado de uma engrenagem: é lá que você habilita e escolhe a língua).

Uma nota sobre o vídeo: outras faraós chegaram a reinar no Egito, inclusive antes da própria Hatshepsut. E alguns pesquisadores acreditam que a memória dos feitos dela foram apagados não por ódio, ou exclusivamente por uma questão de gênero, mas para manter a legitimidade do trono do filho de Tutmés III; lembre-se que enquanto Hatshepsut era filha do faraó com uma Grande Esposa Real, o seu enteado, Tutmés III, era filho de uma esposa secundária. Ser pouco legítimo para assumir o trono era muito mais grave para Maat do que ter uma mulher assumindo o governo. Por isso que a destruição só ocorreu 20 após ele assumir o reino.

Imagem 1: Faraó Hatshepsut usando uma barba falsa. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. p. 123.

— Saiba mais: Um vislumbre da faraó-mulher Hatshepsut

— Saiba mais: A faraó Hatshepsut precisou se portar em tempo integral como um homem?

Por fim, indicarei aqui um artigo meu que fala sobre a forma que os pesquisadores têm analisado os remanescentes arqueológicos relacionados com mulheres: Como a Arqueologia tem minimizado o papel das mulheres egípcias que viveram na Antiguidade faraônica.

(Vídeo) Mulheres faraós

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

Para aqueles que já assistiram documentários ou leram livros acerca da antiguidade egípcia é certo que ouviram, ao menos uma vez, o nome de Hatshepsut, uma faraó que governou o Egito nos primeiros anos da 18ª Dinastia. Entretanto, ela não foi a única mulher a reinar como tal.

Faraó Hatshepsut usando uma barba falsa. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. p. 123.

Para o canal do Arqueologia Egípcia no Youtube gravei um vídeo que irá situar vocês no assunto. Aproveitem e inscrevam-se e aumentem a nossa comunidade:

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Festival da Bebedeira no Egito Antigo + Vídeo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Imagine que dias após a comemoração de virada do ano você está se preparando com a sua família para mais dias de festa com dança, música, comida e em muita bebida. Não é um cenário difícil de idealizar, especialmente se você for um folião. Contudo, o que eu pedi para vocês vislumbrarem é um acontecimento comum do período faraônico, o “Festival da Bebedeira”, e não o Carnaval.

Apesar da coincidência, ambas estas festas têm pouquíssimas coisas em comum, uma delas certamente é o motivo da comemoração. O Carnaval, que apesar de ser um evento popular no Brasil, não é uma festa genuinamente brasileira, acredita-se que remonta a Antiguidade, sendo advindo da Mesopotâmia e comemorado até mesmo na Grécia e em Roma [1]. Será?

No caso da Mesopotâmia a principal característica desta festividade era a subversão de papéis sociais, já na Grécia e Roma seria a entrega aos prazeres da carne, tais como a embriagues e as orgias.

Homens totalmente embriagados sendo carregados para fora de uma festa. Beni Hasan. Autor: Desconhecido.

Com o passar dos anos e o poder cada vez mais crescente da Igreja católica estes tipos de festividades começaram a ser vistas como praticas pagãs. Assim, a partir do século VIII, com a criação da Quaresma, tais festas passaram a ser realizadas nos dias anteriores a este período religioso. Ou seja, as pessoas poderiam cometer excessos e se submeter a subcultura e depois teriam a oportunidade de pedir perdão a Deus.

Mulher vomitando após beber em excesso. Autor: Desconhecido.

Porém a “Festa da Bebedeira” tinha uma proposta integralmente religiosa. Ela rememorava o mito de Hathor-Tefnut ou Hathor-Sekhmet, filha do deus Rá, deus Sol criador, que a pedido do pai foi ao Egito dar uma lição na humanidade (JUNKER 1911 apud POO, 2010): Rá estava extremamente descontente com as ações torpes dos humanos e solicitou que a sua filha resolvesse a situação. Porém, ela usou da violência e realizou um verdadeiro massacre. Este não era o objetivo de Rá, que para apaziguar a sua filha verteu vinho no Nilo para confundi-la — ela pensaria que ali seria sangue humano ou o tom avermelhado da água após as inundações —. O plano deu certo, ao saciar sua sede no grande Rio a deusa ficou extremamente embriagada, deixando os humanos em paz (POO, 2010).

Apesar dos nomes Hathor-Tefnut ou Hathor-Sekhmet serem utilizados para definir a tal deusa, convencionou-se a chamá-la de Hathor ou Sekhmet. Apesar destas duas terem propriedades bem diferentes, elas foram sincretizadas em vários momentos (POO, 2010).

A Festa da Bebedeira era comemorada logo após o início do ano egípcio — que na antiguidade ocorria no segundo semestre do nosso calendário — porque, de acordo com o mito, a chegada de Hathor-Sekhmet ao Egito correspondia com a Estação Aket, ou seja, a subida das águas do Nilo, como um texto religioso afirma:

“É o pai de [Hathor], Rá, quem criou isto para ela quando ela voltou da Núbia, de modo que inundações são dadas para o Egito” (POO, 2010).

Esta comemoração era realizada no dia seguinte ao fim do Festival Wag, que por sua vez era celebrado no início das enchentes em Thot (primeiro mês da Estação Aket) (SCHOTT 1950 apud POO, 2010) e que objetivava a celebração da ressurreição da vida trazida pela inundação.

A embriaguez estava aberta para todos e a bebida era distribuída pelo Estado. Em um dia comum a intoxicação por álcool não era vista como algo tão desprezível (embora existam alguns textos moralistas acerca), mas neste evento em questão era totalmente aceitável. Logo as ruas e templos abertos ficavam cheios de pessoas embriagadas não só em homenagem à deusa, mas em agradecimento a chegada das cheias do Nilo (POO, 2010).

— Saiba mais: A cerveja no Egito Antigo: desde a intoxicação ao seu uso religioso

Em soma, muitos líquidos eram sagrados durante o faraônico, dentre eles o vinho e a cerveja, por isso que durante este festival também ocorriam as libações (POO, 2010). Sabemos que durante a oferta da cerveja o seguinte trecho de uma música poderia ser cantado:

“Tome a cerveja para apaziguar seu coração. Para o seu Ka conforme seu desejo, como eu faço música antes de você” (POO, 2010).

Ao final do festival, todos retornavam para casa para curar a ressaca e planejar o início do ano, mas a saga pela sobrevivência não tinha terminado. Outras festas religiosas pedindo por um bom plantio ou pelo fortalecimento da vida ainda viria, mas nenhuma era comparável a intoxicação do Festival da Bebedeira.

Abaixo está um vídeo onde comento sobre o festival:

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Fonte:

[1] PINTO, Tales Dos Santos. “História do carnaval e suas origens”; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval.htm>. Acesso em 04 de fevereiro de 2016.

POO, Mu-chou. “Liquids in Temple Ritual”. In: DIELEMAN, Jacco; WENDRICH, Willeke; FROOD, Elizabeth; BAINES, John. UCLA Encyclopedia of Egyptology. Los Angeles: UC Los Angeles, 2010.

TALLET, Pierre. A culinária no Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Júlia Braga, Joana Bergman). Barcelona: Folio, 2006.


  • As imagens neste post não são ilustrações do Festival da Bebedeira, mas de outras festas. São meramente ilustrativas.

A faraó Hatshepsut precisou se portar em tempo integral como um homem?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

Faraó Hatshepsut usando adereços masculinos. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

Faraó Hatshepsut usando adereços masculinos. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

O leitor e aluno de Arqueologia da UFS, José Nicolas Santos, deixou uma pergunta interessante no post sobre a faraó Hatshepsut. Ele quer saber se por conta dela se fazer representar fisicamente como um homem nos templos e mitos após se tornar faraó, se ela também o fazia em frente aos súditos e teria inclusive que se portar tal como um homem. Eu o respondi lá no próprio post, mas coloco também a resposta aqui com algumas informações complementares:

Ao contrário de outras faraós, aparentemente a Hatshepsut foi a única que utilizou todo um vestuário masculino (outras tendiam a utilizar somente alguns objetos, uma delas, a Sobekneferu, usava a roupa masculina por cima da feminina) ao se fazer representar como Faraó. Ela, inclusive, era registrada em imagens totalmente como a aparência da biologia masculina, mas provavelmente não adotou um modo de vida como um homem, afinal, não teve uma Grande Esposa Real, o que era usual para aqueles que exerciam o cargo régio.

Outras faraós também não adotaram Grandes Esposas Reais, o que levou à conclusão por parte de alguns acadêmicos de que como as Faraós eram mulheres assumindo roupagens masculinas elas já englobavam a dualidade masculina e feminina que unidas criavam o equilíbrio, assim não era necessário ter uma Grande Esposa Real, o que, inclusive, tendia a criar um problema de sucessão, exceto para Hatshepsut, que já tinha Tutmés III para substituí-la.

Sobre aparecer para o povo, não era comum ao faraó se mostrar para a população, independente se eram das classes mais baixas ou da nobreza, alias isto era algo extremamente honroso, só para ter uma ideia era tão incomum alguém olhar para a figura do faraó que quando uma pessoa tinha o privilégio de beijar a areia que ele acabou de pisar (já que usualmente era o local que eles poderiam olhar) achava digno registrar isto em sua tumba.

Hatshepsut (esquerda) realizando oferendas para Amon-Min. Foto disponível em: MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

Hatshepsut (esquerda) realizando oferendas para Amon-Min. Foto disponível em: MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

Além do mais, no caso da Hatshepsut, a população comum em peso era iletrada e não tinha acesso aos templos para saber bem o que estava ocorrendo, exceto o básico, que Hórus estava reinando, mas de fato para muitos, inclusive de fora do ambiente sacerdotal, não era segredo que Hatshepsut era uma mulher e aparentemente conviviam bem com isto: ela era a filha de um deus, sua acessão ao trono era um programa divino e o país estava cada vez mais rico sob sua gerencia. Em resumo, ela estava cuidando bem da manutenção da Maat, ou seja, do equilíbrio.

Já no seio familiar não sabemos se ela adotava este discurso, se ela utilizava roupas masculinas ou femininas. Infelizmente a iconografia desta época era voltada basicamente para a ideologia religiosa. Mas para não se pensar que tudo era somente paz, especula-se no meio da Egiptologia que um grafite encontrado em uma pedreira egípcia, próxima a Deil el Bahari, registrando uma mulher com uma coroa real (mais especificamente o Nemes) tendo relações sexuais com um homem poderia se tratar de Hatshepsut e Senenmut, o que mostra que poderiam existir fofocas acera da relação da Faraó com um homem de fora da casa real.

Encontradas múmias de animais: Abidos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

A descoberta de múmias de animais ligadas ao deus chacal e restos de uma estátua de feições humanas – presumivelmente pertencente a rainha Hatshepsut -, revelam detalhes antes desconhecidos acerca de um espaço sagrado durante o Período Faraônico.

Localização de Abidos.

Para entender o pensamento da sociedade egípcia temos que ter em mente que precisamos inserir os estudos acerca dos animais ao contexto das pesquisas arqueológicas, uma vez que muitos dos aspectos das sociedades que viviam às margens do Nilo eram ligados intimamente com a visão de mundo que os egípcios possuíam a partir do seu olhar sobre os animais. Desta forma, ao longo do período faraônico, eram realizadas oferendas votivas de um determinado animal ligado a algum deus em especial.

Este ano foi anunciado no último dia 14/02/2012 a descoberta de mais de oitenta e três múmias de animais aparentemente associadas a imagem de um faraó, provavelmente Hatshepsut de acordo com a sugestão da equipe já que a imagem é masculina, mas possui uma quadril levemente avantajado, feição tipicamente feminina. Hatshepsut, que reinou no Egito entre os anos de 1473 – 1458 a.C. (XVIII Dinastia; Novo Império), é conhecida por ter sido uma das poucas mulheres a tornarem-se faraós e por ter se transvestido de homem, buscando se enquadrar a imagem de Hórus (do qual o faraó era um “representante” terreno) [Clique aqui e veja mais sobre Hatshepsut].

As descobertas foram feitas em Abidos durante a campanha passada pela a equipe de Mary-Ann Pouls Wegner, diretora da escavação e professora da Universidade de Toronto. Abidos outrora era considerada uma cidade sagrada devido ao culto a Osíris, pai de Hórus e governante do submundo. De acordo com a lenda o faraó em vida era Hórus e após a morte transformava-se em Osíris, o símbolo maior da fertilidade dos campos egípcios. Seu culto tornou-se popular em Abidos devido a crença de que teria sido lá onde se encontrava o seu sepulcro – existindo, inclusive, uma tumba que acreditavam ser dele [1] -, o que levou aos primeiros soberanos do Egito a escolherem tal cidade como local de sepultamento. Um templo dedicado a Osíris foi construído em Abidos e todos os anos, em uma grande procissão, os egípcios levavam uma imagem do deus deste templo até a sua tumba, onde era velada durante a madrugada com rituais performáticos. Esta procissão era tão importante que capelas tanto de indivíduos da realeza, como particulares foram construídas por toda a rota de passagem [1]. A procissão chamava-se “Mistérios de Osíris”, e ela era um louvor da vida e morte do deus (BAINES; MÁLEK, 2008, p. 114).

Crânio de um dos cães encontrados em Abidos. Imagem: North Abydos Votive Zone Project. 2012. Disponível em < http://www.livescience.com/18462-animal-mummies-ancient-egypt.html >. Acesso em 20 de Fevereiro de 2012.

As múmias foram encontradas em uma das câmaras de um sepulcro encontrado pela missão de Arqueologia. Dos oitenta e três animais encontrados somente dois são gatos, o restante são cães. A presença de tantos cães está ligada ao culto a Wepwawet, um deus chacal cuja procissão precedia imediatamente a de Osíris. Para a equipe de Wegner os animais foram sacrificados, porém existem indícios de que eles foram bem tratados em vida, como o caso de um cão que teve uma pata quebrada, mas que foi medicado e curado antes de ser entregue como oferenda [1].

Encontrar a estátua de madeira de Hatshepsut não é um dos únicos indícios que demonstra que o local foi utilizado em anos subsequentes aos primeiros cultos a Osíris, estruturas ligadas a Tutmosis III (sucessor de Hatshepsut) e até mesmo a Seti I foram descobertas. E Wegner também crê que pode existir outra tumba no local datada do Terceiro Período Intermediário. Na matéria divulgada pelo site LiveScience não fica claro de que período pertencem estes animais (apesar de associados à estátua não quer dizer necessariamente que todos pertenciam a mesma época), mas existem pesquisas que demonstram a existência de oferendas se prolongando até o final do período Greco-romano (BAINES; MÁLEK, 2008, p. 114). Em verdade é possível encontrar em Abidos artefatos ligados a vários faraós de diferentes épocas, desde Aha da I Dinastia até contextos do Período Tardio ligados aos faraós Apries, Amásis e Nectanebo I (BAINES; MÁLEK, 2008, p. 116-117).

Fonte:

Animal Mummies Discovered at Ancient Egyptian Site. Disponível em < http://www.livescience.com/18462-animal-mummies-ancient-egypt.html >. Acesso em 20 de Fevereiro de 2012.

BAINES, John. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito. (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2008.

 

 

Um vislumbre da faraó-mulher Hatshepsut

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

“A garota da qual falaste chama-se Ahmés, é a mulher mais bela desta terra. É a esposa do soberano Ankhkheperkare, rei do Alto e Baixo Egito, que está dotado de vida eterna.

O sublime Amon, senhor do trono de ambos os reinos havia se transformado em sua Majestade seu marido, rei do Alto e Baixo Egito. Encontrou-a adormecida no meio do luxo do seu palácio. Quando acordada pela fragrância divina, sorriu para sua Majestade. Ele então se aproximou ardentemente e se mostrou em sua forma divina. Ela exaltou-se a vista de sua beleza. O amor inundou todo seu corpo e o palácio se encheu da doçura divina de todos os perfumes da Terra de Punt.

Depois de ter feito com ela o que fez, Ahmés, o real consorte e a mãe disseram a sua Majestade, o divino deus Amon: ‘Que poderosa é a tua força, meu senhor! Que magnífico teu semblante! Uniste minha majestade com tua glória. Todo o meu corpo está impregnado de ti’.

Khenemetamon Hatshepsut é o nome de teu filho, que eu depositei dentro de teu corpo. (STROUHAL, 2007, 11)

São estas as palavras gravadas no templo funerário da faraó Hatshepsut (em Deir el-Bahari), uma das governantes com mais sucessos na história do Egito faraônico e cujos feitos ela ainda recebe forte crédito por parte dos egípcios da atualidade. O que é visto de tão especial em Hatshepsut é o fato de que ela tornou-se faraó, embora não tenha sido um caso exclusivo: temos exemplos de outras mulheres que tomaram tal empreitada, dentre algumas conhecidas, e antecessoras de Hatshepsut, temos Nitokerty (Antigo Império) e Sobeknefru (Médio Império).

Conhecemos muito acerca da vida de Hatshepsut, sabemos que ela era a filha mais velha do faraó Tutmósis (Ankhkheperkare) com a Grande Esposa Real Ahmés, mas que, como ditava o costume do poder real, para ser coroada um dia ela tinha que montar um par, assim casou com o seu meio irmão Tutmósis II, filho do faraó com uma esposa secundária chamada Mutnofret.

A então rainha Hatshepsut só deu ao marido uma filha, Néfruré, em compensação, uma esposa secundária, chamada Ísis, deu a ele um filho, que recebeu o nome de Tutmósis III, que, ao completar a idade de oito anos ficou órfão do pai, tendo então que Hatshepsut, em seu papel de Grande Esposa Real, assumir uma co-regência até que o garoto tivesse uma idade mais apropriada para reinar, porém, quando o rapaz alcançou a idade de quinze anos a rainha se declarou faraó e iniciou uma campanha para atestar sua autoridade: “Eu própria sou um deus”, uma vez declarou, “que decide o que vai acontecer. Nenhum dos meus julgamentos será errado” (ROSE, 122).     

Hatshepsut herdou um país que ainda se recuperava da guerra contra os hicsos e em uma tentativa de fixar sua autoridade empreendeu obras de manutenção do país, a maioria que ressaltasse seu estado divino. Uma das mais imponentes das suas campanhas é sem dúvida seu templo funerário em Deir el-Barari, cujo o desenho não é de pura exclusividade, ele imita a arquitetura do templo funerário do rei Mentuhotep II (feito cerca de 500 anos antes), localizado também em Deir el- Bahari. A semelhança é vista na construção dos dois terraços (WILDUNG, 2009, p 70).

Deir el-Bahari. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 125.

Na esquerda retos do templo funerário do faraó Mentuhotep II e na direita reconstituição do mesmo. Imagem retirada de WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos. (Tradução de Maria Filomena Duarte). 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 2009. P. 72.

 

O idealizador do templo funerário de Hatshepsut foi Senenmut que possuia um alto cargo no palácio como Fiscal de Obras tendo, inclusive, o direito de assinar sua obra. Muitos arqueólogos acreditam que ele e a faraó eram amantes, não só por ter tido regalias especiais (como ter o direito de ter o seu túmulo construído dentro do templo funerário da governante), mas também por ser retratado algumas vezes com a filha de Hatshepsut no colo.

 

Senenmut e a princesa Néfruré. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 124.

Uma das principais preocupações da faraó era que o seu legado fosse lembrado, desta forma, retratou algumas das passagens mais importantes do seu reinado, dentre eles a expedição ao reino de Punt (cuja localidade ainda é desconhecida, uma das sugestões é que de que este local se situava na costa do Mar Vermelho, perto do norte da Somália), que foi muito bem documentada por palavras e imagens. De acordo com a narrativa a frota naval da faraó estava constituída de cinco navios, cada um deles com quarenta pessoas, dos quais trinta eram remeiros que trabalhava igualmente ao ritmo marcado por um tambor, uma flauta ou um chocalho (DERSIN, 2007, p. 120).

Uma das marcas excêntricas de seu reinado era o fato dela se vestir de homem, iniciativa tomada para atestar sua permanecia como faraó, mas ela não fazia segredo quanto ao seu real gênero, pois suas inscrições com freqüência estão acompanhadas por terminações femininas (BROWN, 2009). Porém, a imagem de Hatshepsut mudou com o tempo, o que antes era uma figura feminina com artefatos masculinos (os objetos típicos de um faraó), mudou completamente para uma imagem masculina (BROWN, 2009). Vemos isto inclusive na descrição do seu nascimento, onde Amon pede que Khnum modele Hatshepsut em um monte de barro (como ditava a crença egípcia), e então ela é feita como um garoto (BROWN, 2009). Estas atitudes da faraó tem um cunho político muito forte, e vemos isto inclusive na forma como se preocupava com o apoio do povo. Frequentemente em seus textos ela tenta uma aproximação com a gente comum usando um termo egípcio que lembra o nosso moderno “meu povo” (BROWN, 2009).

Faraó Hatshepsut usando uma barba falsa. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. p. 123.

Hatshepsut retratada com traços masculinos. Deir el-Bahari. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 122.

A faraó reinou por vinte e um anos e nove meses [1] (como denota Manétho) até que uma ameaça dos inimigos, os Mitanni, surgisse. Tutmosis III, que até então estava levemente longe do governo surge sob o comando das tropas e assume o posto de faraó. Hatshepsut então desaparece.

Destruição a sua memória

Em Deir el-Bahari suas estátuas foram quebradas e postas em um fosso em frente ao seu templo mortuário (BROWN, 2009). No mesmo local as imagens em relevo também foram destruídas. Acredita-se que o autor do estrago foi ninguém mais que seu enteado, Tutmóses III, mas Zbigniew Szafraski, diretor da equipe que trabalha em Deir el-Bahari desde 1961 crê que as implicações de Tutmósis III foram mais políticas do que movida pelo o ódio (BROWN, 2009), já que foi descoberto que a destruição das imagens da faraó só ocorreram após passados vinte anos da morte da mesma. A sugestão que é levantada então é de que Tutmósis III precisava fortificar o poder real do seu filho, Amenhotep II (BROWN, 2009).

Esta é uma das imagens de Hatshepsut que foi violada por Tutmósis III. No lado esquerdo vemos o deus Thot e do lado direito Hórus. No centro a faraó. Santuário de Hatshepsut em Kanark. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 123

Sua múmia, ou não?

 

Por muito tempo não se sabia qual teria sido o destino final de Hatshepsut, no entanto, o seu sarcófago tinha sido encontrado em 1903 na KV-20 pelo arqueólogo inglês Howard Carter, que na época era supervisor das antiguidades, e enquanto realizava seu trabalho de vistoria no Vale dos Reis achou na KV-60 duas múmias femininas: uma dentro de um caixão e outra no chão sem abrigo algum. Com elas foi descoberto também uma caixa com o nome da faraó Hatshepsut. Em 1989 a KV-60 foi então supervisionada mais uma vez, mas agora pelo egiptólogo estadunidense Donald Ryan que já desconfiava que aquela era a múmia de uma rainha, já que tinha o braço esquerdo dobrado, além do primor em termos de mumificação. Antes de finalizar o seu trabalho e encerrar a tumba, Ryan encomendou um caixão para prover mais segurança para a múmia.

Em 2005, Zahi Hawass, até então Secretário Geral do SCA e diretor do Projeto Múmia Egípcia, examinou as duas múmias encontradas na KV-60 e identificou uma delas como a da faraó devido a um dente. A múmia em questão foi a que tinha sido resguardada por Ryan. Ela tinha passado por um tomógrafo e notou-se que lhe faltava um dente na mandíbula superior direita. Coincidentemente, na caixa com o nome de Hatshepsut, que também tinha passado pelo o tomógrafo, possuía um dente (um molar secundário) que após a medição do local quebrado e tendo sido medida a região faltosa na múmia, o dentista da equipe, Ashraf Selim, constatou que o dente se encaixava perfeitamente no local (BROWN, 2009). Devido a esta coincidência, é tido que esta múmia deixada anônima no chão da KV-60 seria então a da rainha, e depois faraó, Hatshepsut.

Múmia de Hatshepsut. Foto: . Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/edicao-109/fotos/hatshepsut-mulher-farao-antigo-egito-449366.shtml >. Acesso em 27 de julho de 2011.

Sua múmia demonstra uma senhora, cujo crânio possui traços robustos e o nariz hoje está deformado por molhinhos de tecido, o pescoço coberto por um lenço e um leve sorriso nos lábios, paradoxalmente a análise das imagens capturadas pelo tomógrafo mostram que ela morreu devida uma infecção causada por um abscesso em um dente que foi complicada por um câncer ósseo avançado causado por diabetes (BROWN, 2009).

 

 

Considerações finais:

 

Talvez Hatshepsut não estivesse se desvirtuando ou feito algo além do que o seu gênero permitia (lembrando que a idéia de gênero é algo socialmente construído), mas, tendo ciência de que o faraó só poderia ser um homem – porque o fato é que Hórus (o qual o faraó representava) é uma figura masculina – ela moldou sua imagem para feições másculas e maquinou um mito acerca do seu nascimento divino. Quando olhamos deste ponto de vista vemos que, no final das contas, Hatshepsut não estava fazendo nada de tão diferente dos outros faraós, que agregavam a sua imagem a de seus predecessores.

Por fim, para finalizar este texto o mais digno será por as palavras da própria faraó:

“Meu coração palpita de preocupação só de pensar no que dirão as futuras gerações. Aqueles que irão de ver meus monumentos nos anos vindouros e tecer comentários sobre meus feitos” (BROWN, 2009).

[1] Entre 1479 e 1458 a.C. de acordo com Chip Brown.

Fontes:

 

BROWN, Chip. O rei está nu(a). National Geographic Brasil. São Paulo. Editora: Abril. Abril, 2009. Também disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/edicao-109/hatshepsut-mulher-farao-antigo-egito-448527.shtml>, Acesso em 27 de Julho de 2011.

DERSIN, Denise. A história cotidiana às margens do Nilo (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves, Carlos Nougué, Michael Teixeira).  1ª Edição. Barcelona: Folio, 2007.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos. (Tradução de Maria Filomena Duarte). 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 2009. P. 72.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito. (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves).  1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007.

A vida cotidiana às margens do Nilo

Nada como um dia após o outro: a vida cotidiana às margens do Nilo

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

A vida do povo comum retratada das formas mais inusitadas é o que mais chama a minha atenção na arte egípcia. Normalmente vemos a pescaria, caça a hipopótamos, colheitas, etc, mas poucas vezes podemos observar o lado mais humano como as brincadeiras de roda, e até as brigas. Algumas destas imagens são retratações tanto de momentos trágicos, alegres ou cômicos. Veja abaixo algumas delas:

O rei beija uma figura feminina: na representação abaixo Akhenaton (Novo Império) beija uma garota (uma de suas esposas ou filhas). É notavel a ternura do beijo, que é vista através dos braços dos dois que se tocam com cainho.

Arqueologia egípcia: Akhenaton beija uma pequena dama 

Cirandinha: na tumba de Mereruka (Saqqara, VI Dinastia) vemos crianças brincando de algo que lembra a nossa ciranda.

Arqueologia egípcia: ciranda 

Jovens lixam um rapaz que está no chão: Na tumba de Ptahhotep (Saqqara, V Dinastia) quatro jovens espancam um quinto que está no chão. O mais interessante são os hieróglifos que dão voz as ações: enquanto o que está no chão reclama da dor um dos que está em pé grita “toma”. 

Arqueologia egípcia: briga
 

Embelezando as unhas: na tumba de Ankhmahor (Saqqara, XVI Dinastia) ocorre, ao que parece, uma cena de manicure. Sabemos que os egípcios realmente tinham este tipo de cuidado, por exemplo, a múmia que hoje é citada no Museu do Cairo como pertencente à rainha/faraó Hatshepsut possui as unhas das mãos pintadas.

Arqueologia egípcia: manicure 

Tirando uma nota: músicos com instrumentos de sopro tocam acompanhando os homens da frente que lhes passam o tom. Note que o que está à esquerda tampa um dos ouvidos enquanto faz um gesto com a mão.

Arqueologia egípcia: músicos 

Aplausos: na imagem completa estão algumas dançarinas com cabelos longos trançados e um pendente circular nas pontas. Enquanto fazem o passo espectadoras parecem aplaudir (ou dar a música?). 

Arqueologia egípcia: dançarinas 

Trabalhando bêbado: um dos estocadores dos vinhos (guardados nos grandes vasos) senta-se pondo a mão na cabeça, embriagado, enquanto um dos que está em pé reclama “Está dormindo”, um outro complementa “Está bêbado de vinho” e o que está alcoolizado devolve “Eu não estou dormindo”. 

Arqueologia egípcia: vinho
 

Álcool em excesso: uma dama servida em um banquete sente-se indisposta ao ingerir muito álcool e vomita, sendo então auxiliada por uma das empregadas da residência.

Arqueologia egípcia: dama indisposta 

Bibliografia:
Tallet, Pierre. A culinária no antigo Egito. 2006Casson, Lionel. O Antigo Egito. José Olympio. 1981Strouhal, Eugen. A vida no Antigo Egito. 2007