7 fotos interessantes da descoberta da tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Já faz um tempo que não gravo nenhum vídeo para o quadro “Tut e o Vale dos Reis”, mas finalmente está aí mais um tema para vocês: 7 fotos interessantes da descoberta da tumba de Tutankhamon.

Para este vídeo selecionei 7 fotos da época da abertura da sepultura do faraó Tutankhamon. Meu argumento foi separar alguns dos detalhes os quais achei atraentes e que vocês poderiam gostar.
Todas as fotografias, sem exceção, são de autoria do fotografo Harry Burton.

Sobre o selo da necrópole:

No vídeo comentei em um dado momento sobre o nome que está no selo da necrópole possivelmente ser do rei Ay. Contudo, como comentei lá, não levem muito a sério. Observei a foto em alta resolução e ainda assim não consegui identificar 100% de quem é o nome. Olhei um dos registros de Carter e o único desenho que encontrei estava sem o cartucho. Então foi só uma dedução minha baseada UNICAMENTE na foto que tenho acesso.

A descoberta da tumba de Tutankhamon em cores

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

Hoje, 4 de novembro, o Egito está comemorando os 93 anos de descoberta da tumba do faraó Tutankhamon e na internet pessoas ao redor do mundo estão prestando homenagens. No embalo, a Dynamichrome lançou na internet o seu trabalho de coloração das fotos da descoberta. O trabalho estará exposto na exposição “The Discovery of King Tut”, que será inaugurada em Nova York em 21 de novembro e que além das fotos contará com uma mostra de com réplicas dos artefatos encontrados na tumba. Confira abaixo o resultado:

Até mesmo uma foto do Lorde Carnarvon, o patrocinador da descoberta e que faleceu seis semanas após a mesma, foi colorida.

Imagens: The Griffith Institute
Colorização: Dynamichrome

Fonte:

Nov. 4, 1922: The discovery of Tutankhamun, in color. Disponível em <http://mashable.com/2015/11/04/king-tut-discovery/#8xH4DXhEEkqV>. Acesso em 04 de Novembro de 2015.

Caneta-tinteiro homenageia o arqueólogo Howard Carter

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram | Notícia enviada por Michele Alves via Facebook.

O arqueólogo britânico Howard Carter, descobridor da tumba de Tutankhamon, está sendo homenageado pela Editora Planeta DeAgostini através da coleção “Canetas-tinteiro” dedicadas aos personagens históricos notáveis tais como D. Pedro II, a Princesa Isabel e Santos Dumont.

→ ATENÇÃO: O site Arqueologia Egípcia não tem relação alguma com a confecção, venda e distribuição das revistas.

De acordo com as informações disponíveis cada caneta virá com algum traço marcante do homenageado. A edição do Carter é a de número 8 e o clipe tem a forma de um obelisco invertido com um escaravelho alado ornando sua base.

Um pouco sobre a coleção:

A Planeta DeAgostini apresenta uma coleção de canetas-tinteiro com elegância e qualidade incomparáveis que homenageiam grandes personagens da história.

Uma obra imprescindível para quem quer se iniciar no colecionismo de canetas ou se aprofundar em sua história.

Canetas-tinteiro em homenageia ao arqueólogo Howard Carter vem com detalhes relacionados com o Egito Antigo. Foto: Divulgação.

Estas magníficas canetas-tinteiro foram inspiradas nos personagens mais emblemáticos da cultura e da história universais, os quais deram um sentido novo à sua atividade ou que, com suas obras, ou ações influenciaram o destino da humanidade.

Cada uma das canetas foi concebida como símbolo do personagem homenageado. Os materiais, as formas, as cores e os detalhes expressam a marca de cada um deles. (Descrição disponibilizada pela página da coleção)

A distribuição será quinzenal, mas é possível fazer a assinatura da coleção. O valor por cada revista com a caneta tinteiro será R$ 59,99. Abaixo um vídeo explicando mais acerca:

Neste link vocês podem conferir mais sobre a coleção: http://www.planetadeagostini.com.br/colecionavel/canetas-de-colecao.html

Cópia do livro “The Tomb of Tut-Ankh-Amen” de 1923

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Recentemente o leitor André Onofre enviou para mim as fotos do livro “The Tomb of Tut-Ankh-Amen” (A Tumba de Tutankhamon), escrito pelo arqueólogo descobridor da tumba do faraó Tutankhamon, o Howard Carter (1874 — 1939), e o seu colaborador Arthur Mace (1874 — 1928). Sua cópia é a edição de 1923 e ele a encontrou disponível para a venda em um sebo. Ele a comprou e disponibilizou algumas fotografias para vocês poderem ver também.

Este é um livro provavelmente pertencia a alguém que só queria se desfazer de seus bens e tem menos de cem anos, então nem o sebo (eu espero) e muito menos o André cometeram alguma ilegalidade. Está em um ótimo estado de conservação, o que sugere que foi muito bem cuidado por seu (sua) dono (a) anterior. Abaixo as fotografias:

O detalhe da inscrição hieroglífica na capa é sensacional porque é o “prenomen” de Tutankhamon. Significa “Senhor das formas de Rá”. Foto: André Onofre. 2015.

Em destaque está uma fotografia do Lorde Carnarvon, que morreu seis semanas após a descoberta da tumba. Foto: André Onofre. 2015.

Página com a famosa dedicatória de Carter e Mace para Lorde Carnarvon. Foto: André Onofre. 2015.

Na foto anterior está a página com a famosa dedicatória escrita por Carter e Mace em memória ao já falecido Lorde Carnarvon (1866 – 1923), patrocinador da descoberta. Nela está escrito:

“Com plena concordância de meu colaborador, senhor Mace, dedico esse relato da descoberta da tumba de Tutankhamon à memória de meu caro amigo e colega lorde Carnarvon, que morreu no momento de seu triunfo.

Não fosse a sua incansável generosidade e constante encorajamento, nosso árduo trabalho jamais seria coroado de sucesso. Sua capacidade de avaliar arte antiga raramente foi equiparada. Seus esforços, que tanto contribuíram para ampliar nosso conhecimento em Egiptologia, serão eternamente honrados pela história, e sua memória sempre será saudada por mim”

Página com esquema da tumba. Foto: André Onofre. 2015.

Foto: André Onofre. 2015.

Obrigada André por sua contribuição!

(Guest Post) Entrevista com Howard Carter

Recentemente recebi este texto do leitor Paulo Eduardo Michelotto, que é entusiasta da Arqueologia e é autor do livro “A crônica inca proibida”. Trata-se de uma entrevista fictícia com o Howard Carter, arqueólogo responsável pela descoberta da tumba do faraó Tutankhamon. Não mudei muita coisa no texto, já que ele não é da minha autoria, exceto incluir algumas imagens. Quem também tiver interesse em escrever um Guest Post é só enviar uma mensagem pelo formulário de contato. Abaixo segue o texto “Entrevista com Howard Carter”: 

 

Howard Carter.

Chegando na KV (King’s Valley) 62, pedi licença em meio aos trabalhos, cumprimentei Lorde Carnavon, que também estava lá e Carter. Mas Carnavon, que parecia ainda pior, recebeu-me bem e já me apresentou ao arqueólogo.
— Você veio de muito longe para falar comigo e mostrar as novas descobertas ao seu país e teve a boa proteção da Companhia de Navegação Fantástica. – disse-me Carter, apertando firmemente a minha mão e olhando nos meus olhos.
Carter era um homem um pouco gordo, de bigode e óculos, narigudo, com cabelo penteado à moda antiga e trajava roupas de trabalho. Como toda pessoa importante, cuja fama atravessa séculos, não era muito dado à conversas, era sério e reservado.
Quanto à empresa Fantástica, naquele tempo, a Companhia era de navegação porque era o único meio de transporte intercontinental. Hoje, com certeza, a Companhia Fantástica trata de aviação, como o principal meio de transporte.
— Não quero tomar o tempo do Senhor, sei que o Senhor está trabalhando, mas agradeço a recepção. Podemos começar?
— Sim senhor. A sua Companhia me paga bem e patrocina parte das minhas escavações. Fique o tempo que precisar.
— O Senhor foi o primeiro arqueólogo a trabalhar no Egito?
— Não sou arqueólogo formado em universidade. Os primeiros arqueólogos a trabalharem aqui, no Egito, datam do século XVIII, eram expedições europeias que iniciavam o trabalho científico. Antes eram ladrões de tumbas e aventureiros, séculos que se seguiram ao sepultamento dos faraós.
— Onde e quando o Senhor nasceu?
— Carter me encarou e respondeu:
— Em Kensigton, Londres, Inglaterra, em 09 de maio de 1874.
— Como o Senhor iniciou o trabalho aqui?
— Eu fazia desenhos encontrados nas escavações para as comunidades científicas, desde jovem. Fui assistente de um renomado arqueólogo inglês, o Sr. Flinders Petrie, um dos maiores arqueólogos de todos os tempos e também meu mentor. Com 27 anos, fui inspetor-chefe dos monumentos de Alto Egito e Núbia, e o fato que me ajudou foi eu conhecer vários dialetos árabes. Depois fui trabalhar na Inspetoria do Baixo e Médio Egito.
— Como o Senhor aprendeu a desenhar?
— Meu pai, Samuel Carter, era pintor de retratos de família da região, um artista excepcional. Com ele, aprendi o ofício da pintura.
— Como o Senhor chegou ao Egito?
— Como eu não pretendia seguir os negócios da minha família, aproveitei uma oportunidade para ir ao Egito e trabalhar para a Egyptian Exploration Fund, a fim de fazer cópias dos desenhos e inscrições de documentos para os cientistas desta época. Em outubro de 1891, se não me falha a memória, com 17 anos, cheguei a Alexandria.
— Onde foi o primeiro trabalho, em Alexandria, mesmo?
— Não. Foi em Bani Hassan. Fiquei tão entusiasmado que chegava a trabalhar o dia inteiro e depois dormia com os morcegos em uma tumba” (risos). “ Foi neste momento em que identifiquei minha verdadeira vocação. Como sei que vai me perguntar, trabalhei após nas escavações Deir el Babri, templo da Hatshepsut, onde meus desenhos ficaram famosos, pelos níveis de detalhes e técnicas de restauração de monumentos e também por minhas escavações.
— O Senhor poderia citar outra descoberta importante realizada pelo Senhor?
— Sim, as tumbas de Amen-hotep IV e Tutmés IV, de Hatshepsut, a poderosa mulher faraó, além de ter restaurado outros monumentos.

Faraó Tutancâmon.

— Qual a pista principal que te levou ao faraó Tutancamon?
— Uma das minhas aspirações foi encontrar a tumba de um rei desconhecido, cujas poucas peças encontradas tinha o seu nome gravado. Então desconfiei que ele estava enterrado aqui, no Vale. Alguns potes de cerâmica contendo materiais utilizados durante o funeral de Tutancamon foram encontrados aqui perto, deduzindo que local do túmulo estava perto. Sugeri para o Lorde Carnavon, a quem você já conhece, tomar como ponto de partida, um triângulo formado pelas tumbas de Ransés II, o Grande, Merenptah e Ransés VI”.
— Como foi o trabalho no verão?
— Impossível às escavações. Não conseguimos trabalhar no verão, devido ao calor, então as escavações só foram feitas no inverno.
— Quantos trabalhadores o Senhor utilizou?
— Vinte e seis.
— Quanto tempo durou?
— Sete anos de intenso trabalho, até encontrar este degrau esculpido em rocha viva, ao pé da tumba de Ransés VI. – e Carter mostrou o degrau, que levava para baixo da terra, numa escada de pedra.
— Este degrau era o início desta escada, que levava a um corredor que acabava numa porta selada. De lá, encontramos um corredor cheio de entulho que levava até a uma outra porta. Venha ver, Aventura.

Esquema da tumba de Tutancâmon.

Desci e vi as portas e o corredor. Era realmente emocionante ver tudo aquilo. Imaginem só, na data de hoje, ver tudo que teria embaixo, se não tivessem retirado todo os objetos de ouro achados. Ah, meu Deus, eu veria a tumba do faraó! Minhas pernas tremeram. A tumba de Tutancamon possuía uma escada de dezesseis degraus, um corredor que levava a antecâmara, um anexo atrás da antecâmara, a câmara funerária, onde ficava o sarcófago e a câmara de tesouros. A câmara funerária era a única decorada com desenhos na parede.
E Carter, continuou:
— Descobrimos dezesseis degraus que levavam a um corredor que acabava numa porta selada. Como Carnavon estava na Inglaterra, esperei a sua chegada para abrir a tumba. Encontramos o corredor cheio de entulho, como lhe falei, que levava até outra porta, a dez metros da primeira. Ambas as portas eram seladas. Os selos era de Tutancamon e da necrópole real. Com as mãos trêmulas, abri um pequeno buraco no canto superior esquerdo. Lá introduzi uma barra de ferro que não tocava em nada e olhei o buraco. Carnavon me perguntou o que eu via e eu disse coisas maravilhosas.
— Isto é demais. O que o Senhor viu?
— Vi objetos de ouro, muitos. Onde eu conseguia avistar, era tudo dourado e estátuas de animais e de guardiões, muitos utensílios, brinquedos, estátua de deuses. – disse o arqueólogo, se empolgando – vamos descer para dar uma olhada rápida?
— Demorou – respondi.
— Como? – indagou-me o arqueólogo.
— Vamos, eu quis dizer. – achando que Carter não havia entendido muito bem as gírias do mundo moderno.
Neste momento Lorde Carnavon que nos acompanhava parou e disse:
— Amigos, vou parar por aqui. Pode descer, Paulo, fique à vontade com o nosso cientista e com o rei Tut. Vou dar umas baforadas no meu charuto, por aqui mesmo.
Eu não acreditava que iria conhecer tudo aquilo de perto, bem pouco tempo da descoberta da tumba do rei menino.
Carter segurou numa lanterna, abaixou-se e iniciou a descida e, eu, o acompanhei para ver a tumba recém descoberta.
Os degraus não eram grandes e a porta também não era alta, estava tudo muito escuro e Carter focava para baixo. Minha curiosidade aumentava a cada degrau. Ele estabilizou-se no terreno e eu cheguei junto. Acabaram os degraus e passamos pelo corredor até a porta da antecâmara. Ele focou a parede e o dourado refletido do local e ofuscou-me a vista. Como não pude me conter, exclamei:
— Também vejo coisas maravilhosas.

Imagem da primeira câmara da KV-62.

Havia muitos objetos de ouro, muitos mesmos. De estatuetas a objetos como taças, jarros, enfeites, joias, ornamentos, vasos, esculturas, armas e objetos pessoais, que depois no total, apurou-se mais de cinco mil peças.
Na antecâmara, o primeiro cômodo de 8 por 3,6 metros, havia três divãs ornamentados com cabeças de animais e mais de 700 objetos. Baús, vasos, flechas, tronos, tudo para auxiliar a o faraó no pós-morte, inclusive vinho tinto que o faraó adorava. Havia quatro bigas e três camas funerárias.
Havia dois guardiões, estátuas idênticas ao rei Tut com lança, que cercavam a porta selada, que era realmente de arrepiar e Carter disse-me que ficou impressionado com a sua perfeição.
— O túmulo foi violado apenas aqui, na antecâmara onde os ladrões penetraram ali por duas vezes, quinze anos depois do funeral do rei Tut – disse-me Carter.
Aprofundamos na câmara mortuária, que era o próximo cômodo e ela estava preenchida por quatro capelas em madeira dourada encaixadas umas nas outras, que protegiam um sarcófago em quartzito de forma retangular, próprio de sua dinastia. Em cada um dos cantos do sarcófago estão representadas as deusas Ísis, Néftis, Neit e Selket.
Ísis, a mais conhecida das deusas, é a deusa da maternidade, das mulheres e da magia, deusa do Sul, protetora de Imset (o filho de Hórus que vigiava o frasco canópico contendo o fígado).
Néfis, outra deusa que protege os mortos, deusa do Norte, protetor de Hapi (o filho de Hórus que vigiava o frasco canópico contendo os pulmões).
Neit, deusa da caça e da guerra, deusa do oriente, protetora de Duametef. (o filho de Hórus que vigiava o frasco canópico contendo estômago).
Selket, deusa dos escorpiões, cura e magia e do Ocidente, protetora de Qebhesenuf (o filho de Hórus que vigiava o frasco canópico contendo os intestinos).
Vaso ou frasco canópico ou canopo eram os vasos usados pelos antigos egípcios para guardar as vísceras embalsamadas dos mortos.
— Veja isto, Aventura – disse-me Carter – apontando para a pintura da parede da câmara mortuária – isto é o ritual da abertura da boca, um ritual praticado pelo sacerdote de Anúbis e pelo sucessor do falecido, normalmente o filho mais velho, mas aqui é o sacerdote Ai, vestido de pele de leopardo, que o sucede e que faz o ritual. Mesmo sendo Ai bem mais velho do que Tutancamon.
— Para que servia o ritual?

Ay na KV-62.

Ay na KV-62.

— Acreditavam que poderiam devolver os sentidos da múmia, por isso os olhos e boca da estátua ou caixão e eram tocados com um objeto, um boi era sacrificado e a pata dianteira direita era colocado junto ao falecido.
Carter prosseguiu e eu o acompanhei até onde se encontrava o sarcófago. Dentro dele, havia três caixões antropomórficos, encontrando-se a múmia no último deste caixões e sobre a face da múmia do rei Tut a mais famosa máscara funerária do mundo, toda de ouro, aliás, 11 quilos de ouro. Tut ainda calçava sandálias de ouro e vinte dedais do mesmo metal. Pude observar tudo com o facho da lanterna de Carter.
— Nossa! É incrível! – fiquei todo emocionado. Decorados com o símbolo da realeza (a cobra e o abutre, símbolos do Alto e Baixo Egito, a barba postiça retangular e os cetros reais). O terceiro caixão era todo de ouro.

Múmia de Tutankhamon ainda com sua máscara mortuária.

Carter ia percorrendo com a luz da lanterna todo o sarcófago e eu observava as coisas maravilhosas. Passou a luz sobre três ânforas que posteriormente identificaram como recipientes de três tipos de vinho: tinto, um outro vinho tinto mais doce e vinho branco.
Após, a luz da lanterna foi passada na câmara do tesouro, que nós passamos a última porta selada e adentramos, onde havia estátua de Anúbis, com um xale na cabeça, várias jóias, roupas e uma capela, de novo em madeira dourada, onde foram colocados os vasos canópicos do rei. Também havia duas pequenas múmias correspondentes a dois fetos do sexo feminino, que poderiam ser filhas do rei, nascidas prematuramente.
— Olha, eles embalsamavam até feto!
— Sim. – respondeu Carter, mas à meu modo de ver era horripilante .
Observei com atenção todo detalhe que pude, ele ofereceu a lanterna que carregava e pude dar uma olhada melhor na tumba. Fiquei o tempo que pude, sentido aquele cheiro de mofo até que Carter sinalizou que havia terminado a visita e fez sinal para subirmos.
Dei uma última olhada na tumba, meio horrorizado com a visão dos embalsamentos dos fetos e olhei para a estátua de Anúbis, com o xale na cabeça. Carter acabara de atravessar a porta e fiquei sozinho com o deus dos mortos. Tive a impressão dele ter movimentado os olhos em minha direção e ter um leve movimento de cabeça. Foi o bastante para eu sair de lá.

(…)

「fim」

Trecho extraído do livro “Nas escavações com os arqueólogos”, a ser publicado.
Paulo Eduardo Michelotto é advogado, escritor, autor do livro “A crônica inca proibida”, fã de arqueologia e do site “Arqueologia egípcia”.

Observando um dos primeiros registros fotográficos da tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Exatamente 90 anos atrás, no dia 4 de novembro de 1922, após retomar a temporada de escavação no Vale dos Reis, Howard Carter tinha registrado em seu diário de campo a descoberta do item “433”, que tinha sido encontrado próximo ao túmulo de Ramsés VI. Aquela seria a sua última expedição ao Vale sob o patrocínio do seu mecenas Lorde Carnarvon, mas o item 433 demonstrava agora o contrário, uma vez que o tal objeto era o primeiro degrau que o levaria até a câmara sepulcral de Tutankhamon (JAMES, 2005, p. 48).

Após entrar na KV-62 (número tombo da tumba), Carter e seus colegas de trabalho, dentre eles o fotografo Harry Burton, encontraram uma mistura de artefatos em quase um completo caos. Como discípulo de Flinders Petrie (conhecido por ser um dos fundadores da Arqueologia com princípios cientificistas e um dos primeiros a adotar a fotografia como um importante registro arqueológico), Carter registrou o estado da tumba antes de remover algum artefato.

A imagem abaixo retrata qual foi a visão de Carter ao entrar na primeira câmara:

Imagem da primeira câmara da KV-62. Foto: Harry Burton.Disponível em < http://www.griffith.ox.ac.uk/gri/carter/gallery/p0686als.html >. Acesso em 20 de Novembro de 2011.

Alguns pontos para a observação:

(1) Além de artefatos ritualísticos, o faraó Tutankhamon foi sepultado também com objetos para o uso comum cotidiano, dentre eles roupas, brinquedos e mobílias como cadeiras e camas.

(2) Em meio aos artefatos exclusivamente para o fim funerário estavam as camas rituais. Exemplos delas só tinham sido encontrados anteriormente em modelos iconográficos ou fragmentadas em outros túmulos reais, porém na tumba de Tutankhamon foram descobertas três e todas em bom estado. Na imagem, a cama apontada é a que representa Isís-mehtet (Que embora seja ligada a imagem de uma leoa, ela neste objeto está com a face de uma vaca – JAMES, 2005, p. 138).

(3) Objetos para viagens também foram encontrados, a exemplo de uma cama dobrável e esta pequena mala no destaque.

(4) Como parte da crença egípcia, alimentos foram organizados e guardados na tumba em caixas ovais, na esperança de que Tutankhamon pudesse desfrutar de uma ótima alimentação no outro mundo.

(5) Caixas organizadoras e cofres também fazem parte do conjunto de artefatos encontrados na KV-62, em um destes pode ser visto uma inscrição falando que conteúdo tinha dentro e para onde ele deveria ser levado.

Fonte:

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2005.

Tutankhamon e o 4 de novembro de 1922

Uma breve reflexão acerca da descoberta da KV-62 e sobre o próprio Tutankhamon

 

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

A ciência, como conhecemos hoje, passou por várias etapas em termos metodológicos. Após anos de divagações ela tornou-se o sinônimo de certeza para as pessoas, mas é preciso explanar que a ciência pode, muitas vezes, não ser neutra. Momentos sócio-políticos podem delimitá-la ou usá-la para os mais variáveis fins. Desta forma, com a ciência Arqueologia não foi, e não está sendo, diferente. Ano após ano, vemos interpretações diferentes para os mesmos vestígios e não raramente com pesquisadores diferentes a frente das novas hipóteses.

Após a invasão de Napoleão e a dominação inglesa, o nordeste da África era agora palco de disputas européias para saber quem conseguia o melhor artefato, com o fim de levar para o seu país de origem um pedaço da história antiga, assim, a Arqueologia entrou no Egito no momento em que a Europa procurava dominar para si os países “atrasados”, mas que possuíam na veia os primórdios das civilizações. Fora, em parte, do enlaço político, ricos e aventureiros buscavam no Egito uma forma de extravasar o seu dinheiro ou conhecer os mistérios que rondavam a antiguidade, para isto, contratavam arqueólogos experientes para procurar túmulos ou eles mesmos saiam na busca por tesouros do deserto para expô-los em suas galerias fechadas ou em museus suntuosos. Olhando assim, não seria uma afronta afirmar que, para muitos magnatas e nobres do século XIX, a Arqueologia era um esporte a ser praticados em países quentes, exóticos e subdesenvolvidos.

Neste meio tempo, no início do século XX, um arqueólogo inglês descobriu o túmulo real, praticamente intacto de um faraó que tinha falecido com não mais que 18 ou 19 anos, Tutankhamon. A abertura do seu sepulcro e a revelação para o mundo do que existia ali dentro, fez mudar na forma de como os nativos egípcios tratavam sua cultura material da era faraônica. Não mais os artefatos poderiam sair do Egito, a idéia de que o escavador estrangeiro poderia levar seus achados para seu país natal agora era algo impensável e anacrônico: ironicamente, foi este mesmo achado quem acabou emprestando glamour à Arqueologia Egípcia e criando nela ainda um fascínio maior para a caça ao tesouro. Ocorrida no dia 04 de Novembro de 1922, esta descoberta foi o estopim para que o governo egípcio acordasse para a proteção dos seus bens culturais. Hoje, quase nove décadas após a descoberta da tumba de Tutankhamon pelo o arqueólogo inglês Howard Carter, muita coisa mudou para a Arqueologia Egípcia: as descobertas estão sendo anunciados em sites – muitas vezes atualizados pelos os próprios arqueólogos -, foram criados jogos cada vez mais educativos para crianças, são elaborados ambientes virtuais que imitam sítios arqueológicos e exposições itinerantes visitam vários países não só da Europa ou América do Norte, mas pelo o mundo todo.

É de se orgulhar que tenhamos evoluído tanto, mas como evolução não quer dizer propriamente perfeição, noto que ainda temos muito ao que nos dedicar, principalmente em prol do novo intuito da Arqueologia, que é trabalhar pelo o social. Nesta data que estamos relembrando hoje nós curiosos, historiadores e arqueólogos devemos também parar e refletir sobre as pesquisas acerca dos artefatos encontrados naquela época.

Desde a descoberta da tumba de Tutankhamon, o grande público tem sido bombardeado com histórias que não raramente são cheias de intrigas. Documentários muito bem elaborados, mas que trazem mais uma e “revolucionaria” “conclusão” para a morte de Tutankhamon. Porém, não é “revolucionaria” porque em nada mudará nossas vidas, e tão pouco “conclusão” porque sempre sabemos que nos próximos anos alguém virá com mais uma hipótese. Será que o mais importante é descobrir a verdadeira causa da morte de Tutankhamon ou tentar entender quem ele realmente era e a sociedade a qual pertencia? Cada vez mais colegas estão se entregando ao entretenimento e se jogando no mesmo turbilhão em que a impressa da década de vinte estava envolta, criando qualquer caso sobre a tumba deste rapaz falecido em 1322 a.C com o fim de ganhar dos seus leitores algumas gordas migalhas de pão.

Espero que estas breves palavras sirvam para a reflexão, não precisamos cometer mais erros com a pessoa de Tutankhamon, não é necessário expô-lo a qualquer preço para vender algum livro ou documentário, se continuarmos praticando isto estaremos incorrendo as mesmas falhas daqueles arqueólogos do século XVII, XVIII e XIX que buscavam tesouros, não pessoas e atos, para expor para a sociedade em galerias de museus. É como se aprisionássemos um animal feroz para o deleite do público, mas não fizéssemos as pessoas raciocinar sobre a biologia daquele ser que está enjaulado.

 

O vídeo abaixo mostra um pouco de como foi o ambiente da descoberta da tumba e alguns comentários acerca do faraó:

 

 

 

 

 

Algumas das fotográficas feitas por Harry Burton (fotógrafo oficial da equipe) após Carter abrir a tumba. Clique na imagem com o botão direito do mouse e use o comando “Abrir link na Nova Guia”, para sua melhor navegação pelas fotos:

 

 

 

 

Abaixo links de algumas matérias já publicadas aqui relacionada a Tutankhamon:

 

10 coisas sobre Tutancâmon

Tutankhamon (Tutancâmon) reinou durante cerca de uma década durante a XVIII Dinastia (Novo Império). Seu túmulo foi encontrado praticamente intacto em 1922 pelo o arqueólogo inglês Howard Carter e desde então qualquer descoberta relacionada a ele vira um furor na mídia mundial.

Apesar de ser uma das figuras faraônicas mais conhecidas, perdendo somente para a rainha Cleópatra, muitas coisas sobre a sua vida é desconhecida pelo o grande público, mas algumas delas listei abaixo:

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/09/15/10-coisas-sobre-tutancamon/

Algumas palavras sobre Ankhesenamon

Embora seja ainda tão ignorada pelo o meio acadêmico, ritualisticamente e administrativamente Ankhesenamon toma papeis importantes durante e após o reinado do esposo. Ela, em termos religiosos, é em parte a essência de Tutankhamon e quando este morre a governante participa ativamente dos ritos de passagem do marido para a vida após a vida. Sua imagem está em muitos lugares dentre os artefatos da KV-62, assim, quando unimos esta situação ao fato de que Tutankhamon era um colecionador de lembranças e levou consigo todas as coisas que mais apreciava, não seria incomum que ele levasse também tantas imagens de sua dúplice e consorte.

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/10/28/algumas-palavras-sobre-ankhsenamon/

(Imagem) Artista esboça relevo de templo

A artista do Arquivo Epigráfico do Instituto Oriental da Universidade de Chicago esboça os detalhes de um relevo da época de Tutankhamon. O principal intuito deste trabalho é documentar de forma precisa as inscrições e desenhos das paredes dos santuários para que sirvam como base para a interpretação em tempos futuros caso a documentação original se perca. Foto: Instituto Oriental da Universidade de Chicago (Divulgação).

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/10/12/imagem-artista-esboca-relevo-em-templo/

Como desenhar o rei Tut (Para crianças)

Encontrei este material em um site estrangeiro e sinceramente achei bem interessante já que ensina para as crianças como desenhar o faraó Tutankhamon.

De acordo com a pesquisa publicada pela a professora Raquel Funari em seu livro “Imagens do Egito Antigo: Um Estudo de Representações Históricas” (São Paulo: 2006, Annablume: Unicamp) este faraó é a segunda personalidade egípcia, perdendo para a Cleópatra, a ser reconhecida pela a criançada, então, em uma aula sobre antigo Egito seria bem divertido contar com esta boa atividade em sala.

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/11/10/como-desenhar-o-rei-tut-para-criancas/

O funeral de Tutancâmon (comentários)

Desde que a tumba de Tutankhamon foi encontrada em 1922 o frenesi sobre a sua descoberta despertou a curiosidade de vários espectadores, alguns dos quais simples curiosos que pouco sabiam sobre a Arqueologia ou de quem se tratava Tutankhamon, mas que estavam dispostos a visualizar aquele universo tão misterioso que era a de uma tumba milenar intacta e cheia de tesouros. Este faraó falecido em 1322 a. C. desperta ainda hoje o interesse de muitos por sua morte tão prematura e os artefatos (a maioria feito de ouro e pedras semipreciosas) encontrados na sua tumba. Esta curiosidade nada acanhada tem se tornado cada vez mais freqüente desde que as primeiras imagens de seu espólio funerário foram lançadas ao mundo, fazendo assim com que o interesse por esta figura antiga esteja cada vez mais gritante. Este fato está refletido mais fortemente nos muitos documentários veiculados por canais fechados onde uma simples menção ao nome do “faraó-menino” está sendo obrigatória. Indo de acordo com a moda da “Tutmania” é onde entra o documentário “O funeral de Tutancâmon” (“Burying King Tut” no original, ano de lançamento 2009) da National Geographic.

http://arqueologiaegipcia.com.br/2011/10/10/o-funeral-de-tutancamon-comentarios/

 

(DVD) Mistérios do Egito (1998)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Uma das minhas maiores tristezas quando penso na divulgação da arqueologia egípcia é que no Brasil ainda não temos uma venda maciça de DVDs sobre o tema. Tudo bem que eu não vivo em um modelo de cidade grande, mas mesmo assim, na hora de comprar nas grandes lojas os poucos que estão no mercado dificilmente estão disponíveis. No entanto, incrivelmente uma das minhas melhores aquisições ocorreu há anos e veio de uma pequena banca de jornal, o seu nome é “Mistérios do Egito” (Mysteries of Egypt).

Capa do DVD “Mistérios do Egito”. Foto: Márcia Jamille Costa.

Apesar do título meio bobo este é um ótimo documentário que faz uma breve explanação sobre a história da civilização egípcia. Ele apresenta a narrativa de uma forma interessante, pois em vez de ser um arqueólogo apresentando ou aquele narrador que não dá “as caras” quem toma este papel é um senhor egípcio (estrelado por Omar Sharif, natural do Egito que atuou em “Dr. Jivago” e “Lawrence da Arábia”, além de narrar o passeio da exposição Tutankhamun and the Golden Age of the Pharaohs) que fala sobre as conquistas dos seus antepassados para a sua neta estrangeira (interpretada por Kate Maberly, a garotinha de “O Jardim Secreto”) que está profundamente interessada em saber sobre a tal “maldição de Tutankhamon”.

O documentário se inicia com o sepultamento de Tutankhamon e a descoberta da sua tumba, praticamente intacta, em 1922 pelo o arqueólogo inglês Howard Carter. A narrativa vai seguindo com a voz profunda de Omar Sharif até chegar o momento em que sua neta entra em cena muito interessada em saber sobre a maldição da múmia, mas para explicar a ela o tema de forma detalhada o avô tem que retomar toda a história egípcia, começando pelo o papel do Nilo para o nascimento desta civilização, afinal, “sem o Nilo não haveria múmia nem maldição”, como deixa claro o próprio personagem.

 

Cenas iniciais de Mistérios do Egito.

O documentário é muito bom, eu realmente indico para quem está aprendendo sobre os antigos egípcios, é um ótimo material para ser apresentado para alunos tanto no primário como na universidade.

Ficha técnica:

Tempo: 60 min

Direção: Bruce Neibaur

Produção: Scott Swofford e Lisa Truitt

Consultoria dos egiptólogos: Dr. Mark Lehner, Dr. Zahi Hawass e Dr. Nicholas Reeves.